domingo, 8 de janeiro de 2023

ALBUNS DE ROCK PROGRESSIVO

 

Motorpsycho - Kingdom of Oblivion (2021)


Um dos melhores álbuns que saiu em 2021 e na minha humilde perspectiva o melhor álbum da longa carreira musical do norueguês Motorpsycho, e com isso estamos simplesmente dizendo que esse álbum é um filho da puta da porra. Uma experiência imersiva de boa psicodelia progressiva de mãos dadas com alguns pesos pesados ​​da cena europeia, com uma das carreiras mais sólidas e constantes que se pode encontrar, criando um disco onde até se reinventam sem terem de variar muito o seu estilo, simplesmente fazendo o que eles mesmos de uma nova maneira, e ainda têm o luxo de fazer uma versão de "The Watcher" de Hawkwind que é um milhão de vezes mais precisa que a original. Não pode perder esta obra, não a deve deixar de lado, não convém não mergulhar neste fluxo de rock selvagem, visceral mas ao mesmo tempo fino e elegante, que é o último e grande trabalho do Motorpsycho, álbum que dedicamos ao Mágico Alberto que adora, e não é à toa. Aqui eles colocam toda a carne na grelha e mostram porque gostamos tanto deles!

Artista: Motorpsycho
Álbum: Kingdom of Oblivion
Ano: 2021
Gênero: Eclectic prog / rock psicodélico
Referência: Discogs
Nacionalidade: Noruega


Com uma carreira de mais de trinta anos, os Motorpsycho são daqueles grupos que ouvimos quase desde sempre, que também lança quase um álbum por ano. Setenta minutos de música que são uma lufada de ar fresco à sua discografia; Eles não esquecem suas influências progressivas dos anos setenta, mas a computação global é um trabalho variado e estilisticamente completo, uma conquista para uma banda que está na ativa há tantos anos.

Sem aviso prévio de nossa parte, mas sabendo há semanas sobre a chegada deste grande álbum, é verdade que tudo o que corrobora a carreira desses entusiasmados veteranos é capaz de nos fazer enxergar o universo progressivo de uma forma raramente vista, tornando seu estilo em questão é totalmente personalizado.
Entrando como nosso RECORD OF THE WEEK, “Kingdom Of Oblivion” é o novo álbum dos inovadores Motorpsycho, o enésimo numa discografia que perde a sua longa distância entre uma coleção de feitos que remonta as suas ideias ao final dos anos 80, quando a génese dos noruegueses vai explodir como uma supernova.
A excelência dessa banda tem um fim? Existe um teto que aguarda a chegada do Motorpsico? Existem solavancos em uma carreira única e meteórica? Suponho que esta e muitas perguntas serão feitas por seus muitos fãs sempre que o Motorpsycho aterrissar em seus jogadores com uma nova oferta e assistirmos a um novo show em sua discografia. E é que como disse no início, a marca sonora desses caras faz de “Kingdom Of Oblivion” um conjunto de harmonias totalmente familiares quando se trata de captar a essência mais digna do Motorpsycho em suas composições emaranhadas. A sequência do Motorpsycho continua a sua ascensão explosiva com o novo “Kingdom Of Oblivion”, o mesmo aqui representado como provavelmente o mais pesado dos seus últimos lançamentos.
Digamos que mais denso neste caso, o fugaz regresso do Motorpsycho mantém-se fiel aos seus instintos mais consistentes de praticamente ir à discoteca todos os anos. Travessia naquele campo de riffs para atravessar os momentos mais peculiares dos noruegueses. Faixas como a autenticidade de “The Transmutation Of Cosmoctopus Lurker” nos conduzem por começos suaves, repletos de vocais estridentes e executados por magníficos solos de guitarra como um dos grandes destaques do álbum. É um exemplo perfeito que canaliza a força mais psicodélica depositada no núcleo do Motorpsico.
Afinal, sempre parece haver um ar melancólico que assombra as diversas composições de Motorpsycho como a sombra, e nesse caso, brilha ainda mais em um exercício como “At Empire's End” oferecendo aquelas vibes de Bent no mellotron, mas é na diversidade que se encontra o verdadeiro sangue da banda, e em "Kingdom Of Oblivion" é de pureza autêntica, lembrando os grandes pesos pesados ​​de sua discografia. Assim, faixas acústicas como “Lady May” ou “The Hunt” continuam a florescer no jardim dos seus últimos trabalhos, enchendo-nos desde as reflexões de “Cormorant”, versões inesperadas e curiosas como “The Watcher” ao lendário Motörhead, ou a suavidade que desperta nos momentos de “Dreamkiller”.
Com tudo isto, não podemos perder um início como as duas partes que começam com “The Waning”, em que sentimos naqueles 7 minutos e meio um autêntico material típico de um ícone como “Heavy Metal Fruit”.
Em todo o caso, “Kingdom Of Oblivion” mais uma vez posiciona o longo e estupendo trabalho destes não-planetários e a sua inesquecível carreira que praticamente beira a perfeição. É impensável que um grupo com mais de vinte discos de estúdio continue surpreendendo a cada lançamento. Isto está ao alcance de muito poucos e é que a sua nova oferta trifásica consegue ultrapassar uma fasquia tão alta como a que caiu num excecional “The All Is One” (resenha aqui).
Motorpsycho continuam a soar tão poderosos quanto romperam há mais de 35 anos para criar algo inusitado a partir de então. A surfar na crista de uma onda eterna, os mestres por decisão universal do rock progressivo moderno, voltam a surpreender-nos com o seu enésimo capítulo para arredondar uma discografia que não queremos que nos desperte deste sonho inimaginável.

ruben herrera

Este é o álbum certo para terminar uma semana cheia de surpresas e grandes discos!





E como não dar a ele um espaço para o nosso eterno comentarista involuntário se expandir? Se ele sempre tem algo a dizer!

