domingo, 15 de janeiro de 2023

“Californication” (Warner, 1999), Red Hot Chili Peppers




Entre 1997 e 1998, o clima não estava bom na banda Red Hot Chili Peppers. Para começar, o álbum One Hot Minute, de 1995, vendeu mundialmente pouco mais de 5,8 milhões de cópias, muito abaixo do aclamado Blood Sugar Sex Magik (1991), que em todo mundo ultrapassou a marca de 14 milhões de cópias vendidas (mais de 7 milhões só nos Estados Unidos). O principal motivo para a situação difícil pela qual passavam os Red Hot Chili Peppers girava em torno do guitarrista Dave Navarro, músico que estava na banda desde 1993, após a saída de John Frusciante. Havia uma insatisfação dos membros do grupo com Navarro, e isso acabou motivando a sua saída da banda, em abril de 1998.

Sem guitarrista, os Red Hot Chili Peppers passaram a buscar não apenas um substituto para ocupar o lugar de Navarro, mas também uma maneira de reerguer a autoestima da banda. O baixista Flea e o vocalista Anthony Kiedis enxergavam apenas um nome: John Frusciante. No entanto havia um grande problema: Frusciante travava uma grande batalha para se livrar das drogas, uma batalha que já vinha desde a sua saída dos Red Hot Chili Peppers e que tinha tudo para ser perdida. O vício do músico em heroína e cocaína era tão sério que estava levando-o à ruína financeira. Em janeiro de 1998, John Frusciante internou-se mais uma vez para tratar da sua dependência, mesma época em que os Red Hot Chili Peppers vivenciavam sua crise como Dave Navarro.

Em abril de 1998, quando Dave Navarro deixou a banda, Flea foi à procura de John Frusciante, que àquelas alturas, estava em tratamento contra o vício em drogas. O convite de Flea para retornar à sua antiga banda, parecia um presente para Frusciante, e a mesmo tempo, uma motivação para superar a sua condição de dependente químico, e um desafio para dar a volta por cima.

Red Hot Chili Peppers no detalhe na capa da revista Rolling Stone, edição de outubro de 1995:
Dave Navarro (o primeiro à esquerda) foi o pivô da crise na banda em meados dos anos 1990.

Reintegrado à banda, Frusciante e seus antigos companheiros começaram a elaborar e ensaiar durante meses o repertório para o próximo álbum. As canções que os membros da banda estavam compondo refletiam os momentos de turbulência que o grupo estava atravessando, bem como as questões pessoas de cada um deles. Para a produção, os Red Hot Chili Peppers contaram com Rick Rubin, o mesmo produtor dois álbuns anteriores, o consagrado Blood Sugar Sex Magik e One Hot Minute (1995). As gravações do novo álbum aconteceram no Cello Studios, Los Angeles, entre dezembro de 1998 e março de 1999.

Em maio de 1999, a prova de fogo para a nova fase dos Rede hot Chili Peppers foi o lançamento do single de “Scar Tissue”, um mês antes do lançamento do álbum. Nos Estados Unidos, o single foi 1º lugar da Billboard Hot Modern Rock Tracks e da Billboard Mainstream Rock Tracks. No Reino Unido, o single alcançou o posto de 15º lugar UK Singles Chart. O público e a crítica reagiram bem ao primeiro single do novo álbum que estava por vir.

Intitulado Californication, o sexto álbum de estúdio dos Red Hot Chili Peppers chegou às lojas em 8 de junho de 1999. A arte da capa foi concebida pelo designer gráfico Lawrence Azarad, a partir de um sonho que o guitarrista John Frusciante teve, no qual aparecia uma piscina com um céu dentro dela ao invés de água, e o céu era tomado por água. Lawrence fez uma montagem fotográfica em que mostra uma piscina com nuvens alaranjadas, e o céu com ondas de água.

