Quando a revista Rolling Stone soltou sua lista dos "50 Greatest Prog Rock Albums of All Time" e incluiu este álbum, houve uma certa comoção. Muitos nem conheciam a banda e o rótulo de "Flamenco Prog" pode soar bem ridículo. Mas o Carmen, de fato, fez essa mistura soar revolucionária em seu álbum de estreia, perseguindo a visão do cantor/guitarrista David C. Allen (auxiliado por sua irmã tecladista Angela Allen). Num grito glamouroso, a banda cantou histórias de touradas e ciganos, enquanto a música misturava mellotrons, Prog-Rock e sapateado/castanholas (com produção de Tony Visconti, então parceiro de David Bowie). Depois de lançar outros dois álbuns (e abrir para Santana e Jethro Tull), a banda acabou em 1975. Mesmo que "Fandangos In Space" tenha caído na obscuridade, alcançou uma nova geração de músicos (Mikael Akerfeldt, do Opeth, já declarou ter ficado maravilhado com o álbum). Vamos hoje contar a história desta banda.
David Clark Allen nasceu nos EUA em 1951 e fez conservatório onde estudou violão erudito e música Flamenca. Com sua banda, The Off-Beats, em Los Angeles/CA, ele gravou seu primeiro single, "You Tell Me" / "Mary" (lançado em jan/66, selo Tower Records). Ele tinha apenas 15 anos (!). Os Off-Beats ainda foram banda de apoio em dois álbuns da atriz/cantora Mae West, então com 73 anos de idade ("Way Out West", de jun/66, e "Christmas Album", de nov/66), ambos roqueiros, surfando na onda da Beatlemania e com os Off-Beats agora se chamando "Somebody's Chyldren". David C. Allen chegou a compor canções para esses álbuns. O Somebody's Chyldren seguiu com a inclusão da irmã de Allen, Angela, e gravou outros três singles. David, então, em 1967 montou outra banda, The Marianne, e, por dois anos, gravou oito singles para os selos Bell Records e EMI Regal Zonophone (o inglês David Mallet tornou-se produtor/empresário). Aos 18 anos, Allen formou o "Brave Butter" junto com seu chapa de sempre, Dennis Trerotola. Eles produziram dois singles. Em jul/70, ele começou aquela que seria sua banda mais famosa, o Carmen (nome tirado da famosa ópera francesa sobre a Espanha, "Carmen", de Georges Bizet, 1875). David C. Allen e Roberto Amaral tiveram a ideia da banda em torno de um interesse comum pela música espanhola e pelo Flamenco em particular. Originalmente, era uma banda de sete membros em Los Angeles, mas sem conseguir uma gravadora interessada nela, migraram para Londres, em jan/73, e logo a formação se estabilizou como um quinteto (David C. Allen nas guitarras/violões, sua irmã Angela Allen nos teclados/sapateado/danças, John Glascock no baixo, Paul Fenton na bateria, Roberto Amaral nos vocais principais/castanholas/danças). John Glascock, ex-Chicken Shack (banda já resenhada aqui no blog pelo brother Marcão em sua maravilhosa coluna "Tesouros Perdidos" - leia aqui), havia entrado na banda ainda em 72 em Los Angeles (depois, ele se tornaria, como todos sabem, baixista do Jethro Tull, onde tocaria entre 76-79, mas morreria tragicamente aos 28 anos por complicações decorrentes de um defeito cardíaco congênito). Ainda em Los Angeles, o irmão de John, Brian Glascock, era o baterista, mas ele preferiu ficar nos EUA quando a banda resolveu migrar para a Inglaterra e lá foi contratado Paul Fenton.
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| Fenton, Glascock e Allen (atrás), Amaral e Angela na frente |
Inicialmente, o Carmen foi um sucesso. Eles tocaram com David Bowie, fizeram turnê com Jethro Tull, trabalharam com um dos produtores mais badalados do mundo (Tony Visconti) e estrearam com um álbum que a crítica adorou instantaneamente... Este disco foi resultado de três anos aprimorando repertório influenciado por Genesis, Yes e Led Zeppelin. Tony Visconti produziu e ajudou muito o Carmen a concretizar sua visão musical no estúdio. Assim, surgiu "Fandangos In Space", produto de uma banda única que combinava música flamenca com Prog-Rock. Além disso, longas passagens instrumentais e havia toda uma coreografia de danças nos palcos. Música animada, seção rítmica forte, teclados sutis. Tudo muito incomum dentro do planeta Rock, uma fusão inédita até então. Enorme versatilidade, com destaque para o sensacional trabalho de guitarra de David C. Allen (bem agressivo, esqueça as sutilezas de Al Di Meola e Paco de Lucia), os teclados vintage de Angela Allen, percussões naturais incrementadas pelo sapateado.
