terça-feira, 16 de maio de 2023

POEMAS CANTADOS DE CAETANO VELOSO


 

Beira-mar

Caetano Veloso

Beira-mar
Caetano Veloso

Na terra em que o mar não bate 
Não bate o meu coração 
O mar onde o céu flutua 
Onde morre o sol e a lua 
E acaba o caminho do chão 
Nasci numa onda verde 
Na espuma me batizei 
Vim trazido numa rede 
Na areia me enterrarei 
Na areia me enterrarei 

Ou então nasci na palma 
Palha da palma no chão 
Tenho a alma de água clara 
Meu braço espalhado em praia 
Meu braço espalhado em praia 
E o mar na palma da mão 
No cais, na beira do cais 
Senti meu primeiro amor 
E num cais que era só cais 
Somente mar ao redor 
Somente mar ao redor 

Mas o mar não é todo mar 
Mar que em todo o mundo exista 
Ou melhor, é o mar do mundo 
De um certo ponto de vista 
De onde só se avista o mar 
E a Ilha de Itaparica 
A Bahia é que é o cais 
A praia, a beira, a espuma 
E a Bahia só tem uma 
Costa clara, litoral 
Costa clara, litoral 

É por isso que é o azul 
Cor de minha devoção 
Não qualquer azul, azul 
De qualquer céu, qualquer dia 
O azul de qualquer poesia 
De samba tirado em vão 
É o azul que a gente fita 
No azul do mar da Bahia 
É a cor que lá principia 
E que habita em meu coração 
E que habita em meu coração 
E que habita em meu coração


Beleza Pura

Caetano Veloso

Beleza Pura
Caetano Veloso

Não me amarra dinheiro não!
Mas formosura
Dinheiro não!
A pele escura
Dinheiro não!
A carne dura
Dinheiro não!...

Moça preta do Curuzu
Beleza Pura!
Federação
Beleza Pura!
Boca do rio
Beleza Pura!
Dinheiro não!...

Quando essa preta
Começa a tratar do cabelo
É de se olhar
Toda trama da trança
Transa do cabelo
Conchas do mar
Ela manda buscar
Prá botar no cabelo
Toda minúcia, toda delícia...

Não me amarra dinheiro não!
Mas elegância...

Não me amarra dinheiro não!
Mas a cultura
Dinheiro não!
A pele escura
Dinheiro não!
A carne dura
Dinheiro não!...

Moço lindo do Badauê
Beleza Pura!
Do Ilê-Aiê
Beleza Pura!
Dinheiro hié!
Beleza Pura!
Dinheiro não!...

Dentro daquele turbante
Do filho de Gandhi
É o que há
Tudo é chique demais
Tudo é muito elegante
Manda botar!
Fina palha da costa
E que tudo se trance
Todos os búzios
Todos os ócios...

Não me amarra dinheiro não!
Mas os mistérios...

Não me amarra dinheiro não!
Beleza Pura!
Dinheiro não!
Beleza Pura!
Dinheiro não!
Beleza Pura!
Dinheiro Hié!

Beleza Pura!
Ah! Ah! Ah! Ah!...(10x)



ANOHNI ANUNCIA “MY BACK WAS BRIDGE FOR YOU TO CROSS”

BEATRIZ NUNES EDITA O SINGLE “AS BRUXAS”

 



Beatriz Nunes edita esta terça feira, 16 de maio, o seu mais recente single “As Bruxas”. “As Bruxas” é assim o single de avanço ao álbum “Livro de Horas” a sair dia 26 de maio.

 

“escrevi esta canção de um sopro em 2017 na altura da polémica dos livros de atividades para meninas e para meninos de uma editora portuguesa. Na altura, a sensação de frustração por ainda se estarem a discutir estereótipos de género tão arcaicos e a falta de responsabilidade por se propagarem esses estereótipos em crianças, replicando ciclos intermináveis de diferenciação de capacidades e vontades entre homens e mulheres, fez-me pegar na guitarra e começar a canção pensando em todas as pessoas que resistem, as tais bruxas que as chamas não conseguiram queimar, mas ao mesmo tempo reconhecendo que “isto não acaba”, ou seja, que a luta pela igualdade é interminável.”

“Os Livros de Horas medievais são objectos que sempre me fascinaram. Pela sua beleza em primeiro lugar, depois por serem um almanaque de rituais que misturam rezas e festividades, que é como dizer que são livros que organizam formas de sinalizar a passagem do tempo. Essa ideia interessou-me. O disco está longe de ter uma conotação religiosa, mas acaba por ser uma apropriação desse objecto religioso para falar de outros assuntos que me interessam, quase como uma sugestão de orações pessoais. E escolhi algumas poetas, algumas muito antigas, outras menos, para através das suas narrativas abordar os assuntos: amor, justiça e poder.”

 

O concerto de apresentação terá lugar na Casa Fernando Pessoa (Lisboa) no dia 27 de maio.

Resenha Pearls Of Passion Álbum de Roxette 1986

 

Resenha

Pearls Of Passion

Álbum de Roxette

1986

CD/LP

"Pearls Of Passion" não é apenas o álbum de estreia do duo sueco Roxette. É um trabalho de altíssimo nível, mas que veio ao mundo após muita luta e dedicação de seu principal criador.