Californication trouxe os Red Hot Chili Peppers mais maduros nas letras, que refletiam as experiências de vida de seus integrantes, que exceto Frusciante, o mais novo do grupo, já haviam passado da casa dos trinta anos de idade. Os temas das canções passam por drogas, morte, viagem, amor, fama e luxúria. O álbum mostra também o quanto a banda se dedicou para fazer um trabalho muito bem-acabado. Anthony Kiedis está cantando melhor, fruto das aulas que havia tendo com o professor de canto Ron Anderson, especialista em canto lírico. John Frusciante superou-se, seja tocando a sua guitarra, seja na sua completa entrega coma a criação dos arranjos das canções, uma prova de que o músico via em Californication uma vitória pessoal, uma prova de que estava saindo do seu inferno interior e queria mostrar ao seu público que era um artista recuperado.

John Frusciante (o terceiro da esquerda para a direita) reintegrado ao Red Hot Chili Peppers

“Around The World” é a primeira faixa do álbum que fala sobre as viagens de Anthony Kiedis ao redor do mundo. Se nas estrofes, Kiedis declama nos versos como um rapper bem ao estilo Red Hot Chili Peppers, no refrão ele canta acompanhado dos vocais de fundo feitos pelos seus companheiros de banda. Instrumentalmente, a faixa possui ritmos alternados que variam entre um rock agressivo, um funk com uma linha de baixo poderosa e um ritmo mais voltado para o pop.

“Parallel Universe” foge do estilo tradicional dos Red Hot Chili Peppers. A letra é estranha e uma tanto quanto surreal. A faixa seguinte, “Scar Tissue”, trata da vida da banda, de suas experiências de estrada, regada aos excessos tão comuns na carreira das estrelas de rock. O título da canção (“Cicatriz”, em português), é bem sintomático, representa a marca do tempo, da vivência dos membros da banda. O destaque em “Scar Tissue” fica para o marcante solo de slide guitar executado por John Frusciante.

“Otherside” é uma homenagem a Hillel Slovak, ex-guitarrista dos Red Hot Chili Peppers, morto em 1988 aos 26 anos, vítima de overdose de heroína. A música trata dos conflitos e das angústias vividas pelo músico ao lidar com o seu vício. John Frusciante foi o substituto de Slovak no posto de guitarrista na banda, tendo à época, apenas 18 anos de idade. A faixa seguinte, “Get On Top”, segue o estilo autenticamente Red Hot Chili Peppers: linha de baixo pulsante e cheia de slaps, guitarra distorcida, e uma mistura bem resolvida e dançante de funk e rock.

"Otherside" é uma homenagem a Hillel Slovak (à direita), guitarrista do
Red Hot Chili Peppers morto em 1988.

Em “Californication”, faixa que dá nome ao álbum, a banda traça uma crítica à vida superficial das celebridades em Hollywood, à busca incessante pela fama a todo custo. Para fazer o riff de guitarra de “Californication”, John Frusciante teria se inspirado numa antiga música do The Cure, “Carnage Visors”, de 1981.

Os Red Hot Chili Peppers flertam com o pop em “Easily”. A música possui uma sonoridade acessível, em que alterna o ritmo lento com a levadas rápidas e dançantes. Calma e tranquila, “Porcelain” é uma balada que foge completamente ao estilo Red Hot Chili Peppers, e conta com um Anthony Kiedis cantando de maneira suave.

Para compor “Emit Remmus”, Anthony Kiedis teve como inspiração, a cantora Melanie C, na época integrante das Spice Girls, e com quem tinha amizade. A música possui um ritmo lento, guitarra distorcia e baixo robusto. Uma curiosidade é que o título esquisito nada mais é do que a expressão “Summer Time” (horário de verão”, em português), escrito ao contrário.

“I Like Dirt” a veia funk dos Red Hot Chili Peppers se mostra mais acentuada. Frusciante faz solos de guitarras cheios de efeitos de pedais wah wah que remetem a Jimi Hendrix (1942-1970). Enquanto isso, baixo e bateria garantem a base instrumental hipnótica e “quebrada”.  Em “This Velvet Glove”, os Red Hot Chili Peppers fazem uma bem construída integração entre a sonoridade acústica e elétrica, garantida pelos violões e guitarra elétrica. O ritmo funk se apresenta bem sutil, discreto.

