sábado, 21 de janeiro de 2023

“Father Of All…” – O descompromissado disco dos Green Day

 

O Green Day sempre foi uma banda muito presente de praticamente qualquer bom ouvinte de Rock (e que preferencialmente iniciado neste “ofício” na década de 90, como este que vos escreve), seja direta ou indiretamente, qualquer ser que pirasse em Rock nesta época não passava despercebido pela banda, graças ao sucesso descomunal alcançado por esta, principalmente depois da explosão do sensacional “Dookie” (1994).

Ao longo dos anos, foram construindo uma digna e vitoriosa carreira, fazendo moleques (e até marmanjos) delirarem com seu Punk Pop divertido, recheado de ótimas canções e grandes hits que estouraram mundialmente. O grande auge veio em 2004 com o excelente “American Idiot”, mais um momento em que poucos passaram despercebidos pela trio, graças a forte mensagem política que o disco trazia, e também por abraçarem o emocore tão em evidência naquele tempo, fundindo ao já característico som do grupo, que resultou mais uma vez em hits avassaladores.

Depois de uma sequência de lançamentos duvidosos, como o mediano “Revolution Radio” (2016), a banda entrega um novo trabalho de estúdio em 2020 intitulado de “Father Of All…”, que se não significa um retorno a grandes momentos de inspiração, ainda sim, pelo menos se mostra algo mais digno que seus discos anteriores.

Logo de cara, é bem perceptível que a banda quis dar uma certa renovada e up em seu som, trazendo uma boa influência de grandes bandas como The Queens Of The Stone Age, Eagles Of Death Metal e The Black Keys. Por outro lado, há também a velha e tradicional preocupação em soar comercial demais, o que acabou resultando em momentos bem dispensáveis presentes no álbum.

“Father Of All…” consegue sim entregar boas e empolgantes faixas como “Fire, Ready, Aim”, “Sugar Youth”, “Stab You In The Heart” e a faixa título. Outro bom destaque é “Oh Yeah!”, que soa como uma música de bandas como OneRepublic e Imagine Dragons, só que um pouco mais “barulhenta”, e surpreende positivamente pelo forte acento Pop mais comercial com grande potencial para hit. O restante do trabalho consiste em momentos bem esquecíveis e que pouquíssimo agregam ao disco como “I Was Teenager Teenager” e “Junkies on a High”.

Green Day poderia ter entregado aos seus fãs um disco um pouco mais divertido e cativante (dentro de apenas 26 minutinhos de duração), e embora consiga realizar isso em alguns momentos, acabaram preenchendo bons minutos com algumas faixas bem dispensáveis, que se não fazem de “Father Of All”… algo constrangedor, também não fazem deste algo memorável dentro da obra discográfica da banda.



“American Standard” – Uma viagem sonora pela música americana


Em 2020, uma das maiores lendas vivas da música americana, o mestre James Taylor, lançou seu novo álbum de estúdio, intitulado de “American Standard”. O disco precede o ótimo “Before This World” (2015), e assim como o título auto-explicativo já diz, se trata de uma seleção de quatorze temas clássicos da história do cancioneiro popular americano.

Um dos principais motivos por trás do projeto foi a insatisfação que James sente em relação ao tratamento que é dado a essas canções clássicas hoje em dia. Para ele, músicas que em outras épocas refletiam tristes dilemas e períodos amargos da história dos Estados Unidos, infelizmente foram reduzidas simplesmente a jingles publicitários.

Em 45 minutos, o disco proporciona aos ouvintes uma encantadora viagem sonora rumo às raízes da música americana, que trilha pelos caminhos do Folk, Blues e Jazz, com uma banda super competente elaborando belíssimos arranjos dando uma cara nova e ao mesmo tempo mantendo a essência dessas velhas e tradicionais músicas. James também as interpreta lindamente e com muita dignidade, como se o próprio as tivesse escrito, o que já era esperado, pois se tratam de antigas canções da qual ele tanto ama e que certamente deve ter crescido ouvindo. Não há como não se emocionar com pérolas como “My Blue Heaven”, “Moon River”, “Teach Me Tonight”, “The Nearness Of You”, “My Heart Stood Still” e “The Surrey With The Fringe On Top”, todas lindíssimas músicas dotadas de uma beleza bucólica cativante, e que trazem todos os encantadores elementos da bela música americana de raiz.

