segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Criolo: crítica de Convoque Seu Buda (2014)



Kleber Cavalcante Gomes é uma pessoa diferente. O cara que você conhece como Criolo pensa e faz música de uma maneira particular, igual a ninguém. Isso já era colocado na mesa na estreia que pouquíssima gente ouviu - Ainda Há Tempo (2006) - e foi escancarado no disco que todo mundo escutou - Nó na Orelha (2011). Vindo do rap, Criolo não se prende ao gênero, seja na configuração esperada do estilo - samplers, colagens, vocais falados - como, principalmente, nos limites que ele poderia impor à sua música. Assim como Nó na OrelhaConvoque Seu Buda, lançado neste semana, parte do rap e vai ao encontro de diversas sonoridades, passando pelo afrobeat, samba, reggae, MPB e outros, resultando em mais um trabalho de primeira linha.

Gravado entre os meses de julho e setembro, o disco foi produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, mixado por Mario Caldato Jr. e masterizado por Robert CarranzaConvoque Seu Buda traz dez canções, onde o discurso afiado de Criolo fala sobre consumismo, drogas - notadamente o flagelo social do crack, que enche as ruas das cidades brasileiras de coadjuvantes de The Walking Dead mas é sonoramente ignorado por TODAS as esferas do poder -, conflitos/contrastes entre as classes sociais e o cotidiano da periferia, realidade conhecida na pele pelo rapper.

Criolo repete um expediente que deu muito certo em Nó na Orelha e que faz a diferença mais uma vez em Convoque Seu Buda: o uso de instrumentos reais na construção das músicas. Assim, as composições, ainda que sempre tragam beats e colagens muito bem encaixadas, soam orgânicas e com muita fluidez. Estão lá guitarra, baixo, teclado, bateria e outros instrumentos como flautas, construindo uma sonoridade rica e repleta de matizes interessantes.

Entre as faixas, acertos e mais acertos, comprovando que a mente do rapaz segue transbordando boas ideias. A música que dá nome ao disco abre os trabalhos com um rap de letra forte, seguida da ótima “Esquiva da Esgrima”, com um refrão grudento como um bom chiclete. Em “Cartão de Visita”, Criolo revisita trechos da entrevista siderada que deu ao ator Lázaro Ramos alguns meses atrás enquanto declama uma letra e uma interpretação irônicas que desembocam no refrão cantado por Tulipa Ruiz.

“Casa da Papelão” fala sobre o crack com uma sutileza instrumental arrepiante. Em contraste, “Fermento pra Massa”, que vem a seguir, é um samba agradável com uma das melhores letras do disco.

Assim como aconteceu em Nó na Orelha, onde algumas das melhores faixas estavam na parte final do álbum - “Sucrilhos”, “Lion Man” e “Linha de Frente” -, em Convoque Seu Buda também somos brindados com uma sequência final do mais alto nível. “Pegue pra Ela” é um afrobeat contagiante, enquanto a densa “Plano de Vôo - Síntese” é uma das mais belas canções já gravadas pelo rapper. A já conhecida - e excelente - “Duas de Cinco” vem na sequência e prepara o clima para o grande encerramento que “Fio de Prumo (Padê Onã)” proporciona, com participação fundamental da cantora Juçara Marçal. Outro acerto violento de Criolo.

Convoque Seu Buda faz juz à espera e é uma sequência apropriada para Nó na Orelha. Ainda que não tenha em seu tracklist hits em potencial como “Não Existe Amor em SP” e “Mariô”, possui um conjunto de faixas consistente e que eu, pessoalmente, gostei muito.

Kleber segue sendo um cara diferente. Criolo segue sendo Criolo. E Convoque Seu Buda é um dos melhores discos do ano.




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