Motorpsycho mantém seu reinado em vigor no território progressista escandinavo
Hoje temos o prazer de apresentar “Kingdom Of Oblivion”, o mais recente álbum do grupo norueguês MOTORPSYCHO, lançado a 16 de abril pela Rune Grammofon em associação com a Stickman Records, tanto em CD como em vinil bicolor. ou tons azulados). Trio veterano formado por Bent Sæther [baixo, voz, guitarra acústica e elétrica, mellotron, sintetizador, piano, percussão ocasional], Tomas Järmyr [bateria, percussão, piano elétrico] e Hans Magnus Ryan [guitarra, voz, saxofone] recebe agora o apoio do maestro Reine Fiske como convidado em várias faixas do álbum, o que confere aos guitarristas uma densidade particularmente dinâmica nestes itens. Outras intervenções convidadas, mais esporádicas, são do guitarrista holandês Tos Nieuwenheizen e de Ola Kvernberg na percussão. O álbum foi gravado em várias sessões entre 2018 e 2020 nos estúdios Black Box e Kommun, enquanto outros processos de mixagem e masterização ocorreram no Punkerpad UK e no Audio Virus Lab. A perturbadora capa do álbum, a mesma que reflete a ideia de que o que é morto pode gerar o florescimento de uma nova vida, exibe um autorretrato do próprio artista gráfico que o cuidou, que atende pelo nome de Sverre Malling: supomos que essa nova vida brota para sulcar novos caminhos, deixando no esquecimento o que foi feito em uma vida passada e já consumado. Nós iremos,
Com quase 7 minutos e meio de duração, 'The Waning (Pt. 1 & 2)' abre o repertório com exibições conjuntas de rock punch e hook, uma peça muito atraente e descontraída para começar o dia. A música homônima segue com uma exibição de gancho muito semelhante, mas com um groove um pouco mais contido, o que torna o bloco de som mais rítmico. Também é verdade que existe uma oportunidade de ouro para criar uma aura mais sofisticada para o swing, algo que é totalmente explorado durante o interlúdio. O epílogo sonhador surpreende-nos, culminando a matéria num espírito sóbrio e contemplativo. A propósito, aqui encontramos um dos mais brilhantes solos de guitarra do disco. Com a dupla 'Lady May' e 'The United Debased', o conjunto continua a explorar recursos de variedade expressiva que conseguem manter o interesse do ouvinte empático. A primeira destas canções é uma balada de base acústica que nos remete para a faceta introvertida do lendário TRETTIOÅRIGA KRIGET, e talvez também para o lado pastoral do GENESIS do período 70-73. Por seu turno, o segundo deles ruma para vibrações épicas e ferozes através da sua duração de mais de 9 minutos, aproximando-se dos paradigmas do DEEP PURPLE e BLACK SABBATH através de um filtro melódico muito estilizado que nos remete a WISHBONE ASH. O facto de o swing criado para a ocasião não ser muito agitado no início permite que prevaleça um senhorio cerimonioso, mas, a meio do caminho, tudo se volta para algo mais denso a partir de um andamento ainda mais parcimonioso. A atmosfera torna-se mais aguçada e turva enquanto o novo motivo impõe a sua presença, terminando tudo num animado exercício de rock pesado com tendência stoner. 'The Watcher' é um cover de uma música do HAWKWIND composta por Lemmy Kilmister para o álbum “Doremi Fasol Latido”, um clássico absoluto do rock progressivo espacial. Nas mãos de MOTORPSYCHO, a balada acústica original envolta em efeitos flutuantes de sintetizador torna-se um exercício de entrelaçamento do paradigma do PINK FLOYD da fase 69-71 e a faceta mais serena de AMON DÜÜL II, que se traduz num trabalho de remodelação sob o domínio cósmico diretrizes de um humor acinzentado. Quando chega a vez de 'Dreamkiller', o grupo completa a ideia delineada na peça anterior de avançar para um exagero de densidades space-rocker sobre uma batida inusitada.
'Atet' apresenta um exercício de lirismo pastoral que se impõe como contraponto eficaz à exibição de obscurantismo sofisticado corporificado na peça imediatamente anterior. Quando se trata de 'At Empire's End', a banda estabelece conexões filiais com ANEKDOTEN e SQUINTALOO no que é um exercício introspectivo em prog pesado aguçado pela clareza melódica comovente, ocasionalmente enriquecido por ornamentos de teclado etéreos discretos. Uma vitalidade muito peculiar transparece nesta música, embora sua atmosfera e groove sejam os de uma balada progressiva. Uma balada muito bonita, por sinal, e também contém um dos solos de guitarra mais impressionantes do álbum. 'The Hunt' também se destaca em seus próprios termos, desenvolvendo inicialmente um cenário sereno no tom do folk ácido, ao mesmo tempo que se conecta com a tradição do lendário GENESIS da fase 70-73 em sua faceta bucólica. Posteriormente, uma segunda seção se encarrega de implementar mais ornamentos para que os recursos psicodélicos que vão surgindo tragam um vigor renovador à peça. Até mesmo surge perto do final um breve enclave orquestral que fica em algum lugar entre o sonhador e o luxuoso. 'After The Fair' é uma curta peça instrumental de pouco menos de 2 minutos que cumpre a função de pôr fim à atmosfera folk-rock que predominava na peça anterior, e fá-lo com uma leveza quase irreal, como um devaneio absorto em sua própria coloração solipsista. Logo em seguida, surge a música mais longa, intitulada 'The Transmutation Of Cosmoctopus Lurker' e dona de um espaço de quase 11 minutos. Sua função central é retomar e capitalizar as vibrações poderosas e contundentes que inspiraram algumas canções anteriores, como a primeira e a terceira. O refrão do rock é direto, mas não falta o uso de algumas quebras rítmicas em certas passagens estratégicas; nem faltam passagens solenes que articulam o epílogo com cadências moderadamente sombrias. Estabelecendo-se como o apogeu definitivo do álbum, consegue estabelecer um contraponto eficaz à agitação introspectiva da oitava música e ao panache country da nona (grandes canções, sem dúvida). O final do álbum vem com 'Cormorant', um instrumental etéreo que explora a mistura entre o space-rock e o pós-rock sob um manto relaxado e nebuloso, embora não misterioso, mas sim gentil.
Tudo isso foi "Kingdom Of Oblivion", um álbum onde a equipe do MOTORPSYCHO fez uma exploração contínua de alguns elementos desenvolvidos em seus três álbuns anteriores em combinação com uma retomada dos aspectos mais ácidos e pesados ​​de seus melhores álbuns de seu primeiro 10 anos de trajetória Este álbum não passará despercebido por seus fãs de longa data ou por quem está sempre curioso sobre o que está acontecendo na sempre ativa cena do rock experimental escandinavo. No que diz respeito a este ano de 2021, este grupo mantém o seu reinado dentro desta cena: são tão veteranos e ainda têm tanto para dar. Mantem!

