segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

FADOS do FADO...letras de fados

 



A louca do cais

João de Freitas / Joaquim Campos
Repertório de Valdemar Vigário
  
Título original *Alucinação* 
Publicado no livro da Academia do Fado e da Guitarra

Eu encontrei no cais uma linda velhinha
Cabelo cor da neve, o céu azul, fitando
Triste e silenciosa estava ali sozinha
Com o lenço na mão para o mar acenando

Eu quedei-me surpreso ali a contemplar
Seus gestos maquinais, pois não via ninguém
De quem se despedisse e ela sempre a acenar
Pensando estar no cais a dizer adeus a alguém

Depois vim a saber, que enlouqueceu de dor
A sua triste história houve alguém que a contou
Que partira prá guerra um filho, o seu amor
Dali se despediu e nunca mais voltou

Agora a pobre mãe, numa alucinação
Todos os dias vai cumprir seu negro trilho
Acenar para o mar com o lenço na mão
Pensando estar no cais a dizer adeus ao filho

A lua e o corpo

Rui Manuel / Alfredo Duarte *menor-versículo*
Repertório de Chico Madureira

Eis que a lua devagar te vai despindo
Atrevendo uma carícia em cada gesto
De tal modo é que a nudez te vai vestindo
E o teu corpo condescendo sem protesto

Mal os ombros se desnudam, surge o peito
Logo os ombros no desenho da coluna
Cada músculo detém o mais perfeito
Movimento, em sincronia com a ternura

Já as ancas se arredondam e projectam
Sobre as coxas, sobre os vales, sobre os montes
Onde as vidas, noutras vidas se completam
Quando o tempo é um sorriso, ou uma fonte

Fica a roupa amontoada junto aos pés
Quer dos teus, quer dos da cama que sou eu
Estendo a mão, apago a luz, que a nudez
Do teu corpo, fica acesa sobre o meu


A Lucinda camareira

Henrique Rego / Alfredo Duarte *fado bailarico*
Repertório de Fernando Maurício

A Lucinda camareira
Era a moça mais ladina

Mais formosa, mais brejeira
Do café da Marcelina


De maneira graciosa 
Sobre um lindo penteado
Trazia sempre uma rosa 
Cor de rosa avermelhado;
Eu vivi enfeitiçado 
Por aquela feiticeira
Que airosamente ligeira 
Servia de mesa em mesa;
Tinha feições de princesa 
A Lucinda camareira

Primando pela brancura 
O seu avental de folhos
Realçava-lhe a negrura  
Encantadora dos olhos;
Nem desgostos nem abrolhos
Sofrera desde menina
Que apesar de libertina 
Orgulhosa e perturbante;
No velho café cantante
Era a moça mais ladina

Os marialvas em tipóias 
Iam da baixa num salto
Ver a mais linda das jóias 
Ao café do Bairro Alto;
A camareira que exalto 
De tão singular maneira
Era amada pela cegueira 
Que a palavra amor requer;
Para mim era a mulher
Mais formosa e mais brejeira

Certa noite de fim d’ano 
Em que certo cantador
Cantava ao som do piano 
Cantigas feitas de amor;
Um cigano alquilador 
De têz bronzeada e fina
Por afortunada sina 
A Lucinda conquistou;
E para sempre a levou 
Do café da Marcelina




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