“Savior” é uma canção que Anthony Kiedis escreveu dedicada ao seu pai, o ator John Kiedis, mais conhecido pelo público norte-americano como Blackie Dammett. Não era a primeira vez que Kiedis escrevia uma canção dedicada ao seu pai. A primeira foi “Breaking Girl”, do álbum Blood Sugar Sex Magik (1991). Mais tarde, ele compôs outra canção dedicadas ao pai: “The Hunter”, do álbum The Gateway (2016).

John Kiedis e seu filho Anthony Kiedis nos anos 1970, um adolescente e futuro astro do rock


“Purple Stain” é um fantástico funk rock onde os Red Hot Chili Peppers se mostram muito bem entrosados. Todos os músicos se destacam em ”Purple Stain”, em especial, o baterista Chad Smith, talvez a faixa do álbum em que mostra com mais intensidade as suas habilidades como músico. A partir da metade da música até o final, a banda faz uma longa demonstração instrumental.

“Right On Time” é curta que começa de maneira repentina. É um funk rock veloz, de andamentos que alternam rapidez e ritmo moderado. Aqui, o baixo de Flea é extremamente pulsante.

Fechando o álbum, a balada acústica “Road Trippin’ “, que conta com a voz de Anthony Kiedis, acompanhada pelo violão de John Frusciante e um órgão Chamberlin, tocado pelo tecladista Patrick Warren. Curiosamente, o que parece ser som de violinos que se ouve na canção, nada mais é do que o som produzido pelo órgão Chamberlin. Semelhante ao Mellotron, o instrumento já está fora de fabricação desde o começo dos anos 1980. Era muito utilizado na década de 1960, conseguia simular sons de vários instrumentos como violino, violoncelo, piano, flauta, trombone, trompete dentre outros.  

"Primo" do Mellotron e parente distante do sampler, o órgão Chamberlin foi usado na
faixa "Road Trippin" para simular som de violinos

Todos esforços empregados pelos Red Hot Chili Peppers na gravação de Californication valeram à pena. O álbum teve uma ótima recepção por parte da imprensa musical que teceu elogios ao álbum. A revista Rolling Stone destacou os vocais de Kiedis que segundo a publicação, tiveram uma evolução técnica. Houve uma parcela da crítica especializada que creditou a qualidade do álbum ao retorno de John Frusciante à banda.

Muito bem recebido pela crítica, Californication teve ótima recepção por parte do público, ansioso com o álbum que contava com a volta da formação que consagrou os Red Hot Chili Peppers. Californication chegou ao 3º lugar na Billboard Hot 200, nos Estados Unidos. No Reino Unido, alcançou o 5º lugar no Top 40. Na Finlândia, Áustria, Suíça e Nova Zelândia. Californication foi 1º lugar nas paradas de álbuns desses países. O álbum foi 2º lugar na França e Holanda.

Californication gerou ao todo single: “Scar Tissue”, “Around The World”, “Otherside”, “Californication”, “Road Trippin’” e “Parallel Universe”.

Em maio de 1999, um mês antes de Californication ser lançado, foi iniciada a turnê promocional do álbum, provavelmente movida pela expectativa pelo retorno de John Frusciante aos Red Hot Chili Peppers. Foi a maior turnê da carreira dos Red Hor Chili Peppers até então, e que durou um ano e quatro meses, passou pela América do Norte, Europa, Ásia, Oceania e América do Sul, contabilizando no total 139 shows.

A turnê incluiu o famigerado show dos Red Hot Chili Peppers no festival Woodstock ’99, em Rome, estado de Nova York, em julho de 1999, que celebrou os 30 anos do antológico Festival de Woodstock, de 1969. No dia 25 de julho, um incidente grave e lamentável ocorreu durante a apresentação dos Red Hot Chili Peppers. Quando a banda californiana tocava “Fire”, de Jimi Hendrix (1942-1970), a pedido da família do lendário guitarrista, um incêndio começou a consumir barracas de lanches, banheiros químicos do festival. O incêndio teria sido provocado por uma parte da plateia que havia recebido velas dos organizadores do evento para uma vigília celebrando a paz. A boa intenção que tinha um motivo pacífico, acabou tomando um sentido contrário: o pânico tomou conta do público por causa do incêndio. Como se isso não bastasse, durante a confusão, houve saques e até mesmo estupros.

