“Hitler foi a primeira grande estrela do rock. Veja que ele se move como Mick Jagger”. A afirmativa é de David Bowie, em uma entrevista para a Playboy, em 1976. A associação de cenas e personagens do mais importante fato da humanidade no século 20 à música não ficou apenas nessa polêmica declaração do camaleão. Um documentário musical foi produzido no mesmo ano, com a justaposição de imagens da segunda Guerra Mundial à música dos Beatles. Produzido pela Fox, o filme All This and World War II foi um fracasso de crítica e público, mas gerou um álbum que é uma das maravilhas esquecidas. A trilha sonora é sensacional, fez algum sucesso e gerou recursos para cobrir os prejuízos da produção cinematográfica.
Dirigido por Susan Winslow, a produção partiu da ideia do próprio executivo da 20th Century Fox, Russ Reagan, que afirmou sonhar com as impressionantes cenas da Segunda Guerra ao som dos Beatles, especialmente as de heroísmo, como Fool on the Hill ilustrada pelas comoventes imagens da libertação de Paris pelos aliados sob o olhar desolado do Fuhrer. Ou Here Comes The Sun, enquanto os aviões japoneses deixavam seu porta-aviões para atacar Pearl Harbor.As imagens foram escolhidas a dedo de programas noticiosos, documentários e filmes dramatizados sobre o conflito, que recheavam os arquivos da gigante do cinema. John Lennon e Paul McCartney chegaram a atuar como consultores no início do projeto, mas a grande sacada da produção foi a de utilizar versões de outros artistas para as eternas canções dos Beatles que ilustram o filme. Assim, temos a estreia solo de Peter Gabriel, recém-saído do Genesis, em uma magistral versão de Strawberry Fields Forever. Também marca presença a voz rouca e bluesy de Rod Stewart, então no auge de seu sucesso, com um cover pra lá de audacioso para Get Beck. Sem falar na potente e inspiradora entonação de Come Together com Tina Turner.
O álbum só foi lançado em CD em 2006, mas rapidamente sumiu do mapa e hoje custa uma pequena fortuna, tanto quanto o LP, este com um acabamento gráfico muito bacana e muito difícil de encontrar. Frank Valli, The Four Season, Jeff Lyne e belas intervenções de um surpreendente Leo Sayer completam a lista de músicas, entre tantos outros menos afamados, mas que mantêm a bola no alto. Algumas das pérolas contidas no disco acabaram saindo em singles e coletâneas diversas de tributos aos Beatles, que inundaram o mercado fonográfico ao longo dos anos, mas a maioria permanece exclusiva a esta trilha sonora.
O filme jamais teve lançamento mundial. O fracasso inicial de bilheteria limitou sua exibição a apenas 3 semanas em alguns cinemas das maiores cidades americanas. Mas a trilha sonora compensou a frustação, pontificando nas principais lojas do mundo. No Brasil dos milicos não vendeu muito por se tratar de um álbum duplo e caro, apesar do rico conteúdo. Me lembro de vê-lo com toda a pompa nas vitrines da Billboard, no Rio e da nossa lendária Billbox, em Juiz de Fora, mas nunca dei muita bola. Na época, minha verve beatle estava adormecida e meus ouvidos estavam voltados para o rock mais pesado. Recentemente me deparei com o CD no Museu do Disco, em Juiz de Fora, por míseros 30 merréis. Ao chegar em casa descobri que era uma versão caprichadamente pirata, mas tudo bem. Por hora é com ele que me contento com bastante satisfação, afinal é uma verdadeira pepita musical.


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