quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Grandes álbuns do Prog-Rock: Acqua Fragile - "Mass-Media Stars" (1974)

 

 Originada na cidade de Parma, Itália, em 1966, inicialmente sob o nome de "Gli Immortali", tinha na formação Bernardo Lanzetti (vocais, que havia acabado de voltar à Itália após morar nos EUA), Gino Campanini (guitarra) e Pier Emilio Canavera (bateria), aos quais mais tarde se juntaram Maurizio Mori (teclados) e Franz Dondi (baixo).
Dondi vinha de outro grupo menor, "I Moschettieri" (na praia da Beat Music), que em 1967 gravou um single "Quando Il Tempo Dell'Amore/Un'Anima Perduta" e tocou abrindo num show na Itália para os Rolling Stones. Eles começaram a se apresentar ao vivo e, no início de 1971, foram notados pelos integrantes da PFM - Premiata Forneria Marconi, então já conseguindo grande projeção na cena musical italiana (mesmo antes das primeiras gravações). O empresário da PFM Franco Mamone decidiu gerenciar também a nova banda e orientou-lhes no sentido da mudança de nome para "Acqua Fragile". Com um empresariamento profissional, o grupo tornou-se capaz de tocar com importantes expoentes estrangeiros (abrindo turnês italianas) como Soft MachineAlexis Korner & SnapeTempestCurved AirAudienceUriah Heep, e acima de todos, com o Gentle Giant.
O álbum de estreia homônimo foi lançado em 73 com clara inspiração no Rock Progressivo britânico (especialmente Genesis e Gentle Giant) e cantado em inglês, o que era bastante anômalo na cena fonográfica italiana da época. Prog Folk Rock leve, romântico, agradável, lançado pela Numero Uno, mesmo selo (independente) pelo qual a PFM gravava. Os vocais de Bernardo Lanzetti lembravam os de Peter Gabriel (e também os de Roger Chapman, do Family), muito Folk Rock (pense CSNY), com a banda ainda procurando seu próprio caminho no Prog (e por isso a sensação de muitos clichês). Lampejos de excelência, destaque para as faixas "Morning Comes", "Comic Strips", "Education Story" e "Three Hands Man". As letras em inglês acabavam tirando algo do charme do som italiano e de sua melodiosidade ímpar. Muitas influências (às vezes colocadas à frente, em detrimento da criatividade/originalidade), mas num todo que dava até para esquecer tratar-se de uma banda italiana. O álbum foi distribuído apenas na Itália e não obteve o sucesso desejado (a opção de vocais em inglês provavelmente não ajudou a conquistar popularidade na Itália e o álbum não foi lançado no mercado externo como planejado). No ano seguinte, surgiu "Mass-Media Stars", considerado superior à estreia e um mergulho na direção mais Prog (embora haja opiniões respeitáveis que preferem o primeiro). Havia agora um papel maior dos teclados de Maurizio Mori (tocando órgão, piano, sintetizadores, Mellotron etc.) adicionando profundidade sinfônica. Suntuosas harmonias vocais (novamente, pense CSNY), performances evoluídas (tanto nas texturas Folk, quanto nas interações instrumentais virtuosísticas), adição de influência da própria PFM (isto ficava nítido na faixa de abertura, "Cosmic Mind Affair"), momentos de magia num álbum cativante e melódico, além de melhor produção. Novamente, vocais de Lanzetti em inglês e a presença forte das influências. A Acqua Fragile acabou sendo um 'produto' lançado para exportação, algo que nunca se concretizou. Curiosamente seus álbuns passaram despercebidos dentro de seu próprio país. "Mass-Media Stars" saiu pelo selo Ricordi e teve lançamento nos EUA. Foi numa época em que PFM já estava escrevendo álbuns em inglês mirando o mercado externo. A Acqua Fragile seguiu esta ideia, mas soou como uma PFM pobre, com pouca personalidade, embora musicalmente fosse uma banda muito boa capaz de ótimos momentos.