Red Hot Chili Peppers no Festival de Woodstock, em 1999. em noite que terminou em caos.

Por outro lado, iniciando a turnê europeia de Californication, os Red Hot Chili Peppers tocaram em 14 agosto de 1999, na Praça Vermelha, em Moscou, na Rússia, para um público estimado pouco mais de 200 mil pessoas, provavelmente, um dos shows mais marcantes do quarteto californiano.

Em 2000, na 42ª cerimônia anual do Grammy Awards, em 2000, “Scar Tissue” conquistou o prêmio na categoria “Canção de Rock”. No mesmo ano, os Red Hot Chili Peppers conquistam três prêmios no MTV Video Music Awards: “Melhor Direção” (pelo videoclipe de “Californication”), “Melhor Direção de Arte” (pelo videoclipe de “Californication”) e “Prêmio Michael Jackson Video Vanguard”.

Com mais de 16 milhões de cópias vendidas (mais de 6 milhões somente nos Estados Unidos), e muito bem aclamado pela crítica, Californication é o álbum mais bem-sucedido comercialmente da discografia dos Red Hot Chili Peppers.

Faixas

  1. “Around The World”
  2. “Parallel Universe” 
  3. “Scar Tissue”  
  4. “Otherside”   
  5. “Get On Top”             
  6. “Californication”       
  7. “Easily”          
  8. “Porcelain”    
  9. “Emit Remmus”         
  10. “I Like Dirt”
  11. “This Velvet Glove”
  12. “Savior”
  13. “Purple Stain”
  14. “Right on Time”         
  15. “Road Trippin’”


Todas as músicas escritas e compostas por Anthony Kiedis, Flea, John Frusciante e Chad Smith.

Red Hot Chili Peppers: Anthony Kiedis (vocais), John Frusciante (guitarra, vocais de apoio, teclados e violão em “This Velvet Glove” e “Road Trippin’”), Flea (baixo, baixo acústico em “Road Trippin’” e vocais de apoio) e Chad Smith (bateria e percussão). 



"Around The World" (videoclipe original)


"Parallel Universe"


“Scar Tissue”(videoclipe original)


 
“Otherside” (videoclipe original)


“Get On Top”


 
“Californication” (videoclipe original)


“Easily” 


 
“Porcelain” 


“Emit Remmus”


  
“I Like Dirt”


This Velvet Glove"


"Savior"


"Purple Stain"


"Right On Time"


"Road Trippin'"

“Cássia Eller” (PolyGram, 1994), Cássia Eller

 


Cássia Eller (1962-2001) despontou numa nova geração de cantoras da música brasileira entre o final dos anos 1980 e começo dos anos 1990, e da qual fizeram parte também Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, Zélia Duncan dentre outras.

Em 1993, já com dois álbuns no currículo e o respeito por parte da crítica conquistado, Cássia se mostrava desmotivada e insatisfeita com sua carreira. Ainda que tivesse o prestígio da crítica, Cássia era uma cantora que atingia um público pequeno, era uma cantora “cult”. Seus dois primeiros álbuns, Cássia Eller (1990) e O Marginal (1992), tiveram vendas baixíssimas. A desmotivação era tamanha que Cássia cogitava pedir demissão da gravadora.

Naquele momento, a cantora passava por uma crise financeira, estava sem dinheiro, e ainda para completar, estava grávida do seu primeiro e único filho, Francisco Eller, fruto de uma relação o músico Tavinho Fialho, baixista da banda da cantora. Vale destacar que a gravidez de Cássia era uma “produção independente”, o desejo de realizar o sonho de ser mãe, e não havia uma cobrança por parte dela para que ele assumisse a criança. Homossexual assumida, Cássia tinha um relacionamento afetivo com Maria Eugênia Vieira, com quem constituiu família após o nascimento do bebê e que foi sua companheira até a sua morte. Por outro lado, Tavinho era um homem casado e com dois filhos.