Per Gessle é o gênio por detrás do Roxette. Principal compositor e com talento nato para criação de belas melodias, conseguiu atingir a mídia mundial de certa forma até tardia, já que seu reconhecimento como artista veio bem antes em seu país natal, a Suécia. Tanto ele quanto Marie Fredriksson já desfrutavam de certo sucesso por lá. Marie em carreira solo e Gessle com o grupo Gyllene Tider, banda que emplacou alguns hits e chegou também a fazer um teste com um álbum na língua inglesa, mas não obteve sucesso. E foi nos palcos que ambos se conheceram, já que Marie fez backing vocals em alguns trabalho de Per, até que os planetas se alinharam para formar o Roxette, pouco depois da separação do Gyllene Tider e de uma tentativa fracassada (do ponto de vista comercial) de carreira solo de Gessle.

Juntos, gravaram primeiro a faixa "Neverending Love", versão em inglês para uma composição de Per Gessle para a artista Pernilla Wahlgren, que a recusou. Depois vieram algumas sessões e logo tinham um disco completo, aproveitando muitas das composições de Per em sueco para um novo álbum solo. Apesar de ter feito grande sucesso na Suécia, o disco falhou em receber atenção fora de seu país natal, embora seja um trabalho que demonstre claramente o embrião do fenômeno que o Roxette viria a se tornar pouco depois.

São 12 faixas, sendo que a versão remasterizada trouxe faixas bônus e a primeira versão do clássico "It Must Have Been Love (Christmas for the Broken Hearted)", que teve seu nome alterado pouco depois. Esse foi o primeiro grande hit explosivo da banda. Focando nas canções originais do primeiro lançamento, o disco não possui nenhum momento decepcionante. Talvez "Like Lovers Do" seja a que eu menos curta. Falta uma pegada mais forte para empurrar o material para cima, algo como criar canções pensando na execução ao vivo. Em contrapartida, o talento de ambos é nítido em faixas como "Soul Deep", "Goodbye to You", "Neverending Love", "Call of the Wild" (com boa interpretação de Gessle) e "Joy of a Toy". A voz de Marie soa belíssima e engrandece todo o manual. É pop rock, power pop, soft rock, de muita qualidade

Pouco depois, a banda deixaria o lado mais synth para trás, trazendo um pouco mais das guitarras para a frente, acertando em cheio. Além disso, Gessle evoluiria ainda mais em termos de composição, emplacando hits a nível mundial já no próximo lançamento. De qualquer forma, "Pearls Of Passion" é gostoso de curtir e não merece cair no esquecimento.

Faixas:

Soul Deep	3:38
Secrets That She Keeps	3:44
Goodbye To You	4:00
I Call Your Name	3:36
Surrender	4:20
Voices	4:41
Neverending Love	3:29
Call Of The Wild	4:30
Joy Of A Toy	3:07
From One Heart To Another	4:08
Like Lovers Do	3:22
So Far Away	5:13

Resenha Im Zeichen Der Dunkelheit Álbum de Motherwood 2023

 

Resenha

Im Zeichen Der Dunkelheit

Álbum de Motherwood

2023

CD/LP

Imagine um disco de atmospheric black metal gravado durante o inverno europeu e cantando em alemão. Bom, o que o MOTHERWOOD fez não é o primeiro registro desse tipo, mas está entre aqueles poucos que conseguiram sintetizar toda essa pesada aura que envolve o estilo, o clima e o idioma alemão.

Curioso que o grupo, que na verdade é um duo formado pelos brasileiros Guilherme Malosso e Yuri Camargo conseguiu absorver todo espírito do verdadeiro black metal europeu. Com o quase impronunciável título "Im Zeichen Der Dunkelheit" (2023, algo como “no sinal da escuridão”), eles chegam ao seu segundo disco, depois de um hiato de cinco anos desde o debut autointitulado.

Com fortes influências de DARKTHRONE, BURZUM e da onda black metal da década de 90, o disco foi produzido, mixado e masterizado por Guilherme, na cidade alemã de Essen (atualmente ele reside na Alemanha, enquanto Yuri, no Brasil). 

Ao todo, são cinquenta densos minutos disseminados em sete faixas. Ao dar play, a imagem de florestas de pinheiros desertas, cobertas por neve, tendo somente os barulhos da natureza e o infinito branco a perder de vista, é imediata acionada. Caminhar por entre uma paisagem dessa, ao som do disco, deve ser, no mínimo, uma experiência assombrosa.

O instrumental faz constantemente uso de trechos repetitivos, mas não monótonas! É um forte aliado do duo que consegue se sair muito bem nesse quesito, afinal, a linha com a monotonia é tênue e muitos grupos costumam se dar mal ao tentar fazer esse caminho. Os vocais de Guilherme são rasgados e angustiantes, sem falar no quesito rispidez que o alemão aufere naturalmente as palavras vociferadas por ele. Fazendo uso de diferentes camadas de guitarras, os efeitos de sintetizados e teclados criados por Yuri Camargo, carregados daquela aura ameaçadora que o estilo pede, são os pontos altos do disco.

Escrito durante o rigoroso inverno alemão de 2021 e 2022 por Guilherme, percebe-se que o período vivido por ele ali não foi dos mais fáceis e nada como a arte para exorcizar tais momentos negros. As letras abordam solidão, melancolia, saudade e lembranças peedidas, sendo que as faixas “Nostalgie”, “Der Stille Frühling” e “Winternacht" foram musicadas em cima de obras do poeta e romancista alemão Joseph Von Eichendorff.