Esta mistura diferente foi descrita como Rock Progressivo Flamenco, com toques glamourosos, histórias típicas e uma música de pirar cabeções. David C. Allen tocava guitarra roqueira, porém no estilo Flamenco, isto é, havia potência e intensidade (muito diferentes de um tocador de Flamenco acústico). Os ritmos de castanholas, palmas e sapateados adicionavam um colorido distinto, tudo muito bem integrado ao vocabulário do Prog-Rock. Ótimas harmonias vocais (em alguns momentos até em espanhol), muitas sutilezas e dinâmicas, guitarras ardentes, mini-suítes. Li que a explicação para toda essa influência de música Flamenca era decorrente de David e Angela virem de uma família de Los Angeles dona de um restaurante flameco (parece que o pai deles ainda tocava violão flamenco e a mãe era dançarina espanhola). A suíte de abertura de "Fandangos In Space" (em 3 partes, quase 5 minutos), "Bulerias", já indicava que o lado hispânico da banda apareceria fortemente ao longo do álbum. Em particular, a guitarra flamenca de David C. Allen seria uma presença constante. No entanto, eram as contribuições de Angela Allen que definiam o disco. Embora ela geralmente ficasse em segundo plano, aventurando-se ocasionalmente num ou noutro vocal principal, seu trabalho no Mellotron e sintetizadores fornecia uma base melódica poderosa faixa após faixa. Não conheço nenhuma banda que sirva como comparação com a música do Carmen, tal a natureza única desta. A faixa "Looking Outside (My Window)", outra com 3 partes e quase 7 minutos e meio, começava com uma guitarra espanhola bastante ortodoxa e, de repente, explodia numa peça de Rock com fortes harmonias e uma certa pitada de Curved Air. Letras em inglês se entrelaçavam com espanhol à medida que os climas mudavam dramaticamente. "Tales Of Spain" conseguia amontoar cerca de vinte mini canções diferentes no espaço de pouco mais de 5 minutos. Harmonias masculino/feminino refletiam raízes da Costa Oeste dos vocalistas, enquanto o dueto guitarra-Mellotron definia as bases escolhidas pela banda. A faixa título abria com um instrumental frenético e levava a algumas harmonias vocais intrigantes.
Música cativante, cheia de reviravoltas rítmicas, climas dramáticos e toda a mistura Flamenco-Prog. Pode não ser uma obra-prima, mas trata-se de um álbum fascinante e longe de ser cansativo, mesmo com toda sua mescla incomum de sons. Além disso, havia toda uma ética de arenas, sintetizadores espaciais, Hard Rock, psicodelia, muita emoção, falsetes, partes instrumentais. Não se trata de um Prog-Folk no sentido habitual e até se aproxima de um Glam Rock (espécie de fusão do Queen com o Jethro Tull, porém com ritmos e sabores flamencos).
A banda existiu até 1975 e gravou três álbuns (além deste "Fandangos In Space", houve "Dancing on a Cold Wind", de 74, e "The Gypsies", de 75). Quando a banda estava desfrutando de seu maior sucesso, se apresentando como atração de abertura em shows do Santana, Blue Öyster Cult e Electric Light Orchestra, excursionando por três meses abrindo para o Jethro Tull, uma série de eventos azarados começaram a ocorrer durante as gravações para "The Gypsies". O baterista sofreu um grave acidente, eles se separaram de Tony Visconti e o empresário também decidiu sair. A banda estava sendo abordada para suporte de uma turnê com os Rolling Stones e desanimou. Mais ou menos um ano depois, o Punk Rock agitou o mundo e ficou sem lugar para uma banda como aquela e com dançarinos no palco. A janela de oportunidade se fechou. De volta aos EUA, David C. Allen montou uma nova banda combinando Funk e ritmos flamencos empresariada por Herb Cohen, mas não conseguiu um contrato de gravações. Um duo com sua irmã Angela também não foi bem sucedido e David então começou a trabalhar como músico de estúdio (tocou guitarra no primeiro álbum solo de Michelle Philips, por exemplo). David retornou a Londres em 1980 e formou uma banda com Barry Barlow, baterista do Jethro Tull, e Chris Glen, baixista de Alex Harvey. Durante esse período, ele escreveu duas canções que foram usadas no álbum solo de Agnetha Fältskog (cantora do ABBA) em 83. David C. Allen abandonou o mundo do show business em 1983 ao descobrir um câncer de garganta e passar por uma cirurgia. Desde então, tornou-se fotógrafo bem sucedido. Somente em 2006, ele retornou à música com o álbum "Widescreen" (que gerou uma nova banda de mesmo nome entre 2007-11). Quando este projeto acabou, ele formou o "Flamexicano!"


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