domingo, 29 de janeiro de 2023

Thin Lizzy – Live and Dangerous [Super Deluxe Edition] (2023)

 

Thin Lizzy“Deixaríamos aquele palco manchado de sangue se fosse necessário”, disse Scott Gorham, do Thin Lizzy, a este escritor em 2018. “Não importa o que aconteceu lá, ninguém desistiu do esquadrão.” Esse compromisso firme com a causa era óbvio para aqueles que testemunharam os shows de Lizzy em novembro de 1976 no Hammersmith Odeon e para os apostadores que compraram Live and Dangerous após seu lançamento, cerca de 18 meses depois. Freqüentemente citado como o documento definitivo da performance do hard rock, ...Dangerous trouxe um ar apaixonado e pirático às canções de Phil Lynott, às vezes seguras, às vezes comoventes. No verão de 1978, apenas a trilha sonora de Grease o impediu de liderar as paradas de álbuns do Reino Unido.
Apresentando a formação do 'Fab Four' de Lynott, Gorham, o jovem escocês Brian Robertson e…

MUSICA&SOM

...baterista magistral e versátil Brian Downey, L&D tornou-se um exemplo de heroísmo no palco para o U2 e outros aspirantes. Lynott registrou o sucesso sem precedentes do início de 1976 de Frampton Comes Alive! e imaginou que sua banda poderia seguir o exemplo. Ao mesmo tempo, as tentativas de Lizzy de quebrar a América em turnê Jailbreak de março de 1976 na parte de trás do hit número 12 dos EUA, The Boys Are Back In Town, acabaram em nada quando, doente e com os olhos amarelos com hepatite, Lynott foi forçado a sair da turnê e voar. casa.

Havia muito em jogo, então, quando uma Lizzy reagrupada estacionou do lado de fora do 'Hammy' Odeon naquele novembro com o produtor Tony Visconti e o estúdio móvel Maison Rouge a reboque. Agora encerrando uma turnê esgotada no Reino Unido em apoio ao rápido acompanhamento de Jailbreak, Johnny The Fox, eles foram sensacionalistas; uma pistola engatilhada esperando para disparar. Por três noites, Visconti tentaria capturar o show ao vivo de que a doença de Lynott havia descarrilado nos Estados Unidos. Dessa forma, se as atividades extracurriculares de Lizzy comprometessem futuras turnês nos Estados Unidos – e eles iriam – a banda pelo menos teria uma prova de sua proeza para qualquer um que se importasse em ouvir.

Esta edição Super Deluxe de 8 CDs traz sete conjuntos completos ou quase caramba gravados entre novembro de 1976 e março de 1978. Temos os três shows do Hammersmith Odeon, dois do The Tower Theatre, Filadélfia em outubro de 1977, um do Seneca College Field House, Toronto no mesmo mês, além do show de Lizzy em março de 1978 no Rainbow Theatre em Londres. O oitavo disco remasteriza o conteúdo agrupado do álbum duplo original.

Essa abordagem na rodada confirma o que já sabíamos, ou seja, que Lizzy estava no ponto todas as noites. Talvez também seja hora de descartar teorias depreciativas sobre o quanto ou quão pequenas partes de Live and Dangerous podem ter sido reforçadas no estúdio (consulte Back Story). São essas gravações essencialmente ao vivo de uma experiência visceral, no momento? Claro que eles são. Você não pode fingir essa centelha vital.

Naturalmente, o box set nos convida a comparar as várias versões diferentes dessas canções há muito conhecidas. Ainda apaixonado por você, escrito por Lynott sobre a antiga paixão Gail Barber, aparece como seu confessionário noturno e catarse, uma meditação comovente e muito humana sobre o arrependimento. É também uma das várias músicas aqui cujos arranjos evoluem com o tempo. Você percebe como sua introdução complicada e segmentos finais se tornam mais sutis, mais refinados.

Para pura excitação sensorial, no entanto, os power acordes de abertura de Lizzy interpretam Rosalie de Bob Seger, e a coragem inerente da execução de Brian Robertson se manifesta em quatro instâncias diferentes de seu extraordinário solo de wah-wah em Don't Believe a Word. . “Você tinha que ser capaz de entrar no centro das atenções e segurar as bolas na mão”, observou Gorham. Robbo da era Live And Dangerous é o arquétipo desse fenótipo.