César Inca


Ideal para queimar o coco no final de semana. Eles não podem perder!


Lista de faixas:
1. The Waning (Pts. 1 & 2)
2. Kingdom of Oblivion
3. Lady May
4. The United Debased
5. The Watcher
6. Dreamkiller
7. Atet
8. At Empire's End
9. The Hunt
10. After the Fair
11. The Transmutation of Cosmoctopus Lurker
12. Cormorant 

Formação:
- Bent Sæther / vocal, baixo
- Hans Magnus Ryan / guitarra, vocal
- Tomas Järmyr / bateria

ALBUNS DE ROCK PROGRESSIVO


Los Espiritus - Gratitud (2015)


Uma das últimas contribuições antes de sair algumas semanas. E um tempo atrás eu tinha Los Espíritus como algo pendente, aqui com seu segundo álbum, uma sensação de rock tribal, gospel, blues e rock psicodélico para agitar como assistir a um spaghetti western e dançar junto com base em guitarras vibrantes; vocais hipnóticos, ritmos lentos, riffs ácidos, influência e progressão do street rock. "Gratitud" é o segundo full lenght dos Los Espíritus, depois de terem lançado 4 EPs e o primeiro álbum em 2013, e o primeiro, mas não o último, a aterrar no blog da cabeça.

Artista: Los Espiritus
Álbum: Gratitude
Ano: 2015
Gênero: Experimental / Psicodélico
Duração: 47:12
Referência: Discogs
Nacionalidade: Argentina


Liderados por Maxi Prietto, o mais interessante que eles têm é sua amplitude no desenvolvimento da psicodelia: psicodelia clássica, experimental, tribal, ocidental, e com isso criam uma sonoridade própria que a partir da estrutura do blues experimentam vários gêneros, demonstrando que em no final, eles apenas ouvem seu espírito.

Quando Los Espíritus estreou como banda, poucos levaram a sério. Embora sua estreia tenha sido um grande álbum, muitos acreditaram que seria apenas isso, que não haveria uma continuação. Já tinha acontecido com outros projetos do Maxi Prietto como Prietto viaja ao Cosmos com Mariano, que foi um LP único e algumas apresentações esporádicas. Mas acontece que o encontro entre ele, seu amigo Santiago Moraes; o percussionista do Morbo y Mambo, Fernando Barrey; o guitarrista Miguel Mactas; o baixista Martín Batmalle e o baterista colombiano "Pipe" Correa, vieram para ficar.
E embora o primeiro disco Los Espíritus fosse a representação do lado mais bizarro que o rock argentino era capaz de atingir, com o segundo, “Gratitude”, as coisas começaram a se acalmar. A música ainda tem aquela essência dark, de uma bad trip, como se Happy Mondays fossem emos. Mas a letra já não parece um comentário bêbado como “Jesús rima con Cruz” ou situações hilariantes como “Expulsaram-no do Bar”. Mas há, digamos... um pouco mais de luz. Vamos ver.
“Gratitud” abre com “La Crecida” que tem ares de trilha sonora de faroeste, mas ambientada em alguma cidade desconhecida da Argentina. “Perro Viejo” segue a mesma onda e até aí, os dois avanços que a banda escolheu para antecipar o álbum. Mas com a terceira faixa, “Mares”, as coisas já ganham outro ar. É um tema psicodélico mas dos legais, felicidade onde quer que você olhe (ou ouça), mas quando se espera alguma história de favela ou alguma frase sobre a noite, descobrimos que "todos estaríamos melhores se olhássemos aos olhos daqueles mares”. A partir daí eles falam sobre clareza (“Alto Valle”) e flores e amor (“Gratidão”). Esta última música retoma aquele aroma de viajante, de ambiente e repete tanto as frases da guitarra como a palavra que dá nome à música... e ao álbum, como um mantra indiano.
Claro que os Los Espíritus não perdem a ligação com a rua em “Negro Chico” ou em “Pelea Callejera”, um cover de 2 minutos gravado numa sessão para a Rádio Nacional, que é precisamente esta: (link). “Las Cortinas”, no entanto, é a coisa mais devastadora que a banda compôs até hoje. É a ressaca do "Expulsaram ele do bar". Alcoolismo quando tudo dá errado: "Se eu passar no escuro / quero perder aquela testemunha / que é minha sombra" ... mais claro adicione água. Para terminar, “El Palacio” é outra canção do deserto, de faroeste, uma homenagem a Neil Young e “A Horse with no Name”. E é que a Gratidão (ou os próprios Espíritos), parece ser inspirada não só pelos becos, mas por aquelas regiões desconhecidas que são desconhecidas do grosso da população. Como se toda a sua música fosse orientada para o devastador, para o errante.
Desde o início, Los Espíritus sempre disse que suas músicas têm um pouco de Gospel. Claro que com aquela mistura de álcool, bares e noite no primeiro álbum, poucos entenderam bem do que se tratava. Mas com Gratidão não há dúvidas. São cantos devocionais, quase como ritos, festas, macumbas também. Parecem seis aborígines reunidos em volta de uma fogueira, cantando para a noite, para os mares, para irem todos juntos à lua, a um palácio sem sombra, ou a um pobre menino de rua. Talvez seja aquela percussão, ou talvez aqueles vocais, ou aquelas guitarras que fazem o grupo soar como uma banda tribal. E a “Gratidão”, como o próprio nome sugere, parece um ritual de ação de graças. Um daqueles encontros tribais onde, através da incansável repetição musical dos instrumentos, da batida frenética dos tambores, e a dança continua perto do fogo, os participantes deixam de ser pessoas e acabam sendo possuídos por espíritos. pelos espíritos

