domingo, 15 de janeiro de 2023

Discografias Comentadas: Jimi Hendrix

 

Escrever sobre Jimi Hendrix não é fácil, pois ao longo de décadas uma tempestade de adjetivos já foi usada para descrever sua música, sua importância e seu legado para o rock de uma forma geral. Também não é fácil falar sobre “discografia” no caso dele, por conta de sua febre pela música, pelo ritmo com que produzia e gravava suas idéias e por ter sua trajetória tragicamente interrompida pelo abuso das drogas. Brotaram, anos afora, as mais diferentes compilações de material que não foi lançado no curto período de sua carreira como artista solo.
Por uma questão de facilidade, adoto o critério de escrever somente sobre os discos que foram lançados no período em que Hendrix esteve entre nós, excetuando-se algumas poucas coletâneas e lançamentos direcionados para alguns países. A obra como um todo de Hendrix possui mais de uma centena de canções, versões de músicas de outros compositores e dezenas de gravações ao vivo de seus concertos.
The Jimi Hendrix Experience – Are you Experienced (1967) 
Jimi Hendrix e seu Experience (Noel Redding no baixo e Mitch Mitchell na bateria) surgem hecatômbicos já no disco de estreia. Nasceu pronto o ícone da guitarra lisérgica, rasgando depois de absorvê-las, todas as lições do blues, do folk, do soul e do próprio rock. Revelado ao mundo por meio de Chas Chandler (ex-baixista do grupo Animals) e abastecido por um universo alucinógeno paralelo, Hendrix disparou uma série de canções altamente empolgantes e ao mesmo tempo inovadoras e experimentais. Não foi a descoberta do fogo ou a invenção da roda, mas canções como “Purple Haze”, “Foxy Lady”, “Fire” e “I Don’t Live Today” sintetizaram o espírito de época e catapultaram o rock para um novo patamar de liberdade criativa, especialmente em termos de instrumentação. Além do seu próprio valor em si, Are you Experienced foi o catalisador para que o peso, o ecletismo e a improvisação fossem doenças quase irremediáveis para o rock a partir daquela época. Neste trabalho, temos rock psicodélico com valsa jazz em “Manic Depression”, referências soul em “Wind Cries Mary”, um passeio por escalas orientais na tocante “May this be Love”, explosões de sons e efeitos em “Love or Confusion” e na faixa título, e uma inusitada transa entre George Harrison e John Coltrane conversando sobre aliens em “Third Stone from the Sun”, uma canção que junto com várias outras do biênio 66-68 foi a linha evolutiva da chamada art-rock. Menção mais que honrosa aos heróicos Redding e Mitchell , com atuações soberbas no disco. Desnecessário dizer quantos guitarristas foram influenciados por Are you Experienced.
The Jimi Hendrix Experience – Axis: Bold as Love (1967) 
Após a explosão de Are you Experienced, era evidente que Jimi e sua trupe teriam uma rotina frenética de concertos, apresentações em redes de TV e rádio, ações de publicidade, sessões de fotos, entrevistas, etc e tal. Desta forma, e tendo em vista que apenas oito meses separaram um lançamento do outro, fica claro entender que Axis: Bold as Love não foi exatamente pensado como álbum. Era um punhado de canções que iam sendo compostas em passagens de som, quartos de hotel, ou em estúdios pelo caminho que estivessem disponíveis. O ritmo do Experience era estafante, porém as idéias fervilhavam e iam aos poucos sendo aprimoradas. Também o processo de gravação era bastante fracionado, sendo encaixado no tempo que houvesse disponível, com Hendrix e a banda. Curiosamente, este disco reflete Hendrix com um aparato de psicodelia menos robusto; Chas Chandler tinha uma forte visão de mercado e trabalhava para que o disco fosse o mais atrativo, comercialmente falando, quanto possível. Hendrix admitiu muitas de suas sugestões e em Axis Bold as Love temos a maioria das canções dentro de padrões radiofônicos – em torno dos três minutos ou menos. Mas não alimentemos a ilusão de que houve algum recuo de musicalidade