No estúdio, a magia inerente do grupo às vezes era mais difícil de perceber. Nightlife, o álbum de 1974 que viu pela primeira vez o destino de Gorham entrelaçado com o do novo recruta Robertson, foi tão notoriamente subestimado por seu co-produtor Ron Nevison que Lizzy passou a chamá-lo de álbum de 'coquetel'. Ao vivo, no entanto, essa formação tinha o poder de fogo e a encenação empilhados por Marshall para mover montanhas. Sem adereços, exceto por uma placa de Thin Lizzy improvisada e 'Derek the Dog' (um mascote de pelúcia que Robbo colocava em seu cabeçote de amplificador todas as noites), eles lançavam formas magras e angulares enquanto Lynott metralhava a multidão com um feixe refletido de seu placa de arranhão do espelho do contrabaixo.

…Quando Thin Lizzy fazia planos, Deus tendia a rir. Em 23 de novembro de 1976, apenas uma semana após os três shows do Hammersmith, Brian Robertson se envolveu em uma escaramuça enquanto defendia seu amigo cantor de soul escocês Frankie Miller no The Speakeasy Club no West End de Londres. Estendendo a mão inquieta para evitar que Miller fosse vidrado, ele teve um nervo rompido. Lizzy deveria voar para os Estados Unidos em uma turnê de apoio com o Queen na manhã seguinte, mas Robbo estava incapacitado. O super-sub Gary Moore interveio admiravelmente enquanto a mão do escocês sarava, mas o momento havia passado. Lizzy nunca quebrou a América.

Live and Dangerous ainda é o melhor momento da banda; a cristalização de tudo o que os tornava tão irresistíveis, tão brilhantemente voláteis. “Eu costumava ter Phil e Robbo no ouvido direito e Scott no esquerdo”, disse Brian Downey em 2018. “Ter todo aquele talento vindo até você através dos monitores era difícil de apreciar totalmente na época. Isso só veio depois, depois que a banda acabou.

Disco 1: Álbum original (lançado como Vertigo 6641 807 (Reino Unido)/Warner Bros. 2BS-3213 (EUA), 1978)

  1. Jailbreak
  2. Emerald
  3. Southbound
  4. Rosalie
  5. Dancing in the Moonlight
  6. Massacre
  7. Still in Love with You
  8. Johnny the Fox Meets Jimmy the Weed
  9. Cowboy Song
  10. The Boys Are Back in Town
  11. Don’t Believe a Word
  12. Warriors
  13. Are You Ready?
  14. Suicide
  15. Sha La La
  16. Baby Drives Me Crazy
  17. The Rocker

Disc 2: Hammersmith Odeon, London – 11/14/1976

  1. Jailbreak
  2. Massacre
  3. Emerald
  4. Johnny
  5. It’s Only Money
  6. Still in Love with You
  7. Johnny the Fox Meets Jimmy the Weed
  8. The Boys Are Back in Town
  9. Rosalie/Cowgirl’s Song
  10. Suicide
  11. Warriors
  12. Sha La La
  13. Baby Drives Me Crazy

Disc 3: Hammersmith Odeon, London – 11/15/1976

  1. Jailbreak
  2. Massacre
  3. Emerald
  4. Johnny the Fox Meets Jimmy the Weed
  5. The Boys Are Back in Town
  6. Rosalie/Cowgirl’s Song
  7. Suicide
  8. Warriors
  9. Sha La La
  10. Baby Drives Me Crazy
  11. Me and the Boys Were Wondering How You and the Girls Were Getting Home from Here Tonight
  12. The Rocker

Disc 4: Hammersmith Odeon, London – 11/16/1976

  1. Jailbreak
  2. Massacre
  3. Emerald
  4. Johnny
  5. It’s Only Money
  6. Still in Love with You
  7. Johnny the Fox Meets Jimmy the Weed
  8. The Boys Are Back in Town
  9. Rosalie/Cowgirl’s Song
  10. Suicide
  11. Warriors
  12. Sha La La
  13. Baby Drives Me Crazy
  14. Me and the Boys Were Wondering How You and the Girls Were Getting Home from Here Tonight

Disc 5: The Tower Theatre, Philadelphia, PA – 10/20/1977

  1. Soldier of Fortune
  2. Jailbreak
  3. Johnny
  4. Warriors
  5. Dancing in the Moonlight
  6. Massacre
  7. Still in Love with You
  8. Cowboy Song
  9. The Boys Are Back in Town
  10. Opium Trail
  11. Don’t Believe a Word
  12. Emerald
  13. Bad Reputation
  14. Baby Drives Me Crazy

Disc 6: The Tower Theatre, Philadelphia, PA – 10/21/1977

  1. Soldier of Fortune
  2. Jailbreak
  3. Johnny
  4. Warriors
  5. Dancing in the Moonlight
  6. Massacre
  7. Still in Love with You
  8. Cowboy Song
  9. The Boys Are Back in Town
  10. Opium Trail
  11. Don’t Believe a Word
  12. Emerald
  13. Bad Reputation
  14. Baby Drives Me Crazy
  15. The Rocker

