quinta-feira, 2 de abril de 2026

Que fim levou? David Byron, do Uriah Heep

 

David Garrick, mais conhecido pelo seu nome artístico David Byron, foi o cantor do Uriah Heep, em sua melhor fase no início dos anos 70. David nasceu em 1947 na Inglaterra, em Epping, condado de Essex. Na escola, foi um destacado aluno em esportes (principalmente, no futebol). Do meio dos anos 60 até o final da década, fez trabalhos numa firma chamada "Avenue Recordings" gravando vocais principais e de apoio, onde ocasionalmente conheceu Mick Box (guitarra) e Paul Newton (baixo). Era comum gravarem covers de hits do Top 20 da época e lançarem EPs. Ainda em Epping, participou da banda semi-profissional "The Stalkers", que também contava com Box.
Mick Box, Paul Newton, Alex Napier (agachado) e David Garrick
Aliás, a dupla na sequência formou outra banda, "Spice" (entre 1967-69), que também contava com Newton no baixo e Alex Napier na bateria (antes de escolher o nome "Spice", outros nomes foram considerados, incluindo "The Play" e existem inclusive alguns acetatos de faixas gravadas na época e creditadas a "The Play"). A banda fez muitos shows localmente sob a gestão do pai de Paul Newton e conseguiu um contrato de gravação com a United Artists, que lançou o único single deles, "What About The Music/In Love" (em nov/68, hoje ultra raro). Decidindo que o som do Spice precisava de teclados, eles recrutaram o tecladista/guitarrista/cantor/compositor Ken Hensley, que fora colega de banda de Newton no "The Gods". Foi aí que Byron renomeou a banda para "Uriah Heep", um nome tirado do romance de Charles Dickens, "David Copperfield" (publicado originalmente entre 1849-50).
Entre 1969-76, Byron cantou em dez álbuns do Uriah Heep: "Very 'eavy Very' Umble", "Salisbury", "Look at Yourself", "Demons and Wizards", "The Magician's Birthday", "Live", "Sweet Freedom", "Wonderworld", "Return To Fantasy" e "High and Mighty". Em mar/75, Byron lançou seu primeiro álbum solo, "Take No Prisoners", que também contou com a participação de outros membros do Heep.
Este primeiro lançamento solo de David Byron, soou em grande parte como um disco do Uriah Heep, com seus Hard Rocks robustos e movidos por órgãos (como "Silver White Man" e "Hit Me With a White One"). Portanto, não ficaria deslocado como um álbum típico da banda desse período. Aliás, o fato de todos os então membros do Uriah Heep fazerem pelo menos uma aparição ajudava ainda mais nesta conclusão. Mais surpreendente era o quão sólido/consistente ele era para um empreendimento solo entre álbuns. Já começava poderosamente com "Man Full of Yesterdays", um Rock meio-tempo com um arranjo melancólico/dramático que combinava um som emocional movido por mellotron com letras autobiográficas. A partir daí, Byron combinava habilmente seus Rocks no estilo Heep com uma variedade de experimentos de Rock e Soul que combinavam bem com faixas mais tradicionais: "Steamin' Along" abordava o Funk com uma habilidade surpreendente, enquanto "Saturday Night" adicionava um toque agradável de Country-Rock ao seu ataque de Rock & Roll amplificado. "Love Song" provava que Byron poderia fazer uma balada direta com sensibilidade surpreendente e benefícios adicionais de um arranjo adorável construído sobre um som suave de cravo. Muitos Rocks afiados eram intercalados entre essas faixas experimentais, sendo a melhor “Midnight Flyer”, um Rock habilmente arranjado que alternava versos assustadores e de ritmo médio com um refrão escaldante para criar uma explosão emocionante de Hard Rock. No geral, "Take No Prisoners" carece de um single inovador ou de elementos de expansão de gênero que normalmente conquistam o ouvinte casual, mas é um álbum bem elaborado que definitivamente agradará os fãs de Uriah Heep. Em paralelo, Byron também ganhou a reputação de beber muito, o que o levou a ser demitido do Uriah Heep no final de uma turnê pela Espanha, em jul/76 (houve um desentendimento final com o tecladista Ken Hensley, supostamente devido ao seu comportamento cada vez mais errático e ao consumo excessivo de álcool).
Ken Hensley disse na época: "David é uma daquelas típicas pessoas que não consegue enfrentar o fato de que as coisas estão erradas e aí procurou consolo na garrafa". Antes de sua demissão, o Uriah Heep procurou garantir John Lawton como cantor substituto. Seu empresário na época, Bron, disse que Byron foi dispensado "no melhor interesse do grupo". Bron explicou que Byron e os outros membros do Uriah Heep estavam em desacordo, há algum tempo, sobre questões fundamentais de política de grupo, e que as diferenças finalmente chegaram ao auge, após a então recente turnê da banda pela Grã-Bretanha e Europa. "O resto do grupo sentiu que não conseguia mais conciliar a atitude de David com a sua própria", comentou Bron.
