"Fourth" (lançado em fev/71 - já comentado na postagem anterior - leia aqui) foi acompanhado de uma turnê pela Holanda e Alemanha, em mar/71, gravando no Gondel Filmkunst Theater, em Bremen, para o famoso Beat Club TV Show. Na volta, a banda seguiu fazendo shows pela Inglaterra (Guildford, Manchester, Londres, Brighton, Watford, Bournemouth, Newcastle-Upon-Tyne, Leeds etc.). Em jul/71, houve uma turnê pelos EUA (NYC, várias cidades de Ohio, Detroit/MI, Chicago/IL, Boston/MA, Houston e San Antonio no Texas) na qual as diferenças musicais quanto a direção musical do grupo saíram de controle e Robert Wyatt foi expulso em ago/71 (ele já vinha há algum tempo infeliz com suas ideias musicais sendo rejeitadas pelos outros). Ele participaria, na sequência, da big band Fusion Centipede, antes de formar sua própria banda, a Matching Mole (um trocadilho em francês para "Soft Machine", que ele alegou na época ter sido tirado do equipamento de iluminação de palcos "Matching Mole"). Em 73, ele teria o fatídico acidente na festa de Gilli Smyth (do Gong) que o deixaria paraplégico e embarcou numa elogiada carreira solo em 74. Wyatt foi substituído pelo baterista australiano Phil Howard. Com ele, a Soft Machine (agora Elton Dean, Hugh Hopper, Phil Howard, Mike Ratledge) excursionou pela Europa no final de 71 e começou a gravar o álbum seguinte, mas novas divergências musicais levaram Howard a ser demitido após a gravação do lado 1 de "Fifth" no início de 72, com o lado 2 sendo gravado por seu substituto, John Marshall. A banda seguiu em turnê pela Itália e França e "Fifth" só foi lançado em jul/72.
Neste álbum, a banda continuou seu progressivo distanciamento de sua mistura original de Rock psicodélico e Rock Progressivo em direção ao Jazz Fusion. Foi basicamente isto que gerou todo o conflito com Wyatt (insatisfeito com esta direção). "Third" já havia o incomodado, mas "Fourth" invadiu profundamente o território do Jazz-Rock e este "Fifth" apresentou a Soft Machine trabalhando quase completamente no idioma do Jazz. Na época da saída de Wyatt, o tecladista Mike Ratledge comentou que ele "nunca gostara ou aceitara trabalhar em compassos complexos". Entretanto, seu substituto escolhido, Phil Howard, provou também não ser o cronometrista que Ratledge e Hugh Hopper (baixo) tinham em mente e toda aquela orientação para o Free Jazz levou à sua demissão durante as gravações. Os ritmos propulsivos de Howard, no entanto, deram uma contribuição vital para o álbum. Composições de Ratledge como "All White" e "Drop", à medida em que ganhavam impulso, se fundiam em grooves de condução ("All White" era focada muito na performance no sax de Elton Dean, enquanto "Drop" mostrava o órgão cheio de Fuzz de Ratledge). Em certas partes do álbum, parecia haver um elemento de tensão entre a abordagem mais estruturada de Ratledge e Hopper e as inclinações de forma livre de Dean. Seu estilo mais solto e radical ficava enfatizado em "As If", outra canção de Ratledge. Sim, sei que há muitos roqueiros que preferem os lançamentos anteriores da banda por considerar tudo que veio de "Fourth" em diante menos atraente (e não estarem interessados tanto em Jazz), mas destaco não ser justo o descarte puro e simples. Claro, não era um álbum de Rock, nem mesmo de Jazz-Rock - era essencialmente um álbum de Jazz, com os músicos mais preocupados com as texturas e as interações, mas ainda assim um trabalho de alta qualidade. No final de 72, Dean saiu da banda e foi substituído por Karl Jenkins (que também tocava teclados, além dos saxes). Dean era um grande improvisador e estava ficando insatisfeito com as composições de Ratledge e Hopper, presas a riffs e ritmos, e ele desejava uma direção mais solta e livre.
"Six", lançado em fev/73, totalmente instrumental e com metade contendo material ao vivo. Foi um álbum duplo e o primeiro com Karl Jenkins (que eventualmente se tornaria o líder da banda e seu principal compositor após a saída do último membro original, Mike Ratledge, em 76). Tanto Karl Jenkins, quanto o baterista John Marshall haviam anteriormente sido companheiros no Nucleus, banda inglesa de Jazz-Rock liderada pelo trompetista Ian Carr. Agora, não existia mais a Soft Machine da época de Robert Wyatt. A banda era puro Jazz Fusion bem distante de qualquer coisa que parecesse Rock psicodélico. Esta "era Jazz" da Soft Machine, que começara no "Fourth", com estruturas musicais de improvisação livre dentro de um formato Fusion relativamente restrito, mudou muito com o novo membro Karl Jenkins, com seus saxes e suas composições, e seu foco total no Fusion. Metade ao vivo (gravado em Brighton e Guildford, em out-nov/72) e metade em estúdio (gravado no CBS Studios, em Londres, entre nov-dez/72), "Six" nunca irá interessar aos partidários da "era clássica", mas a dupla Jenkins-Marshall conduziu os veteranos Ratledge-Hopper através de exercícios Fusion até bem bacanas (para fãs do gênero).
