segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Insomnium: crítica de Shadows of the Dying Sun (2014)

 


No começo havia apenas um salão construído sobre águas negras. E foi nesse salão que uma jornada desconhecida de um dos infelizes filhos do melodic death finlandês teve início, no dia em que tudo veio abaixo e a Morte caminhou sob um lamentoso céu. Mas sobre o mundo de lágrimas, este desamparado filho atravessou os portões através da escuridão e chegou aonde a última das ondas quebra. Lá, ele é o único que aguarda para que o seu espírito descanse. O único que aguarda pela canção do pássaro negro.

E então chega a sombra de um último pôr do sol.

Shadows of the Dying Sun é o sexto álbum de estúdio do Insomnium, produzido por Teemu Aalto (o mesmo dos álbuns do Omnium Gatherum) e lançado pela Century Media no fim de abril, representa um verdadeiro conto épico, uma espécie de recomeço para a própria banda.

Com um início exponencial, cada instrumento vai sendo apresentado em ritmo quase ritualístico, na velocidade de um próprio eclipse solar total sobre uma terra totalmente sem vida. “The Primeval Dark” é como a introdução de uma velha história sendo contada por uma figura sombria, a sensação de estar atravessando um portal para um mundo completamente novo ou do vento folheando um antigo livro. E com “While We Sleep”, o Insomnium dá os primeiros passos neste novo cenário com o seu melodeath metal puramente finlandês melódico e denso, com os repetidos mantras de We need to slow down servindo não apenas para representar as inserções de gothic e doom em sua sonoridade, mas as cada vez mais presentes músicas folclóricas e ambientações sonoras, que complementam de forma única as vozes de Niilo Sevänen e Ville Friman.

Prosseguindo com a jornada por desoladas paisagens, “Revelation” traz uma cadência que os aproxima em muito do Amorphis recente, mas com dinâmicas mudanças de andamento que a tornam uma experiência mais pessoal do que mítica. Os ventos glaciais cortantes voltam a soprar junto com os blastbeats de “Black Heart Rebellion”, uma canção de guerra pesarosa, no limiar extremo entre lutar por uma causa e refletir sobre o que é realmente correto enquanto se é soterrado por neve e cinzas. Como uma continuação do mesmo sentimento, “Lose to Night” segue ritmo constante, monótono como o caminhar dos astros, entoado por um fantasmagórico coral, que utiliza de forma inteligente e épica a liberdade proposta pelo instrumental.

“Collapsing Words”, por outro lado, é uma espécie de reciclagem de “Closing Words” (presente em Since the Day It All Came Down) e resgata o melodeath em sua personificação mais direta, crua e agressiva, montando um ácido jogo de palavras em que cada verso é uma frase de efeito clichê, um turbilhão de conselhos prontos e descartáveis que as pessoas adoram falar ou escrever, mas muito pouco colocam em prática. Um alívio irônico que procede “The River”, não apenas um dos momentos mais épicos no álbum, mas uma das grandes composições na discografia dos finlandeses, completa em diversos sentidos. Como o navegar de um rio de volta para casa representando a própria vida (e o seu fim), cada mudança de andamento ou novo elemento parece milimetricamente encaixado, esculpido ao longo de milhares de anos pela própria ação natural.

Em seguida, de formato bem mais simplificado, “Ephemeral” explora novamente ideias diretas que acabam por resultar em um meio termo entre power metal, post-hardcore e os guturais tipicamente escandinavos, mostrando como obviedades podem se tornar algo interessante se bem construídas. O mesmo pode ser dito da cadência da “The Promethean Song” e sua atmosfera fantasiosa, basicamente uma narração que procede a inesperada conclusão com “Shadows of the Dying Sun”, outro entre os mais belos momentos do álbum. Com conceito lírico margeando o folclore e a ciência de forma inesperada, a densidade instrumental divide espaço com o pesar e a melancolia relacionada à noção de insignificância, lembrando vagamente o Dark Tranquillity de Haven, porém mais experimental, dinâmico e assombrado pelos elementos folk. Não exatamente um final feliz dentro do conceito. Mas um encerramento grandioso que faz justiça às proporções do disco.

Fato é: Shadows of the Dying Sun não representa uma severa revolução na discografia do Insomnium. Porém, não significa que os finlandeses tenham permanecido presos ao gelo de sua própria identidade. O que se vê aqui é um amadurecimento em termos de composição do que começou a ficar evidente em Across the Dark e One for Sorrow, que embora criticadas um pouco na época, demonstram aqui um equilíbrio que ainda não havia sido atingido. As novas faixas apresentam uma linha comum, uma atmosfera onipresente que conecta todas elas de forma quase inconsciente – o que sim, pode deixar a impressão de estar ouvindo a mesma música infinitamente.

Porém, basta deixar se levar pelas sombras musicais do álbum, que se torna fácil identificar como o melodic death metal da banda já deixou de ser o mesmo há muito tempo. As inserções progressivas apenas complementam as arrastadas passagens e as mudanças de andamento condizentes com as letras (algo próximo ao Amorphis e ao Enslaved, dentro da sua proposta), caminhando lado a lado com os momentos mais tranquilos cada vez mais presentes, importantes e eficientes, algo ligeiramente questionável anteriormente.

O sol está morto. E talvez fosse exatamente este caminho que o Insomnium precisava trilhar para encontrar o seu verdadeiro lugar de uma vez por todas.

Faixas:

1. The Primeval Dark

2. While We Sleep

3. Revelation

4. Black Heart Rebellion

5. Lose to Night

6. Collapsing Words

7. The River

8. Ephemeral

9. The Promethean Son

10. Shadows of the Dying Sun





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