Cuidado explosivo! Esta é uma bomba de hard rock com aromas psicodélicos. Um tesouro proto-metal destrutivo esquecido que precisa ser reabilitado com urgência!
Yesterday's Children é uma combinação rica de Cheshire, uma cidade no Condado de New Haven, Connecticut. Em 1966, reuniu os irmãos Croce, Denis nos vocais e Richard na guitarra. Eles são acompanhados pelo guitarrista principal Reggie Wright, o baixista Chuck Maher e o baterista Ralph Muscatelli. Em 1967, o quinteto lançou dois 45s no registro de garagem. Em 1970, o grupo editou pelo selo nova-iorquino Map City, um álbum homônimo com uma excelente capa digna do Lp de Frank Zappa e seu Mothers Of Invention.
Composto por 8 faixas, este 33-rpm é marcado por riffs incendiários, solos sangrentos e um vocal gritante levado aos agudos de empalidecer Robert Plant e Ian Gillian. Selvagem e indomável, este vinil obviamente começa com "Paranoia" e seu riff sincopado e assassino, que sobe para o hardcore onde os solos são pontuados por baterias convulsivas. Mantemos a pressão num clima quente e insalubre com "Sad Born Loser" num registo mais rhythm & blues onde uma voz raivosa introduz quebras demoníacas. Mas os destaques são certamente as faixas mais longas em torno de 7 minutos com “She's Easy” e “Sailing”. Em relação a "She's Easy", esta peça é em três tempos, mostrando um combo capaz de variar os andamentos. A primeira é feita de riffs galopantes de cortar a respiração mas sobretudo de fazer inveja a Tony Iommi. A segunda parte para um blues pesado esquizofrênico. A última batida parece mais calma, mas é uma doçura enganosa porque o completamente torturado Denis Croce puxa suas cordas vocais para o vermelho enquanto a elétrica de seis cordas segue um solo sob ácido e assustador. Em um ritmo lento, "Sailing" pode ser comparada a uma balada. Mas rapidamente esse título enlameado se torna assustador, sufocante, sombrio, vicioso, esfregando-se alegremente com o progressivo. Quanto ao resto, Yesterday's Children tenta sua sorte no hard boogie com “Providence Bummer”. O grupo se dá ao luxo de oferecer duas capas. Primeiro de tudo “What Of I” de Wilkinson Tri-cycle, uma formação obscura de Boston. Se a ameaça ainda for palpável, estamos lidando com a música mais melódica do Lp. Depois, há "Mulher Malvada" popularizada por Spooky Touth, mas especialmente Canned Heat. Aqui, Yesterday's Children oferece uma versão mais devastadora. Termina com os 6 minutos recheados com querosene de "Hunter's Moon" para uma última viagem de ácido ruim.
Em suma, este disco tinha tudo para fazer sucesso. Infelizmente, este julgamento não terá sucesso, provavelmente devido à falta de promoção, causando a separação dos Filhos de Ontem. Ninguém sabe o que aconteceu com os músicos. Para ouvir bem alto.
Títulos: 1. Paranoia 2. Sad Born Loser 3. What Of I 4. She’s Easy 5. Sailing 6. Providence Bummer 7. Evil Woman 8. Hunter’s Moon
Músicos: Chuck Maher: Baixo Richard Croce: Guitarra Reggie Wright: Guitarra Ralph Muscatelli: Bateria Dennis Croce: Vocais
Disco é o mais vendido do rock no século 21, contando as vendas a partir de 2001
Em 24 de outubro de 2000, era lançado o álbum de rock mais vendido do século 21. Ok, ‘Hybrid Theory’, o trabalho de estreia do Linkin Park, saiu em 2000, quando, respeitada a formalidade, ainda era século 20. Entretanto, boa parte de suas cópias foram comercializadas já a partir de 2001.
Falo sobre os números com outros detalhes mais adiante, mas ‘Hybrid Theory’ vendeu 27 milhões de cópias no mundo todo, sendo pelo menos 12 milhões delas nos Estados Unidos. Pouquíssimas bandas daquele período, como Green Day, Blink-182 e Nickelback, chegaram perto desses números. Era um dos últimos respiros do rock no mercado fonográfico enquanto “fato novo” – o estilo continuou gigante, mas para turnês e celebrações de artistas já consolidados.
O Linkin Park foi formado em 1996, em Agoura Hills, condado de Los Angeles, na Califórnia. Inicialmente, o nome era outro: Xero. A formação também, pois não trazia o vocalista Chester Bennington, mas, sim, Mark Wakefield, além dos integrantes que você já conhece: Brad Delson (guitarra), Mike Shinoda (guitarra e co-vocal), Rob Bourdon (bateria), Joe Hahn (DJ) e Dave Farrell (baixo).