Lamentavelmente, Tavinho não veria o filho chegar ao mundo: ele morreu aos 32 anos, uma semana antes da criança nascer. Sem dinheiro e nem plano de saúde, o parto de Cássia teria sido bancado pela gravadora PolyGram. A criança nasceu em agosto de 1993.

Cássia Eller segurando em seus braços o filho Francisco Eller, 
e sua companheira Maria Eugênia Vieira.

De volta ao trabalho, Cássia começou a gravar o seu terceiro álbum, o último previsto no contrato com a PolyGram, e que talvez, selasse a sua sorte, a depender do desempenho comercial. A produção do álbum ficou por conta do produtor Guto Graça Mello, convidado pela gravadora, enquanto que a seleção de repertório ficou a cargo de Ezequiel Neves.

A princípio, o novo álbum seria exclusivamente de covers, talvez até para torna-lo mais comercial, porém, três canções inéditas acabaram sendo incluídas no repertório, “Malandragem”, “E.C.T.” e “1º de Julho”. Dos covers incluídos no álbum, dois foram sugestões da gravadora, “Partners”, do RPM, e “Try A Little Tenderness”, sucesso de Otis Redding. Dentre convidados, Roberto Frejat (na época, ainda o vocalista e guitarrista no Barão Vermelho), Wander Taffo (1954-2008) (ex-guitarrista da banda Rádio Táxi), e Flávio Guimarães (gaitista da Blues Etílicos).

O terceiro e autointitulado álbum de Cássia Eller começa com “Partners”, música do RPM presente no álbum RPM, de 1988, popularmente conhecido como Quatro Coiotes. Cássia canta de maneira soberba, imponente com uma base instrumental puxada para o hard rock. Wander Taffo faz uma participação especial extraindo solos fantásticos da sua guitarra.

A faixa seguinte é “Malandragem”, um dos maiores sucessos da carreira de Cássia Eller. Por incrível que pareça, esta canção não foi feita para Cássia, apesar de ter tudo a ver com ela. Na verdade, foi composta nos anos 1980, por Cazuza (1958-1990) e Roberto Frejat, ambos especialmente para a cantora Ângela Ro Ro. Além de amigos de Ângela, os dois nutriam uma grande admiração pela cantora. Contudo, Ângela recusou gravar a canção, alegando que o repertório do álbum que estava para gravar já estava fechado. Mas no fundo, o verdadeiro motivo é que Ângela não gostou dos versos, achando um tanto quanto “infantis” (“Quem sabe eu ainda sou uma garotinha / Esperando o ônibus da escola, sozinha / Cansada com minhas meias três quartos...”), achou a canção uma “merda”. Anos mais tarde, Frejat ofereceu “Malandragem” a Cassia Eller, que estava preparando repertório para seu novo álbum. Fã de Cazuza, que àquelas alturas, já havia morrido faziam quatro anos, Cássia aceitou de imediato gravar a canção. “Malandragem” caiu como uma luva na voz de contralto e rebelde de Cássia Eller. “Malandragem” parece que foi feita para ela.

Cazuza e Roberto Frejat, nos tempos da banda Barão Vermelho, em 1985: 
os dois compuseram "Malandragem" para Ângela Rô Rô (no detalhe),  
mas quem acabou gravando foi Cássia Eller.

E.C.T. é a abreviação de Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, ainda que não tenha a letra “B” na sigla. E é essa sigla que dá nome à terceira canção do álbum composta por Nando Reis, Marisa Monte e Carlinhos Brown. A letra conta a história de um carteiro que costumava abrir as correspondências das pessoas. Uma das correspondências abertas, uma carta de amor que retornou ao remetente, o carteiro criou uma música. A canção ficou famosa e o autor da carta reconheceu ao ouvi-la no rádio. “E.C.T.”, a canção, é uma música calma, tranquila, e que num determinado trecho, lembra música árabe. No entanto, a presença constante da cuíca, dá um toque de brasilidade à canção.