Um disco pesado, não só pelo instrumental, mas pelo clima que se dispôs a criar: “Im Zeichen Der Dunkelheit” tem um grito das profundezas de uma alma angustiada quase no seu fim; “Der Stille Frühling” alterna de um início intenso para um final melancólico; a instrumental “Ein Wald” comprova o talento de Yuri em criar ambientações capazes de transportar o ouvinte para onde quer que ele deseje, enquanto a derradeira “Mein Weg Ist Frei”, com seu ar claustrofóbico e ameaçador tom, são meus destaques.

"Im Zeichen Der Dunkelheit" (2023) figura entre os melhores lançamentos do ano. Em maio será lançado no Brasil junto a loja/gravadora Heavy Metal Rock.
Formação:
Guilherme Malosso: letras, vocais e todos os instrumentos
Yuri Camargo: teclados, sintetizadores e ambientação

Faixas:
01 Im Zeichen Der Dunkelheit
02 Nostalgie
03 Der Stille Frühling
04 Winternacht 
05 Ein Wald (instrumental)
06 Der Konflikt In Mir
07 Mein Weg Ist Frei

Resenha L.A. Woman Álbum de The Doors 1971

 

Resenha

L.A. Woman

Álbum de The Doors

1971

CD/LP

Depois do maravilhoso "Morrison Hotel" de 1970, The Doors fez grandes shows, como em Isle Of Wright, que rendeu um álbum ao vivo. Mesmo com sucesso, a banda enfrentava um problemão chamado Jim Morrison. Jim nesse época usava muitas drogas, principalmente heroína e cocaína. Depois de perceber que estava usando muitas drogas, ele decidiu parar com elas, mas depois da última apresentação do grupo na casa.de shows Warehouse, em Nova Orleans, foi bem esquisita. Relatos dizem que o frontman do The Doors teve um colapso nervos. Até ficou em posição fetal. Com algum ponto de ebulição vindo, Jim Morrison decide se internar em uma clínica de reabilitação, mas no fim das gravações de "L.A. Woman", ele decide ir para Paris, onde morre de uma forma muito misteriosa, aos 27 anos, fazendo parte do Clube dos 27, no qual, artistas que morreram aos 27 anos. Temos vários exemplos como: Jimi Hendrix, Janis Joplin (que era a sua amiga), Kurt Cobain e Amy Whitehouse.

O disco abre com "The Changeling". O ritmo da música, e isso será frequente no álbum inteiro, é a volta do R&B, que estava presente no primeiro álbum da banda, "The Doors" de 1967. Temos (finalmente), a adição do baixo, tocado por Jerry Schef, um dos baixistas de Elvis Presley, o ídolo de Jim Morrison. A bateria é mais rítmica do que.de costume. A guitarra é mais timbrada, e assume um protagonismo, junto com a voz poderosa de Jim Morrison. "Love Her Madly" é uma música que sabe misturar bem o R&B com Country Rock. O teclado é o verdadeiro charme da música. A guitarra é mais suavizada, sem muita rasgadura, assim com o seu solo. "Been Down So Long" poderia ser facilmente um rock dos anos 1950, por conta do seu andamento. A guitarra é distorcida, assim com como seu solo arrebatador. A bateria é impactante. "Cars Kiss By My Window" tem uma bom início com um belo riff de baixo. O andamento da música é bem arrastados mas não a compromete. A guitarra (aparentemente) faz a mesma linha do baixo. "L.A. Woman" é a faixa que dá nome ao álbum e é uma das faixas mais longas do The Doors, tendo quase oito minutos. O andamento da faixa é mais rápido, tendo uma linha de baixo muito boa. A bateria que tecnicamente não é nada impressionante, mas que ritmicamente, é envolvente. A guitarra é bem sofisticada. O teclado tem um protagonismo muito presente, mas o verdadeiro destaque vai para o vocal, que é mais rasgado e grave. O andamento muda várias vezes, de pontos mais arrastados até momentos energéticos. O solo de guitarra é suave, mas em alguns breves momentos, se torna mais rasgado. "L'America" tem um início com uma guitarra bem distorcida. Logo depois, vem o teclado dando texturas macabras, junto com um baixo mais groovado. A bateria vem em um ritmo de marcha. Depois de um tempo entra a vocal marcante e menos rasgada de Jim. A bateria.A música mistura bem o R&B e a psicodelia. "Hyacinth House" é um rock country com elementos de psicodelia e R&B. Temos a volta da voz mais grave de Morrison. A guitarra é mais timbrada e.com uma leve distorção. A bateria é mais ousada em usar mais tons. Temos até um solo bem rápido de teclado. "Crawling King Snake" é um blues de qualidade absurda. The Black Keys fez um chover dessa música, no "Delta Kream" de 2021. O solo de guitarra é bem distorcido. "The WASP (Texas Radio and the Big Beat)" tem um bom riff de guitarra no início. O baixo faz uma excelente cozinha com a bateria. O teclado dá a textura para a guitarra brilhar. O vocal de Morrison tem efeitos parecendo muito que ele estava falando em um megafone. O solo de guitarra é bem distorcido e marcante. Por fim, temos "Riders On The Strom", que é o maior sucesso do The Doors, mesmo com sete minutos de duração. Minha geração, (Z) conheceu, inclusive eu, por conta do jogo Need For Speed: Underground 2 de 2004, no qual, a música de introdução do jogo era um remix dessa mesma faixa, mas como um rap feito pelo Snoop Dogg. Mas vamos falar da música. A música começa com efeito sonoro da chuva. O baixo que não é tão fácil assim, comanda o ritmo da música. A bateria é praticamente comanda pelos pratos e chimbas. A guitarra é mais suave. O teclado que é o destaque, até mesmo, solando e não é tão agressivo como nas faixas anteriores. O vocal de Jim Morrison é mais suave, parecendo que ele já sabia o que aconteceria com ele. Melhor faixa do álbum e uma das melhores do The Doors. "L.A. Woman consegue ser um fim da fase mais amada e cultuada do The Doors e uma releitura do início da banda. Letras metáforas, instrumentais excelentes e um vocal de respeito. Se você acha que The Doors é superestimado, ouça esse álbum. Se você gosta de The Doors, qual é o seu favorito? Que Jim Morrison saiba que o seu último trabalho é o melhor de toda a sua carreira.