“American Standard” é um digno e belo lançamento que só tem a somar na ótima discografia deste grande compositor, que assim como várias outras lendas como Bob Dylan, Paul McCartney, Rod Stewart e Eric Clapton, resolveu dar uma pequena pausa em seu principal ofício, para prestar uma homenagem as composições mais amadas por ele a partir do extenso catálogo de Standards da música americana. Talvez o disco possa ser considerado monótono e esquecível para alguns, e mesmo que não seja exatamente uma obra inesquecível, merece sim ser apreciado, principalmente sentado em uma poltrona com uma garrafa de vinho após um longo e cansativo dia de trabalho, ou até mesmo dirigindo em uma tranquila e rural estrada. Faça o teste e conte depois.

CAPAS E FOTOS DO ROCK PORTUGUÊS

Uma foto dos STEAMER's na rua da Boite Caco, nos anos 60

A capa de um EP de OS DUQUES (anos 60)

Uma foto dos UANINAUEI , ao vivo

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

“Com Você … Meu Mundo Ficaria Completo” (Universal Music, 1999), Cássia Eller



A concepção do quinto álbum de estúdio de Cássia Eller (1962-2001) partiu depois de uma situação inusitada. Seu filho, Francisco Eller, o Chicão, então com uns seis anos de idade, havia dito à mãe que ela não cantava, só berrava, e que quem cantava mesmo era Marisa Monte. Aquilo parece ter mexido com a cantora e lhe chamado atenção. Cássia se notabilizou pelo jeito explosivo de cantar, principalmente nos shows ao vivo. Se foi baseado ou não na bronca do garoto, o fato é que Cássia decidiu se portar como uma interprete mais “suave” no seu quinto álbum, intitulado Com Você … Meu Mundo Ficaria Completo, o que não significava que ela abria mão da rebeldia e da maneira visceral de cantar, pois no palco ela se transformava, o seu lado “selvagem” vinha à tona.

Para a produção do álbum, Cássia contou com o amigo e irmão de alma Nando Reis. A amizade entre os dois era muito forte. Cássia se tornou a maior intérprete das canções de Nando. O álbum apresenta quatro canções de Nando Reis: "O Segundo Sol", "Meu Mundo Ficaria Completo (Com Você)", "Infernal" e "As Coisas Tão Mais Lindas".

Cássia Eller e o filho Francisco Eller, o Chicão.
E é justamente uma canção de Nando Reis que abre o álbum, "O Segundo Sol", que na voz de Cássia Eller, ganhou uma versão definitiva e marcante. A canção na verdade era para ter sido gravada por Nando Reis no seu segundo álbum solo que ele estava para gravar. Só que Cássia, folheando um caderninho com as músicas novas escritas por ele, viu a letra de "O Segundo Sol", e disse que ia gravá-la. E de nada adiantou os apelos de Nando, Cássia disse que ia “roubar” aquela canção para gravar, e foi o que aconteceu. Mais tarde, Nando Reis disse que foi o melhor “assalto” que havia sofrido.

Seguem-se duas faixas de teor romântico, o rock “Mapa Do Meu Nada”, de Carlinhos Brown e o amor obsessivo de “Gatas Extraordinárias”, de Caetano Veloso, enquanto que “Um Branco, Um Xis, Um Zero" cheira a sexo casual e descartável. Em "Meu Mundo Ficaria Completo (Com Você)", Cássia se mostra uma intérprete impecável, valorizando uma das melhores letras compostas por Nando Reis, onde os problemas não são nada diante do amor.