“Try A Little Tenderness”, é uma canção dos anos 1930, mas que ao longo do tempo foi regravada pelos mais diversos artistas como Bing Crosby (1903-1977), Otis Redding (1941-1967) e Three Dog Night. Soltando a sua poderosa voz e encarnando o seu lado soulwoman roqueira, Cássia empregou na sua versão para “Try A Little Tenderness” os mesmos arranjos e interpretação da versão de Otis Redding, gravada em 1966.

Se “Malandragem” foi uma canção composta especialmente para Ângela Ro Ro, mas que fora rejeitada por ela e gravada anos depois por Cássia Eller com muita propriedade, “1º de Julho” foi dedicada a Cássia. Pode-se dizer que foi um presente dado por ninguém menos que Renato Russo (1960-1996), vocal da Legião Urbana. Renato compôs “1º de Julho” para Cássia quando ela ainda estava grávida, trata do sentimento da maternidade e da gravidez da cantora cercada das expectativas quanto ao futuro do bebê. A letra toca, ainda que sutilmente, sobre a insegurança e as dúvidas que pareciam pairar sobre a cabeça do pai da criança, já que ele era homem casado e com dois filhos. Em contrapartida, apresenta Cássia como uma mulher segura, decidida e amando o ser que estava sendo gerado em seu ventre, o que mostra que Renato era um compositor bastante sensível e com uma percepção bastante aguçada.

Renato Russo compôs "1º de Julho" para Cássia Eller quando ela estava grávida.

“Na Cadência do Samba” encerra o lado A da versão LP do álbum. A música é um clássico do samba de Ataulfo Alves, de 1962. Cássia canta acompanhada de um violão, e de um pandeiro marcando o ritmo.

O lado B é composto apenas de covers, começando com uma música dos Paralamas do Sucesso, “Lanterna dos Afogados”, sucesso do álbum Big Bang (1989). Cássia pegou esse rock dos Paralamas e injetou mais “testosterona”: ganhou mais pesou, distorção na guitarra, e virou um hard rock. Wander Taffo aparece mais vez, mostrando todo o seu virtuosismo de guitarrista com solos demolidores. E como não poderia deixar de ser, Cássia Eller canta de maneira brilhante.

“Coroné Antônio Bento” é um antigo sucesso do primeiro e autointitulado álbum de Tim Maia (1942-1998), lançado em 1970. Na sua versão, Cássia manteve a essência miscigenada de baião com soul da versão original, mas canta ao seu modo, do seu jeito.

Assim como em “Coroné Antônio Bento”, a versão de Cássia para “Metro Linha 743”, de Raul Seixas, pouco difere nos arranjos da versão original. O reggae pop “Socorro”, de Arnaldo Antunes e Alice Ruiz, foi gravado por Cássia antes mesmo de Arnaldo, que só o faria em 1998, para o seu álbum Um Som.

Cassia Eller fazendo aquilo sabia fazer de melhor: cantar.

“Blues do Iniciante”, é uma antiga canção do Barão Vermelho, lançada originalmente no álbum Barão Vermelho 2 (1983), com Cazuza cantando acompanhado de um piano. Na versão de Cássia, a música é executada com uma banda completa, mantendo a essência do blues. Cássia Eller canta à vontade, e emprega toda uma carga dramática na sua interpretação.

Do álbum Dois (1986), da Legião Urbana, Cássia resgatou a canção “Música Urbana”. Na versão original da Legião, a canção é um blues acústico com Renato Russo cantando acompanhado de um violão. Com Cássia, o blues acústico da Legião Urbana transformou-se num vigoroso blues rock, com guitarra distorcida e uma gaita muito bem executada por Flávio Guimarães, da banda Blues Etílicos. Cássia Eller canta de maneira assombrosa, numa completa entrega à música.