e inventividade, alguma concessão pop. Swing jazz aparece em “Up from the Skies”, Hendrix fazendo bases de piano (com acordes aprendidos de um improviso jazz do engenheiro Eddie Kramer) na tortuosa e pesada “Spanish Castle Magic”, ou então tocando flauta doce na parte final da psicodélica “If 6 was 9” e aproveitando para destilar baladas lindíssimas como a tocante “Little Wing”, “Castles Made of Sand” e seu entrelaçamento de guitarras invertidas e “Bold as Love”. Axis: Bold as Love é um disco com produção sonora mais caprichada, canções mais acessíveis convivendo com experimentação e uma capa de bastante impacto visual. Foi o suficiente para lograr Jimi Hendrix ainda mais ao topo.
Noel Redding, Mitch Mitchell e Jimi Hendrix
The Jimi Hendrix Experience – Eletric Ladyland (1968) 
Eis aqui a maximização da sonoridade de Jimi Hendrix; libertando-se gradativamente das amarras de Chas Chandler e Mike Jeffrey, Hendrix pinçou em Eletric Ladyland o trabalho mais eclético de sua curta carreira, já marcada por passeios em territórios sonoros dos mais diversos. Outra marca do disco foi a inclusão de convidados; Hendrix era um sujeito bastante agregador e tinha muitas amizades no meio musical, como muitos bootlegs de jams sessions com bambas da época revelam. O menu da Eletric Lady nos oferece ultrapsicodelia soul em “Have you Ever Been (To Eletric Ladyland)?” funk-blues em “Crosstown Traffic” e “Rainny Day Dream Away” (com Buddy Miles na bateria e outros convidados), rock da pesada em “Come On Pt. 1” e “Voodoo Chile (Slight Return)” profetizando o hard rock dos anos 70, blues explosivo em “Voodoo Chile” (com o órgão Hammond transpirante de Steve Winwood e o baixo poderoso de Jack Cassidy) e um estilo inconfundível em “Gypsy Eyes”, “House Burning Down” e na versão metamorfose definitiva de “All Along the Wacthower” (essa contando com Dave Mason no violão e tendo o baixo tocado pelo próprio Hendrix, já que Redding por uma desavença não quis gravá-la). Ah, sem contar mais uma tintura art-rock com “1983 (A Merman I Should Turn to Be)” que contou com a flauta de Chris Wood. Este é o melhor trabalho de sua carreira – todas as suas qualidades aqui estão em plenitude: seu imenso talento como compositor, arranjador e guitarrista.
Jimi Hendrix – Band of Gypsys (1970) 
Apesar de ser um disco ao vivo, a compilação das faixas para Band of Gypsys incluiu apenas material inédito. A plateia de felizardos ali presente pode curtir o reveilon de 1969 atordoada com uma das melhores performances de Hendrix na guitarra. Foram dois shows realizados no Filmore East, em Nova York, um no dia 31 de dezembro de 69 e outro no dia 01 de janeiro de 70. Se alguém coloca em xeque a supremacia de Hendrix na guitarra, este disco é uma excelente evidência. Sem truques e nem retoques de estúdio, ele aparece bastante concentrado no instrumento e preparado para a gravação, já que o lançamento era previsto para cumprir uma obrigação contratual (Hendrix não lia os contratos que assinava e entrou em algumas enrascadas por causa disso). A Band of Gypsys era composta por Billy Cox, baixista e amigo de Hendrix que encarnou todos seus projetos a partir de 69, e Buddy Miles, na época um emergente baterista e vocalista egresso do Electric Flag. Esses companheiros ajudaram Hendrix a fazer seu trabalho com as mais fortes referências funk-soul; uma explosão de grooves que culminava no totem elétrico da Fender Stratocaster de Jimi. Se a comunidade negra americana implicitamente cobrava uma resposta de Hendrix, foi com todas as cores e sons que ele respondeu. Os vocais divididos com Miles em “Who Knows”, passando pela fotografia dos campos de sangue do Vietnã em “Machine Gun” , mais o balanço irresistível da composição de Miles, “Changes”, e a batida lancinante de “Power of Soul”, colocam nossa imaginação no poder e entregam um prato cheio de delírios para os ouvintes.
Jimi Hendrix, gênio da guitarra que completaria 70 anos em outubro



