quarta-feira, 17 de junho de 2026

Santana: aclamados pioneiros da combinação Blues, Rock e música latina

 

Em abr/70, a banda Santana retornou ao estúdio para gravar seu segundo álbum, "Abraxas" (lembrando que o álbum de estreia havia sido gravado em mai/69 e lançado em 22/ago/69). Este novo trabalho trouxe uma versão retrabalhada para "Black Magic Woman", canção originalmente escrita por Peter Green, guitarrista inglês, que havia a apresentado primeiro num single de sua banda, o Fleetwood Mac, em mar/68, e depois ela reapareceria nas coletâneas "English Rose" (para o mercado dos EUA) e "The Pious Bird of Good Omen" (para o mercado do Reino Unido). "Black Magic Woman" havia tido como inspiração uma namorada de Peter Green, Sandra Elsdon, a quem ele apelidara de "Magic Mamma". Era uma canção influenciada por "All Your Love" (de Otis Rush), que por sua vez havia sido gravada dois anos antes pela antiga banda de Green, John Mayall & the Bluesbreakers (embora com Eric Clapton, antecessor de Green, na guitarra solo da banda). Carlos Santana admirava o trabalho de Peter Green no seu Fleetwood Mac por tê-lo visto ao vivo no Fillmore West, em SF, e decidiu fazer um cover de "Black Magic Woman" (adicionando o instrumental de "Gypsy Queen", de Gábor Szabó, no final). A canção foi um tremendo sucesso e foi ao nº. 4 das paradas nos EUA quando lançada em set/70, depois atingindo o nº 1. A cena Rock da área da baía de San Francisco no final dos anos 60, início dos anos 70, realmente incentivou a experimentação. Quando se observa quão diferentes soavam Santana, Jefferson Airplane, Moby Grape e Grateful Dead (só para citar alguns) fica óbvio isto. Um álbum tão eclético quanto "Abraxas" em outros tempos seria considerado o pior pesadelo de uma gravadora. Mas ali, naquela época, aquela mistura pouco ortodoxa de Rock, Jazz, Salsa e Blues provou ser um enorme sucesso. "Oye Como Va" havia sido um sucesso com Tito Puente no início dos anos 60 e a banda acabou incorporando-a ao vivo por perceber que o público curtia e adorava dançá-la. "Incident At Neshabur", um abraço ao Jazz-Rock instrumental, era uma composição de Carlos com seu amigo Alberto Gianquinto, que tocou piano na faixa (Gregg Rolie tocava os demais teclados contrastando com o estilo jazzy de Gianquinto). "Samba Pa Ti" era outra composição surpreendente escrita por Carlos depois de assistir a um saxofonista de Jazz se apresentando na rua em frente a seu apartamento. Todo o álbum mantinha as coisas bem imprevisíveis, porém coesas. "Abraxas" foi lançado em set/70 e já foi considerado como um dos maiores álbuns da história do Rock.
Em 71, o grupo seguiu forte mantendo a direção musical. De janeiro a julho, gravou "Santana III". Seria o terceiro e último com a formação que tocou no Woodstock. Lançado em set/71, o álbum também alcançou o nº. 1 das paradas. A banda estava no auge da popularidade, mas infelizmente havia muito ressentimento interno desnecessário e problemas gerenciais só agravaram tudo levando à demissão de Bill Graham. Este contexto fez de "Santana III" um álbum injustamente colocado nas sombras atrás da lenda imponente de "Abraxas". Foi o trabalho que marcou a adição do guitarrista Neal Schon (depois líder do Journey), então com apenas 17 anos. O percussionista Thomas "Coke" Escovedo foi contratado para substituir temporariamente José "Chepito" Areas, que havia sofrido um aneurisma cerebral (mas que se recuperou rapidamente e voltaria à banda depois). O restante da banda era o mesmo: Carlos, Gregg Rolie (teclados), Michael Schrieve (bateria), David Brown (baixo) e Michael Carabello (congas). "Batuka", que abria o disco, já era a primeira evidência de que algo estava diferente. A banda era mais crua, mais sombria e mais poderosa com um som mais Rock pesado agregado por Schon. Ela se transformava em "No One To Depend On", de Escovedo, Carabello e Rolie. Havia a queima lenta de "Taboo" e a jam percussiva de "Toussaint l'Overture". O lado 2 abria com "Everybody's Everything", seguida de "Guajira" e "Jungle Strut", canções eternas. "Everything's Coming Our Way" era a única faixa do tipo "sinta-se bem" e o álbum fechava como "Para Los Rumberos", outro cover de Tito Puente. Um trabalho que envelheceu super bem, com sua sonoridade viva, um disco essencial nas coleções roqueiras. Naquele ano, eles se apresentaram em um concerto em Accra, capital de Gana, para comemorações do 14º ano da independência do país. O show foi filmado e lançado nos cinemas como o filme "Soul to Soul". Os problemas atingiram o auge pouco antes do início da turnê do disco em set/71, quando Carlos quis que Carabello deixasse o grupo, caso contrário ele sairia. A banda iniciou a turnê sem Carlos, se apresentando em meio aos gritos da plateia pelo guitarrista. Depois de vários shows, Carlos voltou para descobrir que Carabello, Areas e o empresário/promotor Stan Marcum havia desistido, o que deixou a banda se apresentar sem percussionistas. James "Mingo" Lewis foi rapidamente contratado como um substituto temporário depois que ele viu a banda ao vivo e ofereceu seus serviços. Um show em Lima, Peru, em dez/71, trouxe mais problemas, pois a eclosão da violência resultou no confisco dos equipamentos e na deportação da banda. O incidente foi um alerta para Carlos, que estava determinado a "acabar com toda aquela loucura".
Em 72, Carlos já esta crescentemente sendo influenciado pela música de Miles Davis, John Coltrane, Joe Zawinul e toda a onda Jazz Fusion. Isto se refletiria no quarto álbum, "Caravanserai" (de out/72), que marcou uma série de mudanças na formação. O baixista David Brown saiu em 1971 antes do início das gravações e foi substituído por Doug Rauch e Tom Rutley. Carabello foi substituído por dois percussionistas, Armando Peraza e Mingo Lewis. Gregg Rolie foi substituído por Tom Coster em algumas canções. "Caravanserai", mesmo considerando toda a sequência imaginativa e imprevisível da música da banda até então, foi ainda mais ousado. Carlos estava obviamente muito ligado ao Jazz Fusion, algo que transparece amplamente pelo disco. Entretanto, fosse a abordagem na praia do Jazz-Rock, ou simplesmente no Rock, era um álbum inspirado e totalmente aventureiro musicalmente. Repleto de solos de guitarra introspectivos e sinceros, faltava o imediatismo do álbum de estreia do de "Abraxas". Entretanto, assim como o Jazz que o influenciou, "Caravanserai" (que marcou a entrada do tecladista/compositor Tom Coster, membro altamente benéfico para a banda) requeria uma série de audições para ser absorvido e totalmente apreciado. Mas para aqueles que se dispuseram, descobria-se uma pérola, um dos maiores feitos da banda.


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