sexta-feira, 19 de maio de 2023

“American Beauty” (Warner, 1970), Grateful Dead

 


O Grateful Dead entrou para o imaginário do rock como uma banda formada por doidões, pelos shows que podiam durar horas regados a improvisos intermináveis, e pelos fãs apelidados de “deadheads”, em sua maioria hippies com a cabeça “encharcada” de LSD, capazes de ir aonde quer que a banda fosse. Eram os tempos do flower power, da contracultura, do “verão do amor” daquele conturbado final dos anos 1960.

Liderado pelo vocalista e guitarrista Jerry Garcia (1942-1995), o Grateful Dead era muito bom de palco naquela época, fazendo apresentações ao vivo memoráveis que envolviam o público. No entanto, a banda californiana não conseguia empregar toda essa energia nos seus discos de estúdios. Geralmente eram discos de medianos para fracos, cheios de improvisações e experimentalismos, tornando-os pouco atraentes.

Essa situação mudou em 1970, quando o Grateful Dead decidiu tomar um novo caminho musical, deixando de lado o experimentalismo e as longas e sonolentas improvisações psicodélicas para mergulhar nas raízes da música norte-americana. A folk music, a country music, o blues, o ragtime e o bluegrass passaram a fazer parte do “cardápio musical” do Grateful Dead no lugar do rock lisérgico que praticava. O Grateful Dead passou a valorizar mais a sonoridade eletroacústica, a simplicidade, as canções mais curtas, e sobretudo, as harmonizações vocais, revelando nesse aspecto uma clara influência de Crosby, Stills, Nash & Young.

Embora psicodélico, o álbum Aoxomoxoa já dava pequenos indícios do novo direcionamento musical que o Grateful Dead tomaria, como fica evidente no blues rock eletroacústico “Cosmic Charlie”, última faixa daquele álbum. Com Workingman’s Dead, lançado em junho de 1970, o Grateful Dead estava completamente mudado, nem de longe lembrava aquele som que arrebatava uma legião de hippies cabeludos chapados de ácido. O Grateful Dead se aproximava do que Bob Dylan, Crosby, Stills, Nash & Young, The Band, The Byrds e Flying Burrito Brothers praticavam em termos de música.

Grateful Dead em 1970, da esquerda para a direita: Bill Kreutzmann,
Rob "Pigpen" McKernan, Bob Weir, Mickey Hart e Phil Lesh.
Ao centro, em primeiro plano, Jerry Garcia.

Naquele ano, a banda vivia um momento fértil de criatividade e inspiração para criar novas canções. A parceria Jerry Garcia e Robert Hunter (1941-2019) estava rendendo ótimos frutos. Hunter era membro da banda, mas apesar de também ser músico, seu papel no Grateful Dead era de compositor, capaz de escrever canções com uma incrível sensibilidade poética.

Se por um lado a banda vivenciava um momento artisticamente rico, por outro, amargava uma dívida com o alto custo de gravação do álbum Aoxomoxoa. Além disso, o Grateful Dead enfrentava consequências de uma apreensão de drogas durante uma turnê em Nova Orleans. 

Apesar dos problemas, o processo de mudança musical do Grateful Dead seguia em frente, e se consolida com o álbum American Beauty, lançado em novembro de 1970, cinco meses depois de Workingman’s Dead. A produção de American Beauty ficou por conta do próprio Grateful Dead e a co-produção de Steve Barncard.

American Beauty foi no Wally Heider Studios, em San Francisco, Estados Unidos, nos meses de agosto e setembro de 1970. Durante as sessões de gravação, o Grateful Dead recebeu nos estúdios a visita de amigos ilustres como Paul Kantner e Grace Slick (ambos do Jefferson Airplane), Carlos Santana e o grupo Crosby, Stills, Nash & Young. E por falar no quarteto de folk rock, existe uma história de que Jerry Garcia, Bob Weir e Phil Lesh teriam aprendido a fazer harmonizações vocais com David Crosby e Stephen Stills. Houve uma espécie de acordo: Jerry Garcia teria tocado pedal steel guitar em “Teach Your Children”, canção do álbum Déjà Vu (1970), do Crosby, Stills, Nash & Young, em troca deles ensinarem harmonização vocal ao Grateful Dead.

