quarta-feira, 17 de maio de 2023

Crítica ao disco de David Cross & Peter Banks - 'Crossover' (2020)

 David Cross / Peter Banks - 'Crossover' (2020)

(17 Janeiro 2020, Noisy Records)

David Cross Peter Banks - Crossover

Hoje temos o enorme prazer de apresentar esta "antiga novidade" que é " Crossover ", álbum de duetos de DAVID CROSS e PETER BANKS, um daqueles muitos momentos na história do rock em que os habitantes dos mundos de KING CRIMSON e YES se viram viajando juntos em uma jornada de sons de rock experimentais e característicos. No caso, o encontro entre esses dois gênios se deu pela presença da DAVID CROSS BAND e HARMONY IN DIVERSITY em outdoors compartilhados no underground londrino em 2010. Tudo o que ouvimos no violão e violino no repertório contido em "Crossover " foi gravado durante a tarde do dia 10 de agosto daquele ano de 2010 (menos de três anos após a saída de BANKS) improvisações pactuadas apenas pelos dois professores citados. Até então, HARMONIA NA DIVERSIDADE era história, mas em BANKS e CROSS a ideia de criar um rock experimental com um espírito futurista e psicodélico progressivo dentro de um contexto de improvisação criativa permaneceu pendente. Assim, ao longo de várias sessões de gravação dirigidas e masterizadas por Tony Lowe e o próprio CROSS ao longo dos anos de 2018 e 2019, uma grande série de contribuições performativas de vários grandes nomes do rock progressivo, hard rock e art-rock de diferentes gerações: baterista-percussionista Pat Mastelotto, os tecladistas Oliver Wakeman, Geoff Downes e Tony Kaye, o baixista Billy Sherwood, os bateristas Jay Schellen e Jeremy Stacey, e o especialista em instrumentos orientais Randy Raine-Reusch. Andy Jackson forneceu efeitos sonoros em uma faixa, e o próprio Tony Lowe adicionou partes adicionais de baixo e teclado em algumas faixas. Mastelotto já é um velho conhecido do CROSS (tendo sido o último acompanhante dos STICK MEN em mais de uma turnê) enquanto a nota mais cativante desta produção é dada por este tipo de reunião do guitarrista original e tecladista do YES (embora, vale a pena verdades, pelo que foi feito em suas respectivas trajetórias pós-SIM, BANKS acabou por ter uma personalidade mais poderosa que Kaye, mas ei, isso é outro assunto). Quando ainda estava vivo, BANKS mostrou um interesse muito especial em lançar material com o CROSS, e talvez até fazer outra sessão, mas na época, o bom CROSS não conseguiu acompanhar. Como já sabemos, BANKS partiu para o além em março de 2013. Voltando a este álbum, 17 de janeiro foi a data de seu lançamento ao público, através do selo Noisy Records: Temos em mãos um registo que data do ano de 2010 no que diz respeito à sua gestação, e também do ano de 2020 no que diz respeito ao seu acabamento final. É hora de insistir nos detalhes de "Crossover".

Com pouco menos de 9 minutos e meio, 'Rock To A Hard Place' começa com uma atitude entusiástica e extrovertida. No início, seu esquema segue um padrão rock and roll envolto em um precioso manto de timbres sinfônicos progressivos. Posteriormente, estabelecem-se momentos em que o sulco central se apaga, e sua função é muito importante na hora de abrir espaços para a montagem de nuances cósmicas interessantes dentro da dinâmica da peça. Assim sendo, a atmosfera central transita para algo mais denso, mas em todo o caso, um lirismo bem apetrechado opera enquanto a jam continua a avançar com predominância das configurações mais constrangidas. Por volta do limite do 6º minuto e meio, o suingue do rock 'n' roll retorna por um instante, mas é apenas um momento de jovialidade antes de retornar ao dispositivo de densidade ágil. Upshift, por seu lado, aposta num ambiente mais outonal e cerimonioso, bem sustentado por um groove de tenor jazz-rocker, e estando o compasso a meio tempo, o bloco instrumental geral sente-se muito imponente, para além de ter campos de acção a explorar recessos harmônicos e solos impulsionados por uma aura relaxada. À medida que o desenvolvimento temático avança, percebemos que a nostalgia é o fator crucial em sua configuração geral. Essas duas primeiras peças do álbum são as mais longas: duram pouco menos de 9 ¼ minutos e pouco mais de 8 ¼ minutos, respectivamente, e já prendem a atenção do ouvinte empático. A terceira faixa do álbum intitula-se 'The Smile Frequency' e tem como missão exibir um exercício de preciosos sons etéreos onde coexistem as regras do jogo do prog psicadélico, fusão contemporânea e a faceta mais serena do jazz-rock. O violino assume aqui um papel particularmente protagonista, sempre se destacando pelas camadas harmónicas geradas pelos teclados e pelas engenhosas quebras rítmicas. Essa sequência das três primeiras músicas do álbum é bastante climática. 'The Work Within' é um tema de forma livre onde se acentua o atmosférico, algo que é ideal na hora de articular seu emaranhado volátil e abstrato. As cadências jazzísticas da guitarra sobressalente de BANKS e os floreios classicistas de CROSS criam um diálogo muito produtivo. Essa sequência das três primeiras músicas do álbum é bastante climática. 'The Work Within' é um tema de forma livre onde se acentua o atmosférico, algo que é ideal na hora de articular seu emaranhado volátil e abstrato. As cadências jazzísticas da guitarra sobressalente de BANKS e os floreios classicistas de CROSS criam um diálogo muito produtivo. Essa sequência das três primeiras músicas do álbum é bastante climática. 'The Work Within' é um tema de forma livre onde se acentua o atmosférico, algo que é ideal na hora de articular seu emaranhado volátil e abstrato. As cadências jazzísticas da guitarra sobressalente de BANKS e os floreios classicistas de CROSS criam um diálogo muito produtivo.

