Diabolus: A Banda Que O Mundo Esqueceu
Há álbuns que não pretendem ser monumentos, mas acabam sendo refúgios. High Tones do Diabolus é um deles. Um álbum perdido na prateleira empoeirada da história, feito por uma banda que o mundo esqueceu antes mesmo de conhecê-la e, ainda assim, quando você para para ouvi-lo com a atenção que ele merece, algo dentro dele faz sentido.
Diabolus bebeu das águas turbulentas do "progressista primitivo", aquele caldo fértil do início dos anos setenta, quando tudo ainda estava para ser inventado. Mas ele fez isso com modéstia. Sua identidade ainda era a de uma floresta em formação: rica em nuances, mas ainda sem um tronco firme para segurar sua sombra. High Tones não é uma obra-prima no sentido estrito. Não há suítes lotadas, nem demonstrações de virtuosismo descontrolado. O que temos é um ecletismo sóbrio, às vezes presunçoso, que perscruta diferentes culturas do rock sem se fixar em nenhuma delas. A alma do disco é de bronze e madeira. Sons de metal que cortam o ar com uma dinâmica jazzística e uma base instrumental que beira o folk, o sinfônico e o fusion. O “som do Diabolus” é, portanto, uma criatura elusiva: às vezes jazz rock com trajes de bandas de metais, às vezes progressivo com corredores estreitos e texturas cuidadosamente elaboradas.
Mas o mais surpreendente é o seu calor. Um calor que, sem necessidade de épicos grandiloquentes, consegue envolver e convencer. Uma dinâmica interna que respira e se move, como um organismo que se adaptou ao seu tempo sem tentar domesticá-lo. Isso não mudará seu mapa mental do progressista, mas pode colori-lo com um tom inesperado. E neste blog, onde são celebrados álbuns que vivem à margem, Diabolus ganha seu lugar como um desses heróis menores que ainda nos sussurram algo valioso das sombras do esquecimento.
Impressões pessoais: O valor discreto de soar diferente
A primeira vez que ouvi High Tones foi como pisar descalço em uma praia escondida no meio do verão: fresco, inesperado, estranhamente bem-vindo. Diabolus veio até mim sem avisar, como um amigo boêmio que você não vê há anos e que aparece com uma garrafa de vinho e teorias estranhas sobre o tempo. Na época, a onda me pareceu bonitinha. Não é brilhante, mas é brilhante o suficiente para me manter flutuando um pouco mais.
Os anos se passaram — mais de oito, como dizem — e agora, ao mergulhar novamente em suas águas, a experiência foi mais amena, mais comedida, como reencontrar aquele amigo e perceber que ele ainda tem charme, mas também algumas repetições em seu repertório. A banda não é exatamente uma esfinge progressiva. Não. É mais um animal relacionado ao prog, um desses que belisca vários pontos: um pouco de jazz rock, uma pitada de folk e aqueles toques progressivos que aparecem, sim, mas como se não fosse o assunto em questão. Não há opulência carmesim nem labirintos de "gigantes gentis". Aqui há algo mais: melodias que flertam com a descontração de Jethro Tull, arranjos que fazem lembrar a antiga Beggar's Opera e uma atmosfera que, sem buscar o cume, passeia pela encosta com um meio sorriso. Você esperava mais? Talvez. Mas nesta segunda audição descobri algo que antes me escapava: o carisma jazzístico que vibra entre os silêncios. Um charme modesto, quase caseiro, que não pretende impressionar ninguém, mas consegue não decepcionar. E isso, no final das contas, é algo que você não pode esperar de todos os álbuns. Alguns nascem para reinar. Outras, para ficar com você como música de fundo em uma tarde nostálgica. High Tones é exatamente isso: um álbum que não exige reverência, mas sim uma audição honesta, com o coração aberto e ouvidos limpos. Como deveria ser.
01. Lonely days
02. Night Clouded moon
03. 1002 Nights
04. 3 pieces suite
05. Lady of the moon
06. Laura Sleeping
07. Spontenuity
08. Raven's call
CODIGO: B.1-38

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