sábado, 7 de novembro de 2026

Do Pior ao Melhor: Metallica

 

Do Pior ao Melhor: Metallica
Metallica no auge do sucesso: Jason Newsted, Kirk Hammett, Lars Ulrich e James Hetfield

A posição de maior nome da história do heavy metal pode até ser disputada por alguns outros grupos, mas nenhum deles atingiu um público tão enorme quanto o Metallica. Gerando reações de amor e ódio a cada um de seus lançamentos nos últimos 30 anos, inclusive nas mesmas pessoas e de uma só vez, o quarteto californiano só não passa despercebido. Tudo o que eles fazem gera acaloradas discussões, e espero que desta vez não seja diferente. Por considerar não se tratar de um álbum essencialmente da banda, mas um projeto colaborativo ao lado de Lou Reed, não incluí Lulu (2011) entre os discos avaliados. Aguardo suas opiniões, então aproveitem o espaço dos comentários para manifestá-las, além de elaborar seus rankings pessoais.


10. St. Anger [2003]

Sabe aquele disco para o qual você não deu muita bola quando foi lançado e anos depois percebeu como o julgou mal? Pois bem, St. Anger NÃO é desses, pois, passados 14 anos, continua sendo o mesmo tolete fétido de bosta. Sim, não há muito o que salvar deste álbum, que reflete bem o período confuso e conturbado pelo qual o grupo passava. Não se trata apenas de seus timbres canhestros e da  bateria estilo lata de tinta, que fazem com que suas faixas soem em muitos momentos como maçarocas indefinidas, mas de todo um conjunto de erros que culminou em músicas fracas, algumas sem pé nem cabeça, nas quais as poucas boas ideias são perdidas em meio a um amontoado de coisas que nem sei bem definir. Lembro bem como, na época anterior ao lançamento, o Metallica chegou a divulgar pequenos trechos de canções dando a entender que se tratava de um disco brutal. Bastou ouvir as músicas na íntegra para perceber que esses segmentos foram estrategicamente pinçados para dar essa ideia errada. Enganação mesmo. Dá pra tirar alguma coisa de “Dirty Window”, “Sweet Amber” (essas duas as que me soam mais convencionais) e “The Unnamed Feeling”, mas é preciso enxergar além da pesada cortina de timbres horríveis. A bem da verdade, até o vocal de James está abaixo da média, isso pra não falar nas melodias. E haver ou não haver solos de guitarra torna-se assunto bem secundário quando somos confrontados com porcarias como “Some Kind of Monster”, “Invisible Kid” e “Shoot Me Again”. Só o reouvi para escrever este comentário, pois, fora isso, não vale o esforço.


9. Reload [1997]

A segunda parte do ambicioso projeto que resultou em dois álbuns controversos é nitidamente mais fraca que a primeira. Não é um disco ruim como St. Anger, longe disso, mas soa menos bem finalizado que seu álbum irmão, lançado um ano antes. Assim como Load, apresenta uma abordagem mais simples, despida das intrincações dos álbuns lançados na década anterior, talvez refletindo o sucesso de Metallica, o disco, ou talvez como uma experiência mesmo, trabalhando mais com texturas e grooves, afastando-se por completo do thrash metal. Isso resultou em algumas boas canções e em outras bem menos memoráveis. “Better than You”, “Slither”, “Carpe Diem Baby”, “Bad Seed” e “Prince Charming” pouco acrescentam ao catálogo do grupo. “Fuel” tornou-se a mais executada ao vivo pela banda e chega a dar uma empolgada, mas sempre me soou superestimada. A mesma coisa com “The Memory Remains”. Ao contrário de outros, porém, gosto de “The Unforgiven II” e de seu baita refrão, assim como da rara colaboração de Jason Newsted, a arrastada “Where the Wild Things Are”. A bem da verdade, tanto em Load quanto em Reload, é nas faixas mais longas que o Metallica acertou de verdade, vide as duas anteriores e as boas “Fixxxer” e Low Man’s Lyric”. Para não dizer que não há exceção, a balançante “Devil’s Dance” também é um êxito.