Ocupando juntos um espaço de quase 10 ¼ minutos, a dupla de 'Missing Time' e 'Plasma Drive' tem a função de continuar explorando nuances, atmosferas e esquemas melódicos para a dupla e seus acompanhantes posteriormente. No caso de 'Missing Time', temos um novo exercício em modalidades de forma livre, mas desta vez com menos mistério e mais placidez do que em 'The Work Within'. De qualquer forma, dada a situação em que a guitarra e o violino decidem manter uma geminação mais próxima ao projetar seus respectivos voos, o que acaba sendo montado aqui é um estudo de sonoridades psicodélicas com clima crepuscular. Enquanto isso, 'Plasma Drive' mergulha profundamente nas cavernas da espiritualidade introspectiva. O lirismo reinante sente-se mais delicado enquanto o esquema rítmico opera com refinamento cristalino. Só a meio do caminho estabeleceu o duo de tambores e sob a sua posição no bloco sonoro geral, e é a partir daí que o desenvolvimento temático recebe uma notória dose de luminosidade, embora sem sair por completo do campo dos introvertidos. Para a passagem do epílogo, a atmosfera volta ao cavernoso, mas com ecos da energia expressionista que foi tão dominante durante a segunda metade da peça. Um tema muito proeminente no álbum, é claro. 'Laughing Strange' ressoa a princípio como uma irmã mais tímida da anterior na maior parte, mas logo após o limite do segundo minuto, ela esculpe um interlúdio dinamicamente assombroso, enquanto sua vitalidade estilizada obriga o groove original a retornar com novas vigor. É neste momento que nos deparamos com aquele que nos parece ser o solo de guitarra mais marcante do álbum... E lamentamos que não seja mais longo! Um exercício muito marcante de dinâmica jazz-progressiva, outro apogeu do álbum. A faixa homônima do álbum é responsável por fechá-lo: seu esquema de trabalho é flutuante e etéreo, um novo e final exercício de forma livre que ostenta um clima elegíaco. Enquanto a guitarra se concentra sobretudo na expansão dos efeitos cósmicos, o violino despacha-se num relevo fluvial de manchas líricas onde pulsa uma tensão parcialmente controlada. Um final muito bom para o álbum. seu esquema de trabalho é flutuante e etéreo, um novo e final exercício de forma livre que ostenta um clima elegíaco. Enquanto a guitarra se concentra sobretudo na expansão dos efeitos cósmicos, o violino despacha-se num relevo fluvial de manchas líricas onde pulsa uma tensão parcialmente controlada. Um final muito bom para o álbum. seu esquema de trabalho é flutuante e etéreo, um novo e final exercício de forma livre que ostenta um clima elegíaco. Enquanto a guitarra se concentra sobretudo na expansão dos efeitos cósmicos, o violino despacha-se num relevo fluvial de manchas líricas onde pulsa uma tensão parcialmente controlada. Um final muito bom para o álbum.

Tudo isso foi "Crossover", um legado decisivo de (naquela época) duas lendas vivas do rock progressivo e experimental: DAVID CROSS e PETER BANKS, mergulhando em novas formas de expressão para o rock sem limites, criaram um tesouro progressivo genuinamente modernista que deveria faça parte de qualquer coleção minimamente decente dedicada a esse gênero. Nossas palavras mais apaixonadas de agradecimento a eles por terem criado esta série de composições em um momento de inspirado relacionamento entre mentes musicais.

- Amostras de 'Crossover':

Upshift:

The Smile Frequency:

Plasma Drive:


terça-feira, 16 de maio de 2023

“John Lennon/Plastic Ono Band” (Apple Records,1970), John Lennon

 



Por volta de março de 1970, John Lennon e Yoko Ono viajaram para Los Angeles, nos Estados Unidos, onde iniciaram um tratamento com o psicólogo Arthur Janov, chamado “terapia primal”. John buscava tratar-se dos traumas de sua infância motivados pelo abandono do seu pai e a morte de sua mãe. No auge desse tipo de terapia, quando os traumas do passado do paciente alcançam uma grande intensidade, ele é incentivado soltar um grande grito, o “grito primal”, através do qual toda a carga traumática reprimida é liberada.

Essa terapia ministrada por Janov ajudaria não só John a encarar os traumas do seu passado com mais coragem, como também exerceria grande influência do seu próximo álbum solo, o John Lennon / Plastic Ono Band. Depois de cinco meses em Los Angeles, John e Yoko retornaram para Londres para começar as gravações do novo álbum. Boa parte do repertório foi composto na época em que o ex-beatle fazia terapia.

Antes do novo álbum que iria gravar, Lennon já havia lançado três álbuns experimentais e um gravado ao vivo, em Toronto, em 1969. O trabalho que estava por vir, seria na prática, o primeiro álbum solo de John.