A partir daí, Byron se juntou ao ex-guitarrista do Colosseum/Humble Pie, Clem Clempson, e ao ex-baterista do Wings, Geoff Britton, para formar o Rough Diamond. Era na realidade um supergrupo e sua formação gerou alarde em 76: Dave Clempson (guitarras) vinha do Bakerloo, do Colosseum e do Humble Pie. Damon Butcher (teclados) vinha do Steve Marriot's All Star. Willie Bath (baixo) e Geoff Britton (bateria) era ex-Wings. Eles gravaram um LP autointitulado para a Island Records em mar/77. Mas tudo deu errado. O lançamento foi prejudicado por um processo judicial movido por outro grupo que reivindicava o mesmo nome e o atraso minou a confiança do quinteto. O álbum foi decepcionante vendeu mal. Seu lançamento aconteceu durante a explosão do Punk Rock, o que exacerbou os problemas. A banda buscou algum sucesso nos EUA, mas o atrito de Byron e seus colegas logo deixou tudo intransponível. Byron então saiu e embarcou numa carreira solo em out/77 (os membros restantes adicionaram Garry Bell e adotaram um novo nome, "Champion", e lançaram outro álbum pela Epic Records, em 78).
"Baby Faced Killer" (de 1978) foi o primeiro álbum solo pós-Uriah Heep e encontrou o cantor experimentando uma série de novos estilos musicais numa tentativa de estabelecer uma nova identidade musical. Trabalhando com o produtor/multi-instrumentista Daniel Boone, Byron criou um álbum que era muito mais Pop e musicalmente ambicioso do que o Hard Rock gótico que lhe rendeu fama. Na verdade, "Baby Faced Killer" era uma verdadeira extravagância de gênero, cobrindo territórios tão diversos quanto Rockabilly (“Rich Man’s Lady”), Pop puro (“Heaven or Hell”) e até Disco (“African Breeze”). Surpreendentemente, o álbum conseguia fazer jus a esse senso de ambição, porque suas canções eram cativantes, bem elaboradas e trazidas à vida com arranjos imaginativos. Os destaques incluíam "Only You Can Do It", uma faixa que equilibrava riffs de guitarra no estilo Uriah Heep com uma melodia Pop repleta de harmonia, e "African Breeze" criava uma melodia insidiosamente cativante ao sobrepor ritmos tribais e cantos sobre um fundo de sintetizador percolado. A desvantagem era Byron tentar fazer tanto num álbum, que nunca estabelecia uma identidade geral forte e isso limitava o apelo: era um pouco pesado demais para os fãs de Pop e muito astuto e orientado para o Pop para satisfazer um público de Hard Rock. Ocasionalmente, também caía na imitação de estilos que explorava. O exemplo mais notável era "Heaven or Hell", que seguia a melodia de "Turn to Stone" da Electric Light Orchestra um pouco próxima demais para seu próprio bem. Apesar desses problemas, "Baby Faced Killer" continua sendo um álbum estiloso e agradável que representa o melhor trabalho de David Byron pós-Uriah Heep.
Em seguida, Byron se juntou ao guitarrista Robin George para formar a The Byron Band, que assinou contrato com a Creole Records (um selo que talvez tenha sido uma escolha inadequada, já que se especializou no Reggae antigo, apresentando artistas como Sugar Minott e Max Romeo) e estreou com o single "Every Inch of the Way/Routine". Foi seguido pelo single "Never Say Die/Tired Eyes", antes do lançamento do álbum "On the Rocks", em 81. No entanto, como aconteceu com sua banda anterior, Rough Diamond, não houve aclamação crítica, nem comercial. Uma pena, afinal hoje reouvi-lo é não apenas revigorante, mas também surpreendente descobrir quão bom ele soa. Embalado por alguns dos riffs mais ameaçadores de sua carreira - confira "King" - e uma voz que ruge do lado certo da raiva, "On the Rocks" tem o som do clássico Heep, repleto de adrenalina fresca da NWOBHM e um ouvido para o que estava acontecendo em outras partes do mundo. "Start Believing" se sobrepunha ao sax de Mel Collins para adicionar uma sensação quase funky aos procedimentos, mesmo quando "Piece of My Love' ecoava no piano Blues, enquanto "Bad Girl" era simplesmente furtiva. Reedições acrescentaram três faixas-bônus mantendo o clima quente e animado e o livreto catapulta o ouvinte de volta às sessões e à criação do que deveria ter sido uma banda muito maior do que jamais foi permitido se tornar. Em 81 ainda, Mick Box e Trevor Bolder convidaram Byron para voltar ao Uriah Heep, após Ken Hensley sair, mas Byron recusou. 
No final de 83, Richard Manners (da Blue Mountain Music) pediu a Richard "Digby" Smith (do Rough DiamondFree, Sammy Hagar, Mott The Hoople) que montasse uma banda e gravasse algumas faixas com Byron. O grupo incluiu Neil Conteh (bateria, Jagger/Bowie), Alan Spenner (baixo, Joe Cocker, Roxy Music), Tim Renwick (guitarras, Elton John/Eric Clapton/Pink Floyd), John "Rabbit" Bundrick (teclados, Free/Roger Waters/The Who), mais as Chanter Sisters nos backing vocals. "That Was Only Yesterday – The Last EP" (lançado em 2008, mas gravado em fev/84, no Power Plant Studios, em Londres, um ano antes de sua morte) trouxe as últimas gravações de Byron. Apenas 3 faixas/covers: "That Was Only Yesterday" (Gary Wright), "Waiting for the Sun" (Jim Morrison) e "Pride and Joy" (Marvin Gaye). Ainda surgiu "Lost and Found" (em 2003), um álbum duplo com demos e gravações ao vivo da Byron Band, feitas entre 1980-82.  Byron morreu em sua casa em Berkshire, em fev/85, de complicações ligadas ao consumo de álcool, incluindo lesão hepática complicada com epilepsia. Ele tinha 38 anos. 





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