Disc 7: Seneca College Fieldhouse, Toronto, Ontario, Canada – 10/28/1977

  1. Soldier of Fortune
  2. Jailbreak
  3. Emerald
  4. Dancing in the Moonlight
  5. Massacre
  6. Still in Love with You
  7. Johnny the Fox Meets Jimmy the Weed
  8. Warriors
  9. Opium Trail
  10. Cowboy Song
  11. The Boys Are Back in Town
  12. Don’t Believe a Word
  13. Bad Reputation
  14. Are You Ready?
  15. Me and the Boys Were Wondering How You and the Girls Were Getting Home from Here Tonight
  16. The Rocker

Disc 8: The Rainbow Theatre, London, England – 3/29/1978

  1. Jailbreak
  2. Emerald
  3. Southbound
  4. Rosalie
  5. Dancing in the Moonlight
  6. Massacre
  7. Still in Love with You
  8. Johnny the Fox Meets Jimmy the Weed
  9. Don’t Believe a Word
  10. Warriors
  11. Cowboy Song
  12. The Boys Are Back in Town
  13. Suicide
  14. Are You Ready?
  15. Sha La La
  16. Baby Drives Me Crazy
  17. The Rocker

The Black Dog – Music for Real Airports [Repress] (2023)

Cachorro pretoO álbum de 2010 do Black Dog, “Music For Real Airports”, foi agora reprimido e relançado pela Dust Science para 2023.
Music for Real Airports é um projeto de arte multimídia e um álbum dos músicos eletrônicos The Black Dog e dos artistas interativos Human. É uma resposta à realidade e experiência dos aeroportos e das viagens aéreas. É também uma resposta contemporânea aos trabalhos ambiente idealistas de Brian Eno da década de 1970.
Os aeroportos são importantes e reveladores. Eles são microcosmos distópicos de uma possível sociedade futura. A necessidade de segurança exige que sejam sistemas de controle humano que apenas elevam o estresse de seus ocupantes transitórios. Os aeroportos prometem viagens, exploração e emoção, mas sempre quebram essa promessa com suas…

MUSICA&SOM

... pressão tediosa. São ambientes intensos e avassaladores. Qualquer pessoa que viaje de avião deve ter ficado intrigada com a maneira como os aeroportos tendem a nos reduzir a bolhas de carne rosa sem valor, o equivalente humano das sacolas na esteira rolante. No entanto, apesar da frustração de estar naquela atmosfera, alguns dos melhores aspectos da natureza humana são revelados, ao lado de alguns dos piores. Os aeroportos são ótimos para “observar as pessoas”. Os aeroportos têm algumas das superfícies mais brilhantes da cultura moderna, mas o medo permanece. Ao contrário do Music for Airports de Eno, este não é um álbum para ser usado pelas autoridades aeroportuárias para pacificar seus clientes. Não é um acompanhamento utilitário aos aeroportos, no sentido de reforçar a falsa utopia e o falso idealismo das viagens aéreas.

O álbum resultante é agridoce, envolvendo e envolvendo o ouvinte. É um tom ambiente, mas altamente focado. Isso não é mingau sônico, nem ruído adolescente. Grande parte da matéria-prima foi produzida em aeroportos durante um período de três anos. Durante a turnê, The Black Dog fez 200 horas de gravações de campo, muitas das quais foram processadas e combinadas com novas músicas no próprio aeroporto, aguardando o próximo voo. Este vasto arquivo foi lentamente destilado em um conjunto de peças musicais particularmente evocativas. Composto em grande quantidade de drones metódicos, há poucas batidas até a metade - mas o ritmo é abundante no calor sintético vibrante.

Este disco não é necessariamente uma audição confortável, ele captura o espectro de emoções despertadas pelos aeroportos. Pode haver tensão e desapontamento, mas também há romance e emoção.


DESPEDIDA DE ZECA AFONSO NO COLISEU DE LISBOA FOI HÁ 40 ANOS

"Águas das fontes calai / ó ribeiras chorai / que eu não volto a cantar": os versos cantados em 'Balada de Outono' comoveram toda a sala. José Afonso estava a dizer-nos adeus.

A 29 de janeiro de 1983, há exatamente 40 anos, Zeca Afonso deu finalmente o seu concerto em nome próprio na grande sala histórica da capital portuguesa, o Coliseu dos Recreios. Mas seria uma despedida dos palcos, a mais imortalizada de todas (por causa do disco "José Afonso Ao Vivo no Coliseu" e do registo filmado pela RTP que daria origem ao DVD), embora o concerto final tivesse sido no Coliseu do Porto, a 25 de maio desse ano de 1983. 