Um som de órgão abre “Palavras Ao Vento”, de Marisa Monte e Moraes Moreira (atualmente, nora e sogro), tendo Cássia em mais uma interpretação marcante neste álbum. Na sequência, ela aprende as lições da vida no baião “Aprendiz de Feiticeiro”, de Itamar Assumpção. “Pedra Gigante” é uma bela canção de Gilberto Gil e Bené Fonteles que fala sobre a misteriosa Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro. A curiosidade é que nessa música, Cássia faz um dueto com sua mãe, Nanci Ribeiro. “Infernal”, mais outra de Nando Reis, é um funk cheio de metais, solos de guitarra e muito balanço. “Maluca” começa com num clima de tango pontuado por um acordeom, e Cássia mostra o seu lado suave e calmo como intérprete, tendo a sua voz emoldurada por um belo arranjo de cordas. “As Coisas Mais Lindas Do Mundo” é uma balada folk composta por Nando Reis que seria regravada por ele anos depois. Fechando o álbum, "Esse Filme Eu Já Vi", uma música que é meio samba-canção, meio jazz.

Nando Reis e Cássia Eller: uma grande amizade.

O que se percebe Com Você … Meu Mundo Ficaria Completo é que Cássia conseguiu o que pretendia, o de mostrar-se uma intérprete mais suave e calma. Com Você … Meu Mundo Ficaria Completo teve uma razoável recepção positiva da crítica, ou pelo menos, parte dela. A revista Bizz, de setembro de 1999, não foi nada simpática ao álbum: deu nota 4 ao trabalho e desdenhou da rebeldia da cantora nos álbuns anteriores levando a crer que era tudo falso.

Apesar das duras críticas da revista, Com Você … Meu Mundo Ficaria Completo foi um grande sucesso de público que ajudou o álbum a atingir a marca de 300 mil cópias vendidas. "O Segundo Sol", "Palavras Ao Vento", "Meu Mundo Ficaria Completo (Com Você)" e "Gatas Extraordinárias" foram os hits do álbum. Em 2000, Com Você … Meu Mundo Ficaria Completo foi um dos indicados ao prêmio Grammy Latino na categoria “Melhor Álbum de Rock Brasileiro”.

O bom desempenho de Com Você … Meu Mundo Ficaria Completo abriu caminho para Cássia gravar em 2001 o Acústico MTV, seu terceiro álbum ao vivo e o trabalho que mais vendeu na sua carreira, chegando a pouco mais de 1 milhão de cópias vendidas. Cássia vivia o melhor momento da sua carreira quando em 29 de dezembro de 2001, sofreu um infarto do miocárdio, vindo a falecer aos 39 anos de idade.

Faixas:
  1. "O Segundo Sol" (Nando Reis)
  2. "Mapa do Meu Nada" (Carlinhos Brown)
  3. "Gatas Extraordinárias" (Caetano Veloso)          
  4. "Um Branco, Um Xis, Um Zero" (Arnaldo Antunes - Marisa Monte - Pepeu Gomes)
  5. "Meu Mundo Ficaria Completo (Com Você)" (Nando Reis)        
  6. "Palavras ao Vento" (Marisa Monte - Moraes Moreira)              
  7. "Aprendiz de Feiticeiro" (Itamar Assumpção)   
  8. "Pedra Gigante" (Gilberto Gil - Bené Fonteles)
  9. "Infernal" (Nando Reis)              
  10. "Maluca" (Luiz Capucho)            
  11. "As Coisas Tão Mais Lindas" (Nando Reis)          
  12. "Esse Filme Eu Já Vi" (Luiz Melodia - Renato Piau)


“The Miseducation Of Lauryn Hill” ( Ruffhouse / Columbia, 1998 ), Lauryn Hill

 


Os Fugges foram um dos grandes nomes da música pop de 1996, graças ao álbum The Score que vendeu mais de 6 milhões de cópias, três hits (“Killing Me Softly With This Song”, “Fu-Gee-La” e “Read Or Not”) e vários premiações. Após tanta exposição, cada membro do trio norte-americano decidiu dedicar-se a projetos artísticos pessoais.

Wyclef Jean lançou em 1997, o seu primeiro álbum solo, The Carnival. No mesmo ano, Pras Michel lançou juntamente com a cantora Mýa e o rapper Ol' Dirty Bastard o single “Ghetto Supastar (That Is What You Are)”, vindo a lança o eu primeiro álbum solo no ano seguinte, o Ghetto Supastar.  