Bennington foi recomendado a Jeff Blue, executivo do selo Zomba Music, que trabalhava com o Linkin Park – ainda chamado Xero. O vocalista foi convidado a gravar vocais para duas demos da banda. Uma delas era ‘Pictureboard’, que foi lançada só agora, na edição de 20 anos de ‘Hybrid Theory’. O resultado deixou Brad Delson impressionado, conforme o próprio relembrou em recente transmissão de vídeo no canal do grupo.
“Acho que ‘Pictureboard’ foi a primeira que ouvi na voz de Chester. Lembro de pegar a fita e perguntar para os caras o que eles achavam, pois Chester havia acabado de se candidatar. E eu estava… não chorando de alegria, mas quase chorando. Tipo, uau! Não sei nem o que senti. Era uma voz pequena e vulnerável nos versos, daí você ouvia todos os timbres e harmonias na parte pesada. Aquilo me deixou impressionado e nós falamos na hora: ‘precisamos conhecer esse cara’.”
Nasce – e sofre – o Linkin Park
Foto: divulgação
Após a chegada de Chester Bennington, o Xero mudou seu nome para Hybrid Theory, mas havia uma questão jurídica relacionada a outra banda, chamada Hybrid. Então, eles alteraram para Linkin Park, uma espécie de tributo ao Lincoln Park, um parque local onde os músicos costumavam se encontrar com amigos. Ao escrever o nome errado, não havia chance de processo, não é?
A proposta “híbrida” do Linkin Park, que misturava rock e hip hop de forma mais clara que outras bandas do período, motivou a rejeição de várias gravadoras. A Warner foi a única a dar uma chance àqueles moleques, com pouco mais de 20 anos de idade na época. E eles não estavam dispostos a abrir mão dessa estética, conforme Mike Shinoda lembrou, em entrevista à ‘Billboard’:
“Quando eu cresci, ou você era do rock, ou era do rap, mas não se ouvia os dois tipos de música. Eu estava empolgado com Rage Against the Machine, Red Hot Chili Peppers, Beastie Boys, ou mesmo Led Zeppelin. Havia algumas bandas que misturavam vários estilos, mas não era o normal. Poder ter ajudado nessa mistura de estilos é, para nós, parte do legado do qual nos orgulhamos.”
Havia muito material a ser trabalhado, pois a banda havia produzido demos nos anos anteriores. Entretanto, muito material foi descartado – como a própria ‘Pictureboard’ –, enquanto outras faixas foram aproveitadas, mas foram bem alteradas.
O álbum ‘Hybrid Theory’ levou quatro semanas para ser gravado, sob orçamento ainda modesto para uma banda que ainda era vista como “aposta”. E mesmo em caráter experimental, o disco foi alvo de diversos questionamentos internos. Não dos músicos, mas, sim, dos executivos da gravadora, que tentaram até mesmo tirar Mike Shinoda da banda. O próprio Shinoda contou a história em entrevista à “Kerrang!”, em 2017:
“Estávamos no meio das gravações quando nosso A&R (funcionário do selo responsável pelo desenvolvimento artístico dos músicos) começou a perder as esperanças em nós. Ele recomendou que me colocassem nos teclados ou até me tirassem. Ele disse a Chester: ‘você é o talento, você deveria fazer um disco de rock, não precisa do rap, não precisa do resto dos caras’. Chester respondeu: ‘vá se f*der’.”
Apesar de toda a desconfiança da gravadora e até do produtor Don Gilmore, que não confiava na “parte rap” do som dos caras, ‘Hybrid Theory’ foi devidamente concebido. Na época, o Linkin Park era um quinteto, já que Dave Farrell ainda estava fora da banda. Boa parte das linhas de baixo foi gravada por Brad Delson, trazendo músicos de estúdio para apenas algumas faixas (Scott Koziol tocou ‘One Step Closer’, enquanto Ian Hornbeck é creditado por ‘Papercut’, ‘A Place for My Head’ e ‘Forgotten’). Há, ainda, uma participação especial dos Dust Brothers, com samples e afins em ‘With You’.
Enquanto havia essa mescla entre rock, hip hop e até música eletrônica na parte musical, o campo das letras era bem homogêneo, pois as composições lidavam com as angústias e os anseios de jovens “pós-adolescentes” daquele período. Esse foi um dos grandes acertos da banda: conseguir dialogar com o público que começava a consumir música naquele momento.
A maior parte das letras traz reflexões de Chester Bennington sobre sua adolescência. Aliás, Chester sempre fazia letras muito autobiográficas e bem diretas ao ponto. Em ‘Hybrid Theory’, questões como seu vício em drogas, problemas de saúde mental e brigas familiares, motivadas pelo divórcio de seus pais, estavam entre as principais pautas.