O álbum foi gravado entre os meses de setembro e outubro, nos estúdios Abbey Road, em Londres, sob a produção do próprio John Lennon e Yoko Ono, mais a co-produção de Phil Spector. Ele já havia trabalhado com John no início de 1970, quando produziu o single “Intant Karma”, que chegou à marca de 1 milhão de cópias vendidas, tornando-se o primeiro grande sucesso solo de um ex-beatle. Isso credenciou Spector a trabalhar no material do projeto Get Back que resultou no álbum Let It Be, o último lançado pelos Beatles.

John Lennon e a Plastic Ono Band no programa Top Of The Pops, da TV BBC1, 
tocando a recém-lançada "Instant Karma", em fevereiro de 1970.

Para acompanhá-lo nas gravações, John Lennon optou por um formato reduzido de músicos, apenas o que julgava ser essencial para a proposta do álbum. John convocou o seu ex-companheiro de Beatles, o baterista Ringo Starr, o amigo, baixista e artista-plástico Klaus Voormann, e o tecladista Billy Preston, que tocou piano numa das faixas do álbum.

As sessões de gravação do álbum John Lennon / Plastic Ono Band ocorreram no mesmo período das gravações de Yoko Ono / Plastic Ono Band, que como o título diz, é um álbum solo da esposa de John.

Lançado em 11 de dezembro de 1970, John Lennon / Plastic Ono Band é um álbum que é fruto da terapia que John passou com o Dr. Arthur Janov. John se expôs, abriu o seu passado e tentou através da música “exorcizar” os seus “demônios” do passado, os traumas de ter sido na infância uma criança abandonada pelos pais. E John faz essa descarga traumática através de canções com versos diretos, ácidos, sem rodeios. Em entrevista à revista Rolling Stone na época, John afirmou que o álbum não era para agradar ninguém e nem ser adorado, mas que se tratava de um “torpedo” contra a opressão artística e pessoal pela qual teria passado quando integrava os Beatles.

Boa parte das canções do álbum possuem uma sonoridade crua e pesada. John canta com raiva, aos gritos, como se quisesse tirar das entranhas toda a amargura que o sufocava há tanto tempo. E nesse aspecto, a terapia de Janov serviu como uma chave para liberar toda a carga traumática reprimida no ex-beatle.

O psicólogo Arthur Janoc, criador da "terapia primal", tratamento que
cuidou dos traumas de infância de John Lennon.

John Lennon / Plastic Ono Band começa com o badalar de um sino em tom fúnebre que anuncia “Mother”, primeira faixa do álbum na qual John faz um desabafo sobre os seus pais. Seu pai o teria abandonado quando ainda era criança, enquanto sua mãe, o entregou anos mais tarde à sua tia, Mary Elizabeth Stanley, a “tia Mimi”, que o criou. John vai direto ao ponto, e como num ajuste de contas com seus pais, começa dizendo para a mãe: “Mother, you had me / But I never had you / I wanted you / You didn't want me” (“Mãe, você me teve / Mas eu nunca a tive / Eu te quis / Você não me quis”). Ao pai, ele diz: “Father, you left me / But I never left you / I needed you / You didn't need me” (“Pai, você me deixou / Mas eu nunca o deixei / Eu precisei de você / Você não precisou de mim”). Nos versos finais, John canta aos berros, como se quisesse extirpar todo o sofrimento do passado, uma clara influência da terapia de Janov: “Mama, don't go / Daddy, come home / Mama, don't go / Daddy, come home” (“Mamãe, não se vá / Papai, volte pra casa / Mamãe, não se vá / Papai, volte pra casa”).

O clima fica um pouco mais ameno com a suave “Hold On”, uma balada em que John fala de autoconfiança: “When you're by yourself / And there's no one else / You just have yourself / And you tell yourself / Just to hold on” (“Quando você estiver sozinho / E não houver mais ninguém / Você apenas tem a si mesmo / E você dirá para si próprio / Apenas aguente firme”).  “I Found Out” começa como um blues cru com John Lennon cantando os primeiros versos da música no ritmo do riff da guitarra. Depois a música segue num ritmo de rock mais acelerado, marcado por uma bateria pesada executada por Ringo Starr. Se nos primeiros versos, John parece provocar indiretamente seu ex-parceiro de Beatles, Paul McCartney, ao longo da música, ele expressa toda uma desilusão com religiões, e alerta ao ouvinte para que não se deixe enganar por gurus e drogas.

Julia Stanley e Alfred Lennon, pais de John Lennon e
personagens centrais na canção "Mother".

Bem ao estilo Bob Dylan, “Working Class Hero” é uma folk music em que John Lennon canta de maneira crua e ácida sobre as diferenças de classes sociais, apenas com voz e violão. Fechando o lado A da versão LP do álbum, a faixa “Isolation”, onde John expressa um sentimento de solidão e medo com Yoko no seu ativismo pacifista.

O lado B começa com “Remember”, música que trata sobre lembranças do passado e de como elas podem moldar o que somos hoje. A suave e chorosa balada “Love” é uma canção que John celebra não apenas o amor, mas a sua relação com a sua amada Yoko Ono. Tratando sobre a vida cotidiana de John e Yoko, “Well Well Well” é um rock bruto, raivoso e caótico, em que John Lennon canta aos berros o refrão de maneira repetitiva, a tal ponto de ser irritante. “Look At Me” é a única música do álbum composta por John antes da separação dos Beatles. Na letra, John pede a Yoko para que não o deixe nem por um segundo. A linha melódica executada pela guitarra remete à de “Dear Prudence”, dos Beatles, presente no famoso “álbum branco”, de 1968.

