sexta-feira, 12 de junho de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: SBB - "Pamięć" (1976)

 


O SBB foi uma das mais importantes bandas polonesas dos anos 70. Fundada em Siemianowice, na Polônia, no início de 1971, inicialmente a sigla significava Silesian Blues Band.
Anthimos, Piotrowski e Skrzek
Na formação, estavam Józef Skrzek (baixo, teclados, compositor e vocalista), Apostolis Anthimos (guitarras) e Jerzy Piotrowski (bateria). Nos primeiros meses, ainda havia Ireneusz Dudek (gaita). Com ajuda do engenheiro de som Grzegorz Maniecki e do empresário Piotr Marzec, eles conseguiram fazer suas primeiras gravações numa rádio de Varsóvia, em jul/71 (essas gravações não sobreviveriam nos arquivos da rádio). No final de 71, após alguns shows, a banda foi notada por Czesław Niemen, artista com grande carreira desde os anos 60 (tanto na Beat Music, quando depois na chamada "música de protesto"), então um dos mais importantes músicos/compositores da Polônia, que lhes convidou para um trabalho cooperativo.
Entre dez/71 e ago/73, o conjunto formado pelo trio SBB, mais Niemen (vocais, órgão Hammond) e ainda Helmut Nadolski (contrabaixo) - Andrzej Przybielski (sopros) participou apenas pontualmente - excursionou pelo país assim como pela Europa. Durante este período, o combo chamado apenas "Niemen" gravou três álbuns Prog aclamados "Niemen vol. 1 e vol.2" (ambos relançados em 94 como "Marionetki"), "Strange Is This World" (de 72) e "Ode To Venus" (de 73), estes dois últimos cantados em inglês. Nesta produção, elementos de Blues e psicodelia conviviam com outros de Jazz e música de vanguarda.
Após esta fase, os artistas se separaram, mas Skrzek permaneceria amigo de Niemen (até sua morte em 2004). Então, o importante jornalista polonês Franciszek Walicki (muito voltado à música jovem) se interessou pela Silesian Blues Band e ofereceu-se para empresariá-los. Oficializou a redução do nome para apenas a sigla SBB e criou um lema para a banda: "Szukaj, Burz, Buduj" (em polonês, cuja tradução é "Pesquisar, Demolir, Construir". Na virada de 73 para 74, o violinista Jan Błędowski se agregou a eles e é dessa formação as primeiras gravações (em dez/74, na rádio Warsóvia). Já sem Błędowski, a banda fez sua estreia em fev/74 no ginásio Hala Wisły, em Cracóvia.
O álbum de estreia, intitulado simplesmente "SBB", gravado em dois shows (18-19/abr/74) no Stodoła, em Varsóvia (ou seja, uma gravação ao vivo), vendeu espantosamente bem e esgotou a prensagem instantaneamente, gerando um preço quatro vezes maior no mercado negro (selo "Polskie Nagrania Muza", uma entidade governamental - lembrando que a Polônia foi um país de regime comunista entre 1947-89). No lado 1, "Odlot" (tradução: partida), uma longa faixa de quase 20 minutos, perpassando por piano e vocais blueseiros, solo de bateria matador, diversos climas e ritmos, baixo com Fuzz, guitarras rascantes, tudo num desempenho retumbante. No lado 2, "Wizje" (tradução: visões) era outra longa suíte, mais barulhenta, mais experimental, porém mantendo toda a interação e desempenho em altíssimo nível. Os caras quebravam tudo mesmo! Era uma espécie de Blues-Rock com elementos de Jazz e psicodelia (pense em Jimi Hendrix e Mahavishnu Orchestra), repleto de solos improvisados e fragmentos líricos. 
