sábado, 4 de novembro de 2023

“Aracy de Almeida Apresenta Sambas de Noel Rosa” (Continental, 1954)

 



Por Sidney Falcão

Aracy de Almeida entrou para o imaginário brasileiro como aquela jurada rabugenta dos programas de calouros da televisão, mas que todo mundo adorava ver. Porém, o que poucos sabem é que Aracy de Almeida era muito mais do que uma jurada de programa de TV. Até chegar àquela condição, Aracy vinha de uma longa história na música popular brasileira. Por mais de trinta anos, Aracy foi uma talentosa cantora de samba, de voz analisada e bem afinada, mas que também gravou canções de outros estilos como marcha, rumba, bolero, frevo-canção e até baião.

Aracy gravou vários discos, interpretou canções dos mais diversos autores, como Ismael Silva (1905-1978), Custódio Mesquita (1910-1945), Assis Valente (1911-1958), Ary Barroso (1903-1964), Wilson Batista (1913-1968) entre outros. Mas sem sombra de dúvidas, Aracy ficou marcada mesmo como a grande intérprete das canções de Noel Rosa (1910-1937), do qual foi amiga. O próprio Noel afirmou que Aracy era a melhor intérprete das suas canções. 

Filha de pais protestantes, Aracy Teles de Almeida nasceu em 19 de agosto de 1914, no bairro do Encantado, no subúrbio do Rio de Janeiro. Sua iniciação na música foi cantando num coral de uma igreja batista. Mas a carreira profissional acontece em 1933, aos 19 anos, quando foi cantar na Rádio Educadora, no Rio de Janeiro, no programa de Custódio Mesquita. E foi nessa emissora de rádio que Aracy conheceu Noel Rosa, em 1934, e daí nasceu uma grande amizade entre os dois. No mesmo ano, Aracy fez a sua primeira gravação, “Em Plena Folia” (de Julieta de Oliveira), pela gravadora Columbia. Ainda em 1934, gravou “Riso de Criança”, canção que Noel Rosa compôs especialmente para Aracy gravar.

Em 1935, foi contratada pela gravadora Victor, por onde lançou seus discos e também integrou coro nas gravações de músicas de outros artistas. No ano seguinte, gravou pela primeira vez “Palpite Infeliz” e “O X do Problema”, ambas de Noel Rosa. Aracy deixa a Victor em 1942 e assina contrato com a gravadora Odeon, onde prossegue lançando uma infinidade de discos de 78 rpm, trazendo canções dos mais diversos autores e estilos musicais.

A jovem Aracy de Almeida, aos 24 anos, em 1938. 

Após a sua morte, em maio de 1937, Noel Rosa entrou em processo de esquecimento que se acentuou ao longo dos anos 1940. Nesse período, pouca gente gravou as canções de Noel, e Aracy foi uma delas, que em dele havia gravado “Pela Décima Vez”, em 1948, e “João Ninguém”, em 1949. O fechamento dos cassinos no Rio de Janeiro e a decadência dos antigos cabarés da Lapa, mudaram o cenário boêmio carioca. A boemia carioca se deslocou para Copacabana no final dos anos 1940, onde começaram a surgir boates que atraiam um público mais seleto.

E foi uma dessas boates, a Vogue, que entre 1948 e 1942, teve Aracy de Almeida como uma de suas principais atrações. A Vogue era a boate mais sofisticada do Rio de Janeiro naquela época. Era frequentada por um público mais sofisticado, entre intelectuais, políticos, celebridades e endinheirados. E foi para esse tipo de público que Aracy apresentou as canções de Noel Rosa. As temporadas de Aracy cantando as canções Noel Rosa, fez despertar no público um interesse pela obra do “Poeta da Vila Isabel”. Porém, naquele momento, havia poucas canções de Noel Rosa disponíveis em discos nas lojas. Algumas músicas de Noel como “Três Apitos” e “Cor de Cinza”, nunca tinham sido gravadas até então.