Yoko Ono e John Lennon em 1970.

“God” é a música mais polêmica do álbum, e talvez de toda a carreira solo de John Lennon. A letra faz uma relação de coisas e personalidades nas quais John não mais acredita: mágica, I-ching, Bíblia, tarô, Hitler, Jesus, Kennedy, Buda, Mantra, gita, ioga, reis, Elvis, Zimmerman (sobrenome de Bob Dylan) e Beatles. Ele, no entanto, só acredita em si mesmo e em Yoko Ono. John encerra a música afirmando que “o sonho acabou”, uma referência ao fim de um ciclo de grandes transformações que foi a década de 1960, onde os jovens foram os protagonistas. A década da transgressão chegava ao fim, trazendo algumas desilusões e perdas: fim dos Beatles e as mortes de Brian Jones, Jimi Hendrix e Janis Joplin; Jim Morrison morreria em meados de 1971.

Se John Lennon abriu o álbum com uma canção falando da mãe, ele encerra com outra canção falando dela, “My Mummy’s Dead”, na qual ele se refere sobre a morte dela, em 1958, quando John era um garoto de 14 anos de idade.

Considerado o melhor álbum da carreira solo do ex-beatle, John Lennon / Plastic Ono Band alcançou o 8º lugar nos Estados Unidos e 6º lugar no Reino Unido. O álbum fechou um ciclo na vida de John, no qual ele fez um balanço do seu passado, seja na infância, seja como uma estrela do rock quando membro dos Beatles. John iniciaria uma nova etapa em sua vida, em que se consolidaria como uma estrela da música comprometida com ações pacifistas e políticas, culminando com o maior sucesso da sua carreira solo, a canção “Imagine”, em 1971.

Faixas

Todas as músicas foram compostas por John Lennon.

Lado A

  1. "Mother"
  2. "Hold On"
  3. "I Found Out"
  4. "Working Class Hero"
  5. "Isolation" 
Lado B

  1. "Remember"
  2. "Love"
  3. "Well Well Well"
  4. "Look At Me"
  5. "God"
  6. "My Mummy's Dead" 



"Mother"
(videoclipe oficial)

"Hold On"

"I Found Out"

"Working Class Hero"
(videoclipe oficial)

"Isolation"

"Remember"

"Love"
(videoclipe oficial)

"Well Well Well"

"Look At Me"

"God"

"My Mummy's Dead"


“Pearl” (Columbia, 1971), Janis Joplin

 



No final de 1969, Janis Joplin já era a grande estrela feminina do rock mundial. O seu primeiro álbum solo, I Got Dem Ol 'Kozmic Blues Again Mama!. Apesar da fama alcançada, a vida pessoal de Janis Joplin não ia nada bem. O vício da cantora em álcool e heroína se agravava cada vez mais, a tal ponto de não só estar afetando a sua saúde como também a sua carreira profissional. Janis fez uma apresentação abaixo da média no Festival de Woodstock, em agosto daquele ano. Em novembro, foi convidada para fazer um dueto com Tina Turner num show em Nova York, e a sua performance foi simplesmente constrangedora. A crise se estabeleceu e a banda de apoio de Janis, a Kozmic Blues Band, se dissolveu em janeiro de 1970.

Numa tentativa de se recuperar da sua dependência química, Janis Joplin decidiu passar as férias no Brasil, acompanhada da sua amiga e figurinista Linda Gravenites. A escolha pelo Brasil se deu após a cantora assistir ao filme Orfeu Negro, uma produção ítalo-franco-brasileira dirigida por Marcel Camus, rodada no Rio de Janeiro em 1959. Janis e sua amiga chegaram ao Brasil em fevereiro de 1970, a tempo de assistir ao carnaval do Rio de Janeiro. E foi na praia de Copacabana que Janis conheceu aquele que foi o grande amor de sua vida, David Niehaus, um jovem americano adorava viajar pelo mundo a fora, e que naquele momento estava de passagem pelo Brasil. Os dois engataram um romance que marcaria a vida de Janis.  

Janis Joplin se divertindo no Carnaval do Rio de Janeiro,
em fevereiro de 1970.

Enquanto Linda retornava para os Estados Unidos, Janis decidiu permanecer por mais algum tempo no Brasil na companhia do novo namorado. Janis e David decidiram aproveitar esse tempo e viajar para Salvador, onde a cantora se encantou com a cidade e a cultura afro-baiana. De Salvador, juntamente com os novos amigos que fizeram na capital baiana, Janis e David seguiram pelo litoral norte em direção à então paradisíaca Arembepe, e lá visitaram a recém-formada aldeia hippie que se tornaria famosa mais tarde.

Enquanto esteve no Brasil, Janis conseguiu se manter longe da heroína, e o apoio de David Niehaus foi fundamental. A dedicação um ao outro fez nascer uma paixão muito forte entre os dois. Após quase dois meses no Brasil, Janis retornou para os Estados Unidos. Niehaus ainda ficou no país para resolver problemas de visto, mas foi ao encontro de Janis na Califórnia logo que deixou o Brasil. Contudo, as recaídas de Janis com a heroína nos Estados Unidos acabaram minando a relação do casal, motivando David a terminar tudo. Embora apaixonados, cada um decidiu seguir o seu caminho: Janis a carreira artística e David as viagens ao redor do mundo. Ainda assim, mantiveram algum contato nos meses que se seguiram.