8. Hardwired… to Self-Destruct [2016]

O Metallica definitivamente não captou a lição que já deveria ter sido aprendida desde os tempos de Load e Reload: não adianta lotar um CD até seu limite de tempo se, para isso, for necessário encher o álbum de fillers. No caso de Hardwired…, o tracklist chegou a ser dividido em dois CDs, mas isso não faz diferença, pois o que se tem é um amontoado de faixas medianas junto a algumas poucas boas de verdade. Entre as boas, destaque total para “Atlas, Rise!”, que lembra o Metallica excitante e criativo de Ride the Lightning e Master of Puppets, recheada de passagens que são verdadeiras homenagens ao heavy metal em sua forma mais clássica. “Moth Into Flame” e “Spit Out the Bone” (a mais thrash de todas) também causam ótima impressão, enquanto “Here Comes Revenge” é uma música sobre a qual pouco se comentou, mas também me agrada. De resto, há muito material genérico, em parte lembrando determinadas épocas do grupo (“Dream No More” tem pinta de Reload, enquanto “Hardwired” parece alguma sobra decente de Metallica), em parte evidenciando uma falta total de (boa) inspiração. “Now that We’re Dead”, “Halo on Fire”, “Am I Savage?” e “Murder One” poderiam ter sido limadas ou ao menos bem melhor trabalhadas. Além disso tudo, a produção é um exemplo da mais que consolidada loudness war, apesar de não se fazer tão presente quanto em Death Magnetic. Hardwired… é um álbum decente, mas dizer que se trata do melhor desde Metallica é um grande exagero.


7. Load [1996]

O choque pode ter sido enorme na época do lançamento, mas o tempo se encarregou de mostrar que, à sua maneira, Load é sim um disco de muitas qualidades. O afastamento do thrash metal foi consolidado de vez, mas isso não é o que importa quando somos confrontados com músicas do porte de “Bleeding Me” e “The Outlaw Torn”, cujos lançamentos posteriores só as igualaram em qualidade com “All Nightmare Long” (Death Magnetic) e “Atlas, Rise!” (Hardwired…). Sim, as coisas ficaram bem mais simplificadas, mas o nível que o Metallica atingiu nessas duas arrastadas composições é altíssimo. James então, está cantando uma barbaridade, e a produção é ótima, ao contrário do que vem acontecendo nos últimos registros. É bem verdade que suas faixas mais fracas (“Cure”, “Poor Twisted Me” e “Ronnie”) são piores que os tropeços presentes em Reload, mas ao menos a banda compensou com uma sequência de boas faixas em sua primeira metade, com ênfase para “King Nothing” e as controversas “Until It Sleeps” e “Hero of the Day”. Falando em controvérsia, destaco mais ainda a excelente “Mama Said”, com uma evidente pegada country que deve ter feito muita gente torcer o nariz. Caso Load e Reload fossem lançados em um único disco, bem mais da metade do conteúdo seria ocupado com faixas de Load.


6. Death Magnetic [2008]

O nome é Death Magnetic, mas pode chamar de “grande pedido de desculpas”, pois é assim que o álbum soa, como se a banda implorasse por uma segunda chance após a enorme cagada que foi St. Anger. Não é possível afirmar quanto disso foi proposital e quanto foi natural, mas, ao menos em grande parte, Death Magnetic soa como uma jornada de volta aos tempos de …And Justice for All, com músicas mais complexas, apesar da execução ser bem mais fraca, especialmente da parte de Lars, que soa mais como um rockstar e empresário que toca bateria do que como um baterista de verdade, dedicado ao instrumento. Em geral, as músicas são boas, apesar de “The Day that Never Comes” tentar repetir sem sucesso a fórmula de “One” e “Fade to Black”, “The Unforgiven III” adicionar pouco e “Cyanide” ser apenas mediana. O restante do álbum empolga bastante, soando como um Metallica não necessariamente thrash metal, mas mostrando muitos lampejos do estilo, em especial na rápida “My Apocalypse”, típica pedrada de encerramento. Gosto bastante de “This Was Just Your Life” e “The End of the Line”, mas é com “All Nightmare Long” que a banda acertou de vez, soando original, mas honrando sua assinatura. Para mim, já nasceu clássica. O que estraga é a qualidade sonora do álbum, uma vez que os instrumentos estão estourados demais, carentes de dinâmicas, em um típico exemplo da loudness war.