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| Karl Jenkins, John Marshall, Mike Ratledge e Hugh Hopper |
Hugh Hopper saiu em mai/73 (ele trabalharia com diversos outros grupos: East Wind, Isotope, Gilgamesh, Carla Bley Band, projetos cooperativos de Elton Dean, Pip Pyle, Phil Miller, diversos grupos voltados ao Jazz-Rock). As inevitáveis mudanças de direção musical e principalmente a perceptível diminuição de uma "estranheza" no som da anda levaram à saída de Hopper. Assim, ele explicou: "A Soft Machine se tornou uma banda de Jazz-Rock bastante comum, sem peculiaridades ou estranhezas suficientes. Eu era muito influenciado pelo 'Uncle Meat' e 'Hot Rats' do Zappa, mas todo aquele território Jazz-Rock depois foi se tornando bem desvalorizado. Para mim, as melhores composições eram uma soma de estranheza com boas ideias. Zappa era assim. Mas éramos bons músicos tecnicamente, porém sem aquela estranheza. Eu realmente não estava interessado na música que Jenkins, Ratledge e Marshall estavam interessados. E eles nem eram particularmente meus amigos. Então, as duas razões para se estar na banda desapareceram, isto é, tocar boa música que te interessa e ser amigo dos caras que estão contigo". Ele foi substituído por Roy Babbington (outro ex-Nucleus), que tocava um baixo de seis cordas, enquanto Karl Jenkins virou líder e principal compositor. As gravações para o álbum seguinte aconteceram em jul/73 no CBS Studios, em Londres.
Lançado em out/73, "Seven", manteve a linha Jazz Fusion (seria o último álbum deles com a sequência de títulos numerados e também o último pela Columbia Records). Jenkins impôs uma noção de que a banda deveria continuar avançando no Fusion. Ele pilotou o oboé, sax (barítono e soprano), gravadores, pianos (Fender Rhodes e Hohner Pianet), entretanto sem igualar Elton Dean como improvisador. Em "Seven", sete das doze faixas eram composições dele. Ratledge só compôs quatro e claramente abriu mão de sua liderança. Após o lançamento deste álbum, a banda trocou de gravadora (Columbia por Harvest). Em dez/73, Karl Jenkins pinçou o guitarrista Allan Holdsworth (outro ex-Nucleus) e a Soft Machine se tornou um quinteto: Roy Babbington (baixo), Allan Holdsworth (guitarra), Karl Jenkins (sopros e líder), John Marshall (bateria) e Mike Ratledge (teclados). A entrada de Holdsworth representou significativa mudança na sonoridade da banda já que a guitarra se tornou um instrumento proeminente (lembrando às vezes a Mahavishnu Orchestra, de John McLaughlin), diferenciando o novo som de tudo o que a banda já havia gravado antes (considerando-se também que a guitarra era um instrumento ausente dos álbuns da Soft Machine desde o "Volume Two", de 69).
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| Karl Jenkins, Mike Ratledge e John Marshall (atrás), Allan Holdsworth e Roy Babbington (frente) |
Esta formação gravou "Bundles" em jul/74 (o álbum foi lançado em mar/75). Tendo somente Mike Ratledge como membro fundador e todos os demais membros tendo feito parte do Nucleus (um combo de Jazz-Rock inglês), este trabalho foi outro choque. Sim, na discografia da banda, esta fase Jazz-Rock é menos respeitada do que os três primeiros com Robert Wyatt. Há quem não goste de "Fourth" porque Wyatt não canta nele (e os vocais do baterista eram de uma lindeza extraordinária). Há quem não curta a banda depois que Hugh Hopper substituiu Kevin Ayers. Há quem deteste tudo após a entrada de Karl Jenkins. "Bundles" faz parte dos três últimos que a Soft Machine lançaria (seria o último com Mike Ratledge) - ainda haveria "Softs", de 76, e "Land of Cockayne", de 81. "Bundles" foi como um novo começo, considerando a mudança de gravadora, até mesmo o nome da álbum (quebrando a tradição de números), a adição do guitarrista Allan Holdsworth... Aliás, Holdsworth não perdeu tempo em impressionar com sua chegada. Tocando notas únicas em "Hazard Profile, Part One" (faixa de abertura baseada numa composição de Jenkins para o Nucleus), ele arrepiava insanamente rápido de uma maneira que qualquer outro teria dificuldades em acompanhar (putz, Holdsworth se colocava no nível de Fusion guitar players ases como John McLaughlin e Al di Meola, sem dúvida). E isto forneceu imediatamente o exato choque necessário. Se "Seven" era algo sem brilho, com Jenkins tocando seus sopros de maneira moderada e pouco assertiva, agora em "Bundles" aquela mesma formação acrescida de Holdsworth se tornara incendiária. Mike Ratledge abandonou seu antigo órgão com Fuzz e o trocou por um sintetizador analógico. Sim, o papel do tecladista vinha sendo cada vez menor, mas além do novo guitarrista, o baterista Marshall também resolveu soltar a mão conquistando o centro das atenções (vide na faixa "Four Gongs Two Drums"). No todo, "Bundles" trouxe um Jazz-Rock elegante e aerodinâmico que não remetia à clássica fase da Soft Machine, mas que abria uma tremenda nova perspectiva de futuro para a banda. Infelizmente, as coisas não fluíram tão bem assim e Holdsworth iria embora antes mesmo do álbum seguinte (na primavera de 75 para ingressar no The New Tony Williams Lifetime - banda fundamental no desenvolvimento do Fusion que contou com vários músicos notáveis de Jazz e do Rock), assim como Ratledge (em mar/76).






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