
Para entender o surgimento de The Spiders, é preciso primeiro voltar ao México da década de 1960, um país dominado desde 1929 pelo PRI, que combinava modernização econômica com rígido controle político. À medida que as cidades cresciam e os jovens se abriam para o mundo, o regime se tornava cada vez mais autoritário, culminando no massacre de Tlatelolco em 1968, que cristalizou a desconfiança do governo em relação a qualquer forma de contracultura.
Musicalmente, o rock mexicano evoluiu de simples covers de standards americanos (os "refritos") para uma cena mais ousada, impulsionada pelo garage rock, psicodelia e energia elétrica bruta. Mas essa evolução ocorreu sob escrutínio: shows controlados, suspeita da mídia e pressão política. Foi nesse clima vibrante, porém repressivo, que surgiu The Spiders, uma das primeiras bandas a afirmar uma identidade verdadeiramente rock — vibrante e moderna — abrindo caminho para a cena nacional do final dos anos sessenta.
O grupo nasceu no início dos anos 60 em Guadalajara, inicialmente como uma banda cover dos Beatles e dos Rolling Stones. Os Spiders tocavam em cafés, cassinos e bailes estudantis, mudando de formação diversas vezes antes de se estabilizarem com Tony Vierling Hernández (vocal, guitarra rítmica), Reynaldo “El Tucky” Vélez (guitarra solo, gaita), Manuel Olivera (baixo), Servando Ayala Bobadilla (órgão, piano) e Enrique Chaurand (bateria).
No final da década, os Mexican Spiders se dedicaram ao trabalho: alguns singles notáveis e, em seguida, seu primeiro álbum pela RCA. Lançado em 1970 e simplesmente intitulado Back , revelou uma verdadeira joia do rock psicodélico cantado em inglês, onde a energia garageira se mistura com um apurado senso melódico e atmosferas cativantes.
O álbum abre e fecha com a breve e delicada “Thought”, como uma oração invocando um poder superior, emoldurada por uma gaita nostálgica e um violão acústico suave. Em sua essência, “Something I Heard (Last Night)” mescla rock ácido e pop melódico, apresentando guitarra inspirada, órgão surreal, piano romântico e vocais melancólicos pontuados por mudanças de ritmo.
“People Deceive” adota tons mais sombrios, pontuados por explosões majestosas e celestiais. O órgão e a guitarra elétrica criam uma paisagem sonora que é ao mesmo tempo sombria e luminosa. “On The Road”, em contraste, é meramente um interlúdio exótico, ideal para saborear um coquetel na praia. “Now” oferece um rhythm and blues romantizado, pontuado por explosões corrosivas e teclados arabescos que lembram Ray Manzarek, exceto quando se torna alucinatório e cru em “You Love Me”, ou galopa em “Movin' Up”, com sua pegada jazzística.
O álbum não deixa a desejar em baladas. Com seus sons góticos e desencantados, a faixa-título e "It's You" lembram o Procol Harum, enquanto "I'm A Man" se mostra ao mesmo tempo perturbadora e luminosa.
Mas o destaque deste LP é, sem dúvida, “Love Is The Way”, com mais de seis minutos de duração e flertando com o rock progressivo. Uma peça experimental e profética com influências de jazz, ela mescla o espírito peculiar do The Doors com o delírio do Pink Floyd, incorporando uma flauta que evoca a magia asteca, criando uma jornada sonora fascinante e atemporal.
Apesar da pressão de um clima político ainda repressivo, onde o PRI monitorava de perto os movimentos de protesto e a contracultura, The Spiders conseguiu criar um som original, inventivo e unificador, capaz de rivalizar com seus pares internacionais. Sua energia, sensibilidade melódica e criatividade fizeram de Back um marco essencial na história do rock mexicano, inspirando uma nova geração de bandas psicodélicas e progressivas.
Um disco histórico e atemporal, para ser ouvido em alto volume e sentir plenamente o som incandescente e de espírito livre que essas aranhas mexicanas foram capazes de libertar.
Títulos:
1. Thought (A Song)
2. Something I Heard (Last Night)
3. People Deceive
4. On The Road
5. Now
6. It’s You
7. Back
8. You Love Me
9. I’m A Man
10. Movin’ Up
11. Love Is The Way
12. Thought (Prayer)
Músicos:
Tony Vierling Hernández: Vocais, Guitarra
Reynaldo Díaz “el Tucky” Vélez: Guitarra, Gaita
Manuel Olivera: Baixo
Servando Ayala Bobadilla: Órgão, Piano
Enrique Chaurand: Bateria
Produção: The Spiders
Sem comentários:
Enviar um comentário