No outono de 74, o tecladista Maurizio Mori deixou o grupo e foi substituído por Joe Vescovi (do The Trip). Há um álbum ao vivo ("Live In Emilia - Spring 75", de qualidade ruim, nível bootleg), lançado em 94, que dá uma ideia do som desta fase, mas ainda em 74 Bernardo Lanzetti também saiu para se juntar à PFM (com quem gravaria "Chocolate Kings", de 75, "Jet Lag", de 77, e "Passapartù", de 78). Ele seria substituído num curto período por Roby Facini, mas o Acqua Fragile logo depois acabaria. Durante décadas, os membros originais da Acqua Fragile trilharam caminhos separados: Lanzetti, depois da PFM, empreendeu carreira solo de moderado sucesso (afastando-se do Prog), colaborou com o Mangala Vallis (grupo de Reggio Emilia liderado por Gigi Cavalli Cocchi) e participou do Lycanthrope; o baixista Franz Dondi e o baterista Pier Emilio Canavera tocaram por um tempo no Rocky's Filj (outra banda de Prog/Fusion italiano) e depois no Shout! (banda tributo aos Beatles). Em 2004, Dondi resolveu criar o "Acqua Fragile Project", com outros membros (ele era o único da formação original) e com o objetivo de tocar as velhas canções dos dois álbuns. Isto funcionou por dois anos. Em 2013, Lanzetti lançou um álbum ao vivo, "Vox40" (CD e DVD), celebrando seus quarenta anos de carreira no qual ele tocou parte do velho repertório da Acqua Fragile e recebe no palco seus velhos parças Canavera e Dondi. Isto foi a fagulha para que o trio decidisse ressuscitar a Acqua Fragile surgindo o álbum "A New Chant", em 2017. Foi um retorno inesperado de uma banda pouco celebrada (muito mais associada à participação de seu vocalista na PFM), adorada por alguns, rejeitada por outros (muito pelos vocais em inglês e pela música não ter as características mais puras teatrais e eruditas de alguns expoentes do Prog italiano), mas que produziu sim dois álbuns bastante bons (talvez não especiais o suficiente para competir com os nomes realmente importantes da época). "A New Chant" surpreendeu ao trazer de volta o som setentista do grupo (inclusive com os vocais em inglês). Foi uma volta gloriosa. Com ajuda de diversos colaboradores, o trio ofereceu um álbum confiante, rico no instrumental, que foi considerado o mais luxuoso/sofisticado da banda. Orquestrações, sabor mediterrâneo, musicalidade chique e o vocalista Bernardo Lanzetti soando muito mais sutil, cheio de personalidade colorida e profundamente carismático (ele nunca soou melhor como cantor). Performances soberbas, faixas aventureiras e energéticas repletas de luxuosos floreios, provando que esses retornos podem, às vezes, render música ainda vital e emocionante. "A New Chant" pode ser sim considerado o melhor álbum da banda. Incrível. Eles retornaram também aos shows (incluindo Rosella Volta nos vocais e Michelangelo Ferilli nas guitarras, já integrantes do anterior Acqua Fragile Project).
Em 2023, surgiu outro álbum, "Moving Fragments", agora com Claudio Tuma nas guitarras e Stefano Pantaleoni nos teclados. Passados seis anos do retorno que atordoou todos com o excelente "A New Chant", o trio lançou outro trabalho. Novamente, impressiona o poder da banda, mas acima de tudo os vocais de Lanzetti. Ele não perdeu nada do alcance e, em muitos aspectos, canta melhor do que nunca (isto aos 75 anos de idade). Foi outro álbum muito bom, cheio de profundezas a serem descobertas. Não tão bom quanto "A New Chant", mas no nível dos dois primeiros.






Sem comentários:

Enviar um comentário

Destaque

Sweet Smoke - Just A Poke (1970) [ProgRock]

  O Sweet Smoke é frequentemente incluído no grupo Krautrock, quando na verdade, eles eram americanos. A banda era de Nova York, mas se mudo...