Box Set: Pantera – Cowboys from Hell – The Ultimate Edition [2010]

 

Em 1990, os texanos Vincent “Vinnie” Paul Abbott, “Dimebag” Darrell Lance Abbott (ambos filhos do relativamente conhecido músico Country e produtor Jerry Abott) e Rex Robert Brown, lançariam seu quinto disco, o segundo com os vocais de Philip Hansen “Phil” Anselmo, (natural de Nova Orleans). O trabalho, que recebeu o sintomático título de Cowboys From Hell, teria um som consideravelmente distante dos trabalhos prévios do quarteto, onde muito de Glam Rock e o Hair Metal se fazia presente.
É verdade que com a adição de Anselmo no lugar de Terry Glaze a partir do quarto álbum, esses elementos se tornaram menos evidentes, mas foi com Cowboys From Hell que a coisa museu realmente de figura, com um som bem mais pesado, direto e sujo. Cowboys From Hell é o primeiro disco do Pantera a contar com aquele groove característico que se tornaria marca registrada do conjunto dali pra frente.
Rex Brown, Phil Anselmo, Vinnie Abbott e Dimebag Darrell 
Tudo aqui é mais coeso e denso. Das guitarras de Dimebag (um dos maiores talentos das seis cordas nas décadas de 1990 e 2000), com seus riffs certeiros e cortantes, aos berros e linhas vocais fortes de Anselmo, passando – é claro – pela cozinha sólida de Vinnie Paul (que esmurra a bateria sem dó, com uma precisão digna de um veterano) e Rex (que “engorda” e dá mais peso ainda à massa sonora da banda), tudo aqui é de um frescor único, condensado em um uma música que até então – e e mesmo depois – não tinha par. Era o que seria chamado “Groove Metal” Desde a primeira canção do disco, e até o final do mesmo (lançado a 24 de julho de 1990), o peso mostra sua cara.
Seria uma injustiça destacar uma ou outra música, afinal, o álbum é todo muito bom, mas canções como a faixa título (que abre o disco), “Psycho Holyday”, a semi-balada – sem melação – “Cemetery Gates” (todas as três merecedoras de singles, à época), “Domination” e “Prmal Concrete Sledge” são pérolas do estilo que surgia – e viria a influenciar dezenas de outras bandas – e ficariam cravadas no rol de excelência do Rock/Metal.
Cowboys from Hell
Levando-se em consideração sua importância musical e a influência que o álbum ia exercer num futuro próximo, seria justo que Cowboys From Hell recebesse um relançamento à altura de sua qualidade. É isso que entrega o Box-Set comemorativo aos vinte anos de lançamento da bolacha, lançado, obviamente, em 2010, e intitulado Cowboys from Hell – The Ultimate Edition.
Cowboys from Hell – The Ultimate Edition: repleto de mimos para os fãs
Ele contém três CDs, uma camiseta, as indefectíveis réplicas (Backstages Pass, Poster, Ingresso, Flyer, Button…) e um livreto com informações completas sobre o álbum, recheado de fotos inéditas e considerações dos membros da banda, do produtor Terry Date e outros.
O primeiro disco traz Cowboys From Hell remasterizado diretamente das fitas originais, com um som claro e cristalino. No segundo CD (ao vivo), sete músicas gravadas no Foundantions Forum (em Los Angeles) em 1990, todas previamente inéditas em CD, mais quatro registrada no “Monsters Of Rock” de Moscou no ano seguinte, além de uma versão de uma música do show do Foundations, em versão editada, todas até então inéditas em território Americano.