Lauryn Hill havia colaborado nas gravações do primeiro álbum solo de Wyclef Jean, o que a motivou a também a gravar o seu primeiro álbum solo.  Ela estava grávida de seu primeiro filho, fruto do seu relacionamento com Rohan Marley, filho de Bob Marley. A ideia teve que ser temporariamente adiada, pois Hill havia passado por uma espécie de bloqueio criativo para compor material para um álbum.

Fugges: Lauryn Hill entre Wyclef Jean e Pras Michel. 
A gravidez parece ter vindo a calhar. Durante esse período, Hill compôs cerca de 30 músicas, material suficiente para dois álbuns. Em agosto de 1997, seu filho, Zion David nasceu. Após dar a luz e o resguardo, foi convidada a escrever canções para os discos de estrelas como Aretha Franklin, Whitney Houston e demais artistas. Todas essas experiências serviram combustível para Lauryn Hill conceber o seu primeiro álbum solo. O processo de gravação do álbum se deu entre o final de 1997 e junho 1998 em estúdios diferentes, como o Chung King (Nova York), Perfect Pair (Nova Jersey) e o Tuff Gong Studios (Kingston, Jamaica), este último, onde Bob Marley gravou alguns dos seus álbuns mais importantes.

Quase um ano depois do início de suas gravações, o álbum de estreia de Hill, intitulado The Miseducation Of Lauryn Hill é lançado em 25 de agosto de 1998. O álbum é marcado pela mescla de elementos de rap, soul, gospel, R&B e reggae. Em seu primeiro álbum, Lauryn Hill mostra toda a sua qualidade artística, incorporando a alma das divas da soul music e o estilo das ruas e das quebradas dos rappers.

O soar de uma campanhia de escola abre o álbum na pequena faixa introdutória “Intro”, onde uma voz que parece ser a de um professor faz a chamada dos alunos. O rap “Lost Ones” dá início para valer ao álbum, já mostrando Lauryn Hill falando de sua emancipação feminina e da sua liberdade como artista. “Ex- Factor” acalma o clima com o seu teor romântico sobre um relacionamento que acabou. A maternidade é o tema central de “To Zion”, homenagem que Hill fez ao seu filho; a música conta com a participação especial de Carlos Santana na guitarra. “Doo Wop (That Thing)” toda carga feminista de Lauryn Hill. O balanço de “Superstar” mescla  soul music e rap, enquanto que “Final Hour” é um rap com uma batida contagiante.

“When It Hurts So Bad” é uma canção que fala das dores do amor, e aqui, Lauryn demonstra mais uma vez que é uma grande cantora de soul music.  “I Used To Love Him” é uma canção sobre desilusão amorosa, onde Hill faz dueto com a cantora Mary J. Blidge. “Forgive Them Father” é um misto de oração e desabafo sobre as mazelas pelas quais passam os pobres e injustiçados. Na autobiográfica “Every Gheto, Every City”, Lauryn  Hill lembra dos momentos difíceis e alegres do seu passado, cantando sobre uma base rítmica bem animada. “Nothing Even Matters” é mais um dueto presente no álbum, desta vez Hill dividindo os vocais com o cantor D’Angelo, reeditando os duetos românticos dos áureos tempos da soul music. Falando de mudanças e da busca da realização dos nossos sonhos, "Everything Is Everything” traz a participação de John Legend, aos 19 anos, ao piano, ainda em início de carreira e bem antes da fama. Fechando o álbum, a bela “The Miseducation Of Lauryn Hill”, na qual Lauryn Hill declara que é ela quem define o seu próprio destino.

Na época de seu lançamento, The Miseducation Of Lauryn Hill foi muito bem recebido pela crítica de uma maneira geral. Um dos principais trunfos do álbum foi o fato de Lauryn seguir à margem do chamado gangsta rap, tendência que estava em voga no rap que fazia apologia à violência e que tornava o rap e a cultura hip hop malvistos como um todo. O álbum de Hill vai por um caminho oposto ao da bandidagem pregada pelo gansta rap ao falar sobre maternidade, família, consciência social, emancipação feminina e relacionamento afetivo.

