quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Rainbow: projeto de Ritchie Blackmore que produziu clássicos do Hard Rock (parte 2)

 

A formação Cozy Powell, Jimmy Bain, Ronnie Dio, Tony Carey e Ritchie Blackmore iniciou a primeira turnê mundial do Rainbow (primeiro show foi em Montreal, Canadá, em 10/nov/75). Em fev/76, em Munique, no Musicland Studios, a banda gravou seu segundo álbum (com supervisão do produtor e engenheiro inglês Martin Birch - alô, alô, brother Marcão, taí um grande nome para sua saudosa coluna "Mestres dos Estúdios"). Originalmente chamada "Ritchie Blackmore's Rainbow", agora ela era apenas "Rainbow". A maior parte do álbum foi gravada em um ou dois takes com alguns overdubs subsequentes (o que explica o porquê de não existirem versões alternativas ou demo). Lançado em mai/76, "Rising" capturou Blackmore e Dio no auge de suas forças criativas. O guitarrista apresentou performances mágicas de um Hard Rock "neoclássico" e ambicioso, ao lado das crescentes fixações de Ronnie Dio por temas de fantasia (algo que ele adotaria por toda a carreira a partir daqui). Uma obra-prima e um marco do Rock pauleira que encantou jovens roqueiros por todo o mundo. "Stargazer" era a faixa central do disco, com a adição de uma orquestra, teclados hipnotizantes de Tony Carey e um dos melhores solos de guitarra de toda a carreira de Blackmore (leia aqui). Entretanto, o álbum tinha muito mais: "Tarot Woman", "Run With The Wolf", "Starstruck", "Do You Close Your Eyes" e "A Light In The Black". Um repertório fortíssimo (com canções que eram verdadeiros caldeirões ferventes de musicalidade), com vocais magníficos/impressionantes de Dio e a banda despejando empolgação e energia (Blackmore elevou sua já incrível performance à estratosfera). Ao vivo, nos shows, as canções mantinham a estrutura, mas ganhavam forma livre, permitindo improvisações. Um álbum no mesmo nível dos grandes clássicos do Deep Purple (a capa histórica, uma das mais lindas do Rock, foi criada pelo artista norte-americano Ken Kelly). Em ago/76, após um show no Newcastle City Hall, Blackmore decidiu demitir Carey por acreditar que seu estilo de tocar era muito complicado para a banda. Entretanto, sem tempo para encontrar um substituto adequado, reintegrou o tecladista, mas o clima entre os dois degringolou (com Carey sendo regularmente alvo das pegadinhas de Blackmore). A turnê mundial avançou e Blackmore decidiu que Jimmy Bain também estava abaixo do padrão desejado e o demitiu em jan/77. Carey deixou a banda logo depois, cansado das "brincadeiras" de Blackmore. O guitarrista, no entanto, teve dificuldades para encontrar substitutos adequados. Nos teclados, depois de testar vários artistas de alto nível (por exemplo, Mark Stein, do Vanilla Fudge, Matthew Fischer, do Procol Harum e Eddie Jobson, ex-Curved Air/Roxy Music), Blackmore finalmente selecionou o canadense David Stone. Para baixista, ele escolheu Mark Clarke (ex-Jon Hiseman's Colosseum, Uriah Heep e Tempest), mas uma vez no estúdio para as gravações do próximo álbum, não gostou tanto do método dedilhado de Clarke, demitiu-o e preferiu ele mesmo (Blackmore) tocar o baixo em todas as novas canções, exceto em quatro canções ("Long Live Rock'n'Roll", "Sensitive To Light", Gates Of Babylon" e "Kill The King"). Bob Daisley, ex-Widowmaker, foi contratado para tocar nestas e completar a formação da banda.
Gravado entre mai-jul e dez/77 no famoso Chateau d'Hérouville, na França, "Long Live Rock'n'Roll" foi lançado em abr/78. Acabaria infelizmente sendo o último álbum do Rainbow com Ronnie Dio, mas o trouxe ainda no seu melhor absoluto. O repertório no todo não era tão forte quanto em "Rising", mas mantinha o alto nível ("Long Live Rock'n'Roll", "Lady Of The Lake", "L.A. Connection", "Gates Of Babylon", "Kill The King", "The Shed", "Sensitive To Light", "Rainbow Eyes"). "Kill The King" já vinha sendo incluída nos shows (embora aqui ela soe completamente bem acabada) e a faixa-título permanece até hoje como um dos grandes hinos do Rock. "L. A. Connection" também era outro destaque. Novamente sob produção de Martin Birch, a banda conseguia colocar seu melhor nas gravações. Um álbum coeso, direto e altamente satisfatório, sem dúvida, mas que acabaria sendo o último grande disco da banda (mesmo como o sucesso alcançado na era pós-Dio). Após uma extensa turnê mundial entre 77-78, Blackmore decidiu que queria levar o Rainbow para uma direção mais comercial, longe dos temas de "espada e feitiçaria". Ronnie Dio não concordou com esta mudança e saiu. Numa entrevista em 79, Blackmore declarou:
"Se eles fossem bons o suficiente, eles ainda estariam na banda. Não os estou menosprezando, mas ninguém nunca deixou o Rainbow. É um fato. Não foi apenas confrontação, não foi assim, aconteceram outras coisas". 
"Ronnie é um cantor muito bom - eu ainda gosto dele - mas ele estava se tornando muito desinteressado. Tenho certeza que se ele estivesse aqui agora, ele argumentaria, mas o fato é que Ronnie não estava contribuindo com o que podia e ele sabe disso. Nos últimos dois anos, eu criava o riff, fazia as progressões, dava a ele a melodia básica e ele escrevia as letras. Descobri que, enquanto isso, ele estava reclamando sobre o fato de que era 'Ritchie Blackmore's Rainbow'. E, veja, eu tentei por três anos fazer a banda apenas 'Rainbow', não o meu Rainbow".
"Quando as pessoas saem da banda, não damos muitas explicações, porque não queremos atrapalhar suas carreiras. Mas se alguém não está se esforçando, não vou tolerar gente de segunda categoria. Não vou subir no palco e dizer 'senhoras e senhores, tudo bem, eu sei que eles não são assim tão bons, mas são meus amigos', assim como a maioria das bandas faz".
"Algumas pessoas da banda estavam tomando drogas e consequentemente adormecendo enquanto tocavam, porque ficavam farreando a noite toda. Eu os demiti. É incrível como essas pessoas reagem. Eles dizem 'Como ele se atreveu a fazer isto comigo?', mas o que eles tinham a oferecer além de fingirem ser adequados à banda?"

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