Na gravação filmada da RTP no Coliseu dos Recreios, vemos uma sala a transbordar de gente. Quando Zeca Afonso entra em palco, com o seu cabelo um pouco desalinhado e os seus óculos característicos, a realização de Luís Filipe Costa dá espaço à longa ovação em pé de todo aquele público carregado de afeto e de gratidão, num tributo por todos aqueles anos. Mas José Afonso parecia  ainda tenso, talvez preocupado com a responsabilidade em conseguir aguentar fisicamente um concerto inteiro.

Todos sabiam que José Afonso estava doente. O músico sofria de uma doença neurodegenerativa em estado avançado e sem cura, a esclerose lateral amiotrófica. Conscientes desta situação, os seus companheiros da Cooperativa Eranova, que havia lutado pela profissionalização dos músicos e essencialmente para que deixassem de tocar à borla, organizaram o concerto de Zeca Afonso no Coliseu dos Recreios  O músico Francisco Fanhais, companheiro de Zeca Afonso em diversas ações pelo país durante o PREC (Processo Revolucionário em Curso) e membro da Cooperativa Eranova, lembra-se bem dos preparativos: “foi uma coisa que nos deu muito trabalho, mas também muito entusiasmo”, declara à nossa rádio. “Quando nos apercebemos, e ele também, do problema de saúde que tinha, achámos que ele devia fazer um concerto, se ele tivesse forças para isso. Entusiasmámo-lo, arranjou coragem para enfrentar (o concerto no Coliseu), escolheu o reportório, contratou músicos. Escolheu-se o local, pagou-se ao Coliseu, contactou-se a televisão e o espetáculo organizou-se. Nós tínhamos a impressão que o Zeca estava a fazer um esforço enorme para que chegasse ao fim do espetáculo. As expetativas foram superadas, porque o Zeca estava ao início um pouco hesitante, mas a pouco e pouco, à medida que o que ia cantando ia encontrando no coração das milhares de pessoas que iam enchendo o Coliseu, ele foi-se superando e no fim já era ele que comandava e que agitava os braços, a marcar ritmos e compassos. Isso foi uma coisa impressionante”.

 

Júlio Pereira foi um dos principais músicos a acompanhar Zeca Afonso no concerto, em especial na segunda parte. Mais complicados foram os preparativos. “É bom referir que esse espetáculo aconteceu quando não havia propriamente produção de concertos. Foi tudo em cima da hora. E tornou-se possível por causa da Cooperativa Eranova, onde estavam todos os grandes cantaures, como o Zeca, o Vitorino ou o Sérgio Godinho”. A contagem decrescente para o concerto no Coliseu marca negativamente outro dos músicos envolvidos, Janita Salomé, por outra razão bastante evidente. “Tenho má memória dado o estado em que ele estava e a consciência de que era a última vez em que ele cantava. Prefiro até náo guardar esses momentos e guardar os melhores”. O jornalista Viriato Teles, que conquistou proximidade com Zeca Afonso nos anos anteriores, refere que a sua condição frágil mobilizou alguns cuidados no Coliseu dos Recreios: “não em termos oficais, e sem o Zeca soubesse, e a própria família penso que não, havia médicos estrategicamente colocados nas filas da frente. Havia esse problema de não se saber como é que as coisas iam acontecer”.

Foram muitas as personalidades que quiseram estar presentes nesse concerto de José Afonso no Coliseu de Lisboa, incluindo os “capitães de Abril”, como o tenente-coronel Vasco Lourenço. “O Coliseu dos Recreios era a sala de espetáculos principal da altura. E tinha um significado muito especial. Foi lá que houve em março de 1974 um acontecimento muito especial, quando se cantou a Grândola Vila Morena, que se tornou na segunda senha para o 25 de Abril. Foi no Coliseu que houve alguns especáculos importantes depois do 25 de Abril. Se o concerto não tivesse sido no Coliseu de Lisboa, o significado não teria sido o mesmo”.  

 

Nas primeiras músicas do concerto de Zeca Afonso de 29 de janeiro de 1983, as luzes que se refletiam nos seus óculos não eram só as da sala, eram acima de tudo da Coimbra universitária por onde passou. O encanto da despedida soava contraditório, porque o canto estava a sumir-se. Ladeado por quatro instrumentistas da cidade banhada pelo rio Mondego - Lopes de Almeida e Octávio Sérgio nas guitarras portuguesas e António Sérgio e Durval Moreirinhas nas outras guitarras - Zeca estava mais compenetrado, ora a cantar de mãos nos bolsos, ora sentado para descansar e beber mais uns goles de água. O seu último disco, lançado em 1981, era curiosamente um regresso às raízes: “Fados de Coimbra”. 