The Miseducation Of Lauryn Hill teve um excelente e surpreendente desempenho comercial.  Na sua primeira semana de lançamento, o álbum vendeu mais de 400 mil cópias, ficando 1º lugar na parada da Billboard 200. Fo final de 1998, já havia alcançado a marca de 2 milhões de cópias vendidas.

Além das ótimas vendagens e da receptividade positiva da crítica, The Miseducation Of Lauryn Hill conquistou prêmios. Na premiação do Grammy de 1999, o álbum concorreu a dez indicações, conquistou cinco prêmios: “Álbum do Ano”, “Artista Revelação”, “Melhor Álbum de R&B”, “Melhor Canção de R&B” ( por “Doo Wop (That Thing)” )e “Melhor Performance Feminina de R&B” (por “Doo Wop (That Thing)” ).  Lauryn Hill se tornou a primeira mulher a ganhar cinco prêmios Grammy numa mesma noite de premiação. The Miseducation Of Lauryn Hill foi o primeiro álbum de hip-hop a receber o prêmio de “Álbum do Ano”.

The Miseducation Of Lauryn Hill não foi apenas um grande trabalho da carreira de Lauryn Hill. O álbum teve como méritos não só ter elevado a imagem do rap e da cultura hip como também o de ter aberto caminho para as mulheres terem acesso a eles. Se hoje rappers femininas como Iggy Azalea, Nicki Minaj, Azealia Banks, Karol Conka entre outras, têm brilhado no universo do hip hop, não seria exagero afirmar que uma parcela desse brilho tem um pouco da contribuição de Lauryn Hill com o seu The Miseducation Of Lauryn Hill.

Faixas:
  1. "Intro" (Lauryn Hill)
  2. "Lost Ones" (Lauryn Hill - Ché Guevara - Vada Nobles)
  3. "Ex-Factor" (Lauryn Hill)
  4. "To Zion"  (Lauryn Hill – Ché Guevara)
  5. "Doo Wop (That Thing)" (Lauryn Hill)
  6. "Superstar" (Lauryn Hill)
  7. "Final Hour" (Lauryn Hill)
  8. "When It Hurts So Bad" (Lauryn Hill)
  9. "I Used To Love Him" (Lauryn Hill)
  10. "Forgive Them Father" (Lauryn Hill)
  11. "Every Ghetto, Every City" (Lauryn Hill)
  12. "Nothing Even Matters" (participação D'Angelo) (Lauryn Hill)
  13. "Everything Is Everything" (Lauryn Hill - Johari Newton)
  14. "The Miseducation of Lauryn Hill" (Lauryn Hill - Tejumold Newton)


10 discos essenciais: power trio

 


Formado por um guitarrista, um baixista e um baterista (tendo um dos três fazendo o vocal), o power trio ganhou projeção dentro do rock’n’roll a partir dos anos 1960 através do supergrupo Cream, que mostrou ao mundo que um trio de rock poderia fazer um som pesado, poderoso e agressivo. De lá pra cá, muitos power trios apareceram e cravaram seus nomes na história do rock, seja através de shows memoráveis ou de discos fabulosos. Falando neles, confira alguns dos 10 discos essências de power trio que marcaram época no rock.

  
Are You Experienced (Track, 1967), The Jimi Hendrix Experience. As primeiras apresentações do power trio formado pelo guitarrista Jimi Hendrix e os parceiros Noel Redding (baixo) e Mitch Mitchell (bateria), assombraram até mesmo rockstars consagrados como Paul McCartney e Pete Towshend. O som poderoso do trio foi traduzido para o álbum Are You Experienced, o primeiro da banda. Aqui, o trio mescla blues, rock, jazz e psicodelia, com direito às distorções alucinantes da guitarra de Hendrix. Fazem parte deste álbum as clássicas “Foxy Lady"  e “Are You Experienced?”, porém “Purple Haze”  e ‘Hey Joe” saíram apenas na edição norte-americana. 



Disraeli Gears (Reaction, 1967), Cream. Até onde se tem notícia, o Cream não só foi o primeiro supergrupo (banda formada por músicos já consagrados) como também o primeiro power trio da história do rock. Formado por Eric Clapton (guitarra), Jack Bruce (baixo e vocais) e Ginger Baker (baterista), o Cream combinava o peso e a distorção do blues rock com os experimentos e “viagens” da psicodelia, uma receita musical presente em Disraeli Gears, o segundo e talvez mais importante álbum do power trio inglês. “Strange Brew“’, Sunshine Of Your Love”, “Tales Of Brave Ulysses” são as faixas principais do álbum desta banda que foi uma das precursoras do hard rock.



