“Ela nasceu num quarto de hospital frio…” Só de ouvir essa frase, todos pensam a mesma coisa: aquela canção composta por Víctor Manuel, das Astúrias, inspirada numa história real, uma canção cuja imensa popularidade ajudou a mudar a percepção da sociedade sobre a deficiência. Víctor Manuel vinha de um longo período de relativa obscuridade quando lançou “Solo pienso en ti” (Só penso em ti) em 1978. Depois de anos um tanto marginalizado no cenário musical devido a diversos problemas com a censura e as leis vigentes, essa canção se tornou o maior sucesso de sua carreira e aquela pela qual ele é mais lembrado. O cantor asturiano a compôs inspirado na comovente história de amor de Antonio Castro e Mariluz Roldán, duas pessoas com deficiência que desafiaram os tabus da época. Para quem não sabe, Mariluz Castro Jiménez e Miguel Antonio Roldán Molero se apaixonaram graças à Promi, uma associação que apoiava os membros mais necessitados e marginalizados da sociedade naquele tempo. Um amor contra todas as probabilidades que floresceu em um casamento revolucionário e inspirador. Mariluz nasceu com uma deficiência cerebral devido a uma lesão no parto e lutou contra as adversidades desde muito jovem. A associação serviu-lhe de refúgio, permitindo-lhe encontrar novas oportunidades e uma nova vida. Antonio, que tem síndrome de Down, foi criado num ambiente rural sem acesso à educação formal e também encontrou na Promi um lugar onde recebeu o cuidado e o carinho de que precisava. Víctor Manuel contou que "Solo pienso en ti" (Só penso em ti) lhe chegou enquanto estava em Montilla, Córdoba, "esperando num motel para ir cantar em Aguilar de la Frontera. Peguei o 'Diário de Córdoba' na recepção e havia um artigo sobre uma residência em Cabra onde pessoas com deficiência de ambos os sexos viviam juntas, e sobre os problemas que surgiam. E uma foto com a legenda: 'Quando terminam o trabalho, Mariluz e Antonio caminham de mãos dadas pelo jardim.'" "'Soy un corazón tendido al sol' (Sou um coração estendido ao sol) é muito otimista, mas eu tinha muito pessimismo dentro dela. Ela engloba muita gente, uma grande população. É assim que se fazem músicas que funcionam, mesmo que você não saiba como escrevê-las." "Agora tudo parece normalizado, mas naquela época era um inferno ter um familiar ou filho com deficiência, porque você não sabia o que fazer com eles", destacou Víctor Manuel, lembrando como, quando a música foi lançada, "todas as reportagens falavam de duas crianças com problemas, e ninguém mencionava a deficiência." A linguagem politicamente correta não existia naquela época, infelizmente, porque essas pessoas não eram respeitadas e eram cruelmente chamadas de "subnormais", "retardadas mentais" ou "mongoloides". Mesmo hoje, a palavra "subnormal" é um insulto. E a contribuição de Víctor Manuel para que todos nós comecemos a respeitar essas pessoas é inestimável. Há um claro antes e depois do lançamento dessa música em termos de respeito por esse grupo.
Em poucos versos, Víctor Manuel narra toda a história de vida dos dois protagonistas: o nascimento doloroso, o sofrimento dos pais ao descobrirem suas deficiências, o abandono em internatos, suas tristezas e alegrias, sua inocência. Eles se encontram na vida adulta, se apaixonam e nada pode separá-los. "Não pode haver ninguém neste mundo tão feliz quanto eu. Só penso em você." Uma canção de amor com violinos doces e muito a revelar.

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