A separação e a solidão, acabaram motivando Janis a focar na sua carreira. Por volta de abril de 1970, montou uma nova banda de apoio, a The Full Tilt Boogie Band, formada por John Tilt (guitarra), Brad Campbell (baixo), Richard Bell (piano), Ken Pearson (órgão) e Clark Pierson (bateria). Não demorou muito, Janis já estava ensaiando com sua nova banda de apoio. O ambiente leve e descontraído com os membros da nova banda, fizeram Janis ficar cada vez mais entusiasmada.

Janis Joplin e David Niehaus : uma paixão que nasceu no Brasil.

Em maio, Janis fez os primeiros shows com a The Full Tilt Boogie Band. No mês seguinte, Janis e banda, participaram da curiosa turnê All-Star Festival Express, uma excursão de trem pelo Canadá da qual também participaram Buddy Guy, Grateful Dead, The Band, Tem Years After, Flying Burrito Brothers entre outros.

Com a ajuda de seu gerente de turnê, John Cooke, Janis conseguiu um produtor para o novo álbum que ela estava pretendendo gravar. O produtor era Paul Rothchild, profissional que já havia trabalhado nos discos do The Doors. Era experiente, e ideal para ajudar Janis Joplin a alcançar os seus objetivos. As gravações do novo álbum ocorreram entre setembro e começo de outubro de 1970, no Sunset Sound Recorders, em Hollywood, na Califórnia, um estúdio que o produtor Paul Rothchild conhecia muito bem, pois lá ele produziu os dois primeiros álbuns dos Doors, como o autointitulado álbum de estreia da banda e Strange Days, ambos lançados em 1967.


Janis Joplin na praia do Rio Vermelho, em Salvador, com amigos que fez na Bahia,
em fevereiro de 1970. Ao fundo, distante, se vê a parte de trás
da Igreja de Nossa Senhora de Sant'ana.

Nesse meio tempo, Janis estava passando por tratamento para cuidar do seu vício em drogas. Estava “limpa”, mais disposta, mais motivada, o que só contribuiu para sentir-se mais focada na sua carreira artística. Contudo, ela não conseguiu livrar-se do álcool, continuava bebendo, porém, com menos intensidade já que em excesso, isso poderia prejudicar a sua voz num momento em que estava em fase de gravação do novo álbum. Além disso, não queria contrariar o trato que tinha com o exigente produtor Paul Rothchild. Para aceitar ser seu produtor, Rothchild havia perguntado a Janis o que ela queria ser dali a trinta anos, e ela respondeu: “Como a maior cantora de blues do mundo, a Bessie Smith”. Foi por causa dessa resposta que ele aceitou o convite e prometeu ajudá-la a alcançar esse objetivo. E era justamente por causa disso que Janis não queria decepcioná-lo. Queria manter-se disciplinada e a mais focada possível. Janis era pontual nos horários de gravação, e quando ocorria de chegar atrasada, era no máximo de trinta minutos.

Janis Joplin e o produtor Paul Rothchild.

Em 1º de outubro fez o que acabou se tornando a sua última sessão de gravação. Janis gravou naquele dia a faixa “Mercedes-Benz” e uma canção em homenagem ao aniversário de John Lennon, que no próximo dia 9 de outubro, na semana seguinte fará trinta anos de idade. Outros artistas também estariam gravando canções em homenagem ao colega aniversariante.

Dois dias depois, no dia 3 de outubro, Janis ouve no estúdio Sunset Sound a base instrumental de “Buried Alive In The Blues” gravada pela sua banda de apoio, e após a audição, ela deu a sua aprovação. Agendou para gravar os vocais dessa música no dia seguinte. Deixou o estúdio à noite, por volta das 23 horas, com dois dos músicos da banda, o pianista Richard Bell e o organista Ken Pearson, e foram ao bar Barney’s Beanery. À meia noite, deixaram o bar e foram para o Landmark Hotel (atualmente Highland Gardens Hotel), onde Janis e os músicos da banda estavam hospedados. 

No dia seguinte, 4 de outubro, um domingo, passadas dezoito horas, Paul Rothchild estranhou o longo atraso de Janis Joplin. Foram feitos vários telefonemas para a suíte em que Janis estava hospedada, mas ela não atendia. Atendendo o pedido de Rothchild, o gerente de turnê, John Cooke, foi até o hotel, e com a permissão da portaria, pegou uma chave e conseguiu entrar no quarto de Janis, e lá encontrou o corpo da cantora, caído entre a mesa da cabeceira e a cama.

Leito de morte: o atual Highland Gardens Hotel era o Landmark Hotel,
onde Janis Joplin morreu, em outubro de 1970.

Segundo a autópsia, Janis morreu de overdose de heroína, só que numa versão dez vezes mais forte do que a que ela costumava usar. A autópsia revelou que Janis estava há cerca de um mês sem tomar metadona, o que acabou fazendo com que a cantora tivesse uma recaída. Foram encontradas maracas recentes de agulha no braço esquerdo da cantora, comprovando que Janis havia voltado a usar heroína há poucas semanas. Naquela mesma noite fatídica de Janis, mais outras oito pessoas morreram de overdose de heroína, provavelmente da mesma que matou a cantora texana. A conclusão que se chegou foi que Janis não sabia que aquela heroína que ela injetou possuía um alto grau de pureza, fora do comum, tornando a droga muito mais letal.