Para atender a demanda pela procura de discos com as canções de Noel Rosa, a gravadora Continental decidiu em 1950 produzir um álbum com três discos de 78 rotações por minuto, tendo cada discos duas canções. E para interpretar as canções de Noel, a gravadora contratou Aracy de Almeida. Ao todo foram seis canções: “Palpite Infeliz (Noel Rosa)”, “Conversa de Botequim” (Noel Rosa / Vadico), “Feitiço da Vila” (Noel Rosa / Vadico), “Último Desejo” (Noel Rosa), “Não Tem Tradução” (Noel Rosa) e “O ‘X’ do Problema” (Noel Rosa). Os arranjos das músicas ficaram por conta do maestro e arranjador Radamés Gnatalli (1906-1988). A capa que trazia os três discos foi ilustrada por ninguém menos que Di Cavalcanti (1897-1976), o renomado pintor do modernismo brasileiro, e que era amigo de Aracy. O álbum ainda continha textos do jornalista e produtor musical Lúcio Rangel (1914-1979) e do compositor, jornalista e radialista Fernando Lobo (1915-1996). O projeto era inédito, audacioso e caro para os padrões do Brasil daquele momento. Para se ter uma ideia, na época, um disco de 78 rotações por minuto custava cerca de vinte cruzeiros, enquanto que o álbum com os três discos seria vendido a oitenta cruzeiros. Lançado em dezembro de 1950, o luxuoso álbum com os três discos foi um grande sucesso comercial, apesar do valor alto.

Um exemplar original do álbum lançado pela Continental, no início dos anos 1950,
que trazia três discos de 78 rpm com canções de Noel Rosa
gravadas por Aracy de Almeida.

O sucesso do projeto fez a Continental lançar em 1951, um segundo volume no mesmo esquema com três discos de 78 rotações num mesmo álbum. Dessa vez com as canções “Pra que Mentir” (Noel Rosa – Vadico), “Silêncio de um Minuto” (Noel Rosa), “Feitio de Oração” (Noel Rosa – Vadico), “Três Apitos” (Noel Rosa – Vadico), “Com que Roupa” (Noel Rosa) e “O Orvalho Vem Caindo” (Noel Rosa - Kid Pepe).

No mesmo ano de 1951, Aracy de Almeida foi convidada pelo compositor e radialista Almirante (1908-1980), para participar de uma série de 22 programas especiais dedicados a Noel Rosa, intitulado Nos Tempos de Noel Rosa, na Rádio Tupi, do Rio de Janeiro.

Na década de 1950, os primeiros discos em formato LP (long playing) foram laçados no mercado brasileiro. E foi em 1954 que a gravadora Continental lançou o primeiro LP da carreira de Aracy de Almeida, que àquelas alturas, já era uma artista madura, experiente, com quarenta anos de idade e vinte dois anos de carreira. Intitulado Aracy Apresenta Sambas de Noel Rosa, trata-se de um LP lançado em 10 polegadas que na prática, nada mais era do que uma espécie de compilação que trazia oito das quase vinte canções gravadas por Aracy e lançadas naquele projeto especial da Continental em homenagem a Noel Rosa entre 1950 e 1951, agora reunidas num só disco, já que o formato LP cabe mais músicas do que um disco de 78 rpm. A capa é a mesma arte feita por Di Cavalcanti para o projeto especial.

Noel Rosa foi amigo de Aracy de Almeida. Após a sua morte, Aracy se tornaria uma
espécie de "guardiã" de sua obra e responsável pelo resgate de sua memória artística.