Capa do CD com as demos de Cowboys from Hell
Fechando a parte musical do pacotão, um terceiro disco contendo as demos de Cowboys From Hell quase na íntegra (versões porto de “Primal Concrete Sledge” e “Crash With Reality” não constam na bolachinha), mais um som inédito – também em versão demo – das sessões do álbum: “The Will To Survive”. Com uma sonoridade muito mais próxima do que o Pantera fazia até a entrada de Anselmo do que do material que faz parte de Cowboys From Hell, a música é uma espécie de elo perdido entre a sonoridade inicial dos caras, e o monstro em que o quarteto se transformaria anos depois. Senão possui a mesma qualidade das canções que acabaram no disco, serve como registro histórico e do ponto onde o desejo criativo e a necessidade de evolução do grupo falou mais alto.

Dimebag Darrel
Depois de Cowboys from Hell, o Pantera seguiu numa linha cada vez mais ascendente de qualidade, sucesso e reconhecimento, gravando ainda quatro discos de estúdio, e um lançamento ao vivo. Entretanto, abuso de drogas e álcool, desentendimentos internos, e disputas de ego desintegraram o grupo por dentro, levando à dissolução do grupo 10 anos depois de seu disco mais ambicioso. O assassinato a tiros de Dimebag, quatro anos depois, em oito de dezembro de 2004 (a mesma data em que John Lennon morreu, 24 anos antes), sepultou de vez qualquer chance de um retorno da banda aos palcos.
Cowboys From Hell ficou como um dos mais representativos trabalhos do Rock e do Metal dos anos 90, e um poderoso testimonial do talento e criatividade de Dimebag Darrell.
Alguns itens do Box-Set foram lançados separadamente, um tempo depois: Um Digipack com os três CDs, Um LP apenas com os demos, com uma capa exclusiva (ambos em edições limitadas) e um CD Duplo contendo o álbum original, e o segundo CD com as canções ao vivo, mas nada que se compare ao capricho e ao capricho dessa The Ultimate Edition. Vale a pena correr atrás!

Canções do Box Set de Cowboys From Hell 
Disco: 1 [REMASTERED]
1. Cowboys From Hell
2. Primal Concrete Sledge
3. Psycho Holiday
4. Heresy
5. Cemetery Gates
6. Domination
7. Shattered
8. Clash With Reality
9. Medicine Man
10. Message In Blood
11. The Sleep
12. The Art Of Shredding
Disco: 2 [LIVE]
1. Domination
2. Psycho Holiday
3. The Art Of Shredding
4. Cowboys From Hell
5. Cemetery Gates
6. Primal Concrete Sledge
7. Heresy
8. Domination
9. Primal Concrete Sledge
10. Cowboys From Hell
11. Heresy
12. Psycho Holiday
Disco: 3 [UNRELEASED DEMOS]
1. The Will To Survive
2. Shattered
3. Cowboys From Hell
4. Heresy
5. Cemetery Gates
6. Psycho Holiday
7. Medicine Man
8. Message In Blood
9. Domination
10. The Sleep 11. The Art Of


Quando Roberto Era Negão

 

Roberto Carlos fez, em 1967, um dos melhores discos de rock’n’roll que o Brasil já ouviu, Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, que serviu de trilha sonora para o filme homônimo de Roberto Farias. Por diversos motivos, além do repertório brilhante (“Eu Sou Terrível”, “Por Isso Corro Demais”, “Você Não Serve Pra Mim”, a primeira canção pop brasileira com uso ostensivo do pedal de guitarra fuzz, entre outras), o disco soava como um ritual de passagem da adolescência musical do cantor para a vida adulta. Foi um dos raros discos feitos sem a colaboração de “seu amigo…Eraaasmo Carlos”, o primeiro em que assinou sozinho os créditos de suas canções, rompendo temporariamente o acordo de assinatura conjunta com Erasmo e, aliás, produto justamente de um rompimento pessoal e profissional com ele em função de briga por espaço no programa de TV Jovem Guarda. Enfim, agruras do mesquinho star system e dores do crescimento.