Em 7 de outubro, os pais de Janis realizaram o funeral privado no Westwood Village Memorial Park Cemetery, em Los Angeles. Conforme o desejo de Janis, seu corpo foi cremado e as cinzas espalhadas através de um avião que sobrevoou a costa do condado de Marin, na Califórnia. Semanas depois, um outro desejo de Janis foi realizado: ela deixou três mil dólares no testamento especialmente para serem gastos pelos seus amigos na organização de uma festa em sua memória, e que contou com a apresentação de amigos músicos, como os membros da Big Brother & The Holding Company, a banda que revelou Janis Joplin ao mundo.   

Janis deixou no seu testamento três mil dólares para que amigos
organizassem uma festa em sua memória. 

Intitulado Pearl ("pérola" em português), que era também o apelido de Janis, o tão esperado álbum de cantora texana foi lançado postumamente em 11 de janeiro de 1971, três meses após a sua morte. Baseado num repertório apoiado no rock, blues-rock, e canções com influências de soul e country music, Pearl apresenta uma produção mais “polida”, mais refinada se comparada com os álbuns anteriores. A produção conduzida por Paul Rothchild e uma banda de alto nível como a The Full Tilt Boogie Band, valorizaram Janis Joplin como intérprete. Janis está cantando na sua plenitude, expondo toda a sua carga emocional, ao mesmo tempo que conserva uma interpretação equilibrada, ajustada.

Tudo isso não deixa de ser um mérito de Rothchild, que havia prometido ajudar Janis a ser uma grande cantora de blues como ela desejava ser. Talento para isso, Janis tinha. Mas um produtor experiente e disciplinador, capaz de orientar e extrair o melhor do potencial do artista, faz uma grande diferença. E Rothchild tinha essa capacidade.

O álbum começa com “Move Over”, um rock pesado, beirando o hard rock, escrito pela própria Janis Joplin inspirada no seu grande amor, David Niehaus. A letra é sobre uma mulher apaixonada, que questiona o homem que ama ter terminado tudo, mas que permanece rodeando-a.

A balada “Cry Baby” foi originalmente gravada por Garnett Mimms & The Enchanters, em 1963. Enquanto a versão original é uma soul music bem-comportada, a versão de Janis ganhou um arranjo mais blues rock e uma interpretação vocal da cantora com um forte apelo dramático. Outro detalhe que que difere a versão de Janis da versão original, foram algumas alterações na letra deram um caráter pessoal à versão da cantora americana, e que fazem uma conexão direta ao seu amado David Niehaus, como nestes versos: “You might find out later that the road'll end in Detroit / Honey, the road'll even end in Kathmandu / É o canto de uma mulher desesperadamente apaixonada”. (“Você pode descobrir mais tarde que a estrada vai terminar em Detroit / Querido, a estrada poderá até terminar em Kathmandu”). Esses versos não estão na versão original, e deixam evidentes que eles fazem referência a David Niehaus e seu espírito aventureiro, um homem do mundo.

"Cry Baby" fez sucesso em 1963 com o Garnett Mimms & The Enchanters (foto) e foi
regravada em 1970 por Janis Joplin para o álbum Pearl.

As dores da paixão prosseguem na faixa seguinte, “A Woman Left Lonely”, em mais uma interpretação emocionante de Janis Joplin que canta sobre uma mulher abandonada pelo homem que ama, mas que ainda guarda uma inútil esperança de tê-lo de volta. Destaque para a performance de Ken Pearson no órgão Hammond.

Depois de duas canções dilacerantes, o clima fica um pouco mais animado com “Half Moon” e sua deliciosa linha percussiva. Embora fale de amor, o tema é abordado de maneira leve. A canção foi composta a pedido de Janis por um casal de amigos, o músico John Hall e a jornalista Johanna Hall. John fez a melodia e Johanna a letra.

Fechando o lado 1 de Pearl, “Buried Alive In The Blues”, única faixa instrumental do álbum. Era a música em que Janis havia aprovado a base instrumental na véspera de sua morte, e iria gravar no dia seguinte. E no dia que ia gravar, ela morreu. Na finalização da produção do álbum, após a morte de Janis, foi cogitada a possibilidade do compositor da música, Nick Gravenites, gravar o vocal. Mas a ideia foi totalmente vetada, e foi decidido manter a música instrumental, sem vocal.

The Full Tilt Boogie Band foi a última banda de apoio de Janis Joplin.

O lado 2 abre com “My Baby”, faixa que possui um andamento bastante interessante, que traz o piano e a guitarra do blues rock mesclado com o compasso rítmico de valsa. A letra trata sobre uma mulher que se sente confiante e segura com o homem que ama ao seu lado. Aqui, a alusão a David Niehaus é também evidente. Durante o período em que estiveram juntos, Janis manteve-se longe da heroína, e o apoio de David foi bastante importante.

“Me and Bobby McGee” é outro cover presente no álbum. Composta pelo cantor e compositor Kris Kristofferson, a música foi gravada pela primeira vez pelo cantor de country music Roger Miller, em 1969. Num espaço de um ano, outros tantos artistas a regravaram. Mas foi a versão de Janis Joplin a que ficou mais famosa. Embora tivesse se notabilizado no blues rock, aqui Janis transitou com tranquilidade pelo country rock.

Kris Kristofferson, autor de "Me and Bobby McGee", que ganhou
uma versão definitiva de Janis Joplin.

