O início psicodélico do Soft Machine já foi bem contado em outra postagem (leia aqui). Nela, eu expliquei de onde veio a formação Kevin Ayers (baixo, vocal), Robert Wyatt (bateria, vocal), Daevid Allen (guitarras) e Mike Ratledge (teclados), a escolha do nome da banda, toda a experiência pregressa de Allen (como músico, poeta, beatnik e hippie) e a "residência" no lendário clube underground UFO junto com o Pink Floyd onde toda aquela música cheia de improvisação e sons experimentais a levaria a ser aclamada como "uma das bandas mais influentes de sua época". Segundo Wyatt, as reações negativas que o Soft Machine recebeu ao tocar em locais diferentes dos clubes underground foram o que levou à sua inclinação por faixas longas e melodias seguidas, já que tocar continuamente não deixava ao público a chance de vaiar. É mole?
O primeiro single, "Love Makes Sweet Music" (gravado em fev/67 e produzido por Chas Chandler) foi lançado pela Polydor. Foi um fracasso comercial. Em abr/67, a banda gravou nove faixas demo como o produtor Giorgio Gomelsky no De Lane Lea Studios (que ficaram sem lançamento até 71 por conta de uma disputa pelos custos do estúdio). Eles também tocaram na Holanda, Alemanha e na Riviera Francesa. Durante jul-ago/67, Gomelsky agendou shows pela Côte d'Azur (com o show inicial mais famoso da banda acontecendo na praça da vila de Saint-Tropez). Isso levou a um convite para a banda se apresentar no badalado programa "Nuit Psychédélique", do produtor francês Édouard Ruault (mais conhecido como "Eddie Barclay"), realizando uma versão de 40 minutos (!) de "We Did It Again", cantando o refrão repetidamente como num transe. Isso os tornou os queridinhos instantâneos do público "modernex" parisiense, resultando em convites para aparecer em programas de televisão e na Bienal de Paris em out/67. Ao retornar da França, Daevid Allen (um australiano) foi impedido de entrar novamente Reino Unido, então o grupo continuou como um trio, enquanto ele voltou para Paris para formar o Gong (história esta contada em detalhes em outra postagem - leia aqui). Compartilhando o mesmo empresário de Jimi Hendrix, a banda foi atração de abertura da turnê norte-americana do Experience ao longo de 1968. O primeiro álbum do Soft Machine foi gravado em NYC em abr/68, no final da primeira etapa desta turnê. De volta a Londres, o guitarrista Andy Summers (no futuro, do The Police), juntou-se ao grupo e, após ensaios, o quarteto retomou a turnê com Hendrix durante ago-set/68. Entretanto, após 3 meses na banda, Summers foi demitido por Ayers. Para piorar, após o compromisso com Hendrix, um esgotado Ayers vendeu seu baixo para Noel Redding (!) e retirou-se para as praias de Ibiza (ilha mediterrânea no sul da Espanha) junto com Daevid Allen para descansar. O Soft Machine então se desfez. Robert Wyatt ficou nos EUA para gravar demos solo (uma delas contou com Hendrix no baixo), enquanto Mike Ratledge voltou para Londres e se concentrou a compor.