Em ritmo de aventura

O canto do cisne da Jovem Guarda do Rei

Por falar em Jovem Guarda, Em Ritmo de Aventura, não seria exagero dizer, é também o canto de cisne deste golpe publicitário de Carlos Imperial (um simpático vigarista da cena pop da época que teria muito a ensinar a Malcolm McLaren) que virou estilo musical. Claro que os tiques e sestros do movimento ainda estão lá, mas se faz ouvir uma sonoridade um pouco mais densa e uma queda para o rock’n’roll mais duro que vinha da Inglaterra e dos EUA em detrimento da influência do iê-iê-iê italiano.

Pois bem, parecia que Roberto resolvera sair da adolescência musical da Jovem Guarda e iniciar vida de jovem adulto, coisa que Erasmo, também resolver fazer, se aproximando tanto da MPB quanto do rock estrangeiro. Enquanto, como se viu depois, Roberto ia em direção ao pop romântico, Erasmo caia num rock mais experimental, abrindo-se tanto para a música brasileira, como para o rock psicodélico.

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Roberto no auge da soul music

O que interessa, contudo, é que entre 1968 e 1973, os dois tiveram momentos remarcáveis nesta transição. São desta época, sem dúvida, antes de virar este cadáver insuportável que assombra a programação da Rede Globo, os 4 ou 5 LPs mais impressionantes de Roberto, começando com O Inimitável, de 1968. São também deste período os melhores LPs de Erasmo, começando com Os Tremendões, de 1969, que antecipa o excepcional Carlos, Erasmo sob diversos ângulos, mas também os excelentes Sonhos e Memórias (72) e 1990 – Projeto Salva Terra, de 1974.

É sabida a influência que, no princípio dos anos de 1970, a música negra americana exerceu sobre muitos astros da nascente MPB. Para não falar dos autênticos negões, Tim, Cassiano, Hildon, Toni Tornado e da geração imediatamente posterior, Dafé, Oberdan e Black Rio, Gerson King Combo, pois seria malhar no óbvio, lembremos aqui os discos de Elis Regina de 1970 (Em Pleno Verão), 1971 e 1972,  realizados “with a little help from” Nélson Motta, em que a cantora, líder em 1967 da passeata contra a guitarra elétrica, caia no soul e no funk, inclusive recebendo o próprio Tim Maia para uma interpretação nota 10 de “These are the Songs” e regravando espetacularmente “As Curvas da Estrada de Santos”.

Roberto e Tim

Tim Maia e Roberto Carlos

Mas legal mesmo é ouvir Roberto Carlos em seu momento black is beautiful. As biografias são unânimes em contar que, no final dos anos de 1960, Roberto e Erasmo estavam magnetizados pela soul music. Tanto em sua autobiografia como em Noites Tropicais, de Nelson Motta, fica patente o lugar de Erasmo na abertura da cabeça de Roberto para as sonoridades negras que desciam do Norte. Mesmo assim, antecipando Tim Maia em alguns anos, é Roberto Carlos quem vai dar cara nacional-popular aos ritmos da Motown, da Atlantic e da Stax-Volt, gravando no imaginário coletivo uma penca de gemas soul que, apesar disso, ou por isso mesmo, são profunda e injustamente subestimadas.

Preparei uma listinha com algumas dessas gemas, algumas escondidas e outras incompreendidas, a despeito de serem extremamente populares. A sugestões seguem com um comentariozinho de valor mais afetivo do que crítico.

Esqueça seu jeito esnobe de roqueiro principista, afaste o sofá da sala, se esbalde com este track list e tente ouvir Roberto Carlos com ouvidos mais livres.