Resenha Fearless Álbum de Crown Lands 2023

 

Resenha

Fearless

Álbum de Crown Lands

2023

CD/LP

Num universo em que os estilos e influências musicais parecem estar cada vez mais saturados - e por isso mesmo alguns artistas buscam alguma pitada de originalidade para obterem um lugar ao sol - dois rapazes vão na senda oposta: fazem um som sem nenhum medo de escancarar sua influência pelo Rush dos áureos anos 70 progressivos. E este redator pensou: ei, eu gosto pra caramba do Rush dos anos 70. Vou ouvir qual é a desses caras.

E então me deparei com a bolacha "Fearless", segundo trabalho full-lenght da banda canadense (a alusão ao Rush já começa aqui), composta por Cody Bowles (bateria, vocais e flauta) e Kevin Comeau (guitarra, baixo e teclado).

Peraí, só esses dois mesmo? Sim, só esses dois mesmo.

Então Comeau toca guitarra e baixo ao mesmo tempo? Já chegamos lá.

O álbum contém 9 faixas - sendo a primeira um épico progressivo de 18 minutos de duração - e as demais mais curtas, nem por isso carecendo dos clássicos elementos do prog rock setentista. Essa é a praia que permeia todo o trabalho (embora não seja a única).

Quando ouvi as notas iniciais de teclado da primeira faixa, "Starlifter: Fearless Pt. II", na verdade nem me lembrei do Rush, e sim do Toto, na introdução de "Better World", por ser um timbre mais moderno, por assim dizer. Mas logo em seguida, quando os demais instrumentos aparecem, a ode ao Rush é notória, não apenas nos timbres, mas também na execução.

O começo é logo chutando a porta: tem um quê de "2112" ou "Hemispheres", tudo misturado. Puro Rush anos 70. O vocal agudo de Bowles nem lembra tanto o de Geddy Lee, mas a proposta é a mesma.

Em outros momentos, o som do Rush dos anos 80 também se faz presente, como na clara referência a "Red Barchetta" na batida aos 3:15, ou a "Natural Science" no vocal etéreo aos 13:30.

E respondendo à pergunta do início, como fica a guitarra e o baixo? Comeau é, ao mesmo tempo, guitarrista e baixista, mas obviamente não pode tocar guitarra e baixo ao mesmo tempo; então ele usa um instrumento de 2 braços, um para a guitarra e outro para o baixo, e vai alternando entre os dois conforme o momento da música - sempre preenchendo com teclados acionados por pedais (Geddy Lee também usava com frequência pedais para teclado). Essa alternância entre guitarra e baixo é ainda mais interessante de verificar assistindo performances ao vivo.

A música vai se desenvolvendo por diferentes atmosferas, tempos quebrados, momentos ora épicos, ora intimistas. Tudo muito bem executado e produzido. Rock progressivo "retrô" em sua essência.

Por volta da metade da música, um belo solo de guitarra de Comeau encerra uma seção, e então entra um teclado que surpreendentemente me remeteu ao... Tangerine Dream! Como apreciador do Tangerine, essa foi outra agradável surpresa, que mostrou a versatilidade dos rapazes.

Embora eu tenha achado a música um pouco longa, podendo ser retiradas determinadas partes para condensar um pouco o resultado final, termino a audição  com um sorriso no rosto. Tem influência de Rush anos 70, mas ao mesmo tempo é moderno e fresco. Belo início.

A segunda faixa é "Dreamer Of The Dawn", um hard rock moderno, energético e direto, centrado num riff acessível de guitarra que me lembrou, inclusive, o próprio The Offspring, em faixas como "Days Go By". Destaque para o belo refrão cantado a plenos pulmões na voz aguda de Bowles.

Em seguida vem "The Shadow", outro hard rock, dessa vez mais cadenciado, que bebe da fonte do AOR dos anos 80. Os calmos versos explodem em outro refrão grudento. Se tivesse sido lançada nos anos 80, bandas como Whitesnake, Europe ou Poison ficariam com inveja. Mais um ponto pra versatilidade da dupla.