Na época das gravações de American Beauty, alguns membros do Grateful Dead viviam dramas pessoas. O pai do baixista Phil Lesh, travava uma batalha contra um câncer terminal. Em agosto de 1970, bem no início das gravações de American Beauty, a mãe de Jerry Garcia sofreu um grave acidente de carro, em San Francisco. Nos intervalos das gravações, Garcia ia visitar a mãe no hospital. Ela acabou morrendo em setembro de 1970.

O quarteto Crosby, Stills, Nash & Young foi a grande inspiração para as
harmonizações vocais do Grateful Dead em American Beauty.
Na foto, Neil Young é o primeiro à esquerda.

Dando prosseguimento ao caminho musical aberto com Workingman’s Dead, em American Beauty, o Grateful Dead vai mais fundo na simplicidade dos arranjos. A banda explora ainda mais as possibilidades das harmonizações vocais, que neste álbum, estão mais apuradas do que no trabalho anterior. Os solos de guitarra perdem espaço, enquanto que há um emprego maior do pedal steel guitar reforçando a sonoridade da country music nas canções do Grateful Dead.

American Beauty abre com “Box Of Rain”, uma das principais faixas do álbum e parceria entre Phil Lesh e Robert Hunter. Lesh havia feito a melodia e pediu para que Robert Hunter escrevesse uma letra para a canção. Com o pai em estado terminal por causa de um câncer, Phil Lesh queria cantar uma canção para ele, e incumbiu que Hunter escrevesse a letra, que é de uma grande beleza poética. Embora seja dedicada a alguém que está morrendo, “Box Of Rain” não é uma canção triste e nem seus versos são melancólicos. Muito embora fale até de chuva, a letra é iluminada, solar, leve, sob medida para alguém que está indo embora desta vida e precisa fazer a sua passagem com leveza, luminosidade e desprendimento: “Look out of any window / Any morning, any evening, any day / Maybe the sun is shining / Birds are winging / Or rain is falling from a heavy sky / “Friend Of The Devil” (“Olhe para fora de qualquer janela / Em qualquer manhã, qualquer tarde, qualquer dia / Talvez o sol esteja brilhando / Pássaros cantando / Ou a chuva esteja caindo de um céu carregado”). A faixa conta com a participação especial de David Nelson fazendo solo de guitarra elétrica.

“Friend Of The Devil” é um bluegrass sobre um um fora da lei perseguido por um xerife e que tem várias esposas. Os solos de bandolim são executados por David Grisman, músico convidado. Composta por Bob Weir e Robert Hunter, o country rock “Sugar Magnolia” teria sido inspirada numa namorada de Weir; e é o próprio Bob Weir quem canta esta canção que fala sobre a beleza e o caráter de uma mulher capaz de fazer qualquer homem feliz. “Operator” é a única faixa do disco em que todos os membros da banda tocam. A faixa é cantada pelo tecladista e gaitista Ron “Pigpen” McKernan, autor da música, e traz os dois bateristas da banda tocando: Mickey Hart toca percussão, enquanto que Bill Kreutzmann toca bateria.

Embora fosse músico e considerado um membro do Grateful Dead,
Robert Hunter não subia ao palco e nem gravava os discos da banda.
Sua atuação do grupo era apenas como compositor. 

Fechando o lado A do álbum, “Candyman”, uma balada country de ritmo lento com acento bluesy, conta com a participação de músicos convidados como Ned Lagin no piano e Howard Wales no órgão.

Abrindo o lado B do álbum, outra balada country, “Ripple”, uma canção com belas harmonizações vocais e que traz David Grisman fazendo notas rápidas no bandolim. “Brokedown Palace” é uma balada folk com uma incrível harmonização vocal e que trata sobre despedida através de versos que mostram como Robert Hunter era um letrista bastante talentoso e sensível. Seguem o folk rock “Till The Morning Comes”, “Attics Of My Life” - e seus versos de um lirismo poético fantástico - e finalizando o álbum com o blues rock “Truckin”, única faixa de American Beauty que traz alguns solos de guitarra e que remete ao Grateful Dead de antes da sua mudança musical.