5. Metallica [1991]

Fosse lançado pela grande maioria de seus contemporâneos, o popular “Black Album” seria o melhor registro de suas discografias. Como estamos falando de Metallica, essa não é a realidade, mas sem dúvida trata-se do disco mais importante da carreira do grupo, a obra que os aproximou de dezenas de milhões de pessoas e transformou o ainda jovem quarteto em alguns dos maiores rockstars que já habitaram o planeta. Por mais que os anteriores tenham qualidades que façam com que eu os coloque em posição mais privilegiada, Metallica é uma obra maiúscula, recheada de clássicos que unem qualidade e sucesso comercial como poucos. “Enter Sandman”, “Sad But True” (não é necessário ser thrash para soar pesadaço), as excelentes baladas “The Unforgiven” e “Nothing Else Matters”… Isso sem falar na melhor do disco (e uma das melhores da carreira do grupo), a instigante “Wherever I May Roam”. Tirando “Don’t Tread on Me”, que nem chega a ser ruim, todo o restante do tracklist é ao menos bom. Para compensar o fato de Jason Newsted ter estado inaudível em …And Justice for All, seu baixo soa não menos que magnífico (ouça as ótimas “The God that Failed” e “My Friend of Misery”). Todos, na verdade, soam absurdamente bem, pois a produção de Bob Rock é uma das melhores que já pude ouvir. James, inclusive, mostrava-se cada vez mais um excelente vocalista. O número um nas paradas de dez países foi mais que merecido.


Em 1986, ao lado do saudoso Cliff Burton

4. Kill ‘em All [1983]

A parte mais difícil de elaborar este ranking foi escolher entre Kill ‘em All e …And Justice for All para ocupar a terceira e a quarta posições. Acabei optando por colocar o Metallica em seu auge técnico um degrau acima, mas é inegável que a intensidade de Kill ‘em All é algo raro de se escutar por aí. Desde os primeiros segundos de “Hit the Lights”, fica claro que estamos ouvindo um grupo com energia que corre no sangue, transborda pelos poros e resulta em riffs selvagens como quase nunca havia se escutado antes. Em “The Four Horsemen”, uma das melhores canções do grupo, somos fisgados de vez pela capacidade que aqueles jovens espinhentos tinham de compor músicas intensas, agressivas, criativas e com um nível de complexidade acima da média no heavy metal. Além dessas duas, “No Remorse” e “Seek and Destroy” são minhas favoritas, recheadas de riffs sensacionais e grandes solos, além de um baixista que não se limitava a fazer o basicão (com direito a um momento solo). Mesmo Lars faz um serviço bem feito. Destaco ainda a urgência punk que desabrocha em faixas como as velozes “Motorbreath” e “Metal Militia”, além das ótimas “Whiplash” e “Phantom Lord”. A bem da verdade, não há sequer uma canção ruim em Kill ‘em All. Critico quando é necessário, mas o que esses caras fizeram até 1991 é praticamente irrepreensível.