Vincebus Eruptum (1968, Philips), Blue Cheer. Formada em San Francisco, Califórnia, em 1967 como um sexteto, o Blue Cheer entrou para a história do rock quando tornou-se um power trio com Dickie Peterson (baixo e vocal), Leigh Stephens (guitarra) e Paul Whaley (bateria) fazendo um som demolidor. A banda pegou o blues elétrico e injetou nele distorção e peso intensos a tal ponto dos seus shows serem simplesmente ensurdecedores para os padrões roqueiros do final dos anos 1960, antecipando o que seria conhecido mais tarde como heavy metal. Vincebus Eruptum traz versões pesadas e reinventadas de “Summertime Blues", de Eddie Cochran, e de "Rock Me Baby", de B.B. King, além de composições próprias do trio como a quilométrica “Doctor Please” e a caótica “Second Time Around”.



2112 (Mercury, 1976), Rush. O Rush estava com a corda no pescoço com o fracasso comercial do álbum Caress of Steel, de 1975. Com shows minguados e a conta bancária quase vazia, o Rush ainda corria o risco de ser dispensado pela gravadora, a menos que a banda gravasse um álbum mais comercial, sem faixas “quilométricas” como as do álbum anterior. Um acordo entre banda e gravadora atendeu a ambos os lados. Se o lado A possui apenas uma faixa de 20 minutos dividida em sete partes, o lado B do álbum trazia cinco faixas, músicas curtas e “acessíveis” como a gravadora queria. 2112 foi um grande sucesso e fez o Rush recuperar o prestígio. Com ele a banda encontraria um caminho para consolidar o seu estilo de som.



Reggatta de Blanc (A&M, 1979), The Police. Com os fundamentos da música punk debaixo do braço e a musicalidade jamaicana na cabeça, o Police partiu com tudo para o seu segundo álbum, Reggatta de Blanc. Apesar da boa recepção do primeiro álbum Outlandos d'Amour, foi com Reggatta de Blanc que o Police conquistou o estrelato graças a uma costura bem feita de reggae, pop e new wave, e ao entrosamento competente de Sting (vocais e baixo), Andy Summers (guitarra) e Stewart Copelland (bateria). O álbum emplacou os hits “Message In A Bottle” e “Walking On the Moon”.




Ace Of Spades (Bronze Records, 1980), Motörhead. No quarto álbum do Motörhead, Lemmy Kilmister (vocal e baixo), Fast Eddie Clarke (guitarra) e Phil Taylor (bateria) consolidaram o estilo de som pesado e veloz que a banda já vinha desenvolvendo desde os álbuns anteriores ao agregar elementos do punk ao heavy metal, apontando caminhos que desembocariam em vertentes do heavy metal que surgiriam pouco tempo depois, como speed metal e o thrash metal. Ace Of Spades é matador do início ao fim, merecendo destaques a faixa-título, “Love Me Like A Reptile”, “Shoot You In The Back”, “Jailbait” e “The Hammer”.

 

Selvagem? (EMI-Odeon, 1986), Os Paralamas do Sucesso. Sem sombra de dúvidas, o mais bem sucedido power trio do rock brasileiro. O seu formato power trio tinha uma sonoridade muito espelhada no The Police, também power trio. Mas isso mudou a partir do terceiro álbum, Selvagem?, quando a banda decide abandonar os cânones da new wave e abraçar as referências do reggae, da música caribenha e da música brasileira. Destaques para o questionamento social de “Alagados” e “A Novidade”, o discurso politizado de “Selvagem” e à versão reggae de “Você”, antigo sucesso do soul man brasileiro Tim Maia.