Ou seja, quando o álbum "Soft Machine, Vol. 1" foi lançado em dez/68 a banda já não existia mais. Uma tentativa selvagem, livre e até bem-sucedida de fundir psicodelia com Jazz-Rock, o álbum variava entre estranhas canções Pop executadas com paixão total e performances perturbadoras do trio Wyatt (bateria/vocais), Ayers (guitarras e baixo) e Ratledge (órgão). Com apenas uma pausa (no final do lado um), as canções se fundiam (como nos shows) - nem sempre suavemente, mas sempre com talento o que corrigia eventuais choques. Wyatt na maior parte dos vocais provava ser um cantor surpreendentemente evocativo, apesar da falta de alcance. Como "The Piper at the Gates of Dawn" do Pink Floyd, este "Vol. 1" foi um dos poucos discos excessivamente ambiciosos da era psicodélica que realmente cumpriu todas as suas incríveis promessas. Os elementos consideravelmente melódicos e as harmonias vocais das primeiras gravações agora abriam espaço para uma postura mais artística e desafiadora (que às vezes funcionava, mas outras vezes não), misturando Rock psicodélico com improvisações jazzísticas. Música aventureira e experimental, sem citações eruditas, sem suítes e com muitas miniaturas sonoras, provocações, sons bizarros e solos inesperados. Originalidade acima de tudo. Ainda em dez/68, para cumprir obrigações contratuais, a banda se reformou com o ex-empresário de turnês Hugh Hopper no baixo. Hopper já havia sido baixista no The Daevid Allen Trio (em 63, junto com Wyatt) e já havia participado do The Wilde Flowers (em 64, junto com Wyatt, Ayers e Richard Sinclair). Embora estivesse atuando como empresário de turnês, ele já havia participado das composições do primeiro álbum e tocado baixo numa das faixas. Seu recrutamento então foi até natural.

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| Ratledge e Hopper acima com Wyatt no centro/abaixo |
O trio gravou o segundo álbum intitulado "Volume Two" (gravado em fev-mar/69 no Olympic Studios, em Londres e lançado em abr/69). Bem, se o álbum de estreia teve o super talentoso Kevin Ayers e todo aquele desbunde psicodélico, este "Volume Two" iniciou a transição para o Jazz Fusion em meio aos ideais Dadaístas e inclinações vanguardistas. O baixo de Hopper com seus tons Fuzz e todo um lado experimental até suplantavam as ênfases Pop de Ayers. Mas o núcleo criativo estava em Robert Wyatt, que fornecia arranjos musicais para as ideias peculiares de Hopper (uma coleção de melodias de fluxo de consciência, "Rivmic Melodies", que ocupava todo o lado 1). A adição do irmão de Hugh, Brian Hopper (nos saxes soprano e tenor) gerava mais vida ao resultado. Os teclados eruditos de Mike Ratledge (que anteriormente se chocavam ao espírito livre de Wyatt, Ayers e Allen) agora se destacavam em "Esther's Nose Job" e seus mais de onze minutos no lado 2. Mas era Wyatt quem elevava esta estranha joia musical ao seu ápice artístico. Ele usava sua voz suave como instrumento fazendo "scatting" em "Dada Was Here" e soando lindamente sincero em "Have You Ever Bean Green?" (uma homenagem ao Experience). Fãs do Canterbury Sound amaram "As Long as He Lies Perfectly Still", um agradecimento amoroso ao ex-colega Ayers. Um álbum único que assimilava Rock, humor absurdo, Jazz e vanguarda. Em mai/69, essa formação atuou como banda de apoio (não creditada) em duas faixas de "The Madcap Laughs" (álbum solo de Syd Barrett).
Em out/69, a banda se tornou um septeto com a adição dos saxofonistas Elton Dean e Lyn Dobson, do cornetista Mark Charig e do trombonista Nick Evans (embora os dois últimos tenham ficado apenas dois meses). O quinteto Soft Machine resultante (Wyatt, Hopper, Ratledge, Dean e Dobson) continuou até mar/70, quando Dobson partiu.