À quinta música do alinhamento, 'Balada de Outono', o ar de José Afonso torna-se ainda mais carregado, quando arranja fôlego para cantar os versos premonitórios: “Águas das fontes calai / ó ribeiras chorai / que eu não volto a cantar”. Quando José Afonso se senta após aqueles versos, parece lugubremente derrotado pelo destino. A sala estremece com aqueles versos, com um novo sentido cruel. na letra 

"Sabia-se que muito dificilmente o José Afonso voltaria a dar espetáculos. Toda a gente sabia que um novo espetáculo era praticamente impossível e que aquela era uma despedida, por muito que não se quisesse aceitar isso. Tínhamos todos essa noção e, durante o espetáculo, há um momento muito claro logo nos primeiros temas, na Balada de Outono, em que canta o verso 'que eu não volto a cantar', em que há uma falha na voz dele. Esse foi um momento em que houve uma clara emoção na sala toda, porque tínhamos a noção de que isso iria acontecer, que ele não voltaria a cantar", lembra com precisão jornalística Viriato Teles, que naquela noite estava em reportagem para o jornal Se7e. Viriato Teles que era um dos muitos presentes na sala que estava de pé, zelosamente junto ao palco após ter partido os óculos dias antes e sem outro remédio para a sua miopia que não a proximidade junto do acontecimento.   

 

Para outros dos espectadores presentes, Sérgio Godinho, esses versos "tiveram um significado pungente". Francisco Fanhais lembra que esses versos provocaram "um frémito coletivo no Coliseu todo, que é uma coisa que eu nunca mais vou esquecer. Não me vou mais esquecer da coragem que ele teve e que transmitiu a todos nós”.

 

O dossiê de letras que estava aberto para José Afonso poder cantar e folhear ao longo do concerto estava marcado a vermelho com palavras de alento escritas por Francisco Fanhais. “Força, José, vira a folha!”; “2 intervenções instrumentais - podes descansar um pouco”; “força, rapaz!”. “São estes pequenos estímulos que eu escrevi para poder entusiasmar o Zeca para superar a fraca condição de saúde em que ele estava”, diz-nos Fanhais. 

À sexta música, 'Canção de Embalar', José Afonso fica a sós em palco com o velho companheiro das lides de Coimbra, o guitarrista Rui Pato. A seguir, Zeca Afonso confessa não estar “seguro de cantar de enfiada” o 'Natal dos Simples', conhecida como a música das Janeiras. É nessa música que surge em palco Francisco Fanhais para os coros. “Nessa altura, falei com o Zeca: ‘ò Zeca, também quero fazerr uma perninha, numa cantiga do programa. Lá estivemos a ver qual é que era e (a decisão) foi o Natal dos Simples. O Zeca chegou a essa altura e começou a falar. Eu estava na lateral do palco, atrás do pano, a ver que ele ainda se esquecia de me chamar e que eu tinha de entrar em palco à socapa. 'Ò Zeca, chama-me'. Ele ouviu-me a chamar. A minha única participação vocal e musical (do concerto no Coliseu) foi ter feito as vozes com ele no Natal dos Simples.

 

Nessa música das Janeiras, a mão esquerda de Zeca começa a dançar. Há um imenso corpo que começa a renascer. E a câmara de TV foca os vários rostos, e todos eles vão cantarolando: Otelo de cravo, Sérgio Godinho noutra fila da plateia. 

"Onde é que estão as novas gerações?", pergunta Zeca Afonso antes de cantar os famosos 'Vampiros', onde surgem Janita Salomé, Júlio Pereira e o flautista Sérgio Mestre que fazem os coros em irmandade, como três corpos num só rochedo de carne e de muita alma. À frente do palco um coro de milhares da assistência junta-se-lhes, incluindo o militar da Revolução dos Cravos, Vasco Lourenço, filmado de emoções arrebatadas, a cantar o velho tema de rutura estética com a tradição coimbrã. 

 

Ao intervalo, Júlio Pereira fez massagens a Zeca Afonso nos camarins. “Ele tee que me explicar, que eu não sabia como é que se fazia”, admite Júlio Pereira. “Havia uma grande carga de nervos, que se manifestou na primeira parte do concerto. Na segunda parte começa a ficar mais descontraído porque estava a tocar com os seus músicos: eu, o Guilherme Inês, o Rui Castro e principalmente o Janita Salomé e o Sérgio Mestre. Aí, já havia um hábito, depois de termos feito 150 concertos. Já estava mais rodado e nota-se no vídeo. Nota-se claramente que na segunda parte ele começa a ficar mais descontraído”. Janita Salomé também sente esse crescimento físico de José Afonso ao longo do concerto. “Ele soltou-se mais e foi ganhando confiança. Parecendo que não, ele era um homem confiante, assertivo e objetivo nas suas intervenções. Na adversidade, ele foi forte e superou-se. Ultrapassou a doença terrível que o afetava”.