Hybrid Theory, faixa a faixa
‘Papercut’ é a responsável por abrir a tracklist de ‘Hybrid Theory’. Com letra que busca descrever a paranoia, trata-se da música que melhor sintetiza o Linkin Park naquele momento: embora já tivesse um direcionamento musical bem definido, a banda estava encaixada em um movimento, que era o nu metal. Mike Shinoda descreveu, à ‘Billboard’:
“Ela traz toda a identidade da banda em uma música. Até pelo fato de começar com um beat, daí entra em um rap com guitarras pesadas, o próprio Chester fazendo rap comigo no refrão – não dá para ouvir por causa da mixagem, que faz parecer que era só ele, mas éramos nós dois.”
Curiosamente, ‘Papercut’ foi lançada como single apenas na Europa, por uma questão burocrática. ‘One Step Closer’ e ‘Crawling’ já haviam sido promovidas neste formato e a segunda estava indo muito bem nos Estados Unidos, mas na Europa, teve repercussão apenas boa. A gravadora sabia que precisaria esperar para ter ‘In the End’ como single definitivo e mundial – que sairia junto do álbum –, então, divulgaram ‘Papercut’ no velho continente enquanto ‘Crawling’ rendia na América.
Em seguida, há ‘One Step Closer’, que foi, de fato, o primeiro single do álbum. A letra buscou retratar a raiva que os músicos sentiam de Don Gilmore em meio ao processo de gravação.
O produtor era acostumado com rock, mas não entendia tanto de hip hop, então, deixou essa parte a cargo dos músicos. Porém, quando havia algum conflito artístico com a gravadora, que pedia mais rock e menos rap, Gilmore não os defendia. Shinoda, à ‘Billboard’, comentou:
“’One Step Closer’ era Chester e eu literalmente falando sobre Don. Estávamos tão irritados com ele. A parte do ‘shut up’ (‘cale a boca’) era literalmente Chester gritando com Don.”
Após duas músicas mais “radiofônicas”, ‘With You’ adota um formato mais experimental. Aqui, os Dust Brothers, que produziram samples para artistas que vão de Beastie Boys a Hanson, colaboraram com o Linkin Park. Com a palavra, Mike Shinoda, à Billboard:
“Sempre adorei ‘With You’. Era uma música mais da época, bem nu metal. Adoro as partes de Joe na música. Gosto da produção, dos beats e das minhas partes”.
Embora não tenha saído como single geral, ‘Points of Authority’ ficou famosa porque ganhou um videoclipe na época – e teve um remix de boa repercussão, intitulado ‘Pts.OF.Athrty’, no disco ‘Reanimation’ (2002). Aqui, apesar do groove típico do hip hop, o vocal é assumido quase todo por Chester Bennington.
Uma das músicas mais marcantes de ‘Hybrid Theory’, ‘Crawling’ nasceu como um flerte bem pontual a abordagens musicais mais melódicas. A letra expressa, de forma clara, os problemas de Chester com os vícios. Joe Hahn, à ‘Billboard’, refletiu:
“‘One Step Closer’ era bem agressiva e não soava tão delicada. ‘Crawling’ saiu como single em seguida e representou um lado diferente do que fazíamos, trazendo algo bem íntimo com um toque emotivo e até mesmo alguns gritos no meio.”
Com músicas do porte de ‘Papercut’, ‘Crawling’ e ‘One Step Closer’ – além de ‘In the End’, que será comentada mais adiante –, quem iria pensar em outra faixa como grande hit deste álbum? De início, o Linkin Park apostava em ‘Runaway’, que vem em seguida na tracklist.
À ‘Billboard’, Mike Shinoda relembrou que ‘Runaway’, originalmente intitulada ‘Stick and Move’, era uma das favoritas dos fãs nos shows do Linkin Park antes da fama.
“Em todos os nossos primeiros shows, essa era a nossa grande música. As pessoas sempre falavam sobre ela. Sempre achávamos que era uma música importante para gravarmos. Quando outras faixas começaram a tomar forma, pensamos: ‘oh, não, uma de nossas melhores músicas agora é uma de nossas piores.”
Fato é que, após ter passado por alterações, ‘Runaway’ ganhou uma pegada diferente, um pouco mais padronizada. Ainda assim, é um bom momento, que não deixa a peteca cair na tracklist de ‘Hybrid Theory’.
‘By Myself’, em seguida, traz outro experimento: a influência do metal industrial, de nomes como Ministry e Nine Inch Nails. Por não ser tão nu metal, ajuda a trazer uma boa quebra de ritmo ao álbum.