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1. “Não Adianta Nada” – a primeira recomendação é de um disco já do Roberto romântico semibrega, lá dos idos de 1973. Mas é a melhor faixa soul gravada pelo Rei e, talvez, a melhor gravada num disco no Brasil. E, sem medo de ser feliz, incluo aquelas lançadas por Tim Maia nesta comparação. “Gravada no Brasil” é força de expressão, pois a produção e arranjos são notoriamente gringos. Bateria altíssima e baixo rechonchudo na frente, naipe de metais com trombone tonitruante, guitarra rítmica suingada e a voz de RC enterrada lá atrás na mixagem. Como se dizia no meu tempo, um racha-assoalho pesadíssimo e sacolejante, pau a pau com o melhor do mestre Tim Maia.


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2. “Não Há Dinheiro que Pague” – Voltando no tempo, esta faixa é do LP de 1968, O Inimitável, disco de ruptura com a Jovem Guarda, melhor dizendo, de superação da Jovem Guarda, posto que dela incorpora vários elementos, mas num patamar superior. A inspiração em Otis Reding e congêneres é gritante. Esta faixa antecipa os procedimentos que chegariam à perfeição em Não Adianta Nada, já comentada. O Inimitável é o melhor disco da carreira de Roberto e um dos melhores do pop nacional.


3. “Se Você Pensa” – também de O Inimitável, soul roqueiro com metais em brasa. Faixa muito popular, está na eternidade só pelas bases de guitarra tão reconhecíveis que se gravaram no imaginário de várias gerações.


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4. “Nada Vai Me Convencer” – do disco de 1969, soul em formato clássico e letra amorosa-inconformista e refrão popular que maltrata o português: “já cansei de ser escravo de você”. Células rítmicas repetitivas, harmonia ao órgão Farfisa de Lafayete e guitarra de uma nota só. Selvagem!


Roberto-Carlos-e-Tim-Mais---fotomontagem5. “Não Vou Ficar” – a selvageria segue em pérola de Tim Maia registrada pelo autor apenas em seu segundo disco e, diga-se, em versão muito inferior a esta. Também do disco de 1969. Nelson Motta afirma que as gravações foram dirigidas pelo próprio Tim que, como não lia nem escrevia partitura, fez o arranjo e ensinou aos músicos como deveriam tocar na base da imitação de boca dos instrumentos. Isso como se a faixa que deu a Maia seu primeiro hit já não fosse suficientemente lendária!


6. “Do Outro Lado da Cidade” – simpática melodia que emula o Jorge Ben de discos como O Bidu. Seria, é claro, um exagero atribuir a Roberto a invenção do samba-rock, mas aqui temos uma das melhores e pioneiras expressões deste estilo brasileiro.


7. “As Curvas da Estrada de Santos” – culminância musical e lírica de Roberto e Erasmo, não por acaso de sotaque negróide. O que dizer desta faixa das mais conhecidas e regravadas da dupla? Um blues de melodia rara e movido a base de guitarra diretamente saída dos discos de Otis Reding e sopros que marcam dramaticamente os momentos mais pungentes da canção. A letra cinematográfica deve ter feito Caetano Veloso (que ouviu uma prévia da música em Londres, da boca do próprio autor) se roer de inveja.


8. “Sua Estupidez” – clássico absoluto. Simplesmente, uma das canções de amor mais violentas que eu conheço, que nem a gravação suave de Gal Costa em A Todo Vapor reduziu a contundência!


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9. “Uma Palavra Amiga” – canção de autoria do autêntico negão Getúlio Cortes (figura do rock e do soul brasileiros que merece ser resgatada). Piano pulante como fundo para melodia suave mas pontuada por blue notes, que prepara a entrada do naipe de sopros encharcados de soul, fazendo contraponto à seção tonitruante de cordas. Um jogo de intensidade e silêncio típico da soul music da época. Do disco de 1970.


10. “Se Eu Pudesse Voltar no Tempo” – soul tropical e relaxado no estilo mais de Erasmo do que de Roberto. Bateria na frente e base pontuadas por intervenções “grosseiras” de trombone, instrumento que lidera o naipe de sopros. Também do disco de 1970.