A Revolta dos Dândis (RCA, 1987), Engenheiros do Hawaii. Em seu segundo álbum, A Revolta dos Dândis, de 1987, os Engenheiros passaram por mudanças. A primeira foi a saída do baixista Marcelo Pitz. Entrou o guitarrista Augusto Licks, enquanto que Humberto Gessinger, que era o guitarrista assumiu o baixo, mas manteve-se nos vocais. Carlos Maltz permaneceu na bateria. A segunda mudança foi musical: o trio deu adeus ao som pop do primeiro disco e seguiu rumo ao som mais maduro, questionador, e a sonoridade aproximou-se do folk rock e do rock progressivo. A filosofia existencialista de Albert Camus e Jean-Paul Sartre exerceu forte influência nas letras do álbum e fez o trio gaúcho decolar e se tornar uma das bandas mais populares do rock brasileiro no final dos anos 1980.


Nevermind (DGC, 1991), Nirvana. Quando foi lançado, Nevermind causou um abalo sísmico no cenário do rock mundial como não se via desde Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols, em 1977. Ambos os álbuns têm em comum a fúria e o fato de serem obras nascidas dos porões do underground do rock. A diferença é que Nevermind acabou indo muito além ao derrubar medalhões das paradas de sucesso como Michael Jackson e U2, vender mais de 10 milhões de cópias (aumentando essa marca no decorrer do tempo), sem qualquer marketing milionário e colocar o som grunge no mapa mundial da música pop.



Dookie (Reprise, 1994), Green Day. O terceiro álbum do Green Day catapultou o power trio californiano para as grandes plateias e deu um novo vigor ao velho e bom punk rock. Misturando peso, velocidade, fúria, humor e linhas melódicas, o álbum vendeu mais de 20 milhões de cópias graças ao poder de fogo de faixas como  “Welcome To Paradise”, “Basket Case”, “When I Come Around”, “She” e “Longview”. O álbum foi um dos responsáveis pela popularização do pop punk, para desespero dos punks mais “ortodoxos”.

NO BAIRRO DO VINIL

 António Rossano - Um artista ecléctico

No dia em que se comemora a Liberdade em Portugal, optámos, ao contrário do que fizemos nos anos anteriores, por publicar um texto de cariz não político e referente a um dos maiores nomes do music-hall português, ainda que o sucesso do artista em questão se tenha verificado de forma mais preponderante no estrangeiro, nomeadamente em França.
Falamos de António Rossano (de verdadeiro nome António Baião), cantor que frequentou a escola de canto do Maestro Cruz e Sousa, onde aperfeiçoou a sua voz de tenor. Após uma curta participação nos Companheiros da Alegria, em finais dos anos 50, seguiu para Espanha onde obteve sucesso actuando em cabarets, na rádio e, inclusive, na Televisão espanhola. 
Face ao relativo sucesso alcançado em Espanha, tudo indicaria que em Portugal António Rossano viria a confirmar o seu estatuto de vedeta emergente no panorama artístico português. No entanto, Portugal continuava a fechar-lhe as portas, devido à falta de contratos e a algum desinteresse no estilo da sua interpretação, tendo actuado apenas em alguns serões para trabalhadores e pouco mais. Para além disso, António Rossano, após prestar as devidas provas, veria a recém criada Rádio Televisão Portuguesa recusar-lhe a sua admissão nas emissões televisivas por “não possuir as qualidades necessárias para actuar naquela emissora”.
Porém, a sorte mudaria quando um casal francês (cliente de um Hotel no Luso onde António Rossano se encontrava a actuar) o ouviu cantar, tendo gostado e imediatamente o encaminhado para Paris, onde passados apenas 15 dias já se encontrava a actuar na televisão francesa, tendo pouco tempo depois assinado pela famosa etiqueta discográfica Barclay, para a qual gravou inúmeros discos nas mais diversas línguas e nos mais diversos estilos. De facto, em pouco tempo, António Rossano de artista rejeitado em Portugal passou a ser um artista relativamente conhecido em França, onde para além das canções, fez desde 1958 em diante teatro, operetas, contracenando ao lado das mais importantes figuras da canção e do mundo do espectáculo.
António Rossano, nos anos 50.
 Temos a plena noção que meia dúzia de linhas são insuficientes para resumir a carreira de um cantor outrora tão conhecido e que com o passar dos anos, caiu por completo no esquecimento dos portugueses em geral e das pessoas ligadas ao espectáculo em particular. É que António Rossano, foi, sem qualquer sombra de dúvida, uma figura de cartaz, fazendo frente em termos de popularidade com nomes bem consagrados do nosso panorama musical. Contudo, parece-nos que o destino de António Rossano em Portugal, sempre esteve traçado e que o reconhecimento público em terras lusas nunca lhe esteve destinado. É pena... Para além da sua extraordinária voz, há em António Rossano uma teatralidade latejante em todas as suas interpretações, difícil de encontrar nos tempos de hoje e que poucos outrora conseguiram alcançar. Por outro lado, não podemos deixar de sublinhar o seu lado ecléctico, bem evidenciado nas canções que escolhemos para mostrar aos nossos leitores. Na verdade, António Rossano, cantou nas mais diversas línguas, italiano, espanhol e em francês, língua esta em cujas canções imprimia o carisma bem próprio dos melhores intérpretes da chanson francaise.