Aracy Apresenta Sambas de Noel Rosa, dá ao ouvinte uma percepção melhor e mais completa do trabalho de resgate que Aracy estava fazendo com o repertório de Noel Rosa naquele início dos anos 1950 e que foram reunidas algumas canções neste seu primeiro álbum de carreira. Um destaque que vale ressaltar, é que além da qualidade da interpretação de Aracy, vale destacar a participação do maestro e arranjador Radamés Gnattali na criação dos arranjos para as canções compostas por Noel. E há uma diversidade nos arranjos, indo desde arranjos mais minimalistas com uma discreta acentuação jazzística até arranjos mais robustos e orquestrados, carregados de um naipe de cordas. 

O primeiro álbum da carreira de Aracy traz algumas curiosidades girando em torno dos músicos que acompanharam Aracy nas gravações das canções. Três grupos musicais se alternaram nas gravações com Aracy de Almeida: Francisco Sérgi e Sua Orquestra, Quarteto Continental e Vero e sua Orquestra.

O Quarteto Continental e Vero e Sua Orquestra tinham em comum a presença de Radamés Gnattali. Contratado da gravadora Continental, o maestro Radamés Gnattali criou em 1949 o Quarteto Continental, do qual faziam parte o próprio Radamés Gnattali (piano), Pedro Vidal (contrabaixo), Luciano Perrone (1908-2001, bateria) e José Menezes (1921-2014, guitarra elétrica). E aqui chama atenção da presença da guitarra elétrica, pois o instrumento era uma novidade na música brasileira. O conjunto praticava um tipo de música mais moderna e sofisticada, empregava elementos de jazz na música brasileira e já prenunciava no final dos anos 1940, traços da bossa nova. Mais tarde, esse grupo se tornaria o o Sexteto Radamés Gnattali, com a entrada de Chiquinho do Acordeon (1928-1993, acordeon) e Aída Gnattali (1911-2008, o piano), irmã de Radamés. 

Quanto a Vero e Sua Orquestra, o Vero era o pseudônimo que Radamés Gnattali usava quando gravava músicas populares. Para gravação de músicas eruditas, o maestro assinava o seu próprio nome de batismo.

O músico e arranjador Radamés Gnattali ao piano: uma figura essencial 
na criação dos arranjos para as canções de Noel Rosa gravadas por 
Aracy de Almeida no início dos anos 1950.

Aracy Apresenta Sambas de Noel Rosa começa com “Feitiço da Vila”, uma canção que se tornou um clássico do repertório Noel Rosa, e foi composta por ele com o seu principal parceiro, Osvaldo Gogliano, mais conhecido como Vadico. Gravada em 1950 por Aracy e acompanhada por Francisco Sergi e Sua Orquestra, “Feitiço da Vila” foi uma homenagem de Noel Rosa à Vila Isabel, no Rio de Janeiro, lugar onde Noel viveu. A letra ressalta o amor e devoção que Noel tinha pela Vila Isabel, e a importância que ele acreditava aquele lugar tinha para a formatação do samba como estilo musical relevante para a música popular brasileira: “Lá, em Vila Isabel / Quem é bacharel / Não tem medo de bamba / São Paulo dá café / Minas dá leite / E a Vila Isabel dá samba”.

“Pra que Mentir” é um samba-canção gravado por Aracy em 1951 com acompanhamento de Vero e Sua Orquestra. Composta por Noel e Vadico, a letra versa sobre desilusão amorosa em que um homem descobre que a mulher que ama o traiu, mas apesar de todas as evidências da traição, ela tenta convencê-lo do contrário.

A melancólica e autobiográfica “Último Desejo” foi escrita por Noel Rosa quando já estava bem debilitado pela tuberculose, e dedicada a Ceci, uma bailarina de cabaré por quem ele era apaixonado e é retratada na letra da canção como a mulher a quem ele pede o seu último desejo antes da morte. “Último Desejo” foi gravada por Aracy de Almeida em 1950 com acompanhamento de Francisco Sergi e Sua Orquestra. A letra é de uma tristeza imensa, e traz versos onde um homem à beira da morte faz uma série de pedidos e confissões em tom de despedida. Os versos finais são dramáticos e confessionais: “Às pessoas que eu detesto/ Diga sempre que eu não presto / Que meu lar é o botequim / Que eu arruinei sua vida / Que eu não mereço a comida / Que você pagou pra mim”.