Com o terreno devidamente preparado, entra a oitava faixa: ‘In the End’, que é, ao lado de ‘Numb’ (do álbum seguinte, ‘Meteora’, de 2003), o grande hit do Linkin Park. A música foi produzida com a clara intenção de trazer mais melodia a ‘Hybrid Theory’, conforme Joe Hahn relembrou à ‘Billboard’:
“Sabíamos que precisávamos de algo mais melódico. As pessoas não querem gritos em um álbum inteiro – bem, algumas querem. Mas tudo… das melodias, ao piano que tem loops, estávamos fazendo muitas músicas. Provavelmente, tivemos uma centena de ideias a cada álbum, quem sabe até duas centenas. E há esses momentos mágicos em que todos os elementos têm uma convergência perfeita ao mesmo tempo. ‘In the End’ é um desses momentos ‘eureka’.”
De fato, todos os bons elementos do Linkin Park enquanto banda de potencial radiofônico estão presentes em ‘In the End’. O rap de Mike Shinoda, feito de forma mais lenta, é bem colocado. A melodia principal no piano traz um charme raro à canção. A guitarra tem função coadjuvante aqui, mas é o instrumento que ajuda a ditar o ritmo. E Chester, que dá um show de interpretação, dispensa comentários.
Depois de uma música desse porte, não dá para negar que o álbum perde um pouco de ritmo em seus momentos finais. ‘A Place for My Head’, uma das primeiras músicas feitas pela banda (ainda com o título ‘Esaul’), soa um pouco datada, mas traz boa performance de Mike Shinoda e do campo instrumental.
À ‘Billboard’, Shinoda reconhece que a canção perdeu um pouco de intensidade quando foi gravada, mas costumava funcionar bem em shows, especialmente no encerramento.
‘Forgotten’, por sua vez, traz boa interação entre os vocais de Chester e Mike. As guitarras de Brad Delson voltam a assumir um papel que, embora não mais tão coadjuvante, ajuda a conduzir os vários momentos da canção. O refrão também é bem construído.
Perto do fim, a faixa instrumental ‘Cure for the Itch’ estreita laços com a música eletrônica. É o momento de Joe Hahn, uma das lideranças criativas da banda ao lado de Shinoda e Bennington.
O fechamento fica a cargo de ‘Pushing Me Away’, que Mike Shinoda define como uma “filha de ‘Crawling’”. A construção é semelhante, ainda que seja mais padronizada e menos inventiva do que a “mãe”. O “pulo do gato” está, novamente, na interpretação de Chester Bennington, que era, inegavelmente, diferenciado.
Pronto para explodir
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‘Hybrid Theory’ trazia o pacote perfeito. A banda, talentosa, apresentava mensagens sensíveis o bastante para atingir uma geração de fãs que não se sentia representada pelos exageros farristas do rock. Havia coesão na performance dos músicos, que sabiam dividir os holofotes – a “solidariedade musical” de Brad Delson em deixar sua guitarra em segundo plano é algo tão raro de se encontrar quanto o talento vocal de Chester Bennington.
Até mesmo fora do palco, os músicos tinham aptidões interessantes. Joe Hahn, por exemplo, dirigiu praticamente todos os clipes da banda. Já Mike Shinoda era designer gráfico e fez a capa de ‘Hybrid Theory’, com citações que vão do hibridismo musical que o álbum buscou apresentar até referências ao estêncil de Banksy.
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Estava tudo pronto para o Linkin Park estourar. E assim ocorreu. ‘Hybrid Theory’ vendeu 500 mil cópias nos Estados Unidos em apenas cinco semanas. Em 2001, foram comercializadas 4,8 milhões unidades do álbum no país. Os números satisfatórios se estenderam até 2002, quando ainda tinha 100 mil cópias vendidas por semana.
Na estrada, a banda passou a promover o álbum não só com shows enquanto headliner, como, também, participando de festivais itinerantes, como ‘Ozzfest’, ‘Family Values Tour’, entre outros. O próprio grupo criou uma tour conjunta própria, ‘Projekt Revolution’, que trazia Cypress Hill, Adema e outros nomes. Em meio a tudo isso, Dave Farrell reassumiu o baixo – e não deixou mais a função.
Hoje, acumulando mais de 27 milhões de cópias vendidas mundialmente, ‘Hybrid Theory’ é o álbum de rock mais vendido do século 21. É, ainda, o disco de estreia de maior sucesso desde ‘Appetite for Destruction’ (1987), do Guns N’ Roses.