Lançado em 1º de novembro de 1970, American Beauty teve uma boa recepção por parte da crítica. O colunista Andy Zwerling, em seu artigo para a revista Rolling Stone, em dezembro de 1970, afirmou que American Beauty “é uma extensão alegre” de Workingman's Dead, e teceu elogios ao trabalho vocal dos membros da banda no álbum. American Beauty alcançou o 30º lugar na parada da Billboard 200. Seu desempenho comercial foi modesto, vindo a conquistar disco ouro pela vendagem de 500 mil cópias somente em 1974, o disco de platina por 1 milhão de cópias em 1986, e o duplo de platina em 2001 pelos 2 milhões de cópias vendidas.

American Beauty foi o último álbum de estúdio do Grateful Ded pela gravadora Warner. Os três lançamentos seguintes da banda californiana por essa companhia foram álbuns gravados ao vivo para cumprir o contrato que previa nove discos. Em 1973, a banda criou o seu próprio selo, a Grateful Dead Records. Nesse mesmo ano, no mês de março, a banda perdia Ron “Pigpen” McKernan, que faleceu vítima de uma hemorragia gastrointestinal causada pelo seu vício em bebida alcoólica, aos 27 anos de idade.

Em 2003, American Beauty foi classificado em 258º lugar na lista dos 500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos da revista Rolling Stone, e em 261º na lista revisada em 2012.

 

Faixas

Todas as canções foram compostas por Jerry Garcia e Robert Hunter, exceto as indicadas.

Lado 1

  1. "Box of Rain" (Phil Lesh, Robert Hunter)
  2. "Friend of the Devil" (Garcia, John Dawson, Hunter)
  3. "Sugar Magnolia" (Bob Weir, Hunter)
  4. "Operator" (Ron McKernan)
  5. "Candyman" 

Lado 2

  1. "Ripple"
  2. "Brokedown Palace" 
  3. "Till the Morning Comes"
  4. "Attics of My Life" 
  5. "Truckin'"  (Garcia, Lesh, Weir, Hunter)  


Grateful Dead: Jerry Garcia (guitarra, violão, banjo, pedal steel , piano e vocais), Bob Weir (guitarra, violão e voz), Phil Lesh (baixo, violão, piano, voz), Ron “Pigpen” McKernan (gaita e vocais), Mickey Hart (percussão), Bill Kreutzmann (bateria) e Robert Hunter (letrista).

 

Ouça na íntegra o álbum American Beauty.


“All Things Must Pass” (Apple/EMI, 1970), George Harrison

 



Durante os anos em que integrou os Beatles, George Harrison (1943-2001) teve uma participação muito limitada como compositor na banda. Mas isso não era por falta de talento para compor, preguiça ou por baixa produção de canções, muito pelo contrário. No decorrer da sua carreira nos Beatles, George Harrison compunha cada vez mais e evoluía como compositor. O problema estava em John Lennon (1940-1980) e Paul McCartney, dupla que exercia o monopólio da quantidade de canções que entravam nos álbuns dos Beatles. Havia uma hegemonia da dupla Lennon-McCartney nos álbuns da banda. A George, cabia incluir em média duas canções de sua autoria em cada álbum dos Beatles. Como compunha muito, mas seus companheiros de banda escolhiam poucas canções suas, George foi acumulando ao longo dos anos uma grande quantidade de canções recusadas.

No entanto, aquele farto material acumulado acabaria sendo útil mais tarde a George, que somado a novas canções compostas após o fim dos Beatles, resultaram no fantástico álbum triplo All Things Must Pass, lançado em novembro de 1970, e considerado o melhor álbum solo de um beatle. A obra foi uma grande e robustíssima oportunidade de George Harrison mostrar ao público e para a crítica, o quanto ele era um compositor profícuo e de qualidade, mas que era tolhido por Lennon e McCartney nos Beatles.