Fechando o lado A do disco, “Silêncio de Um Minuto”, um samba sobre um amor que acabou com mágoa e ressentimento. Os versos são carregados de muita dramaticidade: “Nosso amor cheio de glória / De prazer e de ilusão / Foi vencido e a vitória / Cabe à tua ingratidão”. “Silêncio de Um Minuto” foi gravada por Aracy em 1951, com o acompanhamento de Vero e Sua Orquestra.

O bairro de Vila Isabel, Rio de Janeiro, no início do século XX. Noel Rosa compôs
"Feitiço da Vila" como uma homenagem ao bairro onde vive e que tanto amou.

O samba-canção “O ‘X’ do Problema” é quem abre o lado B do álbum. Esta canção já havia sido gravada antes pela própria Aracy de Almeida em 1936 através da gravadora Victor. A versão incluída em Aracy Apresenta Sambas de Noel Rosa foi gravada pela cantora em 1950 com Vero e Seu Conjunto. Apesar de ter nascido no bairro do Encantado, a música tem tudo a ver com Aracy. A letra trata sobre uma sambista nascida no bairro do Estácio, considerado o “berço” do samba carioca, e lá foi “diplomada” no samba, e que por isso, jura amor pelo lugar onde nasceu e jamais abandonaria aquele lugar por outro qualquer: “Nasci no Estácio / Não posso mudar minha massa de sangue / Você pode ver que palmeira do mangue / Não vive na areia de Copacabana”.

“Conversa de Botequim” é uma das mais famosas canções da parceria Noel Rosa e Vadico. A letra é interessantíssima, muito bem construída, e trata sobre um cliente folgado, atrevido, que faz uma série de pedidos ao pobre garçom. Embora os pedidos sejam feitos com toda a educação e formalidade, são completamente abusados, como se o garçom fosse o seu empregado e não tivesse outros clientes para atender. O conjunto de versos são bem descritivos e transportam o ouvinte a algum botequim carioca dos anos 1930. A versão gravada por Aracy em 1950, é um “samba-de-breque” bem ao estilo de Moreira da Silva, em que ela canta cheia de malandragem, e com acompanhamento do Quarteto Continental. O destaque fica por conta do toque dedilhado da guitarra elétrica de José Menezes, integrante do Quarteto Continental, que dá um tom jazzístico à canção.

“Não Tem Tradução” é um samba-canção composta Noel em que o autor, já nos anos 1930, denunciava a invasão dos modismos estrangeiros nos costumes do povo brasileiro: “A gíria que o nosso morro criou / Bem cedo a cidade aceitou e usou / Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote / E só querendo dançar o fox-trote”. A versão gravada por Aracy e incluída em Aracy Apresenta Sambas de Noel Rosa foi gravada por Aracy em 1950 acompanhada por Vero e sua Orquestra.

O álbum termina com a ótima versão de Aracy para “Palpite Infeliz”, gravada em 1950 e acompanhada pelo Quarteto Continental. Foi composta por Noel Rosa na época em que o compositor travou um duelo com o compositor Wilson Batista, quando os dois trocavam provocações através de músicas. Aracy havia gravado essa música pela primeira vez em 1936 em forma de samba em tom carnavalesco. Mas nesta nova gravação, Aracy canta em forma de um samba bem minimalista, enxuto, proporcionado por pouco instrumentos: piano, guitarra elétrica, contrabaixo e pandeiro. O arranjo enxuto e elegante criado por Radamés Gnattali, possui inclinações jazzísticas, muito por conta da performance do piano executado por Gnattali e pela guitarra de José Menezes. A elegância desta canção gravada por Aracy, já mostra prenúncios do que seria a bossa nova que surgiria anos mais tarde.

