segunda-feira, 18 de março de 2024

CRONICA - BIRTHA | Birtha (1972)

 

Muitas pessoas provavelmente identificam THE RUNAWAYS como a primeira banda exclusivamente feminina na história do Hard Rock. Na verdade, muito antes dos RUNAWAYS, havia alguns grupos femininos que se interessavam por esse estilo musical. Dentre os precursores, podemos citar FANNY e BIRTHA. É sobre BIRTHA que falaremos nesta coluna.

BIRTHA veio de Los Angeles e foi formada em 1967 sob a liderança da baixista Rosemary Butler e do guitarrista Shele Pinizzotto, que atuou no grupo pop psicodélico de curta duração THE DAISY CHAIN. Juntando-se a eles estavam a tecladista Sherry Hagler e a baterista Olivia “Liver” Favela. Depois de engolir cobras, suar sangue e água multiplicando shows durante anos (aliás, estava escrito nos panfletos anunciando seus shows: “Birtha has balls”), BIRTHA finalmente consegue lançar seu primeiro álbum, sem título, em agosto de 1972 .

Uma das particularidades deste grupo é o facto do canto ser partilhado pelos 4 músicos, e muitas vezes num tom blues soul, ao mesmo tempo áspero, poderoso e cheio de emoção. Quanto aos coros, muitas vezes têm um toque de alma. Este primeiro álbum do BIRTHA inclina-se para o Hard Rock com toques de Funk, Blues e Soul. E as meninas do BIRTHA não estão aqui para divertir a galeria, elas provam isso com peças Hard funky como a imparável explosão “Free Spirit”, revestida com uma espessa camada de Blues, um refrão encantador, agressividade e sentimento, aliás potencialmente hino e " Work On A Dream", com um groove cativante, marcado por um belo solo de órgão de Hammond, uma troca entre coros de Soul e vocais principais de tirar o fôlego, que serve de ponte entre Janis JOPLIN e MOTHER'S FINEST e acaba sendo terrivelmente contagiante. Essa mesma troca entre coros de Soul e vocais principais também aparece no refrão de “Fine Talking Man”, cuja introdução com o zumbido do baixo antecede a chegada dos vocais, depois os das guitarras abruptas que endurecem esta peça, bem ajudada pela circunstância por um ritmo que não alivia a pressão, bem como um solo bem trabalhado, algumas notas de piano discretas mas eficazes e este título destaca-se como um excelente achado. Esses músicos também sabem fazer as pessoas baterem os pés e balançarem a cabeça e provarem isso com o Hard bluesy “Tuesday” mid-tempo com goove infernal e carregado por excelente sincronização entre os coros e os vocais principais. “Forgotten Soul” também é um bom achado: depois de um início lento e com uma atmosfera quase religiosa, os instrumentos aumentam a pressão, permitindo que a peça fique mais intensa, então o final é inesperado com uma mudança de atmosfera, de tom focado em Guitarras duras/pesadas. 2 baladas estão presentes no álbum, mostrando um lado mais sensível do grupo californiano: “Feeling Lonely” é uma balada soul blues carregada de emoção, comovente também e transcendida por um belo solo de choro; enquanto “She was Good To Me” é uma balada de piano com alguns arranjos leves que é imbuída de doçura, parece ser uma homenagem a um ente querido e é simpática, embora um pouco curta. Por fim, 2 covers completam este álbum. Primeiro há “Too Much Woman (For A Hen Pecked Man)”, um título de IKE & TINA TURNER (datado de 1970) que aparece aqui numa versão mais áspera e selvagem do que o original e BIRTHA o reapropria enquanto literalmente é em transe. Por fim, “Judgment Day” é um cover de REDBONE (também um título de 1970) e a versão do BIRTHA, sem chegar ao ponto de se igualar ao original que considero insuperável, é bastante agradável, especialmente porque os músicos fizeram um bom trabalho mesmo permitindo ele mesmo uma bela jam instrumental improvisada.

Este primeiro álbum do BIRTHA tem títulos contagiantes e momentos emocionantes. Os músicos mostraram-se talentosos, inspirados, com a vantagem adicional de uma vontade real de derrubar a casa. Este disco pode ser colocado ao lado das pérolas do início dos anos 70, do ano de 1972 e merece plenamente ser redescoberto, até porque BIRTHA tem tudo para agradar aos amantes do Classic-Rock e, pensando bem, pode ser percebido como um ancestral oculto do THE ESTAÇÃO MÃE.

Tracklist:
1. Free Spirit
2. Fine Talking Man
3. Tuesday
4. Feeling Lonely
5. She Was Good To Me
6. Work On A Dream
7. Too Much Woman (For A Hen Pecked Man)
8. Judgement Day
9. Forgotten Soul

Formação:
Shele Pinizzotto (guitarra, voz)
Rosemary Butler (baixo, voz)
Sherry Hagler (teclados, voz)
Olivia “Liver” Favela (bateria, gaita, voz)

Gravadoras : Dunhill & ABC Records

Produtor : Gabriel Mekler



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