Em “Mercedez Benz”, Janis solta a sua voz à cappela, cantando de maneira bastante humorada, em que pede a Deus para ele comprar para ela um carro Mercedes-Benz, uma TV a cores e uma “noite na cidade”. “Trust Me” versa sobre uma mulher que pede paciência ao homem que ela ama, até ela sentir-se segura e preparada para se envolver com ele.

Pearl termina em grande estilo com a ótima “Get It While You Can”, uma comovente balada blues rock em que Janis aconselha ao ouvinte a aproveitar ao máximo os momentos com alguém que lhe dá amor e carinho, “aproveitar enquanto pode”. E mais uma vez, a alusão ao romance de Janis e David Niehaus é inevitável. Embora não tenha sido escrita por Janis, a letra tem tudo a ver com a história de amor da cantora e Niehaus que ela conheceu no Brasil.

Evidente que a morte de Janis Joplin gerou uma grande comoção, e isso influenciou de alguma forma o desempenho comercial de Pearl, que alcançou a marca de três milhões de cópias vendidas somente nos Estados Unidos, tornando-se o álbum mais vendido da discografia de Janis. O álbum ficou em 1º lugar na parada da Billboard 200, nos Estados Unidos, por nove semanas. Enquanto que o single de “Me and Bob McGee”, figurou em 1º lugar na Billboard 100, nos Estados Unidos, em março de 1971.

Janis Joplin viveu pouco, apenas 27 anos de existência. Cantava como um vulcão prestes a entrar em erupção com a sua voz rouca e rasgada, mas que sabia soar doce e suave quando necessário. Branca, Janis encarnou de maneira intensa e sem limites, toda a carga dramática das grandes divas negras do blues e do jazz, como Bessie Smith (sua grande inspiração), Billie Holliday e Big Mama Thornton. Talvez por isso, foi até semelhante a elas no momento da morte. Sua carreira artística foi curtíssima, mas o suficiente para cravar o seu nome na história da música popular mundial, e se tornar a maior voz feminina do rock em todos os tempos, e ser uma referência importante para gerações de cantoras que surgiram após a sua passagem meteórica neste mundo.

Faixas

Lado 1

  1. "Move Over (Janis Joplin)"
  2. "Cry Baby (N. Meade - B. Russel)"
  3. "A Woman Left Lonely (D. Penn - S. Oldham)"
  4. "Half Moon (J. Hall)" 
  5. "Buried Alive in the Blues (N. Gravenites)"  

Lado 2

  1. "My Baby (J. Ragovoy - M. Shuman)"             
  2. "Me and Bobby McGee (K. Kristofferson - F. Foster)" 
  3. "Mercedes Benz (J. Joplin - M. Mclure)"       
  4. "Trust Me (B. Womack)"        
  5. "Get It While You Can (J. Ragavoy - M. Shuman)" 

 

Janis Joplin (vocal, violão (em "Me and Bobby McGee"),

Full Tilt Boogie Band: John Till (guitarra elétrica), Richard Bell (piano), Ken Pearson (órgão Hammond), Brad Campbell (baixo) e Clark Pierson (bateria) 


Ouça na íntegra o álbum Pearl


ALBUM DE ROCK PROGRESSIVO

 

Nektar - A Tab In The Ocean (1972)


 Nektar, um grupo alemão-inglês  A Tab in the Ocean é o segundo álbum da banda anglo-alemã de rock progressivo Nektar. O álbum teve três edições. O primeiro saiu na Alemanha Ocidental em 1972, e mais tarde, em 1976, foi feita uma edição específica para distribuição nos EUA onde a duração de algumas músicas foi cortada, assim como pequenas variações na qualidade sonora, timbre e timbre. . Em 2004 o álbum foi relançado em uma edição que teve a versão original e por sua vez o remix americano. Em 1984 o grupo de Heavy Metal Iron Maiden publica uma música chamada "King of Twilight" no single "Aces High", que é um cover onde eles fundem "Criyng in the Dark" junto com "

Nektar
Álbum: A Tab In The Ocean
Ano: 1972 - 1987
Gênero: Progressive Rock / Crossover prog
Duração: 35:57
Referência: Discogs
Nacionalidade: Inglaterra


Se quer ouvir uma boa banda de rock, esta é uma excelente oportunidade. Reedição de um clássico quase escondido e desconhecido, mas finalmente um clássico e um álbum cult para alguns, em sua reedição de 1987.