Faixas

Lado A

1 - "Feitiço da Vila"  (Noel Rosa/Vadico)

2 - "Pra Que Mentir"  (Noel Rosa/Vadico)

3 - "Último Desejo" (Noel Rosa)

4 - "Silêncio de Um Minuto" (Noel Rosa)


Lado B

5 - "O X do Problema" (Noel Rosa)

6 - "Conversa de Botequim" (Noel Rosa/Vadico)

7 - "Não Tem Tradução" (Noel Rosa)

8 - "Palpite Infeliz" (Noel Rosa)


Aracy de Almeida: vocal

Orquestra da Continental: instrumentos diversos

Quarteto Continental: Radamés Gnattali: piano; Zé Menezes (José Menezes): guitarra elétrica; Pedro Vidal (contrabaixo) e Luciano Perrone (bateria)

Francisco Sergi E Sua Orquestra

 

"Feitiço da Vila"


"Pra Que Mentir"


"Último Desejo"


"Silêncio de Um Minuto"


"O 'X' do Problema"


"Conversa de Botequim"


"Não Tem Tradução"


"Palpite Infeliz"


sexta-feira, 3 de novembro de 2023

The Beatles - Now and Then (2023)

 

Now and Then (2023)
Paul McCartney e Ringo Starr pareciam totalmente extasiados por trabalhar em Now and Then. George Harrison também, antes de seu falecimento em 2001. A última faixa dos Beatles, uma canção gravada isoladamente por John Lennon em 1978 para McCartney. É realmente uma música dos Beatles? Não vamos estourar a bolha. Independentemente disso, está aqui. Uma última tentativa para os Beatles e décadas em construção. Seria tão bom que galvanizaria a verdade bem vista dos Beatles e seu impacto como a maior banda britânica da história, ou pareceria músicos idosos tagarelas com mais tempo disponível do que sabem o que fazer. Felizmente, e possivelmente surpreendentemente, Now and Then é o primeiro. Uma pista genuinamente tenra e bem estruturada que levou gerações de desenvolvimento tecnológico para ser montada. 

Contados por McCartney e seguidos por Lennon, haverá muitas comparações com o apogeu de seu trabalho conjunto – nunca um período de seca, como McCartney revelou em uma entrevista há alguns anos. Now and Then parece tão oscilante quanto possível, considerando os vocais principais de Lennon. Peter Jackson e a tecnologia disponível fizeram um excelente trabalho ao esfregar os grãos. Além disso, porém, espera-se que sejam escritos talentosos da dupla Lennon e McCartney. Harrison também recebe seu lugar, o falecido e grande guitarrista encerrando os momentos finais com um trabalho instrumental excepcional e firme. Seu rebaixamento na hierarquia dos Beatles não é levado em consideração aqui. 

Não se engane, Now and Then é um divisor de águas muito mais amplo do que os Beatles. A inteligência artificial foi, com sucesso, implantada em uma música e usada para o bem. Isso galvaniza McCartney e Starr, que são relegados aos instrumentais e estão em boa forma para eles depois de décadas continuando seu ofício. McCartney com títulos de manchete, Starr com uma série de EPs da era da União Soviética que exigem que seus ouvintes se lembrem de seu nome. Os medos da IA ​​e seu uso em outros lugares são compreensíveis, quando surge a replicação dos mortos para novas faixas, mas Now and Then é um dos poucos a ter uma amostra de uma peça totalmente gravada. Há uma diferença na criação e adaptação – Now and Then adapta o Lennon já gravado para qualidades audíveis.  