George Harrison (segundo da esquerda para a direita)
nos Beatles em 1969: criatividade tolhida.


Para se chegar a All Things Must Pass no entanto, é preciso voltar no tempo para entender como George alcançou um status tão elevando como artista, as influências que ele sofreu para que evoluísse como compositor e como músico, e sobretudo, como a espiritualidade interferiu na sua arte.

Após o lançamento do “álbum branco” dos Beatles, em novembro de 1968, George Harrison partiu para uma viagem aos Estados Unidos, e aproveitou a oportunidade para visitar Bob Dylan, em sua fazenda, em Woodstock, estado de Nova York. Dylan se recuperava de um grave acidente de moto que sofreu em julho de 1966, que lhe custou algumas vértebras quebradas e o afastou dos palcos temporariamente. Na época, a The Band estava passando uma temporada na fazenda de Dylan gravando o seu segundo álbum. A visita de George a Dylan, de quem era um grande admirador, acabou lhe sendo muito inspiradora e iria influenciar a sua forma de fazer música a partir de então. George teve contato direto com os métodos de composição de Dylan e da The Band. Daquela visita, nasceu uma amizade entre George e Dylan, e até mesmo parceria musical.

Bob Dylan recebendo uma visita ilustre em seu rancho, em 1968. 

Se dentro dos Beatles, George não tinha espaço como compositor, fora não só havia quem queria gravar suas canções como ele começava a desenvolver trabalhos com outros artistas, desde produção de discos a participação em shows. Harrison produziu discos de Billy Preston e da cantora Doris Troy - que também gravaram canções suas – compôs com Eric Clapton a música “Badge”, gravada pelo banda Cream, da qual Clapton foi integrante. No final de 1969, George Harrison embarcou numa curta turnê Delaney & Bonnie and Friends, encabeçada pela dupla Delaney & Boonie, e que contava com convidados ilustres como Eric Clapton, Leon Russell, Dave Mason, Bobby Whitlock, Carl Radle e Jim Gordon. Foi durante essa turnê que George aprendeu com Delaney Bramlett, da dupla com Boonie, a tocar slide guitar, instrumento cujo som se tornaria a partir de então uma marca na musicalidade do ex-beatle.

Da esquerda para a direita: Eric Clapton, Bonnie Bramlett,
Delaney Bramlett e George Harrison, em 1969.


Em janeiro de 1970, George mostrou ao produtor Phil Spector, fitas demos com canções que ele vinha compondo. As mais antigas como “Isn’t It A Pity” e “Art Of Dying”, foram compostas por George em 1966. Haviam também canções que chegaram a ser ensaiadas pelos Beatles para o projeto Get Back, mas que acabaram recusadas como “All Things Must Pass”, “Hear Me Lord” e “Let It Down”. No farto material conferido por Spector, os estilos musicais variavam: rock, country, folk music, gospel, música indiana e canções em estilo Motown.

Com o próprio George Harrison na produção e Phil Spector na coprodução, as gravações de All Things Must Pass começaram no final de maio de 1970, nos estúdios Abbey Road. No começo daquele mês, foi lançado Let It Be, o último álbum dos Beatles, e que foi produzido pelo mesmo Phil Spector.

Para acompanha-lo nas gravações, Harrison cercou-se de músicos ilustres como Eric Clapton, Ringo Starr (seu ex-colega de Beatles), o tecladista Billy Preston, o baixista e artista gráfico Klaus Voorman (criador da capa de Revolver, dos Beatles), a banda Badfinger, o tecladista Gary Wright, Pete Drake (no pedal steel), o saxofonista Bobby Keys, e os futuros astros do rock, mas que naquele momento eram “ilustres desconhecidos” como Phil Collins (na percussão), o baterista Alan White (futuro Yes), e o guitarrista Peter Frampton (tocou violão em uma das faixas do álbum).