Porém, ainda assim, não podemos olvidar que António Rossano teve também a oportunidade de gravar alguns discos em Portugal, por altura de uma das suas estadias em terras lusas. E é precisamente uma amostra do seu primeiro disco gravado em Portugal que temos para mostrar aos nossos leitores, na qual António Rossano evidencia as suas capacidades interpretativas, num disco de quase puro yé-yé, com tendências líricas, por vezes um pouco desproporcionadas ao estilo que interpretou nesse disco, convenhamos referir. No entanto, cremos que tal em nada belisca a riqueza destas gravações, nem mesmo o facto de as mesmas mais não serem versões de temas estrangeiros, adaptadas por António José e Romeira Alves. Tal facto deve-se, cremos, talvez à urgência de encontrar reportório para António Rossano, aquando da sua estadia em Portugal no início dos anos 60 para que o mesmo pudesse efectuar algumas gravações comerciais em Portugal. Pouco tempo depois, António Rossano viria a gravar novo disco, desta vez já com temas compostos e escritos por autores portugueses e acompanhado pela orquestra de Jorge Costa Pinto (ao contrário do primeiro disco em Portugal, onde foi acompanhado por uma orquestra dirigida pelo maestro francês André Livernaux).
Sobre o paradeiro de António Rossano, pouco sabemos, nem se o mesmo ainda se encontra entre nós, o que esperamos, pois muita história terá para contar. Dele apenas sabemos que, ainda nos anos 60, terá ido para Bélgica, onde se radicou, sendo proprietário de um restaurante onde cantava. Resta-nos, como sempre, esperar que algum leitor mais atento, nos ajude a encontrar mais informações sobre este cantor. Para já, fica um mix de dois dos seus discos: o primeiro gravado em Portugal para a RCA e o excerto de um outro disco gravado para a etiqueta que o popularizou, a Barclay.



Clique no Play para um excerto de algumas gravações de António Rossano

Veja com exclusividade o novo clipe de Gabi Doti

 

Com citações a filmes como Mad Max e Blade Runner, ‘Nonsense’, nova canção da brasileira-uruguaia Gabi Doti — cujo clipe você vê com exclusividade aqui no Ambrosia — fala dos contrastes enconrrados entre duas personagens de personalidades bastante diferentes.


Com direção de Cena e Fotografia de Elder Miranda Junior, roteiro, produção executiva, direção de arte e co-direção da própria Gabi Doti, ‘Nonsense’ é uma viagem “surreal” por um universo ficcional.

Ambrosia Veja com exclusividade o novo clipe de Gabi Doti
Gabi Doti

O vídeo é ambientado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves e no deserto, em meio ao cerrado, nas proximidades de Brasília, nossa capital tão maltratada nos últimos tempos.

‘Nonsense’, canção de autoria de Doti. é a 4ª faixa do disco Outra Razão, gravado no East West Recording em Los Angeles e produzido por Moogie Canazio.


Destaque

Bernd Kistenmacher & Harald Grosskopf - Stadtgarten Live (1995)

  Nightsounds Part I 45:43   Different Feelings 18:26    Nightsounds Part II (Excerb) 15:12