Neste ponto, o SBB iniciou uma turnê pela Alemanha Ocidental com grande sucesso, seguida de shows na Polônia, Tchecoslováquia, Hungria e até na Suécia. O passo seguinte foi o real primeiro álbum de estúdio, "Nowy Horyzont" (tradução: novo horizonte), lançado em 75 (gravado entre set/74 e jan/75 na rádio pública polonesa e nos estúdios da Polskie Nagrania, ambos localizados em Varsóvia), agora sim uma real incursão no mundo do Prog-Rock. O álbum combinava elementos de Jazz-Rock com música erudita e arranjos orquestrais, faixas amplamente instrumentais e muito virtuosismo. Então, esqueça as improvisações intermináveis da estreia. Agora, o som era totalmente estruturado. O lado 1 continha quatro faixas de curta e média duração nas quais o grupo demonstrava habilidades em misturar um Hard Rock cheio de groove com um Psych-Prog baseado em teclados e composições instrumentais de intenso poder. A guitarra madura de Anthimos, a sólida bateria de Piotrowski, os ritmos dinâmicos, os solos de órgão, o estilo energético, climas psicodélicos, gaita, tudo com muita qualidade. No lado 2, uma única suíte de 20 minutos, "Wolność z nami" (tradução: liberdade conosco), que resumia este Prog da banda. Abria com um piano enfático de Skrzek, continuava com seus vocais e depois ganhava a cuidadosa guitarra de Anthimos, misturada no belo trabalho de piano, baixo, teclados (de Skrzek), tudo bem melódico, até na segunda parte na qual o SBB apresentava seu lado de vanguarda. Piano, sintetizador, efeitos proporcionavam uma paisagem sonora estranha, antes do trio retornar com sua força Hard em exibição total. Tudo fechava com uma bela performance de Skrzek no piano. Uma gravação inovadora, com envolvimento político nas letras, mantendo ainda influências Fusion (pense Mahavishnu Orchestra), mas agregando Space Rock (pense Pink Floyd) e muitas influências sinfônicas, entretanto com atmosferas mais abstratas. 
No final de 75, o SBB retornou ao estúdio o que resultou no segundo álbum, "Pamięć" (tradução: memória). Apenas três longas canções, todas com arranjos sinfônicos completos e maduros, teatralidade vocal e longas passagens espaciais/atmosféricas. "Pamięć" é frequentemente citado como uma obra-prima do Prog do leste europeu. Ainda que não se trate de um trabalho complexo, isto não o torna menos atraente/cativante. O lado Space Rock, as qualidades dramáticas, os climas pacientemente construídos nas canções, os sintetizadores dominantes (Skrzek era claramente o instrumentista principal, mas ele deixava aos outros dois amplo espaço para se apresentarem), as rajadas ocasionais de ritmos (aliás, a dinâmica geralmente imprevisível), vocais cheios de convicção (às vezes frágeis, às vezes triunfantes, às vezes carregando lamento/melancolia), com momentos esmagadoramente belos. Entusiastas dos sintetizadores analógicos irão pirar com a sonoridade setentista. 
No lado 1, "W Kołysce Dłoni Twych (Ojcu)" (tradução: no berço de suas mãos - para meu pai), de mais de nove minutos, e "Z Których Krwi Krew Moja" (tradução: de cujos sangues, meu sangue), com mais de dez minutos. No lado 2, "Pamięć w kamień wrasta" (tradução: memória cresce em pedra), com quase vinte minutos. Composições brilhantes (muito mais do que apenas vitrine para Skrzek) nas quais a química da banda atinge pontos de pico em todo lugar. Aliás, o equilíbrio instrumental é um aspecto a ser destacado, tudo trabalhando para a força da música. 
O uso da língua polonesa acabava tornando o resultado rico em texturas e sentimentos. Passagens sombrias, andamentos súbitos, interlúdios, solos contagiantes. Uma gravação ambiciosa para a Polônia daquela época. O SBB tornava-se reconhecível e conquistava fama. Som vintage inventivo, sólido, movimentos jazzy (sem exageros), outros Psych-Hard-Blues, mas com grandes resultados, climas hipnóticos, temas espaciais e solos de grande impacto. O SBB crescia a olhos vistos e "Pamięć" capturou a banda em sua máxima forma. Altamente recomendado. 
OBS.: Após este álbum, a banda continuou no mesmo nível em "Ze Słowem Biegnę Do Ciebie" (de 1977 - tradução: com a palavra, eu corro para você), de apenas duas faixas, cada uma ocupando um lado do LP. Aliás, "Ze Słowem Biegnę Do Ciebie" e "Pamięć" são os melhores deles. 



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