Na produção deste álbum, Phil Spector fez uso da sua famosa “wall of sound” (“muralha de som”), uma técnica de produção que criava uma massa sonora bastante compacta, através de orquestração, de uma banda de apoio e vocais de apoio.

O produtor Phil Spector e George Harrison.

Lançado originalmente como álbum triplo, All Things Mus Pass traz o terceiro disco como um “disco bônus” intitulado Apple Jams, que contém jam sessions gravadas no estúdio.

O disco 1 começa com “I’d Have You Anytime”, composta por George Harrison e Bob Dylan, na época em que o Harrison foi visitar Dylan em sua fazenda em Woodstock. A “I’d Have You Anytime” é uma linda balada romântica que conta com a participação de Eric Clapton fazendo solos de guitarra bastante sedutores, e que lembram os solos que George fez em “Something”, canção do álbum Abbey Road (1969), dos Beatles.

Em seguida vem o grande sucesso do álbum e o maior da carreira solo de George Harrison, “My Sweet Lord”, canção na qual o ex-beatle busca estabelecer contato com Deus. O interessante nesta música, é que George ao mesmo tempo que procurar expressar a sua fé, procura retratar a convivência inter-religiosa: na primeira parte da canção, o coral repete várias vezes a palavra “aleluia”, expressão tão comum nas crenças judaico-cristãs. Na segunda parte, o mesmo coral passa a entoar o mantra hare krishna, filosofia espiritual adotada por George Harrison por volta de 1966, e que iria exercer uma grande influência na arte do músico inglês. Desde então, George passou a seguir com muito fervor a filosofia de vida hinduísta até a sua morte, em 2001. George não era um hare krishna convertido, mas seguia os ensinamentos, o que não impedia, no entanto, de ter um profundo respeito a Jesus Cristo, o que explica a presença do mantra hare krishna e a expressão “aleluia” em “My Sweet Lord”.

Jesus Cristo e Krishna: referências religiosas para "My Sweet Lord".

“Wah-Wah” é um rock cujo título faz referência ao pedal de guitarra wah-wah que cria efeitos no som do instrumento. A letra é uma crítica sutil de Harrison a Lennon e McCartney, que na época dos Beatles, exerciam uma hegemonia na banda no que se refere à quantidade de canções nos discos da banda.

Fechando o lado 1 do disco 1, “Isn't It A Pity” é um rock balada que aparece no álbum em duas versões. Nesta primeira, a versão é longa, cerca de sete minutos. Os versos tratam sobre decepção e fim de um relacionamento. Mas há quem afirme que os versos não se tratariam necessariamente sobre relação de um casal que deteriorou, mas sim do melancólico dos Beatles.

John Lennon e Paul McCartney: alvos de crítcas sutis em "Wah-Wah".

O lado 2 do disco abre com ‘What Is Life” e sua melodia alegre e festiva. Os versos parecem ter um sentido dúbio. Tanto podem se referir ao amor romântico como ao amor espiritual, neste caso, se referindo a Deus. O destaque fica para o riff de guitarra de George Harrison, cheio de efeitos pedal fuzz de distorção.

A bonita balada folk “If Not For You” é uma canção de Bob Dylan que foi gravada por George de última hora. Dylan havia gravado a canção para o seu álbum New Morning, de 1970. George acompanhou as gravações, e encantado com ela, decidiu gravá-la para All Things Must Pass. A letra é sobre um homem que revela o quanto a mulher que ama foi capaz de transformar a sua vida para melhor.

“Behind That Locked Door” é uma canção composta por George Harrison que trata sobre amizade e companheirismo, e foi dedicada a Bob Dylan. Na época em que George compôs a canção, Dylan estava se recuperando do acidente grave de moto que sofreu em 1966, e que fez o cantor americano se afastar dos palcos por mais de quatro anos. De uma certa forma, tal situação havia afetado psicologicamente o artista. Na letra da canção, George procura demonstrar apoio e incentivo ao amigo para que ele saia do isolamento e se abra para o mundo: “The love you are blessed with / This world's waiting for / So let out your heart, please, please / From behind that locked door” (“Pelo amor que você foi abençoado / Este mundo está esperando / Então deixe seu coração sair, por favor, por favor / De trás daquela porta trancada”).

