quinta-feira, 2 de abril de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: Ibis - "Sun Supreme" (1974)

Ibis foi uma banda do Rock Progressivo nascida da separação (ocorrida em 1972) dos New Trolls. Nós já destacamos toda a formação e carreira do New Trolls até o lançamento do essencial álbum "Concerto Grosso per i New Trolls", em 1971 (leia aqui). Um trabalho de enorme sucesso (vendeu mais de 800 mil cópias) combinando música erudita com passagens que lembravam as grandes bandas Prog britânicas da época. Entretanto, em 1972, o baixista Giorgio D'Adamo deixou o grupo, sendo substituído por Frank Laugelli. Maurizio Salvi também se tornou membro neste período e foi com esta formação modificada (Vittorio De Scalzi no violão e sintetizador ARP; Nico Di Palo nas guitarras e vocais principais; Maurizio Salvi no piano, órgão Hammond e no cravo; Frank Laugelli no baixo e Gianni Belleno nas percussões) que os New Trolls lançaram dois álbuns seguintes, "Searching For a Land" (LP duplo, parte em estúdio e parte ao vivo) e "UT", ambos ainda em 72. Ambos eram muito bons e, junto com o "Concerto Grosso", representam o melhor da produção do grupo. Há até quem os prefira já que sem o produtor Sergio Bardotti, o maestro Luis Enríquez Bacalov e sua orquestra, os New Trolls focaram num som mais roqueiro (inspirado no ColosseumDeep PurpleLed Zeppelin e Jethro Tull), uma mistura de Hard Rock com elementos eruditos.
"Searching For a Land" era irregular, embora muito cativante (havia o LP de estúdio, bem acústico, e havia o LP ao vivo, uma pedrada áspera e crua, mas com o público mixado bem alto). "UT", gravado e lançado no final de 72, foi o trabalho da polarização e da divisão interna, que traria um fim provisório do grupo. O guitarrista De Scalzi desejava uma rota Prog mais eclética, enquanto o outro guitarrista (Di Palo) preferia uma abordagem mais Hard Rock. Esta divergência cresceu muito durante a gravação de "UT". Ainda assim, este álbum é considerado o ponto alto da carreira dos New Trolls por muitos, com um repertório realmente fantástico e que não deixa transparecer os conflitos de bastidores. De fato, "UT" trouxe algumas faixas matadoras, num álbum quase perfeito, sem dúvida um dos melhores em todo o Prog italiano, uma porta de entrada super recomendada para quem não conhece a banda. Por causa das divergências, eles se separaram e, durante o período 1973-76, se dedicaram a alguns projetos paralelos: Nico Di Palo, Frank Laugelli, Maurizio Salvi e Gianni Belleno lançaram o álbum "Canti d'innocenza, canti d'experience" em 73, enquanto Vittorio De Scalzi pretendeu continuar com o nome "New Trolls", mas teve problemas legais e teve que criar o "New Trolls Atomic System" (junto com o baixista Giorgio D'Adamo e mais Tullio De Piscopo na bateria, Renato Rosset nos teclados, Giorgio Baiocco nos sopros e Ramasandiran Somusundaran nas percussões). Lançaram dois álbuns e, também neste período, De Scalzi fundou o selo Magma, com sede em Gênova, e distribuído pela Dischi Ricordi
"Nico, Gianni, Frank & Maurizio: Canti d'Innocenza, Canti d'Esperienza..." foi, claro, um trabalho com musicalidade acima da média, tudo muito bem trabalhado, mas não era exatamente Prog Italiano como se espera. Esqueça momentos sinfônicos ou aquelas sutilezas tipicamente italianas. Havia sim teclados pesados, faixas complexas e pauleiras a la Deep Purple (a principal referência aqui). Veja, ainda não existia o grupo seguinte, o Ibis. "Canti d'innocenza, canti d'esperienza" era um trabalho feito por uma banda sem nome e daí o grande ponto de interrogação na capa e a divulgação apenas dos nomes dos integrantes. Musicalmente, era algo não tão distante do que os New Trolls fizeram em partes de "UT" (aliás, funcionava em grande parte como uma continuação com as influências eruditas e muito Hard Rock). Muitas mudanças de tempo, elementos eruditos, guitarras Hard na frente, órgão Hammond pesadão, seção rítmica bombástica, vocais feitos por três membros, tudo bem agressivo, áspero e esporrento. 