Renzo Cavanna





Os Espíritos
 nos contam histórias de forma simples e direta, a partir de uma narrativa como parte experimental que se soma à sua música lisérgica.

O sentimento de gratidão não corresponde a uma das emoções básicas, muito pelo contrário. Experimentá-lo requer uma série de processos complexos na mente. Nem todos podem experimentar a gratidão, é uma virtude reservada aos espíritos mais elevados. Permito-me o pequeno e pedante prazer de lançar um micro-tostón filosófico para destacar o título adequado do tão esperado segundo álbum de Los Espíritus, uma das bandas mais interessantes da América Latina e atrás da qual está Maxi Prietto, uma figura chave do sub-argentino que já reivindicamos em nossa reportagem dedicada ao cenário independente do país.
Nós que assinamos estas páginas começamos a desgastar o primeiro álbum de blues místico que nos foi entregue em 2013, além da dupla Viaja al Cosmos de Prietto com Mariano ou dos boleros de partir o coração que ele marca solo em "La Última Noche" , então por aqui as notícias e ouvir novos materiais nos fazem sentir como uma garrafa de Passport. Um músico com aspectos e máscaras onde existem, é neste combo psicadélico-latino-bluesy-místico onde o seu talento mais brilha e esta "Gratidão" que eles tiveram a amabilidade de nos dar confirma-os como altamente inspirados e em estado de graça.
Uma percussão hipnótica acompanha o primeiro dedilhar da guitarra que introduz 'La Pérdida', com um baixo psicoxamânico que lentamente te envolve enquanto cantam “e o meu coração espera que amanhã não chova e volte a ver-te”. Bendita esperança para aqueles que têm uma nuvem acima de si. Em 'Perro Viejo' eles se tornam bartenders, suando swing e tequila em toda uma canção obsessivo-compulsiva. 'Mares', com seu ritmo cativante, torna-se o avanço quase marcial perfeito para o xamânico 'Alto Valle', que é puro transe. Atrás dela, e como uma alegre dança dos mortos (agora que as datas se aproximam), 'Gratidão' cai forte e quente em direção ao equador do cancioneiro. Já na segunda parte trazem toda a salsa e bolero que carregam no sangue para derramá-la sobre 'Negro Chico', outro gênio e mais um passo adiante. E na seguinte vamos a 'Vamos a la Luna', onde «o amor pode chegar se os nossos corações estiverem em paz«. bonito místico São mais primitivos e ortodoxos em 'Street Fight' e 'En las Cortinas', onde nos levam de volta às cantinas e à bengala para fechar com toda a cor e a festa que a morte tem no imaginário de Los Espíritus.
Grande entrega que excede em muito seu primeiro álbum. Ideal para transpirar a tristeza em contraste com o frio que nos chega e acompanhar com um fresco e espumante Fernet com Cola. Isso soa brilhante. Vamos crianças!
 
 
Você pode ouvi-lo do seu espaço no Bandcamp:

https://losespiritus.bandcamp.com/album/gratitud-2


Lista de faixas:
1. The Flood 4:23
2. Perro Viejo 6:18
3. Mares 3:30
4. Alto Valle 4:16
5. Gratitude 3:52
6. Negro Chico 4:04
7. Let's Go To The Moon 5:31
8. Street Fight 3:50
9. Las Cortinas 4:54
10. The Palace 6:34


Line-up:
- Maxi Prietto - Vocal, Guitarras
Santiago Moraes - Vocal, Guitarra Acústica
Miguel Mactas - Guitarra Elétrica
Martin Fernandez Batmalle - Baixo
Fer Barrey - Percussão, coros
Pipe Correa - Bateria, percussões menores

Cansei de Ser Sexy – Cansei de Ser Sexy (2005)


 

O primeiro disco da banda Cansei de Ser Sexy foi uma autêntica pedrada no charco, um cometa em fúria que misturou rock, pop e eletrónica pelo mundo inteiro. Muitos se renderam ao seu aparecimento, à sua passagem e à criação de uma cena única.

Eram cinco garotas e um garoto, todos nascidos entre os finais dos anos 70 e o início da década seguinte. As meninas davam pelos nomes de Lovefoxxx (voz), Ana Rezende (guitarra), Luiza Sá (guitarra), Carolina Parra (guitarra, bateria, teclados), Iracema Trevisan (baixo) e o menino respondia por Adriano Cintra (bateria, guitarra, teclado, baixo e voz). O nome que os levou ao Olimpo foi uma escolha de génio: Cansei de Ser Sexy (CSS). Já existiam desde 2003. Tocavam em múltiplos lugares sem terem qualquer disco gravado. Usaram a internet como forma de se catapultarem para o sucesso e eram amados e odiados por milhares de pessoas. O jeito I don’t give a fuck colou-se-lhes à pele e por isso havia quem os achasse ridículos. Outros, presos à estupefacção surgida por via desta nova cena, endeusaram a banda e os seus frenéticos temas. O primeiro álbum (homónimo) surgiu em 2005 e causou bons estragos no mundo da música indie. Foi o primeiro lançamento da etiqueta Trama Virtual, espaço muito importante para a promoção de novos artistas e de novas bandas que apenas existiam, digamos assim, em formato mp3. Os próprios CSS foram surgindo desse mesmo caldeirão. E, em pouco tempo, conquistaram o seu lugar na música.