3. …And Justice for All [1988]

Sim, o baixo é inaudível, o som de guitarra é magrinho e a bateria é excessivamente clicada, mas, puta merda, …And Justice for All é um discaço. Dos primeiros instantes da introdução de “Blackened” – sensacional mostra de que a morte de Cliff Burton não significou tirar o pé do acelerador – ao fim da rápida e intensa “Dyers Eve”, somos golpeados com paulada atrás de paulada. “Eye of the Beholder” e “The Shortest Straw” podem estar um degrau abaixo, mas é só. De resto, apenas canções dignas da alcunha de “clássico”, caso da intrincada faixa-título, da pouquíssimas vezes tocada ao vivo “The Frayed Ends of Sanity” e de “To Live Is to Die”, dando sequência à tradição de incluir longas e ótimas músicas instrumentais. Ainda melhores são “One”, bela mostra de como o Metallica era um grupo totalmente diferenciado dos seus contemporâneos quando o assunto era compor, e “Harvester of Sorrow”, feita para ser executada ao vivo e empolgar até defunto. …And Justice for All representa o auge técnico do quarteto. Até Lars, que muito critico, faz um trabalho merecedor de elogios. Enquanto muitas bandas de thrash metal estavam recém amadurecendo suas sonoridades, o Metallica já apresentava uma evolução enorme, unindo complexidade e acessibilidade de forma única.


2. Master of Puppets [1986]

Não são poucos aqueles que apontam Master of Puppets como o melhor álbum do Metallica. Isso é justo. Não faltam nele qualidades que o fazem digno dessa admiração. A banda evoluía a olhos vistos e isso se revelava em composições cada vez mais ambiciosas, criativas e bem ajustadas. A maior mostra disso é sua faixa-título, até hoje a mais executada ao vivo pelo grupo. Com seu jeito viciante, riffs cavalares e evolução envolvente, tornou-se rapidamente uma de minhas cinco canções favoritas da banda, opinião compartilhada por uma enorme parcela dos fãs. “Welcome Home (Sanitarium)” segue os passos de “Fade to Black” com enorme competência, enquanto “The Thing that Should Not Be” mostra que o Metallica também entendia de peso arrastado. Cliff Burton, por sua vez, dá aula de baixo em “Orion”. “Leper Messiah” não é tudo aquilo, mas “Battery”, “Damage, Inc.” e a agressividade excruciante de “Disposable Heroes” não deixam pedra sobre pedra, deixando bem claro quem era o novo rei do heavy metal, fazendo Iron Maiden e Judas Priest comerem poeira. Perder para Ride the Lightning é aceitável, e logo abaixo vocês entenderão meus motivos.


1. Ride the Lightning [1984]

Não havia como ser diferente. Por mais que Master of Puppets também seja magistral, fica difícil competir com um álbum que conta com nada menos que quatro das cinco melhores músicas do Metallica; isso para mim, é claro. Digo mais: não é de hoje que considero Ride the Lightning o melhor disco de heavy metal já lançado. É verdade que “Trapped Under Ice” e “Escape” não estão no mesmo nível das demais, mas são canções decentes, nada de meros fillers. Seu problema é enfrentar a concorrência interna de músicas do porte da faixa-título, dona de uma das mais marcantes introduções que o grupo já criou, e de “Fight Fire With Fire”, cuja brutalidade talvez nunca mais tenha sido equiparada. O que resta? Justamente aquelas que julgo como as melhores músicas do quarteto. “For Whom the Bell Tolls” é seu momento máximo, construída tijolo a tijolo, com a solidez de quem sabia desde então o que estava fazendo e estava pronto para conquinstar o mundo. Praticamente no mesmo nível, “Fade to Black” é o exemplo-mor de balada pesada e instituiu um modelo a ser seguido pela própria banda e por muitos outros artistas. Além disso, o solo de Kirk Hammett é um dos meus favoritos em todos os tempos. “Creeping Death” é a música perfeita para abrir um show – inclusive pude presenciar isso ao vivo – e para apresentar o Metallica para alguém. “The Call of Ktulu”, por sua vez, é a melhor faixa instrumental criada pelo grupo, com Cliff Burton em ótima performance. O padrão de qualidade estabelecido em Ride the Lightning foi tão grande que até a ordem do tracklist de Master of Puppets foi quase toda organizada segundo o mesmo modelo. Além disso, a produção da banda ao lado de  Flemming Rasmussen, fria, densa e pesada, é mais uma das características que fazem Ride the Lightning merecer esta posição, além do topo em qualquer ranking metálico que se preze.

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