O quarteto restante gravou os álbuns "Third" (1970) e "Fourth" (1971). "Fourth" foi o primeiro de seus álbuns totalmente instrumentais e o último com Wyatt. A propensão para construir suítes estendidas a partir de composições de tamanho regular, tanto ao vivo quanto no estúdio, atingiu seu apogeu no álbum "Third", incomum para aquela época contendo cada um dos quatro lados apresentando uma suíte. "Third" também foi incomum por permanecer em catálogo por mais de dez anos nos EUA e é até hoje a gravação mais vendida do Soft Machine. "Third" foi destacado na referencial coluna "Discoteca Básica da Bizz", edição 45, pelo jornalista Arthur G. Couto Duarte (leia aqui). Lançado em jun/70, trouxe a banda mergulhando mais fundo no Jazz e na música eletrônica contemporânea. Um álbum crucial considerado mesmo na época um marco. LP duplo contendo música impressionante (como já dito com cada lado dedicado a uma composição, duas de Mike Ratledge, uma de Hopper e uma de Wyatt), gravado ao vivo em estúdio com a banda (Ratledge nos pianos/órgãos; Hopper no baixo; Wyatt na bateria, vocais, órgão, mellotron, piano; Dean no sax alto) e sendo complementada por vários músicos de apoio, incluindo alguns pilares da cena de Canterbury (Lyn Dobson na flauta e sax soproano; Jimmy Hastings - irmão de Pye Hastings do Caravan - na flauta e clarinete, Nick Evans no trombone, Rab Spall no violino). As duas composições de Ratledge se aproximavam do Jazz Fusion, embora na realidade tal fusão acontecesse à base de efeitos de "tape loops" e de padrões de teclados repetitivos e hipnóticos. "Facelift", de Hopper, lembrava "21st Century Schizoid Man" do King Crimson, embora fosse mais complexa, com várias seções bastante distintas (os ritmos pulsantes, os sopros caóticos, os sons de teclados e os drones sombrios antecederam o que Hopper faria em sua carreira solo depois). "Moon In June", de Wyatt, se baseava em ideias musicais contidas nas demo tapes feitas no início de 67 com o produtor Giorgio Gomelsky e era uma composição caprichada, despretensiosa, combinando toda a instrumentação então exótica ao Rock de uma maneira maravilhosa. Aliás, não exatamente Rock, "Third" empurrou os limites do gênero para áreas inexploradas e conseguir fazê-lo sem soar autoindulgente. Uma obra-prima sem dúvida (uma introdução mais adequada para a banda está em qualquer dos dois primeiros álbuns, mas uma vez feita tal introdução, "Third" é a próxima parada certa). Eles receberam uma aclamação sem precedentes em toda a Europa e fizeram história ao se tornar a primeira banda de Rock a ser convidada para tocar no London's Proms em ago/70. O show foi transmitido ao vivo pela BBC e mais tarde viraria um álbum ao vivo.
"Fourth" (lançado em fev/71, gravado em out-nov/70 no Olympic Studios, em Londres) manteve a mesma formação (Dean + Ratledge + Hopper + Wyatt), acrescentou novos convidados de apoio (Roy Babbington no baixo duplo, Mark Charig na corneta, Nick Evans no trombone, Jimmy Hastings na flauta/clarinete, Alan Skidmore no sax tenor) refinou ainda mais toda aquela habilidade musical coletiva hiper complexa do Soft Machine. "Fourth" trouxe a banda eliminando por vontade própria qualquer erudição musical cozinhando estruturas de sons barulhentas e enfumaçadas, ritmos misteriosos com reações rápidas soando incrivelmente novos (para a época). Obviamente, havia ali enorme destreza musical capaz de fundir Free Jazz, Jazz tradicional e psicodelia Gong numa combinação selvagem. A bateria de Robert Wyatt estava impecável, tão perfeita que se tornara um mapa de apoio sobre o qual demais membros seguiam instintivamente. Os teclados de Mike Ratledge mantinham-se quentes por todo lado com os pés na Terra e as ambições no espaço onde toda aquela música tentava alcançar. O trabalho de Elton Dean fugia com cadências muito inventivas assumindo a frente/centro musical cuspindo uma linguagem maluca. O Soft Machine se conectava ali aos experimentos feitos por Miles Davis no revolucionário álbum "Bitches Brew" (de abr/70). Não era tão notável quanto o imponente "Third", mas o hipnotizante trabalho de bateria de Wyatt e a impressionante faixa de abertura ("Teeth", de Ratledge) garantiam a obrigatoriedade da aquisição. Foi o primeiro álbum deles totalmente instrumental com abandono completo daquela formatação Prog-Rock psicodélico. Infelizmente, seria também o último com Wyatt.










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