"Right Way Back" já havia sido lançada 2 anos antes num EP, e retorna com um instrumental veloz e um vocal despojado que me remeteu ao Greta Van Fleet (para o qual, inclusive, o Crown Lands abriu alguns shows). Boa pra levantar a galera.

Se o álbum iniciou com a parte 2 do épico, só agora é que entra a parte 1 (ué?). "Context: Fearless Pt. I" segue as diretrizes da parte II, num retorno à homenagem ao Rush. Porém, por ser mais concisa, me agradou ainda mais. Novamente uma alusão clara ao Rush de "Red Barchetta" dá as caras a partir dos 2 minutos. E a voz falada meio eletrônica a partir dos 4:20 nos lembra demais as vozes que Neil Peart às vezes inseria em músicas do Rush, como "The Necromancer", e, mais tarde, "Roll The Bones" (oh, céus, quantas comparações ao Rush! Calma, tem mais). Destaque, na letra, pro interessante verso "if life is a wheel, please let it spin" (se a vida é uma roda, deixe-a girar). 

Aí vem a que eu acho que é minha faixa preferida do álbum, "Reflections", pois ela, mesmo curta, consegue ser ao mesmo tempo melódica e progressiva na medida certa, com belas execuções dos instrumentos (o que dizer das viradas de bateria no refrão à la Neil Peart?). 

Ela se inicia com a alusão mais clara ao Rush de todo o trabalho: a atmosfera de teclado sombrio permeado por batidas nos pratos, sons de gotas caindo e notas soltas de guitarra nos remete imediatamente ao começo de "Xanadu".

Destaque mais uma vez para o belo refrão, cuja letra termina em "we'll recognize each other's souls again, on the other side" (vamos reconhecer as almas uns dos outros novamente, do outro lado). Profundo. 

Outro destaque é a bela melodia de apenas dois acordes no interlúdio antes da última execução do refrão, permeada por um solo de guitarra recheado de feeling.

Falamos da semelhança com "Xanadu", mas, ao contrário desta, que é um épico longo, "Reflections" é novamente um hard rock conciso, com elementos prog, que mostra que progressivo bem sempre é sinônimo de pretencioso.

Nesse momento, vem a mais agradável surpresa do álbum, "Penny", uma curta seção totalmente instrumental, no violão, tocando uma singela melodia bucólica. É pra se ouvir de olhos fechados, fazendo de conta de que está numa casa no campo, apreciando a chuva cair no final da tarde (fui longe!). Ao mesmo tempo em que evidencia o incrível censo de melodia de Comeau, é uma bem-vinda pausa para respirar, após as porradas das faixas anteriores. Assim, o álbum se torna ainda mais interessante por sua dinâmica. Que bela canção! Se quiser relaxar, feche os olhos e ouça-a em loop.

Após esse interlúdio, o hard rock novamente dá as caras em "Lady Of The Lake", música que ganhou videoclipe, desta vez nos fazendo lembrar bastante o Greta Van Fleet. Mais uma vez temos um refrão forte pra cantar junto, cuja voz aguda fornece o brilho adicional, a cereja do bolo. Destaque para o falsete que ele faz no final do último refrão.

Por fim, o álbum se encerra com "Citadel", pela primeira vez uma música centrada no piano, lindamente tocado por Comeau. A voz de Bowles é carregada de emoção, permeando a melancolia do som. Tocante encerramento. E como eu não consigo deixar de associar a alguma outra banda, aí vai: a melodia me lembrou "Pro Memoria", do Ghost (pois é!), talvez a minha música preferida dos mascarados. Detalhe: ambas as músicas se iniciam com o mesmo acorde.

E é isso.

Se o Rush já tinha os méritos de fazer aquela sonzeira sendo apenas três, o fato de Crown Lands ser composto de apenas dois é digno de elogios. E ao vivo eles também dispensam músicos adicionais. Encaram tudo como um duo mesmo; embora, é claro, o som não fique tão preenchido quanto nas versões de estúdio, nas partes mais pesadas. Mas tiro o chapéu pra eles pela garra.

Vale lembrar de outras bandas cujo baterista era também vocalista: Genesis e Spock's Beard, por exemplo. No Genesis, Phil Collins cantava e tocava bateria no estúdio, mas ao vivo havia baterista na turnê; no Spock's Beard, o mesmo acontecia quando Nick D'Virgilio era o vocalista/baterista. No Crown Lands não: Cody Bowles toca bateria e canta do início ao fim do show. Spot on!

Não sei se futuramente eles passarão a ter músicos adicionais nas turnês. Se por um lado "aliviaria" as atribuições dos dois e permitiria um som mais encorpado, por outro perder-se-ia um pouco dessa identidade que eles têm, apenas os dois, de forma orgânica. Nem eu mesmo tenho uma opinião formada quanto ao que seria melhor. Aguardemos: o tempo dirá.

Quanto à semelhança com o Rush, espero que o duo aos poucos amadureça e encontre sua própria sonoridade (sem prejuízo, é claro, de mostrar suas influências). De toda forma, é inegável o talento e o futuro promissor dos rapazes. Têm muita lenha pra queimar. E, para além deles, vemos que tem muita coisa boa por aí precisando ser apreciada, basta que saibamos garimpar. Fiquei com o hype de acompanhar o que eles farão a seguir - e, quem sabe, voltarei a escrever por aqui!