Encerrando o álbum, “Pétala”, uma bela canção de amor de Djavan, do seu álbum Luz (1982). Cássia canta acompanhada por teclados que produzem um clima “etéreo” na canção.

Lançado em meados de 1994, o terceiro álbum agradou em cheio o público e a crítica. “Malandragem” foi sem sombra de dúvidas, a faixa mais tocada do álbum, posicionando-se nas primeiras colocações das paradas de sucesso do Brasil. “E.C.T”, “1º de Julho”, e a cover de “Lanterna dos Afogados”, também tiveram boa execução nas rádios brasileiras. O álbum vendeu pouco mais de 150 mil cópias, mais do que os dois primeiros álbuns juntos. Cássia ampliava o seu público, deixando de ser apenas uma artista alternativa para se tornar uma cantora das massas. A turnê do álbum foi registrada e culminou no primeiro álbum gravado ao vivo da cantora, Cássia Eller – Ao Vivo, lançado em 1996. Curiosamente, os shows dessa turnê foram essencialmente acústicos, o que fez a turnê ser batizada de Violões, contando apenas com três violões: o da própria Cássia Eller, mais os dos violonistas Walter Villaça e Luciano Maurício.

Faixas

Lado A
  1. "Partners" (Paulo Ricardo - Paulo P.A. Pagni - Luiz Schiavon)
  2. "Malandragem" (Cazuza - Roberto Frejat)   
  3. "E.C.T."  (Nando Reis - Marisa Monte - Carlinhos Brown)   
  4. "Try A Little Tenderness" (Harry Woods - Jimmy Campbell - Reg Conelly)
  5. "1º de Julho” (Renato Russo)
  6. "Na Cadência do Samba” (Ataulfo Alves - Paulo Gesta)


Lado B
  1. "Lanterna dos Afogados” (Herbert Vianna)
  2. "Coroné Antonio Bento” (Luiz Wanderley - João do Vale)
  3. "Metrô Linha 743” (Raul Seixas)
  4. "Socorro" (Arnaldo Antunes - Alice Ruiz)
  5. "Blues do Iniciante" (Roberto Frejat – Dé - Guto Goffi - Maurício Barros – Cazuza)         
  6. "Música Urbana 2” (Renato Russo)  
  7. "Pétala" (Djavan) 

Banda: Márcio Lomiranda (teclados), Paulo Rafael (guitarra), Fernando Nunes (baixo) e Cesinha (bateria).

Partipações Especiais: Wander Taffo (guitarra solo em “Lanterna dos Afogados” e “Partners”) e Roberto Frejat (violão em “1º de Julho”).



"Partners"


"Malandragem" (videoclipe original)


"E.C.T."


"Try A Little Tenderness"


"1º de Julho"


"Na Cadência do Samba"


"Lanterna dos Afogados"


"Coroné Antônio Bento"


"Metrô Linha 743"


"Socorro"


"Blues do Iniciante"


"Música Urbana 2"


"Pétala"

Resenha Kings Of Mercia Álbum de Kings Of Mercia 2022


Resenha

Kings Of Mercia

Álbum de Kings Of Mercia

2022

CD/LP

Com um pacote de canções hard e heavy rock em mãos, o incansável Jim Matheos, na intenção de criar um novo projeto, buscou por diversos vocalistas até encontrar Steve Overland (FM), por recomendação do amigo Jeff Wagner. A parceria deu tão certo, que Overland participou ativamente em algumas melodias e principalmente na parte lírica. Para a bateria, Matheos resolveu tentar um sonho antigo: tocar com o lendário Simon Phillips. E conseguiu! Para o baixo, a escolha mais óbvia e natural de todas: o parceiro de Fates Warning, Joey Vera.

O desenvolvimento do material fluiu bem e o próximo dilema estava na escolha do nome do projeto. Matheos, que já faz parte do Arch/Matheos, não queria algo do tipo Matheos/Overland. Então, depois de muito pensar, a dupla chegou em um consenso para o nome Kings Of Mercia, que não tem qualquer significado especial além disso.