Boa parte desse mérito vem, justamente, do hibridismo musical do qual o Linkin Park jamais abdicou. Em recente entrevista à ‘Metal Hammer’, Mike Shinoda comentou que a banda ajudou o nu metal a se tornar um estilo mais diverso, sem o domínio dos brancos – e é sempre importante lembrar que “não-brancos” incluem não apenas negros, como, também, latinos e orientais, onde o próprio Shinoda, descendente de japoneses, se incluiria.
“90% do que eu ouvia era rap. Olhava para muitas bandas de rock e pensava: ‘há algo branco demais aí’. Foi o que me afastou, especialmente, do hair metal, que era uma música bem de branco e eu morava em uma cidade bem diversa, então, aquilo não ressoou em mim. Não falo da cor da pele, falo da cultura envolvida. Quando o nu metal começou, a cena era bem diversa. Não era uma música tão inteligente, mas trazia algo realmente visceral e uma mistura de culturas que era importante.”
No fim das contas, o Linkin Park nunca abdicou de seus experimentos híbridos. A partir de ‘Meteora’, eles passaram a dar mais espaço para instrumentos “orgânicos” em vez dos eletrônicos. Depois, retomaram os samples e afins. Abriram mão. Voltaram de novo. Reforçaram o diálogo com o hip hop. Flertaram com pop, com metal, com o alternativo. Fizeram de tudo. É tudo música, aliás.
Linkin Park – ‘Hybrid Theory’
Chester Bennington (vocal) Mike Shinoda (vocal, samples) Brad Delson (guitarra, baixo) Joe Hahn (turntables, samples) Rob Bourdon (bateria)
Músicos adicionais:
Ian Hornbeck (baixo em ‘Papercut’, ‘A Place for My Head’ e ‘Forgotten’) Scott Koziol (baixo em ‘One Step Closer’) The Dust Brothers (samples em ‘With You’)
1. Papercut 2. One Step Closer 3. With You 4. Points of Authority 5. Crawling 6. Runaway 7. By Myself 8. In the End 9. A Place for My Head 10. Forgotten 11. Cure for the Itch 12. Pushing Me Away
A passagem dos anos 1970 para os anos 1980 não poderia ter sido melhor para Rita Lee. Ela foi alçada a estrela pop da música brasileira por conta do sucesso fenomenal dos seus autointitulados álbuns de 1979 e de 1980, popularmente conhecidos respectivamente como Mania de Você e Lança Perfume. Rita emplacava anualmente uma fileira de hits nas paradas de rádio, vendia discos aos milhares, lotava estádios e arenas, e ainda tinha suas canções embalando as trilhas de novelas da TV Globo.
O público queria mais e mais Rita Lee. Mal havia concluído a turnê do álbum Rita Lee (Lança Perfume), a cantora paulista, acompanhada do seu marido e parceiro musical, Roberto de Carvalho, já estava entrando em estúdio por volta de setembro de 1981 para gravar um novo álbum, intitulado Saúde.
O prestígio de Rita Lee estava tão em alta dentro da Som Livre que a gravadora decidiu construir um moderno estúdio de gravação de 24 canais (um luxo para a época) em São Paulo, especialmente para cantora gravar Saúde. Tudo isso apenas para Rita, que morava em São Paulo, não precisar se deslocar para o Rio de Janeiro, sede da Som Livre e onde se localizava os estúdios da companhia. Agora, por causa de Rita, a gravadora tinha uma filial na capital paulista. E convenhamos, Rita Lee era a grande estrela da Som Livre, e dava retorno financeiro à gravadora com as ótimas vendagem de seus discos. Rita e Roberto produziram o novo disco e contaram com o produtor Max Pierre na direção de produção. A mixagem do material gravado ocorreu em Nova York.
E foi durante as gravações do álbum Saúde que Rita Lee teve uma grata surpresa: descobriu que estava grávida do terceiro filho. No entanto, seu estado de gravidez não impedia que ela se dedicasse às gravações do novo disco. Por outro, agora na condição de gestante, era necessário Rita cuidar da saúde com muita atenção. E esse talvez teria sido o motivo para ela compor a canção “Saúde”, e batizar o álbum com esse título.
Nono álbum solo de estúdio de Rita Lee, Saúde dá prosseguimento à parceria vitoriosa da cantora com o seu marido Roberto de Carvalho, bem como à orientação musical inclinada para o pop, iniciada com o álbum Rita Lee (1979). No álbum Saúde, nota-se uma influência da new wave, muito por conta do uso de sintetizadores e o emprego da bateria eletrônica, recurso que foi bastante pela criticado pela imprensa musical da época, que acusou Rita de tirar o emprego de bateristas humanos. Mal sabiam os críticos musicais naquele momento que esse instrumento seria utilizado pelos mais diversos artistas da música brasileira ao longo dos anos 1980, de artistas da MPB como Gonzaguinha até os bandas de rock como Titãs. Rita Lee deu apenas o “ponta pé” inicial. Ou seria o toque inicial?