Resenha Hymns for Hungry Spirits, Vol. II Álbum de Great Wide Nothing 2023

 

Resenha

Hymns for Hungry Spirits, Vol. II

Álbum de Great Wide Nothing

2023

CD/LP

Acho que a minha preferência pelo rock progressivo está bem destacada no gráfico de resenhas na minha página aqui do site. Mas tudo é muito amplo dentro do gênero e estou sempre em uma fase diferente em relação ao que mais escuto, sendo que, ultimamente, a minha preferência está inclinada às bandas modernas de rock progressivo, mas que não deixam de entregar um som que se mistura com o progressivo clássico e até mesmo com outros gêneros do rock, como por exemplo, o alternativo, sendo exatamente o que corre com Hymns for Hungry Spirits, Vol. II, terceiro disco dos estadunidenses da banda Great Wide Nothing. Inclusive e acredite se quiser – ou tire as suas próprias conclusões ouvindo o álbum -, mas há acenos até ao punk rock. Um álbum em que há muito equilibrado e feito com bastante inteligência, Hymns for Hungry Spirits, Vol. II, é de uma qualidade homogênea nivelada por alto.  

“Blind Eye To A Burning House” começa por meio de alguns efeitos atmosféricos, mas que logo são substituídos por uma linha instrumental que – tirando o uso de piano – é possível perceber algumas influências entre o Rush dos anos 80 e o rock alternativo. Possui uma aura muito agradável. Além de uma excelente performance dos músicos, vale destacar a produção do disco que é muito boa. Uma peça que funciona muito bem do começo ao fim, entregando vocais adequados e uma banda que instrumentalmente mostra-se muito desenvolta. Como eu não canso de dizer aqui que adoro um bom refrão, aqui ele é daqueles que viciam e de repente estamos cantando ele sem parar. Eles não poderiam ter escolhido uma maneira melhor de começar o disco. “The Portal And The Precipice”, uma bateria que parece está sendo tocada no quarto ao lado começa a música, então todos os instrumentos entram e entregam uma sensação inevitável de Deep Purple, principalmente pela maneira com que o órgão é arquitetado durante a peça - que inclui um solo incendiário. Essa é daquelas músicas, que conseguem entregar ao mesmo tempo, uma ardência de rock progressivo clássico e moderno.  

“Viper”, vocês que ainda compram ou compravam CDs, lembram do dizer, “Parental Advisory Explicit Content” que continham em alguns materiais quando havia no geral um excesso de palavrões ou referências inapropriadas? Então, se todo o disco tivesse a mesma linguagem que essa música, provavelmente haveria esse aviso nele. Traumas e abusos na juventude, resiliência aplicada à situação em que viveu e uma raiva pelo que lhe aconteceu que embora não o domine, sempre vai existir – essa eu tive que ir entender sobre o que se tratava, depois de ver o aviso de que era uma letra que destoava das demais. Musicalmente, começa com um piano, mas que aos poucos vai crescendo em uma sonoridade tendendo primeiramente ao rock de arena, mas depois passeando por linhas sinfônicas. Seus vocais variam entre seções gritadas e raivosas – me lembrando um pouco Roger Waters - e outras mais amenas com vocais melódicos que se justapõem muito bem ao tema. Esses contrastes – tanto vocais quanto instrumentais - são brilhantes e fazem desta peça um dos destaques do disco. 

“Inheritor”, acho que faltam mais músicas sobre a pandemia nesse tom otimista, que celebre a vida, afinal, isso não vai fazer ninguém parecer que não se importa com os milhões de mortos, muito pelo contrário, eles querem apenas mostrar que, apesar de tudo, conseguiram sobreviver a essa fase terrível do mundo. A banda não nega que gosta de AOR e aqui é onde eles estão mais evidentes e misturado com uma sonoridade 80’s, porém, eles nunca deixam de soar progressivos. Não sei se o grupo chegou a lançar alguma das músicas como single, mas eu a vejo mesmo assim como o single do disco. Uma peça memorável e que consegue até melhorar o humor de quem a escuta.  

“To Find The Light, Part Two” é a faixa que encerra o disco, um épico com quase 20 minutos. Começa por meio de algumas notas de piano antes de toda a banda entrar em ação, porém, o piano permanece sendo o instrumento de liderança por alguns segundos. A peça continua a evoluir, entregando primeiramente uma linha melódica e outra mais pesada, fazendo a banda soar pela primeira e única vez no disco como uma banda de metal progressivo. Uma guitarra cheia de swingado leva a música para uma outra direção, até que os vocais aparecem pela primeira vez. A faixa permanece em uma constante evolução, entrando de uma maneira crescente, cada vez mais em zonas progressivas. Pouco antes da metade, a peça cai em um interlúdio e ganha ares dramáticos, além de completamente diferente do que havia sido feito nos pouco mais de 9 minutos anteriores. Um solo de sintetizador ajuda com toda a pungência encontrada no tema. Consigo sentir um pouco de Pink Floyd nessa parte e, mais a frente – depois dos 12:30 -, algo como se o Rush encontrasse a vibração floydiana. Em toda essa crescente, realmente as teclas brilham e entregam muita magia ao assumir a liderança durante todo o processo, em que o ápice, se encontra em um solo efervescente de órgão. Enquanto a peça se prepara para os vocais regressarem, a band parece entrar em um “modo Yes”. Quando enfim os vocais reaparecem, a faixa volta para uma sonoridade menos ambiciosa, mas ainda assim, indiscutivelmente muito progressiva. Caminhando para um final sinfônico, triunfante e poderoso, a peça praticamente silencia de forma abrupta, deixando apenas alguns teclados ambientais que assumem o controle e encerra o disco.  