A edição original do álbum comportava 14 temas. O primeiro single foi “Let’s Make Love and Listen Death From Above”. Seguiu-se “Bezzi” e “Superafim”, tema importantíssimo para o salto desejado pela banda. Todos os temas são autênticas fontes de energia, mas sobretudo “Superafim”, canção que parece ter nascido da mente de um qualquer demónio dançante de  depósito bem cheio de eufóricas anfetaminas. Uma bomba excitação com rastilho curto! Curioso é percebermos que perante toda esta inusitada onda nova há claramente ecos de uma banda marcante do chamado rock brasileiro (Brock) dos anos 80, os Blitz. Algumas das sua aventuras podem ser sentidas em muitos dos temas dos CSS. O álbum em apreço foi muito bem recebido pela malta da eletrónica e a razão desse namoro quase imediato não é difícil de entender, bastando para isso ouvir qualquer um dos temas que o integram. As ondas rock electroclashianas não enganam. É daqueles discos que tem de ser ouvido alto, com o volume a incomodar a vizinhança de todo o prédio ou quarteirão. Obrigatoriamente. De outro modo, perder-se-á o impacto festivo, a graça ululante que reside na sua génese, no seu claríssimo embrião.

Cansei de Ser Sexy (o disco), como já se percebeu, é um autêntico convite à alegria e ao regozijo. Para isso, e para além das canções já referidas, outras há que ficaram igualmente na memória das salas dos bares e discotecas do mundo inteiro. “Alala”, “Meeting Paris Hilton”, “Off The Hook”, entre outras, poderão servir como exemplo daquilo que dizemos.

Todo o tempo tem os seus fenómenos e os CSS tiveram o seu tempo. A sua carreira, verdadeiramente, ainda não teve fim anunciado, mas há já algum tempo que não são notícia. Entre este primeiro álbum e o último (Planta, de 2013), a banda foi lançando discos com algum impacto, mas foi-se esfumando a novidade e o interesse da sua mensagem sonora. No entanto, Cansei de Ser Sexy é um marco que ainda hoje se ouve e se recorda com muito agrado. É um disco jovem (dá-nos a impressão que terá sempre essa idade, digamos assim), repleto de um efervescente entusiasmo. Ainda hoje vale a pena ouvi-lo. Ainda hoje vale a pena dançá-lo!


The Strokes – First Impressions Of Earth (2006)


 

Último capítulo da santíssima trindade, First Impressions Of Earth é o álbum em que os Strokes assumem com clareza o lugar no pedestal onde foram colocados.

Quando foram gravar o seu terceiro álbum, os Strokes já estavam conscientes do que tinha acontecido. Cinco anos antes, talvez sem darem conta e definitivamente sem terem essa intenção, lançaram um disco, singelo, que veio mudar as regras do jogo, criar um novo padrão e, claro, salvar o rock.

Mas isso aconteceu no meio de um turbilhão bem maior que a música, Is This It saiu pouco depois do 11 de Setembro e todo o mundo estava atordoado e desnorteado. O segundo disco saiu em 2003 e, embora já tivessem noção do estrondo que tinham causado com o disco anterior, mantiveram em Room On Fire todas as mesmas fórmulas (na música) e a mesma atitude (fora dela).

Quando lançaram o primeiro disco foram parar ao mais sagrado altar, foram eleitos por público e crítica como Messias e, sim, com toda a razão de quem elegeu e todo o mérito de quem lançou um disco tão completamente fundamental. Porém, mesmo ao segundo disco, ainda surgiram com aquela postura dos miúdos que só querem fazer bom rock’n’roll e não estão aqui para salvar ninguém.

Só que em 2005, quando passaram o ano inteiro a compor e gravar as canções para o terceiro álbum, os Strokes já olhavam para as coisas de outra forma. Primeiro, estavam mais velhos (mais perto dos 30 do que dos 20), depois a poeira já tinha assentado: já tinham nascido as centenas de bandas de quem eles foram autores morais, o movimento indie rock já estava disseminado, já toda a gente seguia os ensinamentos de Is This It.

Então assumiram o lugar no pedestal para onde foram atirados e jogaram de acordo com essa condição. E quando, em Janeiro de 2006, é editado First Impressions Of Earth, os Strokes são a maior banda do mundo. Pode não ter durado muito mas a relação qualidade-credibilidade-impacto garantiu-lhes esse estatuto global.

Mantiveram tudo o que nos fez apaixonar por eles – as melodias e harmonias, a energia rock – mas apuraram um pouco mais a técnica. Já não foi tudo captado ao primeiro take e houve maior cuidado. Por oposição ao registo propositadamente sujo quase lo-fi dos primeiros dois álbuns (que podem ser considerados irmãos gémeos, tipo Kid A+Amnesiac), First Impressions Of Earth foi depurado e tudo é mais limpo, principalmente a voz de Casablancas, que deixa de estar meio escondida atrás de efeitos de microfone e surge mais cristalina.

Teve culpa nisto o produtor, David Khane, que apesar de ter um passado punk teve cargos de administração de algumas grandes editoras. Gordon Raphael, que produziu os primeiros dois álbuns, é mais da cultura underground ao passo que Khane está habituado a um patamar mais alto (produziu, por exemplo, discos de Paul McCartney, Tony Bennet, Bangles ou Sublime).