“Let It Down” está entre as canções de George rejeitadas pelos Beatles e que ele decidiu gravar para All Things Must Pass. Os versos parecem tratar sobre o conflito entre os prazeres extraconjugais com a fé e o casamento. Quando Harrison compôs a canção, ele era casado com a modelo Patty Boyd, e estava tendo um caso extraconjugal com a modelo francesa Charlotte Martin.

Encerrando o lado 2, e consequentemente o disco 1, a balada folk rock “Run Of The Mill”, canção em que George Harrison trata sobre o clima pesado e difícil nos últimos anos dos Beatles. Ao mesmo tempo, George aborda indiretamente na canção o esfacelamento da sua amizade com Paul McCartney, e ressalta a importância de sermos responsáveis pelo nosso próprio destino.

George Harrison tocando durante as sessões de gravação do
álbum All Things Must Pass.


“Beware Of Darkness” é a primeira faixa do disco 2 e que é também a primeira do lado 3. A filosofia e a espiritualidade hindus se fazem presentes em “Beware Of Darkness”, canção que faz alerta sobre os cuidados que devemos ter com as armadilhas do mundo material com a ganância, as trapaças e os pensamentos negativos. Em “Apple Scruffs”, Harrison faz uma singela homenagem às “apple scruffs”, as garotas fanáticas pelos Beatles que costumavam fazer vigília em frente aos estúdios Abbey Road e à Apple Records, em Londres, apenas para verem os seus ídolos.

“Ballad Of Sir Frankie Crisp (Let It Roll)” é uma balada folk rock dedicada ao excêntrico Sir Frank Crisp, um rico advogado que era também advogado, colecionador e microscopista, e que foi proprietário da mansão Friar Park, em Henry-on-Trames, construída no século XIX. No início de 1970, essa mansão foi comprada por George Harrison. A letra é quase um passeio pela mansão e jardim da propriedade. “Ballad Of Sir Frankie Crisp (Let It Roll)” possui uma linha melódica bastante agradável, onde o destaque fica para o piano de Bobby Whitlock, o órgão Hammond de Billy Preston e o piano elétrico de Gary Wright.

Sir Frankie Crisp (à esquerda) , foi o primeiro proprietário da mansão Friar Park,
que no início dos anos 1970, foi comprada por George Harrison. Crisp e
a mansão são temas da canção "Ballad Os Sir Frankie Crisp. 

Em “Awaiting On You All”, George afirma que Deus está à espera de todos nós, e que não é preciso de uma igreja ou templo, o que pode ser entendido como uma crítica indireta às grandes organizações religiosas. Fechando o lado 3, “All Things Must Pass”, a canção que dá título ao álbum, e que versa sobre a transitoriedade da vida e as mudanças pelas quais passamos durante a nossa existência.

O lado 4 inicia com “I Dig Love” e seus versos que parecem pregar o “amor livre”, tão em voga em tempo de contracultura, mas que ao mesmo tempo, contrasta com os temas espiritualistas das outras canções de Harrison. A reencarnação é claramente abordada em “Art Of Dying”, através de versos que afirmam que saímos deste mundo e retornamos pelo desejo de sermos uma entidade perfeita. A faixa seguinte é uma reprise de “Isn’t It A Pity”, porém numa versão mais curta.

“Hear Me Lord” é uma balada que fecha o lado 4 e também o disco 2 do álbum. Escrita por George em 1969, quando ainda era membro dos Beatles, “Hear Me Lord” é como uma oração em forma de canção em que o cantor pede ao Senhor para ser ouvido e o seu perdão.

George Harrison em detalhe do poster que vinha com o álbum triplo. 

O disco 3 de All Things Must Pass foi intitulado Apple Jam por trazer apenas jam sessions feitas no estúdio da Apple Records com os músicos convidados. Traz cinco faixas, quadro delas instrumentais e apenas um cantada. Na prática, este terceiro disco funciona como um “disco bônus”.