Antes de qualquer consideração final, já deixo a afirmação que Hymns for Hungry Spirits, Vol. II vai certamente estar na minha lista dos melhores discos do universo progressivo de 2023. Um trabalho que consegue entregar de forma impressionante, músicas que se conectam brilhantemente com seus temas líricos, como, perda, desgosto, isolamento, esperança e redenção. Sempre ofertando uma paisagem sonora rica e energia musical poderosa, Hymns for Hungry Spirits, Vol. II é um disco de rock progressivo fascinante do começo ao fim.  

Canadenses do Chester Doom lançam “Not Far Behind”, single é inspirado na resiliência do povo ucraniano

 

Canadenses do Chester Doom lançam “Not Far Behind”, single é inspirado na resiliência do povo ucraniano

Divulgação


Chester Doom, a banda de rock em ascensão de Halifax, acaba de lançar seu último single, "Not Far Behind", que promete ser um sucesso entre os amantes da música em todo o mundo.

A música foi escrita no início de 2022 pelo vocalista Josh Best enquanto ele se recuperava da Covid-19 e assistia aos acontecimentos da guerra na Ucrânia. Best foi inspirado pela resiliência do povo ucraniano, que enfrentava imensas dificuldades, mas ainda conseguia manter a esperança.
Em "Not Far Behind", Best canaliza esse senso de esperança e resiliência, tecendo uma história poderosa e emotiva de perseverança diante da adversidade. A faixa é um comentário sobre a força do espírito humano e um lembrete de que, não importa o quão sombrias as coisas possam parecer, nunca estamos realmente sozinhos.

Com uma batida forte, vocais crescentes e um gancho inesquecível, "Not Far Behind" certamente ressoará com o público de todas as idades e origens. A música mostra o som característico de Chester Doom, uma mistura de rock clássico e alternativo moderno que vem conquistando fãs em todo o mundo.

Falando sobre o novo lançamento, o vocalista principal do Chester Doom, Josh Best, disse: "Essa música é muito pessoal para mim e acho que fala com muitas pessoas que passaram por momentos difíceis. Queríamos criar algo que elevasse as pessoas. e lembre-os de que não estão sozinhos. Estou muito orgulhoso de como tudo acabou e mal posso esperar para que as pessoas ouçam."

"Not Far Behind" já está disponível em todas as principais plataformas de streaming, e Chester Doom está definido para apresentar o novo single nos próximos shows e festivais em todo o Canadá. Com seu som único e mensagem poderosa, Chester Doom é uma banda que certamente causará um impacto duradouro no mundo da música.

"Not Far Behind": open.spotify.com.

Resenha Alaska Álbum de Between The Buried And Me 2005

 

Resenha

Alaska

Álbum de Between The Buried And Me

2005

CD/LP

Quando falamos de metal progressivo, poucos nomes serão os de bandas que conseguem ter uma sonoridade tão exclusiva mediante a um leque extenso e variado de influências em que todos eles conseguem se unir para criar algo bastante coeso, como o da Between the Buried and Me. Isso muitas vezes acaba até mesmo dificultando um pouco na hora de categorizar a banda, por isso, o metal progressivo com incursões de death metal muitas vezes pode ser usado para falar de forma superficial sobre o grupo – isso depois da banda começar a abandonar o seu lado metalcore -, deixando o restante para que o ouvinte tire suas conclusões quando se deparar com algum dos seus discos. Falando em específico de Alaska, estamos falando de um álbum, em que, a menos que você seja um completo classista do metal progressivo e fechado a uma nuance muito grande, certamente você vai ficar impressionado com o que vai encontrar aqui – por mais que a banda ainda não tenha atingido o seu pico criativo, algo que aconteceria em seus álbuns seguintes. 

A banda costuma acertar em cheio na produção e aqui não é diferente. Em qualquer outro universo, talvez as guitarras pudessem ser vistas se certa forma um pouco agressiva demais, porém, falamos de uma banda que está sempre atingindo vários picos de metal extremo. A seção rítmica se faz bastante presente por meio de linhas quase sempre aventureiras e de uma solidez incrível. Os vocais variando entre agressividade pura e ensejos sutis também soam muito apropriados durante todo o disco.  

“All Bodies”, quando conheci a banda, ela já estava com um som consolidado e maduro dentro do seu metal progressivo cheio de nuances. A linha tênue entre o prog metal e o metalcore dos dois primeiros discos e que fazia parecer que a banda estava confusa em relação a que caminho seguir, finalmente parece começar a ter uma certa clareza logo na primeira faixa de Alaska. Começa de maneira muito agressiva, porém, é possível notar um certo refinamento em seu som, inclusive, com capacidade de agradar até mesmo ouvintes que se conectam apenas com músicas do mainstream. “Alaska” é uma peça de sonoridade mais magra e trituradora do que a anterior. O lado metalcore da banda emerge com toda a sua força, mas mesmo assim, é possível perceber algumas intenções progressivas na peça. Talvez seja de uma fúria um pouco exagerada, mas não chega a ser uma música ruim.  