 

Antes de cantar 'A Morte Saiu à Rua', José Afonso dedicou o tema a Adriano Correia de Oliveira, outro velho companheiro de luta de Coimbra, falecido três meses antes. A canção estava com um tratamento diferente, com mais batucada, sobretuda vinda das mãos de Guilherme Inês, ocupado nas congas. Três temas adiante, em 'Milho Verde', Zeca Afonso lembra as semelhanças da cantiga com os ritmos africanos, num tema esmagadoramente nacional, onde se sente uma entoação de cantar alentejano nesta versão - a que não se deve só à presença de Janita Salmé nas vozes.
 
Mesmo debaixo das emoções de um concerto de despedida, José Afonso mantém o seu espírito de companheirismo bem vivo. Elogia o álbum ainda com poucos meses de Fausto, "Por Este Rio Acima", e lembra os discos que Vitorino e Sérgio Godinho, também presentes na sala, estavam para lançar. 

Zeca Afonso não pára de elogiar os tempos do PREC - "uma época em que o povo era o sujeito da história" e em que "era mais do que pôr um voto na urna". 

A càmara da RTP vai viajando de uma ponta à outra da sala, mostrando uma sala sobrelotada, com muitas cabeças (algumas delas reconhecíveis) e nenhum espaço vazio. Vão-se vendo pessoas com um ar antigo e invernal, de gabardinas e cortes de cabelo de outro tempo. 

Em 'Venham Mais Cinco', o Coliseu ilumina-se de isqueiros erguidos no ar, enquanto se sente em palco o bichinho africano da música a fazer mexer corpos e a dar nova vida a Zeca. A voz de Zeca alcança falsetes e projeta-se mais além, e a doença retrocede naqueles momentos, de tanta alegria de viver.  

Para o final, fica guardada a apoteose, com "aquela novíssima canção chamada Grândola Vila Morena". Zeca Afonso, com papelinhos no cabelo, lança o repto: "se quiserem juntar-se, não sei se isto é permitido". Uma série de personalidades sobe a palco. Todos abraçados, ondulam, do palco às bancadas e camarotes, como se fosse um enorme grupo de cantares alentejanos.

Sérgio Godinho foi um dos muitos que subiu a palco no tema final. “Uma série de músicos estavam lá, irmãos de armas sonoras, em grande comunhão. Até porque o Grândola tinha sido cantado naquele palco noutras circusntâncias. Estava tudo carregado de simbolismo e de uma alegria da música”. Júlio Pereira lembra-se que em 1983, o Grândola Vila Morena não merecia a mesma exaltação de outrora. “Já se sentia pouco entusiasmo coletivo a cantar essa música. Todo o panorama musical a nível da televisão e da rádio tinha mudado completamente. Mas o Grândola no Coliseu foi de facto emocionante, a ser cantado com uma alegria e um entusiasmo fantásticos”. Vasco Lourenço foi um dos capitães de Abril a subir a palco para cantar Grândola. “Estava de braço dado com a engenheira Lourdes Pintassilgo e o Otelo Saraiva de Carvalho. Foi de facto um concerto que teve uma forte importância e foi em certa medida uma despedida do Zeca dos palcos”.


Mais do que um ambiente agregador das esquerdas naquela sala centenária à pinha, havia uma universalidade maior em torna da figura de Zeca Afonso, segundo o que sentiram os nossos entrevistados naquela noite em Lisboa. É o caso do jornalista Viriato Teles, atualmente a trabalhar na RTP África, que anota no entanto “que na altura talvez houvesse uma maior clivagem política entre esquerda e direita, e claramente o José Afonso era um homem assumidamente de esquerda. Mas o espetáculo foi maior do que isso, até pela presença da mulher do Presidente Ramalho Eanes (Manuel Eanes), a representar o marido. O Presidente Eanes representava de algum modo aquilo contra o qual o José Afonso lutava. É evidente que havia um ambiente muito abrilista. Mas, sobretudo, havia a sensação de que o José Afonso era um cantor extraordinário e um criador genial. Podemos usar esta palavra de genial com algum rigor. A prova disso é que discos gravados há 50 anos ouvem-se como se fossem gravados na semana que vem”. Viriato Teles acrescenta que “para apreciar José Afonso, não era preciso ser-se de esquerda. Havia muita gente que já tinha essa noção da grandeza do criador que tinha” o autor de Grândola Vila Morena. Sérgio Godinho tem a mesma perspetiva: “o Zeca tinha uma qualidade musical que transcendia as posições políticas que podia ter, embora pudesse haver mais gente de esquerda. Aliás, muitas duas suas canções nem tinham essa vertente política. Há uma alegria na criação