A primeira faixa do lado 5 e que é também a primeira do disco 3, é o jazz rock “Out Of The Blue”, uma faixa instrumental de pouco mais de 11 minutos, onde merecem destaque o saxofone, o piano, o órgão e a bateria. Única faixa cantada do disco 3, “It’s Johnny’s Birthday” é uma curta e debochada canção em homenagem aos 30º aniversário de John Lennon, e foi composta baseada na linha melódica de “Congratulation”, sucesso do cantor Cliff Richard, em 1968. “Plug Me In” é faixa que fecha o lado 5 do álbum, um rock’n’roll instrumental vibrante que traz algo que parece ser um duelo de solos de guitarras.

O lado 6 começa com “I Remember Jeep”, em que efeitos sonoros psicodélicos dão início à música e logo dão lugar ao ritmo de rock’n’roll instrumental bem ao estilo anos 1950. Solos de guitarra pontuam toda a faixa. A música conta com a participação do baterista Ginger Baker, ex-Cream. E é no ritmo intenso e animado de rock’n’roll de “Thanks For The Pepperoni” que All Things Must Pass chega ao fim.

Lançado em 27 de novembro de 1970, All Things Must Pass teve uma ótima recepção da crítica e de público. O jornalista Ben Gerson, da revista Rolling Stone, descreveu o álbum triplo como “um clássico de proporções Spectorianas, Wagneriano, Bruckneriano, música de topos de montanhas e vastos horizontes”. A mesma Rolling Stone saudou na época All Things Must Pass como “uma extravagância de piedade, sacrifício e alegria, cuja pura magnitude e ambição fazem dele a ‘guerra e paz’ do rock”.

A faixa “My Sweet Lord” foi um sucesso mundial, cujo single atingiu o 1º lugar nos Estados Unidos e no Reino Unido, sendo assim o primeiro single de um ex-beatle a alcançar esse posto. Só nos Estados Unidos, o single de “My Sweet Lord” vendeu mais de seis milhões de cópias.

Capa do single de "My Sweet Lord". 

O fato de ser um álbum triplo, não inibiu o público a adquirir All Things Must Pass. Com um mês de lançamento, o álbum foi agraciado com disco de ouro nos Estados Unidos por chegar à marca de 500 mil cópias vendidas. Ao todo, All Things Must Pass vendeu cerca de 6 milhões de cópias nos Estados Unidos.

Apesar do sucesso comercial e do reconhecimento da crítica pelo seu álbum triplo, nem tudo foi um “mar de rosas” para George Harrison com All Things Must Pass. O ex-beatle foi processado pela Bright Tunes, editora que detinha os direitos da canção “He’s So Fine”, canção que fez sucesso em 1963 com as Chiffons. A Bright Tunes afirmou que “My Sweet Lord” era um plágio de “He’s So Fine”. O processo foi levado aos tribunais em 1976, nos Estados Unidos. Harrison negou que tivesse plagiado. Mesmo assim, o juiz determinou que o músico havia feito um plágio subconscientemente. Harrison perdeu o processo.

Essa batalha judicial, no entanto, não tirou o prestígio e a relevância de All Things Must Pass. O álbum triplo de George Harrison é considerado o melhor álbum solo lançado por um ex-beatle. All Things Must Pass foi incluído na lista dos 200 álbuns definitivos do Hall da Fama do Rock and Roll.

Faixas

Todas as canções são de autoria de George Harrison, exceto as indicadas.

Disco 1

Lado 1

  1. "I'd Have You Anytime" (Harrison, Bob Dylan)
  2. "My Sweet Lord"
  3. "Wah-Wah"
  4. "Isn't It a Pity (Version One)" 

Lado 2

  1. "What Is Life"
  2. "If Not for You" (Dylan)
  3. "Behind That Locked Door"
  4. "Let It Down"
  5. "Run of the Mill"

 

Disco 2

Lado 3

  1. "Beware of Darkness"
  2. "Apple Scruffs"
  3. "Ballad of Sir Frankie Crisp (Let It Roll)"
  4. "Awaiting on You All"
  5. "All Things Must Pass" 