Mas não é por ser mais polido e arrumado que tem menos energia. Pelo contrário, este álbum é bem mais pesado que os anteriores.”Juicebox”, “Heart in a Cage“, “Vision of Division”, “Ize of the World” ou “Electricityscape” são músicas que mostram que os Strokes agora já levam o rock mais a sério, com maior envergadura.

You Only Live Once” e “Razorblade” mantém o equilíbrio com os discos anteriores. “Ask me Anything” e “Evening Sun” lembram-nos que os Strokes também conseguem encantar mesmo com baixas rotações.

First Impressions Of Earth foi o disco que concluiu a santíssima trindade, sagrada trilogia, tríade miraculosa, chame-se-lhe o que se quiser. Mas a sequência de três primeiros discos dos Strokes é intocável, indiscutível, incontornável, devia ser considerada Património mundial da Humanidade.

O que se passou depois, o rumo da banda e dos seus membros nas carreiras a solo, já pode ser mais discutível, mas estes três são todos discos nota 10. Pela época em que surgiram, pelo impacto que tiveram e pelos moldes que criaram, os Strokes garantiram assim o seu lugar no Olimpo.


sábado, 7 de janeiro de 2023

“O Papa É Pop” (BMG/RCA), Engenheiros do Hawaii



Na virada da década de 1980 para a década de 1990, os Engenheiros do Hawaii estavam com o prestígio em alta. Desde o segundo álbum de estúdio, A Revolta dos Dândis (1987), a popularidade do trio gaúcho estava em franco crescimento. A banda emplacava um sucesso atrás do outro, as vendagens de discos aumentaram e as apresentações passaram a ter plateias cada vez maiores. A fase estava tão boa que em setembro de 1989, a banda fez quatro apresentações em Moscou, ainda na então União Soviética. No mesmo ano, em outubro, os Engenheiros do Hawaii lançaram o primeiro álbum gravado ao vivo do trio, Alívio Imediato.

Com o prestígio tão em alta, os Engenheiros no Hawaii figuravam-se naquele momento entre as quatro maiores bandas do rock brasileiro. As outras três eram a Legião Urbana, Titãs e Paralamas do Sucesso. Contudo, o sucesso dos gaúchos parecia não convencer uma parcela da crítica musical, principalmente a do eixo Rio-São Paulo. Alguns analistas pareciam ter implicância com o trio, e isso ficava evidente em algumas resenhas e matérias a respeito da banda, o que em alguns momentos, acabou gerando atritos e troca de farpas entre alguns críticos e a banda. Ainda, os Engenheiros do Hawaii procuravam, ao lado dos seus fãs, dar de ombros a esses críticos, afinal a o sucesso da banda era uma realidade.

O ápice da fama dos Engenheiros aconteceu em 1990, através do seu quarto álbum de estúdio, O Papa É Pop. Lançado em outubro daquele ano, O Papa É Pop foi um divisor de águas na carreira do trio gaúcho, tanto do ponto de vista comercial como artístico. Foi o álbum mais vendido dos Engenheiros do Hawaii, e artisticamente, promoveu um redirecionamento musical do grupo. O fã mais atento deve ter percebido que essa reorientação estava por vir já no álbum Alívio Imediato, que embora gravado ao vivo, trazia duas faixas inéditas gravadas em estúdio que davam sinais de um processo mudança musical: “Nau À Deriva” e “Alívio Imediato”. Essas duas músicas já davam pistas de que o som da banda se distanciaria do folk rock que predominou nos álbuns A Revolta dos Dândis Ouça O Que Eu Digo: Não Ouça Ninguém (1988) e se direcionaria para o rock progressivo.

O Papa É Pop marcou o distanciamento dos Engenheiros do Hawaii do
som folk rock de A Revolta dos Dândis e de Ouça O Que
Eu Digo: Não Ouça Ninguém
.

A capa apresenta os membros e uma fotografia do papa João Paulo II (1920-2005) tomando chimarrão. Essa fotografia do papa foi cedida pelo ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, Leonel Brizola (1922-2004) e pelo fotógrafo Carlos Contursi, tirada em 1980, quando o Papa João Paulo II visitou o Brasil pela primeira vez, passou pelas principais capitais brasileiras, entre elas Porto Alegre, onde foi fotografado tomando chimarrão com chapéu de gaúcho na cabeça.

Foi a partir de O Papa É Pop que os Engenheiros do Hawaii passaram a fazer uso com maior frequência de sintetizadores, piano elétrico e bateria eletrônica, recursos que só aumentaram as evidências do direcionamento musical da banda para uma sonoridade mais elaborada, como é tão peculiar no rock progressivo. Tal direcionamento contrastava com as tendências roqueiras em voga na época como o grunge, o funk rock e a onda Madchester, liderada pelos ingleses dos Stone Roses.

Apesar de não ser necessariamente um disco de rock progressivo, O Papa É Pop é um trabalho que está próximo disso, entre o progressivo e o pop rock. O baixista e vocalista do trio, Humberto Gessinger, nunca escondeu a sua admiração pelo rock progressivo. O ex-baixista do Pink Floyd, Roger Waters, foi uma das principais referências na formação musical de Gessinger, seja na maneira de tocar como no processo criativo. Essa influência “wateriana” parece ter pairado sobre Humberto Gessinger, sobretudo nas três primeiras faixas de O Papa É Pop que têm como mote a guerra, o que nos faz lembrar de The Wall (1979) ou The Final Cut (1983), ambos álbuns do Pink Floyd cujos conceitos foram desenvolvidos por Roger Waters. No entanto, é possível também notar influências de Rush neste quarto álbum de estúdio dos gaúchos.

O ex-Pink Floyd Roger Waters: referência na formação
musical de Humberto Gessinger.

Na versão LP do álbum, cada lado foi batizado com um nome. O lado A foi chamado de “Lado Papa”, e o lado B de “Lado Pop”.