BIOGRAFIA DOS Tempus Fugit




O Tempus Fugit foi formado em 1992, por André Mello. Tales From a Forgotten World, o álbum de estreia, foi lançado em 1997, e é considerado um dos melhores CDs de bandas brasileiras de rock progressivo, com ótimas críticas ao redor do mundo. Foi recentemente remasterizado e relançado com duas faixas bônus pela Masque Records. O álbum seguinte, The Dawn After The Storm, foi lançado em 1999, e fez a banda se consolidar como uma das principais bandas brasileiras. Depois de tocar com Anekdoten e Nexus, no Buenos Aires Prog, o Tempus Fugit foi convidado para tocar no Progfest 2000, sendo a primeira banda sul-americana a se apresentar no renomado festival.

Após esses dois grandes CDs, a banda passou a trabalhar no Chessboard. O resultado, após 6 anos de muito trabalho, mostra uma banda mais madura, com 5 composições soberbas, e alguns convidados especiais. Os créditos da arte (um digipack triplo) são para o designer Bernard, que tocou baixo e desenhou o primeiro CD do Tempus Fugit. Sem dúvida, é um grande trabalho musical, que certamente será admirado pelos fãs do Tempus Fugit ao redor do mundo.




87 anos do Rei do Rock And Roll – A Lenda que jamais será apagada da história

 

Em toda a história da música mundial, existem vários artistas e músicos que ao longo do tempo se tornam grandes lendas e figuras icônicas que deixam suas marcas registradas no universo do Showbiz. Porém, existe uma pequena parcela daqueles que conseguem ir ainda mais além, e se tornam verdadeiros mitos sagrados, e ganham uma espécie de aura de status de semi deuses dentro da história. E um desses seres especiais, com certeza é o homem que até hoje é reverenciado e conhecido como o Rei do Rock And Roll: Mr. Elvis Presley, que estaria completando exatos 87 anos de vida .

Dono de um vozeirão espetacular e de um carisma estratosférico, Elvis conquistou o mundo inteiro com sua maravilhosa, revolucionária e influente música, basicamente e essencialmente banhada de Rockabilly, Country, Blues, Pop, Soul e Gospel, interpretando com maestria grandes e maravilhosos clássicos do calibre de “Hound Dog”, “Jailhouse Rock”, “Heartbreak Hotel”, “Can’t Help Falling In Love”, “Blue Suede Shoes”, “Suspicious Mind”, entre vários e vários outros, que embora não fossem nenhum compostos por ele, foram eternizados para sempre no cancioneiro da história da música mundial, graças às suas interpretações/performances arrebatadoras e arrepiantes.

Além do monstruoso talento como cantor e performer, Elvis trabalhou muito bem a sua imagem visual como galã, e selecionou um vasto e excelente repertório que se traduzem nos discos fantásticos que gravou ao longo de sua vida, como o homônimo “Elvis Presley” (1956), “Elvis Is Back!” (1960), “From Elvis In Memphis” (1969), “Elvis Country” (1971), entre outros. Com uma obra e um legado incrivelmente extenso, Elvis é sem sombra de dúvidas, um dos maiores pioneiros no que diz respeito ao desenvolvimento do Rock And Roll na segunda metade dos anos 50. O fato é que o Rock jamais teria sido a mesma coisa se não fosse o talento e a perspicácia de Elvis em se tornar uma das figuras mais fundamentais para a ascensão do gênero musical mais revolucionário da história.

Infelizmente, na segunda metade dos anos 70, ainda que mantendo um certo brilhantismo em sua música, Elvis passou por um grave declínio pessoal, que resultou em sua triste e precoce morte aos 42 anos de idade, no dia 16 de agosto de 1977. Ainda assim, Elvis Presley com certeza está naquele seleto time de artistas da qual citei no começo destas mal traçadas linhas, que daqui há 20, 40, 80 anos, sempre serão lembrados por tudo de mágico e maravilhoso que fizeram para este mundo louco ser um lugar mais feliz de se viver. E isso, definitivamente está muito longe de ser pouca coisa.