No final de 1972, os anglo-alemães Nektar lançaram seu segundo álbum de estúdio. E quero que esses senhores recebam a atenção que merecem, porque certamente acredito que eles a merecem. Não podemos esquecer que estes músicos liderados por Roye Albrighton se estrearam um ano antes com o fabuloso Journey To The Center Of The Eye, um álbum que não deixaria indiferente nenhum fã de rock progressivo. Mas e o lançamento deste segundo A Tab In The Ocean? Bem, Nektar mostra-se maduro, criando peças mais elaboradas, complexas e igualmente belas do que em sua estreia. Com isso, é lógico supor que esses "alemães" estavam progredindo e dando rédea solta à evolução.
A Tab In The Ocean é uma obra que em poucos meses passou do nada (não existindo de todo) para estar nos mercados ao alcance do curioso amante da música. Porém, neste segundo LP, Nektar prova que tudo o que acontece aqui é criado por uma razão. E claro, que este ou aquele motivo musical ou ornamento não surge do nada por capricho de algum integrante da banda. Tudo o que esses caras trazem à tona faz sentido com algo que soou, está tocando ou está prestes a soar. E nesse ponto tem que ser firme, porque esses músicos não chegaram onde chegaram cantarolando ao acaso. Estes senhores são os Nektar, e quando fazem um disco, esse disco tem uma razão de ser, assim como cada peça que o compõe, que complementa a placa a que pertence. Isso funciona assim:
Chegando em A Tab In The Ocean, a obra de arte inicialmente chama a atenção; que nos grita ferozmente a época e a disciplina musical a que pertence. Mas você tem que ir além de uma simples capa. Porque a música, o verdadeiro conteúdo dessas pessoas, está dentro. E é aí, onde Nektar realmente poderá nos surpreender como muitos daqueles da época. Não sei do resto do público, mas o seu realmente sempre faltou um pouco da dureza do hard rock dentro do rock progressivo: aquelas guitarras e riffs pesados, bateria capaz de bater forte... cantores sem medo de forçar a voz ao invés de apenas hum… você me segue? Falo de paixão, embalagem... e são fatores que eu insisto que não sei se vocês estão procurando, mas eu estou. E também acho que eles não estão em desacordo com os mandamentos do prog. Rocha você tenta? Bem, este A Tab In The Ocean, caramba! Se ele estivesse dizendo isso por um tempo.
A faixa-título do álbum, A Tab In The Ocean, que por acaso é a primeira e mais longa do álbum (valorizando quase dezessete minutos de virtuosismo), nos conduz magicamente ao mundo fantástico de Nektar. Tanto Roye quanto Derek cantam para nós, as guitarras se erguendo enquanto os teclados e outros efeitos sonoros voam loucamente. Desde os primeiros minutos sente-se um cheiro a clássico Pink Floyd... mas estamos em 1972, e a anterior Journey To The Center Of The Eye soa mais ou menos igual. Nektar dificilmente copiou o estilo do Pink Floyd de 73-77, certo? De qualquer forma, a semelhança é aceitável, e os Nektar se destacam por soarem “mais pesados” que seus parentes britânicos. A Tab In The Ocean continua brilhante em toda a sua filmagem, cheia de epicidade, fantasia e beleza.
A dupla musical Desolation Valley/Waves, que sairá unificada nas próximas edições do álbum, continua a nos conduzir por terrenos plácidos. Agora, até lembramos da música Shine On Yoy Crazy Diamond do PF em certas passagens, só que essa música é de 1975. Sem plágio, veja bem, mas pode-se insinuar sem soar conspiratório que Waters e companhia foram influenciados pelo mesmo estilo .by Nektar por seu som mais clássico (e é claro que eles fizeram o seu próprio, isso estaria faltando). Desolation Valley acaba por arrancar e oferece um tremendo espetáculo rítmico que inevitavelmente nos dá uma sensação de alívio, de evolução natural. Tudo é muito orgânico e funciona perfeitamente. O mesmo que no breve e atmosférico Waves, que parece querer rematar com perfeição o desfecho de Desolation Valley.
Crying in the Dark surge naturalmente, surgindo aos poucos, de guitarras dinâmicas que são seguidas por teclados e posteriormente por bateria e baixo. Com esse título, você pode pensar que Nektar vai ficar "atormentado", mas não. Eles mantêm sua essência e atitude intactas, eles ainda soam mais animados musicalmente. Excelentes guitarras solo que soam, acompanhadas pelas teclas praticamente o tempo todo. Finalmente, King Of Twilight dá um passo em direção ao épico e à equitação. E sobre isso, acrescente que o Iron Maiden fez um medley em seus primeiros dias combinando partes de Crying in the Dark e este Rei do Crepúsculo. Esta capa apareceria no single Aces High. Não há nada. Faixa muito boa (a do Maiden também, cuidado, embora eu esteja me referindo ao Nektar). King Of Twilight é um canhão de rock total,
Para mim, Nektar é uma das melhores descobertas deste ano (porque faz apenas alguns meses desde que os encontrei), mas adorei ver como, à medida que as imagens de suas músicas passavam, percebi que era prog . pedra sob medida. Você pode não se importar com prog sem um protagonismo nas guitarras (principalmente ritmicamente), mas para mim, sempre foi uma questão de princípio encontrar bandas com tanto poder, dinamismo... e magia. Muita magia. Porque embora isso não tenha nada a ver com a distorção que as guitarras carregam ou seu protagonismo... Nektar, e principalmente nesse A Tab In The Ocean... mostra mágica. E em quantidades. E não é seu único álbum mágico, vou te dizer. Esses caras valem a pena.
Acho que alongar é ir se aborrecendo com nada, e que o mais moderado seria limitar-se agora, depois de tudo o que foi dito, a colocar a nota que (acho) esses senhores merecem. Cinco chifres baixos. A 9. Recomendado para amantes de prog. rocha mais pesada e mais veemente.

MetalPriest



Tem tudo para você gostar, e se gostar não custa nada agradecer a LightbulbSun que sempre lembra de você ingrata!
E se eles não gostarem, deveriam agradecer também.

Você pode ouvi-lo em seu espaço no Bandcamp:
https://nektarmusic.bandcamp.com/album/a-tab-in-the-ocean




Lista de faixas:
1. A Tab in the Ocean
2. Desolation Valley / Waves
3 Waves4. Crying in the Dark
5. King of Twilight

Line Up:
- Roye Albrighton / guitarras, vocais
- Alan "Taff" Freeman / teclados, Mellotron, backing vocals
- Derek "Mo" Moore / baixo, backing vocals
- Ron Howden / bateria e percussão, backing vocals




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