Formada no final de 1967 no auge da cena psicodélica do Reino Unido, a banda Uriel contava com Steve Hillage (guitarras/vocais), Dave Stewart (órgão), Mont Campbell (baixo/vocais) e Clive Brooks (bateria). Hillage, Stewart e Campbell frequentavam a CLS ("City Of London School") e inicialmente tocavam diversos covers do Cream, Jimi Hendrix Experience, John Mayall's Bluesbreakers, Spencer Davis Group, Traffic, Beatles, The Nice, Donovan etc. Eram todos muito jovens (16-17 anos de idade). Entretanto, após uma temporada na Isle of Wight (tocando no Ryde Castle Hotel e abrindo para o Crazy World Of Arthur Brown e para o Fairport Convention), no verão de 68, Hillage deixou o grupo para fazer universidade (a UKC - University of Kent at Canterbury).
Uriel continuou como um trio (liderado pelo som do órgão), mas passou a criar repertório próprio composto por Stewart e Campbell (ambos com influências eruditas e inspirados pela fusão pioneira de Rock com música erudita feita por Keith Emerson no The Nice). Na busca por uma direção musical a tomar, abandonaram a maioria dos covers anteriores e decidiram continuar sem um guitarrista. Em nov/68, o trio gravou uma demo tape no Studio 19, de Peter Wicker, e fizeram alguns shows no Middle Earth Club (então, fechado no seu endereço original, na King Street, em Covent Garden, e funcionando em eventos na Roundhouse, em Chalk Farm). Isto os aproximou dos empresários do clube (que passaram a fazer o empresariamento do Uriel), que em jan/69 solicitaram a mudança de nome. Assim, o Uriel virou "The Egg", rapidamente abreviado para Egg. Os shows se multiplicaram na Roundhouse, no Speakeasy, no Royalty Theatre, pubs etc. Com os planos do Middle Earth de iniciar um selo de gravações não se concretizando, o Egg acabou assinando contrato com a Decca Records (na verdade, com sua subsidiária Deram/Nova voltada para Rock Progressivo).
Neste momento (jun/69), a pequena companhia Zackariya Enterprises lhes deu oportunidade de gravar uma sessão psicodélica. Sob contrato com a Decca, eles reuniram o Uriel (agora com o nome de "Arzachel", uma cratera da lua, e inclusive com a volta de Steve Hillage, de férias da faculdade) para produzir seu único álbum com todos os músicos utilizando pseudônimos (Simon Sasparella era Steve Hillage, Njerogi Gategaka era Mont Campbell, Basil Dowling era Clive Brooks e Sam Lee-Uff era Dave Stewart). É mole? O lado 1 tinha quatro faixas, mas o lado 2 tinha apenas duas faixas ultra psicodélicas e alucinantes (a mais longa tinha 17 minutos e era intitulada "Metempsychosis"). O álbum foi gravado e mixado numa única sessão em Londres e foi lançado pelo efêmero selo Evolution e rapidamente se tornou item de colecionador (hoje, já existe relançamento em CD). O Egg ainda fez alguns shows e participou de programas da BBC (Top Gear, de John Peel, e Noise at Nine, de Stuart Henry), quando em out/69 iniciou sessões de gravações para o álbum de estreia, no Lansdowne Studios, em Londres.
O autointitulado trabalho "Egg" surgiu em mar/70. Com uma forte influência de Canterbury implantada em seu som, este primeiro álbum mostrou a banda procurando estabelecer seu espaço dentro do Rock Progressivo, com destaque para o teclado preciso e eficaz de Dave Stewart delineando grande parte do resultado geral. Misturando Jazz e Prog, as faixas continham ritmos e métricas que nunca paravam, com ação instrumental contínua. Numerosas citações eruditas criavam uma audição familiar num cenário de Jazz Fusion solto com uma variedade desordenada, mas convidativa, de derrames progressivos aleatórios. Os instrumentais fragmentados exibiam uma atraente inexperiência, especialmente em "Bulb" e "The Song of McGillicudie the Pussilanimous", que também apresentavam um lado alegre e despreocupado da banda. Tanto "Blane" quanto "I Will Be Absorbed" representavam o exemplo mais colorido dos fundamentos do Prog do Egg, com tempos rápidos e inserções de teclado bem assertivas. Embora a coesão da banda estivesse em seus estágios iniciais, Dave Stewart já se afirmava como um tecladista de elite ao longo do disco (depois, ele iria fazer fama no Hatfield and the North e National Health). Embora este álbum de estreia não tenha sido um sucesso comercial, ele foi bem recebido, o suficiente para a gravadora financiar um segundo.
