domingo, 23 de novembro de 2025

Grandes álbuns do Prog-Rock: Aphrodite's Child - "666" (1972)

Aphrodite's Child foi uma banda grega de Pop psicodélico comercial formada em 1967, por Evangelos Papathanassiou, mais tarde conhecido profissionalmente como Vangelis (teclados e flautas), Demis Roussos (baixo, violão e guitarra, vocais), Loukas Sideras (bateria e vocais) e Silver Koulouris (guitarra). Eles inicialmente encontraram sucesso na Europa com singles como " Rain and Tears ", "End of the World", "I Want to Live" e " It's Five O'Clock ", antes de mudar para o Rock Progressivo com seu terceiro e último álbum, "666" (1972), um ambicioso trabalho conceitual inspirado no Livro do Apocalipse, que mais tarde ganhou aclamação da crítica e apareceu em várias listas dos melhores álbuns progressivos e psicodélicos de todos os tempos. Vamos hoje resgatar e reavaliar toda essa história. Papathanassiou e Roussos já tinham feito certo sucesso na Grécia, tocando nas bandas "The Forminx" e "Idols", respectivamente, quando se juntaram a Sideras e Koulouris para formar uma nova banda.
Sua primeira gravação como banda foi para o álbum "In Concert and in Studio" de George Romanos, onde tocaram em quatro canções e foram creditados como "Vangelis and his Orchestra". No mesmo ano, eles gravaram uma demo de duas canções e a enviaram para a Philips Records.
Vangelis, Loukas Sideras, Silver Koulouris e Demis Roussos
Provavelmente foi ideia de Vangelis que a banda, ainda anônima, fosse transferida para Londres, onde haveria um ambiente mais adequado para sua música, já que seu país havia entrado numa ditadura de direita em 1967. Essa decisão, no entanto, não foi isenta de problemas. Koulouris teve que ficar na Grécia para cumprir serviço militar, enquanto a banda, a caminho de Londres, ficou presa em Paris, em parte porque não tinha as autorizações de trabalho corretas e em parte por causa das greves associadas aos eventos de maio de 1968 (agitação civil enorme em toda a França).
Em Paris, a banda assinou com a Mercury Records e foi batizada de "Aphrodite's Child" por Lou Reizner (nome foi tirado do título de uma faixa do norte-americano Dick Campbell, em seu álbum "Sings Where It's At", de 1966, na praia do Folk Rock), lançando o single "Rain and Tears", uma releitura do "Canon em Ré maior", do compositor alemão Johann Pachelbel. Com essa canção, a banda se tornou uma sensação da noite para o dia na França e em vários outros países europeus nos quais o single teve um bom desempenho, apesar da canção ser cantada em inglês. Vendeu mais de um milhão de cópias e foi premiada com um disco de ouro . Em out/68, a banda lançou seu primeiro álbum "End of the World". Não deixava de causar surpresa, afinal era uma banda grega fazendo Rock e na França! Estilisticamente, poderia passar como qualquer banda da psicodelia inglesa prestes à tornar-se progressiva, exceto pelo notável sotaque estrangeiro (vocais todos em inglês) e pelo ar mediterrâneo "sui generis" presente. Então, imagine um Moody Blues do início, com adições de elementos da música erudita e melodias com apelo mais romântico. O nível do instrumental era excelente (no nível das demais bandas inglesas da época), mas o álbum era irregular. Algumas faixas mais Hard Rock mesclavam vocais cheios de Soul, noutras imperava uma grandiosidade melancólica, noutras havia o uso de efeitos psicodélicos (hoje datados) e ainda havia baladas ("Day Of The Fool" e "Rain And Tears") pegajosas, viajantes e de orientação Pop
A banda começou a excursionar pela Europa, e em jan/69 eles gravaram um single em italiano para o Festival de Sanremo, do qual não participaram. Seu próximo single de sucesso foi "I Want to Live", um novo arranjo da canção "Plaisir d'amour". Para seu segundo álbum, a banda viajou para Londres para gravar no Trident Studios. O primeiro single do álbum, "Let Me Love, Let Me Live" foi lançado em nov/69, enquanto o álbum "It's Five O'Clock" saiu em jan/70. Ele apresentava baladas de maior sucesso (como a canção-título), mas também canções que cruzavam muitos gêneros musicais. "It's Five O'Clock" foi, de certa maneira, uma continuação da estreia, mas também uma mudança. Trouxe faixas típicas da psicodelia inglesa, centradas em teclados grandiosos, embora com um lado bem mais romântico do que qualquer banda inglesa (especialmente pela entrega vocal), que se encaixariam perfeitamente no álbum anterior. Por outro lado, surgiram faixas de consciência social, uma de Country Rock, outras de Soul Rock, tudo com aspectos bem experimentais. Alguns continuaram se incomodando com as baladas Pop super açucaradas, mas imperava o Rock psicodélico virando Progressivo.
Após isto, a banda começou a excursionar novamente, desta vez sem Vangelis que preferiu ficar em Paris e gravar a música para o filme de Henry Chapier, "Sex Power". Vangelis foi substituído no palco por Harris Halkitis. Para manter o fluxo constante de sucessos, a banda lançou outro single em ago/70, "Spring, Summer, Winter and Fall". Nesse ponto, o Aphrodite's Child partiu para seu maior desafio, "666", um álbum conceitual, bombástico, uma adaptação musical centrada no livro do Apocalipse de São João. Koulouris, tendo terminado seu serviço no exército grego, voltou a se juntar à banda. Ideia de Vangelis, com letras de Costas Ferris (diretor de cinema, escritor, ator e produtor grego) e os vocais líricos (cheios de falsetes líricos) de Demis Roussos, a música era complexa, detalhada e muito bem realizada. Levou a maior parte de 1970 e de 1971 para ser criado, mas o resultado foi um álbum que vendeu 20 milhões de cópias e tornou-se um clássico do Rock. Infelizmente, seria o maior feito da banda e também seu último trabalho (as relações entre os membros da banda estavam se deteriorando e tudo piorou durante o longo, lento e metódico processo de gravações), com Vangelis migrando para uma carreira solo e o mercado de trilhas sonoras de filmes (com certeza, você conhece as que ele fez para os filmes "Chariots Of Fire", Carruagens de Fogo, e "Blade Runner").
