segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Machine Head: crítica de Bloodstone & Diamonds (2014)

 



Existem casos em que a história está sendo escrita diante dos nossos olhos e nem nos damos conta disso. É o que ocorre com o Machine Head já há algum tempo. Após um início promissor com Burn My Eyes (1994) e The More Things Change … (1997), a banda liderada pelo vocalista e guitarrista Robb Flynn entrou no furacão nu metal e lançou seus trabalhos mais discutíveis, The Burning Red (1999) e Supercharger (2001).

A mudança de curso custou a lealdade dos fãs, mas foi a centelha que fez surgir uma banda mais amadurecida e extremamente surpreendente. O marco zero que marcou o início do melhor capítulo da história do grupo norte-americano se deu em 2002, com a entrada do guitarrista Phil Demmel, parceiro de Flynn nos tempos do Vio-lence. Afinado e com uma entrosamento excelente com Robb, Demmel logo se transformou no parceiro ideal do líder do Machine Head. E isso ficou claro já no seu disco de estreia com a banda, Through the Ashes of Empires (2003), onde o quarteto retomou o thrash épico e repleto de groove e endireitou o curso de sua carreira.

A partir de então, o Machine Head entrou em uma espiral ascendente e que ainda não chegou ao seu ápice. The Blackening (2007) foi um disco excelente. Unto the Locust (2011) soou espetacular, um clássico instantâneo. E Bloodstone & Diamonds (2014) mantém a qualidade na estratosfera. 

O principal diferencial do Machine Head é fazer algo extremamente difícil de se ouvir e praticamente único no cenário do heavy metal. A banda consegue soar simultaneamente intensa, pesada e agressiva, mas sempre com um lado emocional muito evidente. Robb Flynn, o cérebro do grupo, se transformou em um ourives da composição, e o resultado é um metal pesadíssimo e emocionante, sempre e em todos os aspectos. É a beleza da violência elevada à sua máxima potência.

Bloodstone & Diamonds apresenta menos melodias que Unto the Locust. O Machine Head soa mais agressivo em seu novo trabalho, mas igualmente belo. As doze faixas apresentam uma banda dona do seu destino, que sabe o que faz, como faz e o que quer fazer. Um quarteto de músicos cheios de si, que ostentam uma segurança e uma confiança inquebráveis. As canções são fortes, bem construídas, com arranjos cheios de detalhes. Percebe-se o cuidado com as pequenas coisas, o detalhismo quase neurótico de Flynn, esculpindo cada faixa até a perfeição.

A abertura com cordas de “Now We Die” dá um ar solene ao disco, para em seguida contrastar com uma canção repleta de groove e um refrão fortíssimo. “Killers & Kings” é thrash moderno e grudento, com uma grande melodia no refrão, feito para ser cantado a plenos pulmões. “Ghosts Will Haunt My Bones” é uma aula prática de como a guitarra deve ser utilizada no heavy metal, com riffs e solos de arrepiar. Já “Night of Long Knives” traz a história de Charles Manson e os crimes que chocaram Los Angeles e os Estados Unidos em agosto de 1969 em uma das melhores canções gravadas pela banda.

E então, após quatro excelentes faixas, o Machine Head entrega a primeira grande obra de arte de Bloodstone & Diamonds. Densa e sombria, “Sail Into the Black” é uma faixa belíssima, cheia de nuances, com um arranjo arrepiante e um crescendo que faz qualquer um renovar a fé no ser humano, na vida, na música e em tudo mais. Antológica, como foi “Darkness Within” no disco anterior. 

Citar faixa por faixa acaba sendo meio maçante, então vou dar só algumas pinceladas. “Eyes of the Dead” é outro arregaço. “Beneath the Slit” traz um riff na escola Tony Iommi e vocais etéreos e um tanto experimentais, mostrando o quanto Robb Flynn se tornou, além de ótimo guitarrista, um cantor e tanto. A melodia anda lado a lado com o peso em “In Comes the Flood”, enquanto “Damage Inside” introduz o outro grande momento do álbum. “Game Over” é uma faixa espetacular, onde Flynn despeja na letra tudo o que sente em relação a Adam Duce, antigo baixista que deixou o grupo em 2013. A seguir, outro interlúdio com “Imaginal Cells” e um final em grande estilo com outra excelente canção, “Take Me Through the Fire”.

Confesso que quando escutei Bloodstone & Diamonds pela primeira vez achei o disco um pouco longo. Porém, com o passar das audições fui me ambientando ao trabalho, que me absorveu por completo. É um álbum diferente tanto de The Blackening quanto de Unto the Locust, um passo adiante na história que está sendo contada pelo grupo. Um disco dono de uma beleza tão forte, tão profunda, que emociona e quase leva às lágrimas quem tem a capacidade de deixar a música invadir as suas veias e conduzir as suas emoções.

O Machine Head é uma banda única. Uma banda impressionante. Uma banda que está fazendo história disco após disco, como os grandes nomes que escreveram a trajetória do heavy metal fizeram no auge de suas carreiras. O Machine Head vive o seu ápice há pelo menos 7 anos, e é uma benção presenciar e ouvir discos como esse.






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