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| Dave Stewart, Clive Brooks e Mont Campbell |
O trio fez shows abrindo para Black Sabbath e participou do Camden Rock Festival (na Roundhouse, com Family, Taste etc.), quando em mai/70 realizou as sessões de gravação do segundo álbum no Morgan Studios. Entretanto, a Decca Records não o quis lançar alegando que o grupo não tinha um empresário/agente (o que, de fato, vinha resultando numa redução drástica dos shows). O álbum foi engavetado até fev/71 quando finalmente foi lançado como "The Polite Force" (com a banda agora empresariada pela mesma companhia dos The Groundhogs). A música do Egg tornara-se complexa e compacta, usando riffs tocados em uníssono entre o órgão e o baixo, mais compassos em constantes mudanças. Não à toa o único single veiculado com o disco trazia a faixa "Seven Is a Jolly Good Time" (não presente no álbum), referindo-se à estrutura incomum (em 7/4) de seu refrão. Como na maioria das canções (o repertório era equilibrado entre faixas cantadas e outras instrumentais), as letras de Campbell exigiam um senso de humor irônico tipicamente britânico, algo que se tornaria uma das marcas registradas do Canterbury Sound (na realidade, a conexão com o movimento só ocorreria mais tarde, quando Dave Stewart se juntou ao Hatfield and the North e Steve Hillage, ao mesmo tempo, se juntou a Kevin Ayers e seu Gong). Sim, inevitáveis as comparações do Egg ao Emerson Lake & Palmer, afinal ambos eram trios de baixo/teclados/bateria, com o baixista também cantando, ambos surgidos no final dos anos 60 e ambos incorporando sérias influências eruditas em suas longas suítes multipartes. Entretanto, neste "The Polite Force", a banda tentava um som de potência até mais alta do que o ELP sem preocupação com uma música em alta velocidade. O órgão de Dave Stewart era tão agressivo e melódico quanto o de Keith Emerson e ele realizava muito com menos histrionismo. Bem, isto não significava que não houvessem alguns excessos eletrônicos. Mas o álbum era divertido o suficiente em seus melhores aspectos para assim conseguir carregar os erros (como, por exemplo, "Contrasong", uma faixa dominada por trompetistas e sax tenores convidados). No todo, eles soavam mais firmes, confiantes, mais assustadoramente complexos e musicalmente inventivos. E estava ali toda a base do Canterbury Sound (os tempos estranhos, as mudanças dinâmicas, o humor mordaz e todo o capricho sonoro). Como no álbum de estreia, novamente uma faixa longa ocupava todo o lado 2 (no caso, "Long Piece No. 3" com seus quase 21 minutos). Embora partes possam hoje soar ingênuas/datadas, tratava-se de um álbum inegavelmente pioneiro antecipando diversas coisas (como, por exemplo, aspectos do Rock In Opposition). Estilisticamente, havia similaridades com o trabalho inicial do Soft Machine (com canções muito complexas, e até experimentais, com alto grau de originalidade, performances impecáveis, atenção cuidadosa aos timbres e à toda a dinâmica em extensas partes instrumentais). O avanço em relação à estreia era evidente e, no geral, havia maior foco, maior solidez, compartilhando espírito aventureiro e de diversão. A habilidade de Mont Campbell em cantar despreocupadamente enquanto esmerilhava linhas de baixo inacreditavelmente incomuns é algo que precisa ser destacado. Aliás, toda a habilidade do trio como um todo em produzir um swing musical tão complexo fala muito sobre a quantidade de talento musical que eles tinham. Incursões pelo Avant-Prog, temas eruditos, soluções super imaginativas, fluência estupenda, brilho conjunto (sem individualismos), muitas nuances refinadas, muito charme e sofisticação, num álbum essencial para qualquer um interessado na cena musical de Canterbury. Sim, uma joia menos conhecida/incensada do início do Prog, mas altamente recomendada.
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| Mont Campbell, Clive Brooks e Dave Stewart. |
Depois de lutar por mais de um ano, com poucos shows para sobreviver (fazendo 2-3 shows por mês), o Egg finalmente se separou em jul/72, deixando para trás um álbum de composições novas não gravadas (mas que já vinham sendo apresentadas em shows). A última apresentação aconteceu na Roundhouse, em Londres (parte dela ganharia a luz do dia no CD "The Metronomical Society", uma coletânea de material de arquivo, lançada em 2007). Após a separação, Clive Brooks se juntou aos Groundhogs, Mont Campbell iniciou estudos de trompa e Dave Stewart entrou na nova encarnação do Khan (de Steve Hillage).
Então, em jul/74 (portanto, dois anos depois), surgiu uma oportunidade para o Egg gravar o que seria seu terceiro álbum, via Caroline Records (uma subsidiária da Virgin) - Dave Stewart tinha contrato com a Virgin como membro do Hatfield and the North e isto facilitou tudo. Por isso, o trio se reuniu em ago/74 e fez sessões no Saturn Studios que geraram o álbum "The Civil Surface". Além daquele repertório anteriormente pronto, foram adicionados alguns quartetos de sopro (nos quais Campbell estava trabalhando). Entre os convidados, estavam Steve Hillage, o trio vocal feminino Northettes, Tim Hodgkinson no clarinete e Lindsay Cooper no oboé (ambos do Henry Cow). Por mais experimental que o trio tivesse sido nos tempos antigos, com "The Civil Surface" a banda mudou quase completamente para o território improvisado do avant-garde. Ainda assim, ecos do passado podiam ser ouvidos em "Enneagram", com seus intrincados ritmos, mudanças de andamento e passagens contínuas contrapostas por segmentos efervescentes mais lentos. "Wring Out the Ground (Loosely Now)" também deslizava agilmente da improvisação jazzística para o Rock Progressivo, envolvendo inúmeras mudanças de andamento ao longo do caminho, enquanto uma variedade de efeitos espaciais e vocais também se baseavam no passado. Porém, "Germ Patrol" cortava os cordões quase inteiramente adentrando no território vanguardista. "Nearch" era ainda mais experimental, uma peça construída em torno de pausas abruptas que cresciam cada vez mais à medida que o número avançava, com instrumentos de sopro e órgão se colocando ameaçadoramente entre os espaços vazios. Os sopros eram ainda mais destacados tanto no brilhante e arejado "Wind Quartet 1", quanto no introspectivo "Wind Quartet 2", enquanto um coro celestial flutuava em "Prelude". Muito menos acessível do que antes, o Egg quebrava as amarras da estrutura e girava em novos reinos estranhos, mas fascinantes.









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