Ric Parnell e Di Palo (em cima); Salvi e Laugelli (embaixo)
Di Palo, então, formou o Ibis, que lançaria dois álbuns, entre 1973-75. A ideia era continuar com os elementos mais pauleiras (vocais berrados, guitarras Heavy, letras em inglês etc.). Na formação, além de Di Palo, ainda estavam Laugelli, Salvi e agora o baterista inglês Ric Parnell (do Atomic Rooster, com quem gravou "Made in England", de 72, e "Nice 'n' Greasy", de 73 - o baterista Belleno participou de outro projeto paralelo, "The Tritons", e também tocou com Fabrizio De André). O nome "Ibis" foi escolhido após enquete organizada entre os leitores da famosa revista "Ciao 2001". Eles conseguiram um contrato com a Polydor Italia (braço da gigante alemã-britânica) e lançaram o álbum de estreia, "Sun Supreme" em 74, todo em inglês. Dividido em duas suítes (uma em cada lado do LP), "Divine Mountain / Journey Of Life (Swift River Rushing, Flowing)", com 4 partes, e "Divinity (Dedicated To Satguru Maharaji And His Followers)", com 3 partes, o álbum tinha pouco mais de 36 minutos mágicos. Hoje, reconhecido como um dos grandes, porém esquecidos, álbuns do Prog italiano, "Sun Supreme", de fato, era um trabalho superior. Excelentes e barbarizantes performances, refrões multi vozes, guitarras Hard Rock, letras com temas religiosos orientais (baseando-se no líder espiritual nigeriano Guru Maharaj Ji e seus conceitos de ascenção do espírito via picos elevados de consciência interior - daí a metáfora da escalada de uma alta montanha sobre a qual, além das núvens, era possível ver e contemplar a divindade -, embora a música não tenha nada desta influência), atmosferas Yes (pense "Tales From Topographic Oceans"), tudo criando um embasbacante Hard Prog (o lado 1 é sensacional, o lado 2 é um degrau abaixo). Aliás, a forma como as partes das suítes se desenvolvem, como movimentos de uma composição, deixa uma questão: se era para soar tão absolutamente Prog, por que a separação tão amarga do New  Trolls? Enfim, um álbum de banda em que as faixas reforçam o conjunto num resultado muito bonito, com mellotrons maravilhosos, belo trabalho de guitarra, ótimos vocais (cantados em inglês, porque se esperava que pudesse lhes levar a uma carreira fora da Itália), gerando um Prog sinfônico clássico misturado com Hard Rock, uma joia esplêndida, num alto padrão de qualidade, música refinada. Sim, enormes influências britânicas (Yes, principalmente), mas em composições complexas e sólidas, num disco memorável. 
Nico Di Palo, Renzo Tortora, Frank Laugelli e Pasquale Venditto
Com outra formação (Nico Di Palo e Frank Laugelli mantidos, mas agora sem teclados e com Renzo Tortora nas guitarras-base, e Pasquale Venditto na bateria, ambos ex-Forum Livii), o Ibis lançou outro ótimo álbum, autointitulado (de 1975), geralmente considerado até como o seu mais bonito e maduro. O protagonista era o guitarrista/cantor Nico Di Palo com seus solos ardentes/selvagens e violões maravilhosos. Mantida a orientação Hard Rock (esqueça o lado sinfônico do Prog), agora sem um tecladista para temperar as coisas, mas com vários vocais em italiano e boa mistura de partes mais acústicas com outras soltando a pauleira. A história do Ibis chegaria ao fim com o retorno de Nico Di Palo (e também Gianni Belleno) aos New Trolls reformados em 1976 (Vittorio De Scalzi, Nico Di Palo, Ricky Belloni, Giorgio D'Adamo e Gianni Belleno novamente se juntaram ao maestro Luis Enriquez Bacalov e soltaram o álbum "Concerto Grosso nº. 2", uma continuação com bons momentos, porém inferior no todo ao nº. 1). Aliás, esta reunião das duas cabeças-mestras da banda, Vittorio De Scalzi e Nico di Palo, seguiu gerando frutos (e perdendo os elementos Prog em troca de uma direção Pop Rock) e mil idas e vindas.




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