“Croakies And Boatshoes”, o mesmo “problema” da peça anterior é encontrado aqui. Apesar de possuir uma influência progressiva até mesmo mais evidente que a faixa título, também é dentro da estrada do metalcore que a música de fato funciona. Apesar de possuir menos de dois minutos e meio, nota-se uma boa variedade de riffs. Mesmo possuindo a mesma fúria e agressividade da faixa anterior, aqui acho que tudo opera de uma forma mais interessante. “Selkies: The Endless Obsession”, é uma três das peças que passam dos 7 minutos de duração. Uma viagem progressiva cheia de agressividade. De forma feroz, a banda mostra pela primeira vez e com muita clareza o tipo de som que eles querem entregar em seus próximos álbuns, incluindo até mesmo alguns acenos aos space rock. Uma música cheia de nuance, feita por meio de linhas notáveis de guitarra, seção rítmica sólida e até alguns teclados muito bem acentuados. O solo de guitarra que direciona a música para o seu final não poderia ser mais bem apropriado. Esse é aquele tipo de música, que de tão grandiosa, impossibilitaria uma nota baixa para esse disco mesmo que as demais peças fossem descartáveis. “Breathe In, Breathe Out”, com pouco menos de um minuto. É apenas um pequeno interlúdio de guitarra, que apesar de bonito, não entendo bem qual a sua real função no disco.  

“Roboturner”, é mais uma das faixas que passam dos 7 minutos de duração. É um dos momentos mais agressivos do álbum. A peça disponibiliza alguns riffs avassaladores de guitarra, bateria e baixo criam uma cozinha fervorosa e intensa. Os vocais uivantes, às vezes soam até mesmo aterrorizantes. Nenhuma outra música do disco consegue entregar um clima tão macabro, trevoso ou coisas do tipo. Novamente, a banda mostra muito do novo caminho que está disposta a seguir. “Backwards Marathon”, junto com, “Selkies: The Endless Obsession”, é onde a banda mais consegue transmitir para o ouvinte as suas nuances progressivas, além de ser a mais longa do álbum com quase 8 minutos e meio. Já começa em alta voltagem por meio de uma seção rítmica impactante, riffs brutais de guitarra e vocais cheio de ferocidade. Excelentes mudanças de ritmo também são um dos atrativos da peça. É onde pela primeira vez, o trecho de maior destaque de uma música da banda se encontra em uma dinâmica mais silenciosa em vez de em alguma passagem mais pesada. Essa ponte atmosférica, é simplesmente assustadora e brilhante. A aparte instrumental que encerra a peça, começando por volta de 7:22, é lindíssima, com toda a banda entregando um material pesado, melódico e muito bem orquestrado.   

“Medicine Wheel” é uma faixa instrumental que segue uma linha bem mais suave e muito pouco metálica. Bastante melódica, a banda entrega mais uma vez, um som que indica sua intenção de mudança de ares, buscando cada vez mais se conectar com a música progressiva e mostrando que este disco é definitivamente uma ponte para isso. “The Primer” direciona o disco para uma sonoridade pesada novamente. Impressionante como a banda consegue criar alguns riffs de guitarra que emanam beleza, mesmo sendo executado sobre uma seção rítmica furiosa e vocais rosnados. Por volta dos 3:35 há uma mudança de andamento que considero o destaque da peça, onde mesmo com os vocais ainda agressivos, a banda entrega uma base pesada, mas também muito harmoniosa que é lindíssima. Possui um final bem tranquilo e diferente por meio de duas guitarras trabalhando de forma sutil. 

“Autodidact” é uma música pesada, insana, caótica e virtuosística. O ataque de bateria é explosivo e avassalador, as linhas de baixo são bastante firmes e as guitarras pesadíssimas e destruidoras, tudo sempre sob os vocais raivosos de Tommy Rogers. Se fosse pra eleger a faixa mais experimental do álbum, certamente seria essa. Ao mesmo tempo em que parece passar uma imagem tempestuosa, tudo também soa meio anárquico. “Laser Speed” é a última música do disco e traz um final até um pouco inusitado. Não é progressiva e nem pesada, mas uma peça acústica muito bonita, onde o violão é acompanhado por uma seção rítmica simples. Uma faixa divertida que pode servir como uma espécie de “créditos finais” do disco, um momento para que o ouvinte relembre tudo o que ouviu até chegar aqui.  

Alaska pode não ser um álbum do mesmo nível de alguns que seriam lançados anos depois, porém, é um fragmento de transição importantíssimo dentro da discografia da banda, já mostrando muitos esboços de uma musicalidade mais progressiva e que seria encontrada em discos como Collors e The Parallax II. O metal progressivo quando utilizado aqui, ainda acontece por meio de uma amálgama de ensaios no campo do metalcore, porém, de uma forma que já demonstra uma riqueza instrumental ainda inédita em discos do grupo, afinal, em Alaska, a banda consegue refinar elementos díspares de uma manheira bastante requintada. 

Destaque

Bob Dylan - 1999-06-14 - Eugene

  Bob Dylan 1999-06-14 E.M.U. Ballroom University of Oregon Eugene Oregon   CD 1: 01. Cocaine Blues (acoustic)  02. My Back Pages (acoustic)...