quinta-feira, 22 de maio de 2025

CRONICA - SHADOWS OF KNIGHT | Gloria (1966)

 

Em meados da década de 1960, na zona norte de Chicago, os ecos de Muddy Waters e Howlin' Wolf ainda flutuavam sobre a Maxwell Street. Mas outro boato surge em porões, caves e pequenos clubes. Jovens, muito jovens, com cabelos de comprimento médio e guitarras ácidas estão reinventando o blues à sua maneira. Menos técnico, mais cru. Menos sutil, mais urgente. Nessa selva elétrica, um grupo se destaca: os Shadows of Knight.

A banda foi formada em 1964 com o nome The Shadows, antes que os músicos percebessem que uma banda inglesa já tinha esse nome. Eles finalmente optam por Shadows of Knight. Após algumas mudanças de pessoal, a formação se estabilizou em torno de James Alan Sohns (vocal), Warren Rogers (guitarra principal, vocal de apoio), Joseph J. Kelly (baixo), Tom Schiffour (bateria) e Jerry McGeorge (guitarra, vocal de apoio). Eles rapidamente construíram uma sólida reputação se apresentando regularmente no Cellar em Arlington Heights, um subúrbio ao noroeste de Chicago.

Sensíveis ao som inglês dos Yardbirds ou Them, essas sombras cavalheirescas seguem os passos de seus modelos britânicos tocando rock de garagem destrutivo. E já que estamos falando da banda de Van Morrison, foi justamente graças a uma música deles que o Shadows of Knight iria ganhar destaque.

No verão de 1965, eles abriram o show dos Byrds no McCormick Place, em Chicago. Naquela noite, eles tocaram uma versão arrasadora de “Gloria”. Tão assustador que chamou a atenção de Bill Traut e George Badonski, chefes e produtores da Dunwich Records, sempre em busca de joias raras capazes de rivalizar com a Invasão Britânica.

A gravadora então ofereceu ao grupo a gravação da música da peça de Van Morrison. Claro, a banda aceitou, e o single "Gloria" chegou às prateleiras em dezembro de 1965. Foi um sucesso regional imediato, alcançando o primeiro lugar em várias rádios locais.

Vale ressaltar que a letra foi levemente modificada, já que a versão original foi banida de algumas estações de rádio de Illinois. É isso que explica em parte o sucesso deste golpe. Porque dificilmente conseguimos distinguir Shadows of Knight de Them. E por um bom motivo! É um hino de garagem por excelência. Um título poderoso que abrirá o primeiro álbum do conjunto de Chicago. Sobriamente intitulado Gloria com sua capa rosa chamativa, foi lançado em abril de 1966.

Gloria não é apenas sobre sua faixa-título. O álbum completo é uma concentração de fúria adolescente e suor elétrico, entregue em menos de 30 minutos. Das onze faixas, apenas três são composições originais. Começamos com uma explosão sonora com “Light Bulb Blues”. Um grito distorcido à beira de um colapso nervoso, já batendo nas portas do hard rock com seus riffs derretidos e urgência destrutiva. Depois vem a balada "Dark Side", uma espécie de descida noturna aos limites da psique, então embrionária neste primeiro semestre de 1966. Mais adiante vem "It Always Happens That Way", mais melódica, quase pop na abordagem, mas ainda atravessada pela energia garageira do grupo.

O resto é uma homenagem crua e direta às raízes de blues e R&B da banda. "Boom Boom", de John Lee Hooker, se torna um aviso arrogante, enquanto "Let It Rock", de Chuck Berry, soa como uma canção de homem das cavernas, sombria e suja. Com "Oh Yeah", os músicos dão uma segunda vida ao groove pegajoso de Bo Diddley. “I Got My Mojo Working”, um clássico popularizado por Muddy Waters, é transformado em um mantra selvagem. O álbum termina com um tríptico de padrões revisitados de Willie Dixon: "You Can't Judge a Book (By the Cover)", "(I'm Your) Hoochie Coochie Man" e "I Just Want to Make Love to You". Três bombas de blues tocadas na garagem, com um baixo estrondoso, uma bateria ameaçadora, uma guitarra áspera e os vocais estrondosos de Jim Sohns como líder do grupo.

Com Gloria , Shadows of Knight lançou um álbum que é tão curto quanto visceral, um concentrado de angústia adolescente sob blues ácido. Em 1966, quando a onda psicodélica começou a crescer na Costa Oeste e o rock já sonhava em se tornar uma arte total, o grupo de Chicago lembrou a todos que a urgência era primordial. Aqui, sem frescuras ou jams longas e emocionantes: apenas eletricidade, respiração e vontade de lutar. Este álbum é um instantâneo cru da cena garage americana, aquela que ferve sob a superfície, longe do brilho do pop mainstream. E mesmo que nunca tenham alcançado a fama de alguns de seus contemporâneos, os Shadows of Knight gravaram com esta primeira obra um dos capítulos mais barulhentos e autênticos do rock dos anos 60. Um feito deslumbrante, que só pede para ser seguido por outros feitos brilhantes.

Títulos:
1. Gloria
2. Light Bulb Blues
3. I Got My Mojo Working
4. Dark Side
5. Boom Boom
6. Let It Rock
7. Oh Yeah
8. It Always Happens That Way
9. You Can't Judge A Book (Pela Capa)
10. (I'm Your) Hoochie Coochie Man
11. I Just Want To Make Love To You

Músicos:
James Alan Sohns: Vocal
Warren Rogers: Guitarra solo, Vocal de apoio
Jerry McGeorge: Guitarra, Vocal de apoio
Joseph J. Kelly: Baixo
Tom Schiffour: Bateria

Produzido por: Bill Traut, George Badonski



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