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11. “Todos Estão Surdos” – esqueça a letra pacifista-carola e se concentre no arranjo pesado, nas guitarras rascantes, na bateria de baque solto, no coral de negonas e no tom celebratório tipicamente hippie. Hipnótica canção, regravada com toda propriedade por Chico Science (Disco-tributo “Rei”), que prolonga a fase soul num disco (Roberto Carlos, 1971) que marcaria a virada estilística de Roberto, mas ainda preservando uma inatacável categoria.


12. “Como Dois e Dois” – embora tenha sido lançada originalmente por Roberto, no disco de 1971, com grande sucesso popular, este clássico blues de Caetano Veloso, composto em Londres, não é muito lembrado por este registro de Roberto. Com letra de ironia fina em relação ao pico de repressão da Ditadura Militar, trata-se de uma das únicas incursões de Roberto na canção de temática política, embora sutil. O arranjo não é tão abertamente soul-blues mas a fagulha negra está lá.


13. “Eu só Tenho Um Caminho” – rock de Renato Barros com condução marcante de guitarra, mas remetida às sonoridades soul pela intervenção do naipe de metais.


Depois deste período, no início dos anos 1970, indo até meados desta década, Roberto abandonará, ao mesmo tempo, as referência roc k& soul e o estilo vocal calcado no minimalismo de João Gilberto estupendamente adaptado a suas canções eletrificadas da Jovem Guarda e do período negróide. Se vocês ouvirem o brilhante Caetano Veloso desta época, perceberão que sua propalada herança vocal joãogilbertiana passou pelo choque entre delicadeza e eletricidade que Roberto criou nos anos de 1960.

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Foram tantas emoções …

Depois, Roberto adentrou em outra tradição, a da interpretação melodramática, sentida, sem chegar (até porque sua extensão vocal não permitia) ao dó de peito. Tradição que se corporificou no profícuo veio cafona que nos deu gigantes da música popular da época, todos imitando, mais ou menos, os trejeitos robertianos: Paulo Sérgio, Odair José, Fernando Mendes, Zé Augusto e tantos outros.

Deep Purple – Turning to Crime

Os Deep Purple está de volta com Turning to Crime, vigésimo segundo álbum de estúdio gravado pela banda. O grande chamariz do álbum é o repertório composto apenas por covers, algo até então inédito na carreira . Aliás, esta opção causou uma certa apreensão nos fãs, mas os motivos são bastante razoáveis: como alguns dos integrantes vivem em países diferentes, reunir a banda e a equipe em estúdio para compor e gravar durante a pandemia não era uma opção viável, sendo assim, para não deixar o ano passar batido, surgiu a ideia de gravar remotamente um álbum com versões para canções de outros artistas.

Para coordenar as atividades, o grupo reeditou a bem-sucedida parceria com Bob Ezrin (Pink Floyd, Lou Reed, Alice Cooper e Kiss), responsável por produzir os três últimos trabalhos da banda. Turning to Crime chega às lojas e serviços de streaming pouco mais de um ano após o lançamento do elogiado Whoosh!.

As 12 canções selecionadas são bem diversificadas e fogem da obviedade na maioria nos casos. Afinal de contas, quem esperaria ouvir o Deep Purple interpretando “Dixie Chicken” clássico da banda de southern rock Little Feat ,“Let the Good Times Roll”, um standard do jazz composto por Louis Jordan ou a country “The Battle of New Orleans” imortalizada por Johnny Horton nos Estados Unidos e por Lonnie Donegan no Reino Unido? Provavelmente ninguém.

O álbum abre com a psicodélica “7 And 7 Is”, um dos poucos hits da banda californiana Love. Aqui a canção ganhou peso e solos atmosféricos de guitarra e sintetizador. O clima muda um pouco na sequência com a divertida “Rockin’ Pneumonia and the Boogie Woogie Flu” (composição de Huey “Piano” Smith), sucedida por uma poderosa versão para “Oh Well”, um blues rock do Fleetwood Mac (era Peter Green).