O álbum abre com a faixa-título, uma música pop agradável, comercial, dançante, que começa com uma longa introdução instrumental cheia de teclados e é acompanhado em seguida por um riff de guitarra bem destacado. Na letra, Rita está pouco preocupada com a opinião alheia sobre o que ela deve ou não fazer na vida dela. Para ela, o que interessa é ter mais saúde, e que enquanto estiver “viva e cheia de graça, talvez ainda faça um monte de gente feliz!”. “Tatibitati” é uma canção pop “bobinha”, como a própria Rita se referiu. Com um certo teor autobiográfico, a canção é sobre uma garota que descobre o amor e o sexo.
“Mutante” é uma linda balada romântica que pode ter várias interpretações. Pode se referir a alguém que após um fim de um relacionamento (namoro ou casamento) cheio de decepções, decide dar a volta por cima e mostrar o seu valor. Mas ao mesmo tempo, a letra parece ser um recado aos ex-colegas de Mutantes pela forma como ela deixou a banda (praticamente expulsa) por discordar do rumo que estavam tomando, e as conquistas que ela alcançou na carreira solo. Como disse Rita na sua autobiografia ao comentar sobre “Mutante”: “Depois de tanto tempo, eis que me reconheci como a verdadeira mutante, aquela coisa minha de não ser fixa no rock de uma nota só, de sair do conforto ilusório para viver na fragilidade da dúvida”.
“Tititi (Galinhagem)” tem uma levada “stoneana” que remete à Rita Lee da fase Tutti-Frutti. A letra parece um recado àquele tipo de fã inconveniente e chato.
Rita Lee e Roberto de Carvalho em 1981.
O lado B do álbum começa com “Banho de Espuma”, inspirada na própria relação conjugal de Rita e Roberto, num prazeroso e erótico banho de espuma que o casal costumava tomar. Antes de ser gravada, a música tinha como título original “Afrodite”, mas foi vetada pelos censores da ditadura militar por causa das expressões “bolinando” e “em qualquer posição”. Rita mudou o título da música e trocou o “bolinando” por “esfregando”, e “em qualquer posição” por “com toda disposição”. Após as mudanças, a música foi liberada para gravação.
Em seguida vem a ótima “Atlântida”, considerada a faixa preferida de Rita Lee no álbum. Com uma batida pop dançante e uma base instrumental muito bem construída, “Atlântida” traz na sua letra a antiga lenda grega do reino que foi engolido pelo oceano.
As duas últimas faixas são o ponto fraco do álbum Saúde. “Favorita” é a única faixa cantada por Roberto de Carvalho, e a mais fraca do disco. Completamente dispensável, não faria falta se tivesse ficado de fora do disco. “Mother Nature” é uma versão em inglês de “Mamãe Natureza”, originalmente gravada em português por Rita Lee com o Tutti-Frutti para o disco Atrás do Porto Tem Uma Cidade (1974). A sensação que se tem é que essa versão foi um “tapa-buraco”, apenas para completar o disco, assim como a faixa anterior.
Saúde teve um bom desempenho comercial. “Banho de Espuma”, “Atlântida”, “Mutante”, “Tatibitati” e a faixa-título tocaram bastante nas programações de rádio, contribuindo para que o álbum alcançasse a marca de 400 mil cópias vendidas.
Duas músicas de Saúde tiveram algumas regravações de outros artistas ao longo dos anos. “Tititi (Galinhagem)” foi regravada em 1985 pela banda Metrô para o tema de abertura da novela Ti Ti Ti, da TV Globo. Em 2000, quando a Globo fez uma nova versão da novela Ti Ti Ti, Rita Lee regravou “Ti Ti Ti” para a abertura.
A outra música que teve outras regravações foi “Mutante”. Em 1994, a cantora Patrícia Marx regravou “Mutante”. Oito anos depois, em 2002, Daniela Mercury fez uma nova versão de “Mutante”, e que virou tema de abertura da novela Desejos de Mulher, da TV Globo. Preta Gil gravou “Mutante” para incluir na trilha sonora da novela Caminhos do Coração, da TV Record.
Faixas
Todas as músicas são de autoria de Rita Lee e Roberto de Carvalho, com exceção de "Mother Nature", composta por Rita Lee.