Com o apoio da Metal Blade, "Kings Of Mercia" chegou e não decepcionou. Não é um disco com o metal progressivo do Fates Warning, nem com o hard e AOR melódico do FM. É um trabalho concentrado nos riffs da guitarra de Jim, canções levemente mais complexas que as comuns do estilo e que foram elaboradas de maneira bastante competente e com produção cristalina. É de fato um disco de hard rock mais direcionado para o metal, mas que soa acessível devido à belíssima voz de Overland, que por sinal é destaque durante toda a audição. Impressionante o controle e precisão de suas linhas vocais, mesmo após tanto tempo de estrada. Também não são músicas que irão impressionar o ouvinte logo de cara, mas, com algumas audições adicionais, é possível notar cada vez mais os detalhes e a dedicação dos músicos envolvidos.

Seja nos momentos mais pesados ou nos mais suaves, "Kings Of Mercia" chegou fugindo do convencional. Não é inovador, mas também não traz a mesmice da maioria das novas bandas que surgem por todos os cantos hoje em dia. Fica a curiosidade sobre o que virá em um eventual segundo disco.

Faixas de destaque: "Wrecking Ball", "Humankind", "Set The World On Fire" e as baladas "Too Far Gone" e "Everyday Angels".

Tracklist:

Wrecking Ball	
Humankind	
Sweet Revenge	
Set The World On Fire	
Too Far Gone	
Liberate Me	
Nowhere Man	
Everyday Angels	
Is It Right?	
Your Life

Resenha Empty Sky Álbum de Elton John 1969

 

Resenha

Empty Sky

Álbum de Elton John

1969

CD/LP

"Empty Sky" não teve grande promoção ou apoio da mídia. Seu maior sucesso, "Skyline Pigeon", só ganhou notoriedade quando regravada mais adiante. Mas foi aqui, ainda no final da década de sessenta, que foi dado início à carreira magnífica de Elton John, uma trajetória multipremiada e de sucesso quase que inalcançável. Além disso, dá pra curtir - e muito - o que temos aqui.

Não é um clássico, sua produção está longe do ideal e falta o toque de um produtor de alto nível, já que a parceria com Gus Dudgeon foi iniciada apenas no disco seguinte. Mas, "Empty Sky" é um deleite para os fãs mais exploradores, aqueles que gostam de garimpar na obscuridade. E aqui o negócio rende bem, já que temos claras muitas das influências de seu criador: o rock sessentista, o R&B, o soul e até a psicodelia se fazem presentes, em doses equilibradas e com muito bom gosto.

Destacam-se as rockers "Empty Sky", "Western Ford Gateway" e "Sails". Temos também as baladas "Val-Hala" e "The Scaffold", que mostram grande potencial. Por fim, a bela melodia folk de "Hymn 2000" agrada bastante e vale a menção.

O disco foi relançado em 1996 com a explosão da era CD. Com ele vieram as bônus "Lady Samantha", "All Across The Havens", "It's Me That You Need" e "Just Like Strange Rain", quatro faixas que não trazem a mesma qualidade, mas que ainda assim despertam o interesse do ouvinte.

"Empty Sky" chegou aos Estados Unidos apenas em 1975, com arte de capa diferente e quando Elton já era considerado um fenômeno. Aqui, Sir Elton John ainda não tinha sua famosa banda, não contava com grande apoio comercial, e mesmo assim não decepcionou. Era apenas o começo de algo realmente grandioso.

Faixas:

A1		Empty Sky
A2		Val-Hala
A3		Western Ford Gateway
A4		Hymn 2000
B1		Lady What's Tomorrow
B2		Sails
B3		The Scaffold
B4		Skyline Pigeon
B5		Gulliver-Hay Chewed-Reprise

Destaque

THE CONTENTS ARE - Live Davenport, Iowa [US RAREST 1968 Hard Blues Acid Rock]

  AQUI TEMOS UMA GRAVAÇÃO AO VIVO NO "THE EAGLES LODGE DANCELAND, EM DAVENPORT, IOWA, EM 1968!! É UMA GRAVAÇÃO INÉDITA RETIRADA DAS MAS...