O rock de garagem dos anos 60 é lembrado numa versão frenética para “Jenny Take A Ride!” (Mitch Ryder & The Detroit Wheels). “Watching the River Flow”, composição de Bob Dylan, recebeu uma roupagem honky-tonk. “Let the Good Times Roll”, por sua vez, manteve a verve original pontuada por metais e ganhou um inspirado solo de órgão Hammond tocado por Don Airey no melhor estilo Jimmy Smith.

A banda não faz feio na inusitada regravação para “Dixie Chicken”, mantendo a pegada suingada proposta pelo Little Feat. “Shapes of Things”, recebeu um tratamento mais lento e mais pesado que a gravação dos Yardbirds.

O baixista Roger Glover divide os vocais com Ian Gillan em “The Battle of New Orleans”, propiciando um momento de pura descontração. Em “Lucifer”, de Bob Seger, a banda passeia pela crueza do rock de Detroit. “White Room”, uma das músicas mais marcantes do Cream, talvez seja a escolha mais óbvia do disco. Entretanto, o Purple sabidamente acrescentou algumas novas nuances à canção, evitando assim a chamada reprodução nota por nota.

O encerramento do disco fica por conta de “Caught in the Act”, um medley despojado com trechos de “Going Down” (Freddie King), “Green Onions” (Booker T. & the M.G.’s), “Hot Lanta” (The Allman Brothers Band), “Dazed and Confused” (Led Zeppelin) e Gimme Some Lovin’ (Spencer Davis Group).  

É impossível não falar sobre dos atributos musicais dos integrantes do Deep Purple. Ian Paice constrói levadas de bateria repletas de groove e pegada. Don Airey é praticamente uma enciclopédia musical, capaz de tocar com profundidade e brilhantismo qualquer tipo de gênero – do jazz ao hard rock. Ian Gillan, dono de uma das vozes mais marcantes do rock, ainda mantém a solidez do passado, ainda que tenha perdido parte dos agudos devido à idade avançada. Steve Morse, diminuiu um pouco a “fritação” de outrora devido a problemas nos dedos, passando a escolher as notas com maior sobriedade privilegiando o feeling. Roger Glover segura as pontas com linhas de baixo precisas e sem exageros. Todas essas competências instrumentais se fazem notar em cada faixa do álbum.

Também é preciso exaltar o trabalho de Bob Ezrin na produção e mixagem do disco. Apesar de ter sido gravado individualmente pelos músicos em vários estúdios espalhados pelo mundo, a sonoridade do álbum é impressionante e sem pontas soltas. É possível ouvir cada instrumento com bastante definição.

Em Turning to Crime o Deep Purple não pisa em nenhuma casca de banana e entrega ao ouvinte um trabalho divertido, despretensioso e repleto de musicalidade. Um bom remédio para os tempos sombrios em que vivemos. 


FICHA TÉCNICA:

Artista: Deep Purple

Álbum: Turning to Crime

Produção: Bob Ezrin

Duração: 49m

Data de lançamento: 26 de novembro de 2021

Gravadora/Selo: earMUSIC/Shinigami Records (Brasil)

Faixas:
01. “7 and 7 Is” (Love)
02. “Rockin’ Pneumonia and the Boogie Woogie Flu” (Huey “Piano” Smith)
03. “Oh Well” (Fleetwood Mac)
04. “Jenny Take A Ride!” (Mitch Ryder & The Detroit Wheels)
05. “Watching the River Flow” (Bob Dylan)
06. “Let the Good Times Roll” (Ray Charles & Quincy Jones)
07. “Dixie Chicken” (Little Feat)
08. “Shapes of Things” (Yardbirds)
09. “The Battle of New Orleans” (Lonnie Donegan/Johnny Horton)
10. “Lucifer” (Bob Seger System)
11. “White Room” (Cream)
12. “Caught in the Act” (Medley: “Going Down”/”Green Onions”/”Hot ‘Lanta”/”Dazed and Confused” /”Gimme Some Lovin'”)

Clique aqui para ouvir Turning to Crime nas plataformas de streaming.

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