Lado 1
1."Saúde"
"2.Tatibitati"
3."Mutante"
4."Tititi (Galinhagem)"
Lado 2
5."Banho de Espuma"
6."Atlântida"
7."Favorita"
8."Mother Nature (Mamãe Natureza)"
Ficha Técnica
Ariovaldo: percussão
Gel: bateria
Alfredo Lynn: bateria
Picolé: bateria
Lee Marcucci: baixo
Jamil Joanes: baixo
Lincoln Olivetti: teclados
Wander Taffo: guitarra
Robson Jorge: guitarra
Leo Gandelman: saxofone
Zé Carlos: saxofone
Oberdan: saxofone
Serginho do Trombone: trombone
Márcio Montarroyos: trompete
Bidinho: trompete
Lúcia Turnbull: vocal em 4, 5 e 8 e arranjo de metais em 5.
O ano de 1983 chegava à sua reta final, e tudo parecia ir às mil maravilhas com o quinteto Camisa de Vênus. A banda baiana havia lançado em agosto daquele ano o seu primeiro e homônimo álbum. Embora a produção fosse um tanto quanto precária, algumas faixas ganharam popularidade como “Bete Morreu”, “O Adventista” e “Passamos Por Isto”.
Tudo ia muito bem até que Marcelo Nova, vocalista do Camisa de Vênus, recebeu um chamado para uma reunião com os diretores da gravadora Som Livre, responsável pelo lançamento do álbum de estreia da banda. Na reunião, da qual participou o diretor da gravadora na época, João Araújo (1935-2013), pai de Cazuza (1958-1990), vocalista do Barão Vermelho, a companhia propunha uma mudança no nome da banda. Os diretores alegavam que o nome do grupo dificultava a divulgação da banda nos meios de comunicação.
Naquela época, a expressão “camisa de vênus”, como era popularmente conhecido o preservativo sexual masculino, era um tabu, era quase uma palavra de baixo calão. A gravadora chegou a propor à banda que, caso aceitasse a proposta, teria em troca uma maior visibilidade através dos programas da TV Globo, já que a gravadora e a emissora de TV pertenciam a um mesmo grupo de comunicação.
Cinicamente, Marcelo Nova teria “aceitado” trocar o nome da banda para “Capa de Pica”. Ou seja, Nova se mostrou irredutível quanto à troca do nome do grupo. A gravadora decidiu então rescindir o contrato com a banda. E não só isso, a companhia decidiu também recolher todos exemplares do álbum de estreia do Camisa de Vênus.
Capa do primeiro e autointitulado álbum do Camisa de Vênus, lançado em 1983 pela gravadora Som Livre.
Sem gravadora e sem disco no mercado, o Camisa de Vênus decidiu focar nos shows, excursionando por todo o Brasil, o que permitiu que a banda ampliasse o seu número de fãs. Em 1984, o Camisa de Vênus assinou contrato com a gravadora RGE. Esta não só estava interessada em lançar o segundo álbum da banda como adquiriu as fitas matrizes do primeiro álbum para relança-lo no mercado. O Camisa de Vênus gravou o seu segundo álbum no primeiro semestre de 1985, nos estúdios SIGLA e Intersom, ambos em São Paulo, sob a produção de Reinaldo B. Brito.
Pouco antes do lançamento do novo álbum, a RGE lançou no mercado o single da música “Eu Não Matei Joana D’Arc”, que fez um enorme sucesso nas rádios FM, e levou o Camisa de Vênus para um público mais amplo.
Intitulado Batalhões de Estranhos, o segundo álbum do Camisa de Vênus foi lançado em julho de 1985. O álbum surpreendeu o público e a crítica à época pela sua diversidade musical e pela maturidade que a banda havia alcançado. Enquanto o álbum de estreia é um trabalho mais cru e agressivo, Batalhões de Estranhos traz um repertório mais variado, incluindo baladas, rocks, pop rocks e reggae. Mas a aura anárquica e debochada do Camisa está presente nas letras de algumas canções e na maneira de Marcelo Nova cantar.
“Eu Não Matei Joana “D’Arc”, música lançada antes em single, é quem abre o álbum. Baseada na história da guerreira e mártir francesa Joana D’arc (1412-1431), a letra faz referência a um indivíduo que tenta provar que nada tem a ver com a morte dela. A faixa seguinte, “Casas Modernas”, parece tecer uma crítica às padronizações arquitetônicas. Depois de dois rocks vigorosos, segue a balada “Lena”, canção em que um homem se mostra apaixonado por uma garota fútil, superficial e com mania de grandeza.
Camisa de Vênus em 1983. Da esquerda para a direita: Robério Santana, Karl Franz Hummel, Marcelo Nova, Aldo Machado e Gustavo Mullem.