"666" era a música mais psicodélica e mais Rock Progressivo que a banda já havia feito e isso não foi bem aceito pelos outros membros, que desejavam continuar na direção Pop que lhes trouxera sucesso. Além disso, Roussos estava sendo preparado para uma carreira solo, tendo gravado e lançado seu primeiro single solo "We Shall Dance " (com Sideras na bateria) e seu primeiro álbum solo "On the Greek Side of My Mind". Enquanto isso, Vangelis voltou sua atenção para a gravação da trilha sonora do documentário de TV francês "L'Apocalypse des animaux" e trabalhou num single com sua então namorada Vilma Ladopoulou, se apresentando com Koulouris sob o pseudônimo de "Alpha Beta". Quando "666" foi finalmente lançado quase dois anos depois, em jun/72, a banda já havia se separado, apesar de ter vendido mais de 20 milhões de discos e permanecer popular em toda a Europa. O álbum duplo representou um avanço drástico em relação aos trabalhos anteriores (pense, comparando com o Genesis, na diferença entre "From Genesis To Revelation" e "Foxtrot"). Nada mais das baladas excessivamente sentimentais, nada mais de canções bobinhas e açucaradas. A gravadora Mercury temeu que, por causa do conteúdo, o álbum não vendesse e o lançou através de sua subsidiária Vertigo. De fato, as letras eram todas baseadas na Bíblia, especialmente no "Livro do Apocalipse", mas sem foco em pregações (muito mais uma interpretação contracultural deste livro). A música era Rock Progressivo de alta qualidade (atmosferas sombrias, estrutura sinfônica e toques psicodélicos) com algumas influências étnicas gregas. Havia também várias faixas experimentais e claramente tratava-se de uma criação de Vangelis. Música estranha, desconcertante, complexa e muito cuidadosamente planejada. "666" é considerado um dos primeiros álbuns conceituais (um circo que encena uma produção do Apocalipse de São João, sem saber que o Apocalipse real está ocorrendo fora da tenda - o público acredita que tudo é parte do show até que o real e o teatral se colidem). Gravado num clima de separação inevitável da banda, acabou sendo um trabalho de qualidade surpreendente (feito no alvorecer do Rock Progressivo). Talvez, a maior conquista seja a forma como a banda conseguiu realizar seu intento, misturando música de temática religiosa com Prog sinfônico aventureiro (contento cantos gregorianos, orações de monges, climas sinistros, faixas atmosféricas, perturbadoras, místicas e até sons mais vanguardistas). Um trabalho realmente único e especial. Sim, um pouco longo; sim, a requerer alguma dedicação do ouvinte; mas que marcou época (ainda mais considerando o passado Pop da banda). Simultaneamente perturbador e curioso, primitivo e atemporal, sagrado e profano, "666" é menos pretensioso do que se imagina com todo seu Proto-Prog riponga. Épico, desigual (certamente imperfeito) e com conteúdo religioso que pode incomodar, tornou-se cultuado.
Após o sucesso de "666", Vangelis e Ferris tiveram um encontro com o pintor surrealista Salvador Dalí, em Paris, em busca de uma colaboração. Dalí os visitou no estúdio "Europa Sonor" onde pediu para ouvir o álbum "666". Para surpresa da dupla, o pintor ficou muito entusiasmado com aquela música e propôs um "happening" em Barcelona. Segundo idealização de Dalí, o evento ocorreria num domingo, seguindo algumas regras (lembrando que a Espanha vivia sob o regime do ditador Franco): não haveria filmagens, nem fotos; caixas acústicas gigantes iriam ser colocadas na rua e tocariam por todo o dia o álbum "666", mas não haveria performance ao vivo; atores vestidos de nazists iriam andar pelas ruas, outros vestidos de terroristas e com falsas bananas de dinamite iriam simular colocar explosivos em monumentos; aeroplanos iriam sobrevoar todo o dia provocando barulho e, ao meio dia, passariam a despejar elefantes, hipopótamos, baleias e arcebispos com guarda-chuvas (!!). A lenda diz que, ao ouvir essas diretrizes, Ferris teria perguntado a Dalí: "Arcebispos? Você quer dizer de plástico, né, tipo bonecos infláveis?" E Dalí teria respondido: "Não, meu jovem. Quero arcebispos de verdade, vivos... está na hora de acabarmos com a igreja!". Ré-ré-ré... Entretanto, ocorreu um incidente desagradável: Ferris trouxe Paul Éluard, que havia sido marido de Gala, na época esposa de Dalí. Isto o deixou extremamente irritado e aborrecido e, dizem, Dalí teria proposto um duelo (!!!) com Éluard, abandonou o local e terminou a relação com a banda. Tanto Vangelis quanto Roussos seguiram carreiras solo de sucesso: Roussos teve uma carreira próspera como cantor Pop e Vangelis se tornou um artista de música eletrônica/trilhas sonoras altamente conceituado. Roussos morreu em 2015. Vangelis morreu em 2022.



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