O chamado “Lado Papa” (o lado A) começa com “O Exército de Um Homem Só I”, música cujo título foi inspirado no livro O Exército de Um Homem Só, do escritor gaúcho Moacyr Scliar (1937-2011), lançado em 1973. A música é dedicada ao piloto alemão Mathias Rust, que em maio de 1987, com apenas, 18 anos de idade, invade o espaço aéreo da União Soviética com um avião Cessna 172, e pousou em plena Praça Vermelha, em Moscou.

Em seguida vem “Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e Os Rolling Stones”, gravada pela primeira vez pela banda Os Incríveis, em 1967. A canção é uma versão em português da italiana “C'era Un Ragazzo Che Come Me Amava I Beatles E I Rolling Stones”, composta por Franco Migliacci e Mauro Lusini, e gravada originalmente por Gianni Morandi em 1966. A letra trata sobre um jovem que foi mandado para a Guerra do Vietnã, deixando para trás sua família, amigos e sonhos para encarar uma guerra que não era sua. Voltou de lá morto, enfiado num caixão e com duas medalhas no peito. A música era tocada pelos Engenheiros dos shows da campanha para presidente da república de Leonel Brizola, em 1989. Empolgados pela boa recepção do público nos shows dos comícios, decidiram gravá-la.

A versão dos Engenheiros para “Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e Os Rolling Stones” é mais robusta, mais elaborada que a dos Incríveis, recheada de teclados, loops e efeitos de gravação. Existem exageros como um solo de guitarra tocando o Hino da Independência do Brasil e uma voz de um locutor berrando “Brasil!, Brasil!”, descaracterizando a proposta original da canção que faz referência a um conflito que envolveu os Estados Unidos e o Vietnã. A regravação da música em si soa anacrônica para a época, já que a Guerra do Vietnã já havia acabado há mais de 15 anos, e as questões geopolíticas eram outras como a recém queda do Muro de Berlim, a reunificação das Alemanhas e a Guerra do Golfo, que havia começado em agosto de 1990, dois meses antes do lançamento de O Papa É Pop.

Ainda sobre a relação Engenheiros do Hawaii e os Incríveis, um dado curioso sobre a capa de O Papa É Pop é que o seu projeto gráfico foi inspirado na capa de um single dos Incríveis, lançado, em 1971. Da faixa preta na parte superior da capa até a disposição foto e das letras, percebe-se uma grande semelhança entre as capas. 

Single dos Incríveis de 1971 e O Papa É Pop: semelhanças estéticas.

Assim que acaba “Era Um Garoto...”, entram a bateria de Carlos Maltz em ritmo marcial, seguida por um som de soldados marchando, dando início a “O Exército De Um Homem Só II”, a segunda parte da música que abre o álbum, também dedicada ao piloto Mathias Rust. Desta vez, por um envolvimento do piloto numa tentativa de homicídio, que tentou esfaquear uma enfermeira por quem se apaixonou, mas não era correspondido: foi preso e condenado a quatro anos de prisão.

“Nunca Mais Poder” possui um título de duplo sentido: ora uma negação a ter poder, ora poder ter ou fazer alguma coisa. Inspirada no poema “Eterno”, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), “Nunca Mais Poder” trata sobre o passado e o presente, o eterno e o moderno, o ontem e o hoje. A música termina com uma linha melódica bastante conhecida como se fosse uma “senha” para a faixa seguinte.

“Pra Ser Sincero” começa com um solo de piano citando o final da faixa anterior. Esta é uma das mais famosas canções dos Engenheiros do Hawaii, uma balada romântica e melancólica sobre um relacionamento acabou.

A letra de "Nunca Mais Poder" foi inspirada no poema "Eterno",
de Carlos Drummond de Andrade (foto).

O “Lado Papa” (o lado A), se encerra com o rock balada “Olhos Iguais Aos Seus”, que começa com a voz de Humberto Gessinger acompanhado por um piano elétrico, para mais adiante ter o acompanhamento dos outros instrumentos. Ao final, a canção termina com a voz de Gessinger num efeito “metálico” perguntando “o que fazem as pessoas para serem tão iguais?”.

O “Lado Pop” (o lado B) começa com “O Papa É Pop”, a faixa que dá nome ao álbum, um dos maiores sucessos da carreira dos Engenheiros do Hawaii. A música trata sobre consumismo e o imediatismo do mundo moderno, onde qualquer coisa pode virar produto de consumo ou elemento promocional, desde uma camiseta com frases de efeito a um atentado contra personalidades, como a que ocorreu contra o Papa João Paulo II, em 1981. Tudo vira marketing, tudo vira produto, tudo é capaz de vender qualquer coisa, e esse é o mote da canção. Em “O Papa É Pop”, os Engenheiros do Hawaii contam com participação especial dos veteranos do Golden Boys, grupo vocal que fez muito sucesso na Jovem Guarda, e que também era muito solicitado para fazer vocais de apoio nas gravações de discos de diversos artistas.

As duas próximas faixas, “A Violência Travestida Faz Seu Trottoir” e “Aconteceu Em Porto Alegre”, apesar de não terem sido sucessos radiofônicos, sãos duas das mais interessantes faixas do álbum O Papa É Pop. São também as mais longas do disco e as que mais deixam evidentes o direcionamento da banda para o rock progressivo.

Em “A Violência Travestida Faz Seu Trottoir” o trio gaúcho aborda as várias facetas e sutilezas da violência em nossas vidas, algumas até quase imperceptíveis. A música é dividida em vários andamentos, ora mais rápido, ora mais lento. No meio da canção, Humberto narra uma história inusitada de um homem apaixonado por uma apresentadora de programa infantil da TV, que se suicidou por não ter o seu amor correspondido. Na área instrumental da música, o destaque fica para o ritmo cavalgado da linha de baixo executada por Humberto Gessinger. Uma curiosidade: a voz feminina que participa da canção é a da cantora Patrícia Marx, que na época tinha apenas 16 anos.