Lado 4

  1. "I Dig Love"
  2. "Art of Dying"
  3. "Isn't It a Pity (Version Two)"
  4. "Hear Me Lord"

 

Disco 3 (Apple Jam)

Lado 5

  1. "Out of the Blue" (Jim Gordon - Carl Radle - Bobby Whitlock - Eric Clapton - Gary Wright - George Harrison - Jim Price - Bobby Keys - Al Aronowitz)
  2. It's Johnny's Birthday" (Martin- Coulter)
  3. "Plug Me In" (Jim Gordon - Carl Radle - Bobby Whitlock - Eric Clapton - Dave Mason - George Harrison)  

Lado 6

  1. "I Remember Jeep" (Ginger Baker - Klaus Voormann - Billy Preston - Eric Clapton - George Harrison)
  2. "Thanks for the Pepperoni" (Jim Gordon - Carl Radle - Bobby Whitlock - Eric Clapton - Dave Mason - George Harrison)



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The Byrds – Fifth Dimension (1966)

 

O disco que inventou o rock psicadélico. Uma síntese inspiradora entre sensibilidade pop e experimentalismo.

Nos seus dois primeiros discos, ambos de ’65, os Byrds inventaram o folk rock, electrificando o que então estava proibido por dogma. Nesse ano, muitos foram os que seguiram no seu encalço, penhorando as suas guitarras acústicas em troca de estridentes amplificadores. O próprio Dylan, que tinha tido a generosidade de emprestar aos Byrds muitas das suas canções, acabou por ser influenciado pelos seus discípulos, electrificando também a sua folk.

Tudo corria de feição até que Gene Clark – que escrevia a maior parte dos temas originais dos Byrds – decide abandonar o barco. De maneira que, para o terceiro álbum, Roger McGuinn e David Crosby não têm outra opção que não a de preencher esse vazio, descobrindo, surpresos, que também sabem escrever canções. Têm tanto sucesso na empreitada que Fifth Dimension se dá ao luxo de prescindir das já costumeiras versões do Dylan (o que não quer dizer que a sua influência não perdure: o tema-título, que abre o disco, é “dylanesco” até ao tutano).

A abordagem é, também, diferente: mais experimental, saltando para o desconhecido e inventando pelo caminho o rock psicadélico. “Eight Miles High”, com a sua guitarra nervosa e fragmentada como uma alucinação, foi um dos primeiros exemplares de acid rock (Roger McGuinn fala da influência de Coltrane e de Ravi Shankar sobre a nova estética mas suspeitamos que o consumo de ácidos tenha tido um papel bem mais decisivo). Com este visionário tema, os Byrds influenciaram tudo e todos, inclusive os Beatles (o single saiu antes de “Paperback Writer” e Fifth Dimension antes de Revolver, é bom lembrar).

Ao mesmo tempo que os Byrds se aventuram no futurismo psicadélico, lançam também as sementes do country rock com a divertida “Mr. Spaceman” (hippies cabeludos e “drógádos” tocando a música dos rednecks). Fifth Dimension é assim, explora uma coisa e o seu contrário, num desprezo olímpico por todas as convenções.

Tudo seria uma confusa manta de retalhos se não houvesse dois elementos unificadores: as doces harmonias vocais e a mão direita de Roger McGuinn. A beleza do seu dedilhado, desenhando elegantes arpejos melódicos na Richenbacker de 12 cordas, é a própria essência dos Byrds. Nunca ninguém antes tinha feito uma guitarra soar como uma caixa de música ou um carrilhão de sinos. R.E.M.Smiths e Teenage Fanclub seriam inspirados pela sua magia.

Mesmo com uma aposta forte em temas originais, há duas versões lindíssimas de clássicos da folk – “John Riley” e “Wild Mountain Thyme” -, trazendo um travo pastoral ao disco.

O tomo seguinte, Younger Than Yesterday, talvez seja mais coeso, mas Fifth Dimension, pela sua ousadia e influência, será sempre o nosso favorito.



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