A faixa seguinte é “Ladrão de Banco”, um reggae-rock sobre um ladrão chamado Miguel, que tenta roubar um carro-forte, mas se dá mal. Uma curiosidade nesta música, é que ela muito provavelmente foi inspirada em “Bankrobber”, música do The Clash lançada em single em 1980. A versão original a do Clash é um reggae-rock lento, monótono, enquanto a do Camisa de Vênus, com letra em português, tem variações rítmicas e é mais dinâmica.
“Gotham City” é uma regravação de uma canção de Jards Macalé e José Carlos Capinam, com a qual Macalé participou do IV Festival Internacional da Canção, em 1969. A letra é uma critica velada ao regime ditatorial que estava em vigor quando a letra foi composta por Macalé e Capinam, e que ganhou uma versão mais roqueira com o Camisa de Vênus anos mais tarde.
Em “Noite e Dia”, o Camisa retrata a vida estressante de um homem de uma grande metrópole, que trabalha muito e ganha pouco. Já “Crime Perfeito” é um rock vigoroso sobre um indivíduo que tem uma vida desregrada e cheia de excessos, como se não houvesse amanhã. A segunda balada do álbum é “Rosto e Aeroportos”, uma música bonita, porém sombria e melancólica, e que traz um solo de guitarra triste, bem condizente com a amargura do eu lírico da canção. Assim como “Noite e Dia”, a faixa “Hoje” também se trata da vida estressada e urgente que um indivíduo vivencia numa grande cidade.
Outro reggae-rock presente no disco é “Cidade Fantasma”, uma música com um clima fantasmagórico e que fala de uma cidade sombria e decadente. Uma curiosidade nesta faixa é que provavelmente ela seria “inspirada” (para não dizer plagiada) numa canção da banda britânica The Specials, “Ghost Town”, lançada em 1981. A diferença é que na versão original, o ritmo é “sonolento”, repetitivo e arrastado, enquanto que na versão do Camisa, os arranjos são diferentes, o ritmo é puxado para o reggae, mas mantendo elementos de rock, e os solos de teclados criam sons de filme de terror que dão um toque diferenciado à música. Vale destacar em “Cidade Fantasma” os solos de saxofone de Manito, ex-Os Incríveis.
Joana D'Arc na Coroação de Carlos VII, óleo sobre tela de Jean-Auguste Dominique Ingres, 1854 (detalhe). A heroína francesa do século XV é tema de "Eu Não Matei Joana D'Arc", um dos maiores sucessos do Camisa de Vênus.
“Batalhões de Estranhos” é a faixa que dá nome ao álbum. Os versos fazem referência ao clima de medo imposto pela ditadura militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985. O disco termina com a curtinha “Coiote no Cio”, uma vinheta em que o Camisa de Vênus tomou emprestado o tema do desenho animado A Pantera Cor de Rosa, e que traz a voz de uma garotinha dizendo à mãe que viu um coiote, seguido de um uivo assustador do animal.
O álbum Batalhões de Estranhos teve uma recepção razoável por parte da crítica. Em sua resenha no jornal Folha de S. Paulo, o jornalista Paulo Klein ressaltou a diferença entre a crueza sonora do primeiro álbum com o ecletismo do segundo que vai além do punk rock. A revista Bizz, em sua edição de setembro de 1985, teceu elogios ao álbum do Camisa, mas criticou o baixo volume e o pouco peso do som das guitarras, apontando o problema no processo de mixagem.
Batalhões de Estanhos representou o “passaporte” do Camisa de Vênus para o mainstream do rock brasileiro. O quinteto agora frequentava as paradas de rádio FM e os programas de TV graças ao sucesso de “Eu Não Matei Joana D’Arc”. As outras faixas, “Hoje” e “Lena”, também conquistaram fama. Rapidamente, o álbum alcançou a marca de 100 mil cópias vendidas. O Camisa iniciou uma turnê nacional para promover o álbum Batalhões de Estranhos, sempre com plateia lotada.
A projeção alcançada com Batalhões de Estanhos chamou a atenção da gravadora WEA que fez uma proposta irrecusável de contrato ao Camisa de Vênus. O quinteto baiano aceitou o convite. Mas antes, para cumprir contrato com a RGE, já que devia mais um disco a essa gravadora, o Camisa lançou em julho de 1986 Viva, o antológico e polêmico álbum gravado ao vivo no Caiçara Hall, em Santos, em São Paulo, em março daquele ano, incluindo sucessos do primeiro e segundo álbuns, e mais algumas músicas inéditas. Sem imaginar, o Camisa encerrava a sua passagem pela RGE em grande estilo com um dos melhores álbuns gravados ao vivo da história do rock brasileiro.
Camisa de Vênus: Marcelo Nova (voz), Robério Santana (baixo), Gustavo Mullem (guitarra solo), Karl Franz Hummel (guitarra base) e Aldo Machado (bateria).