A então cantora adolescente Patrícia Marx e Humberto Gessinger
no intervalo de gravação de O Papa É Pop.

“Anoiteceu Em Porto Alegre” é uma espécie de crônica em forma de música que retrata os fatos que acontecem nas ruas e becos da cidade de Porto Alegre durante a noite e madrugada de um dia qualquer. A letra faz citações de Beatles e Pink Floyd. Em meio aos versos, há várias colagens sonoras como as do programa A Voz do Brasil e de uma narração de um locutor esportivo narrando a vitória do Grêmio (time do qual Humberto Gessinger é torcedor) campeão da Taça Libertadores e campeão mundial de clubes em 1983.

“Ilusão De Ótica” é a faixa que encerra o álbum, e brinca com as frases subliminares. Na época que o álbum foi lançado, “Ilusão De Ótica” causou uma certa polêmica. Num determinado trecho final da música, Humberto Gessinger parece falar em russo, mas na verdade, a rotação de sua voz está em sentido inverso. Executando o disco ao contrário, pode-se ouvir o que realmente quis dizer: "Por quê que cê tá ouvindo isso ao contrário? O quê que 'cê tá procurando? Hein?" e aí, mais adiante, volta ao normal, quando o final da música é marcado por mais coisas da "linguagem alienígena" do vocalista, encerrando a música, os versos ao contrário eram "mal entendido,bem intencionado/mal informado, bem aventurado/Jesus salva, salve as baleias,leia livros/safe sex, relax/o papa é pop, o país é pobre, o PIB é pouco/meu pipi no seu popô, seu popô no meu pipi/poesia é um porre/o futebol brasileiro são várias camisetas com a mesma propaganda de refrigerantes/a juventude brasileira.../sem bandeiras, sem fronteiras pra defender". Ou seja, tudo não passa de uma brincadeira, uma “pegadinha” para surpreender aqueles que veem teoria da conspiração em tudo.

Da esquerda para a direita: Augusto Licks, Humberto Gessinger e Carlos Maltz.

Nas versões CD e fita cassete, foi incluída uma faixa bônus, “Perfeita Simetria”, que é uma “irmã” da faixa “O Papa É Pop”, por possuir uma base instrumental semelhante, mas uma letra diferente.    

Como era de se esperar quando se tratava de um novo disco dos Engenheiros do Hawaii, a recepção de O Papa É Pop por parte da imprensa não foi das mais amistosas. Numa resenha sobre o álbum para a revista Bizz, o crítico musical Celso Masson afirmou que as canções do disco eram “tudo que a juventude desinformada e ingênua gosta”, e foi muito sarcástico na conclusão: “como todo disco dos Engenheiros, este também é só para enganar otário”. Fernando de Barros, do jornal Folha de S. Paulo, em sua análise sobre o álbum O Papa É Pop, diz que a banda transformou de novo em hit uma “canção capenga” (referindo-se à regravação de “Era Um Garoto...”) e classificou o álbum como uma “choradeira contracultural” para “alimentar a indústria da diversão”.

Num sentido completamente inverso, O Papa É Pop caiu nas graças do público. Puxado pelas faixas “O Exército De Um Homem Só I”, “Era Um Garoto...”, “Pra Ser Sincero” e a faixa-título, o álbum chegou à casa das 400 mil cópias vendidas, e isso numa época em que o Brasil passava por uma crise econômica, onde alguns artistas tiveram baixas nas vendas de seus discos. 

O sucesso de O Papa É Pop e a ascensão que os Engenheiros já vinham desde A Revolta Dos Dândis, credenciaram a banda a participar do Rock In Rio II, em janeiro de 1991, no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. O trio gaúcho fez uma das melhores apresentações daquela edição do festival, segundo o jornal The New York Times, enquanto que o jornal Folha de S.Paulo desqualificou a apresentação da banda.

Apesar das críticas duras de uma parcela da imprensa, os Engenheiros do Hawaii não se abalaram com os ataques. Depois da turnê de O Papa É Pop, o trio entrou de férias, mas que não duraram muito. Logo estavam de volta ao trabalho para preparação de repertório para o disco seguinte, Várias Variáveis, de 1991, trabalho em que banda deu prosseguimento ao seu direcionamento musical para o rock progressivo.

Faixas                                                                                            

Todas as músicas escritas por Humberto Gessinger , exceto onde indicado.

Lado A ("Lado Papa")

  1. "O Exército de um Homem Só I" (Augusto Licks - Humberto Gessinger)
  2. " Era um Garoto que, como Eu, Amava os Beatles e os Rolling Stones (‘C'era un Ragazzo Che Come me Amava i Beatles e i Rolling Stones’)" (Franco Migliacci - Mauro Lusini; versão em português: Brancato Júnior)
  3. "O Exército de um Homem Só II" (Augusto Licks - Humberto Gessinger)
  4. "Nunca Mais Poder" (Augusto Licks - Humberto Gessinger)
  5. "Pra Ser Sincero" (Augusto Licks - Humberto Gessinger)
  6. "Olhos Iguais aos Seus" 

Lado B ("Lado Pop")

  1. "O Papa é Pop"
  2. "A Violência Travestida Faz Seu Trottoir"
  3. “Anoiteceu em Porto Alegre
  4. "Ilusão de Ótica"
  5. "Perfeita Simetria" (faixa bônus exclusiva do CD)

Engenheiros do Hawaii: Humberto Gessinger (vocal, baixo, piano Rhodes e midi pedalboard), Augusto Licks (guitarra, violão, teclados e midi pedalboard) e Carlos Maltz (bateria).


Ouça na íntegra o álbum O Papa É Pop


"O Papa É Pop"
(videoclipe original)

 

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