Robben Ford – Pure


 Com mais de cinquenta anos de carreira, Robben Ford é um guitarrista fluente em vários estilos musicais como jazz, blues, soul, rock, funk e fusion. Aliás, essa característica fez com que ele colaborasse com artistas diversificados como George Harrison, Bob Dylan, Joni Mitchell, Kiss, Miles Davis, Mavis Staples, Charlie Musselwhite e muitos outros.

“Pure” é o primeiro álbum integralmente instrumental lançado por Ford desde o excepcional “Tiger Walk”, lançado em 1997. A produção ficou a cargo do próprio guitarrista, em parceria com o engenheiro de som Casey Warner (Keb’ Mo’ e Walter Trout). Ao todo são nove faixas originais que transitam entre o blues rock e o fusion. Além de tocar guitarra, Ford tocou teclado na maioria das canções.

O disco abre com “Pure (Prelude)”, uma faixa curta que serve como um cartão de visitas para o que virá a seguir (o tema será retomado e desenvolvido na faixa-título – a penúltima do álbum). Em “White Rock Beer… 8 Cents” e “Blues For Lonnie Johnson”, Ford mergulha de cabeça no blues. Já em “Pure”, “A Dragon’s Tail” e “Balafon”, o guitarrista investe no jazz rock ou fusion (escolha a terminologia que preferir). “Milam Palmo”, “Go” e “If You Want Me To” apresentam linhas melódicas fluídas e ligeiramente “funkeadas”.

“Pure” é um trabalho impecável em termos de composição e execução. Aqui, Ford destila sua técnica afiada nas seis cordas, aliando virtuosismo, sentimento e bom gosto na escolha dos timbres dos instrumentos (principalmente da guitarra, é claro!). 


FICHA TÉCNICA

Artista: Robben Ford

Álbum: Pure

Produção: Robben Ford e Casey Warner

Gravadora: earMUSIC

Data de lançamento: 27 de agosto de 2021

Duração: 39m30s

01. Pure (Prelude) (Robben Ford)
02. White Rock Beer…8 cents (Robben Ford)
03. Balafon (Robben Ford)
04. Milam Palmo (Robben Ford)
05. Go (Robben Ford)
06. Blues For Lonnie Johnson (Robben Ford)
07. A Dragon’s Tail (Robben Ford)
08. Pure (Robben Ford)
09. If You Want Me To (Robben Ford)

Ouça “Pure” aqui.

My Little Funhouse – Standunder (1992)


 

Os My Little Funhouse são uma das vítimas directas da onda que varreu o mundo em 1991 e Standunder é hoje um objecto obscuro e não existente no mundo digital.

O disco que vos trago hoje só se encontra presente num de dois locais: no fundo de um caixote perdido numa qualquer cave ou arrecadação; na memória de um restrito grupo de jovens algures entre os seus 40 e 43 anos que tenham tomado muito Memofante durante a sua vida. Na Internet o disco não tem página de wikipedia dedicada, ou seja, não existe. Há, nalgumas páginas obscuras, relatos que contam uma daquelas histórias que merecia um documentário (um dia de certeza que alguém se chegará à frente para o fazer) e que vos passo a relatar (poupando-vos assim pesquisa inglória).

Ora então recuemos até início de 1991, quando no mais importante concurso de bandas da Irlanda (Carling Hot Press) saem vencedores uns tais de My Little Funhouse, banda de Kilkenny formada por dois irmãos Brendan e Anthony Morrisey e uns amigos. Primeiro a Island, depois a Geffen viram ali potencial para suceder aos Guns N’ Roses e apostaram as suas fichas dando-lhes um dos maiores contratos discográficos à data (2 milhões de dólares – para se ter uma noção aos Nirvana deram 60 mil dólares para o Nevermind). O registo da banda vinha muito na senda do hair metal que era vigente nesses tempos, indo às baladas com guitarras a escorrer azeite, solos a meio das canções, basta ouvir uns segundos de qualquer uma das suas canções para se perceber isto mesmo. Fizeram vários concertos como banda de abertura para os Guns na Use Your Illusion Tour, e até chegaram a figurar no videoclip de “November Rain”, e estavam portanto bem lançados para ser a next big thing. Mas eis que tudo mudou.

Aconteceu 1991 e nada foi como dantes. O que era para ser não foi e os My Little Funhouse foram apanhados e engolidos pela onda grunge. Desapareceram sem deixar rasto. Não pretendo aqui convencer ninguém a ir ouvir Standunder, porque não tem qualquer interesse a não ser escatológico, mas quiçá malta do intervalo de idades referido acima e que não usou Memofante, achará engraçado o despertar de memória que escutar um “Raintown” ou um “I Want Some of That” trará. Um shot de adrenalina de nostalgia e pronto, seguir para outras paragens.


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