Apropriado para combinar o último single dos Beatles com seu primeiro, Love Me Do, o lançamento de Now and Then é um lembrete arrepiante de finalidade em uma era onde bandas antigas continuam a retornar. Os Rolling Stones e John Cale ainda estão por aí. Até os restos dos Beach Boys permanecem. Now and Then é uma faixa emocional, e é isso que a ajuda a durar um pouco mais. Claro, é emocionante para os fãs de música, independentemente de quão grandes sejam os Beatles, ouvir em tempo real, pela primeira vez, o fim de uma era que já dura há muito tempo. Remasterizações ainda irão e virão, e novo material será desenterrado e misturado em bootlegs de Bob Dylan, Paul Simon e outros, mas as gravações finais dos Fab Four agora estão prontas e limpas. Até eles odeiam os lançamentos musicais de sexta-feira. 



Sampha - Lahai (2023)

Lahai (2023)
Depois de mais de 5 anos, finalmente conseguimos o segundo álbum do promissor artista RnB Sampha, do Reino Unido. “Lahai” é em grande parte uma continuação do baixo estilo R&B do Reino Unido e do art pop com que Sampha começou em seu álbum de estreia. No entanto, ao contrário de seu álbum de estreia, acho que o foco e a busca pela consistência levam este álbum bem acima do anterior. Pegue a faixa de abertura “Stereo Color Cloud” com seus bumbos britânicos misturados com esta exuberante progressão rítmica de piano. Isso lentamente se transforma em uma futura faixa estilo garagem que lembra os primeiros dias do dubstep no Reino Unido. Ou pegue a faixa “What If You Hypnotize Me?” com sua futura batida de garagem que lentamente se desenvolve ao longo do canto de Sampha. Este é um disco bem matriculado que entra e sai de vários estilos do Reino Unido. Com isso dito, existem alguns pequenos pontos baixos. Principalmente a progressão de três faixas no meio: “Satellite Business”, “Jonathan L. Seagull” e “Inclination Compass”. A estética mais simplista do cantor/compositor não funciona bem com os vocais de Sampha. Ainda assim, este é um álbum realmente excelente e vale a pena esperar muito.


King Gizzard & The Lizard Wizard - The Silver Cord (2023)

 

The Silver Cord é uma jornada linda, psicodélica e repleta de sintetizadores que mergulha em muitas piscinas, que vão do Kraftwerk ao Daft Punk, Herbie Hancock, acid house, EDM, hip hop da era dos Beastie Boys e muito mais. O corte regular é conciso, mas ainda atinge bastante forte, com uma evolução gradual de faixas de synthpop sonhadoras e evocativas para batidas pulsantes que você ouviria em um clube underground.

No entanto, este álbum realmente brilha na mixagem estendida. Vai de uma curta e doce brincadeira de sintetizador Gizz a uma jornada magistralmente orquestrada no estilo Shpongle que diminui e flui através de sequências de transe oníricas misturadas com vocais etéreos a cappella que remetem a vários versos apresentados em "PetroDragonic Apocalypse". Não é para os fracos de coração (também conhecidos como aqueles sem paciência), mas aqueles que persistirem e abraçarem o passeio de 88 minutos irão desfrutar das montanhas-russas de sintetizadores carregadas de emoção que os meninos construíram.



CRONICA - TRAPEZE | Trapeze (1975)

 

A saída do vocalista/baixista Glenn Hughes do Deep Purple poderia ter soado a sentença de morte para o Trapeze. Mas a publicação do 4º Lp do combo inglês, Hot Wire , contrariaria as previsões. Na verdade, este álbum fantástico de hard funk devastador alcançou a posição 146 na Billboard 200 americana.  

Pela primeira vez, o guitarrista/vocalista Mel Galley que tomou conta do assunto, o baterista Dave Holland, o baixista Pete Wright e o guitarrista Rob Kendrick rapidamente retornaram ao estúdio para produzir um LP homônimo (a segunda, as primeiras 33 turnês impressas em 1970 também sendo homônimo) em nome da Warner Bros. E surpresa, esta 5ª obra traz o retorno de Glenn Hughes. Na verdade, ele é apenas um convidado e empresta sua voz soul branca na nostálgica balada folk “Chances”, que ele co-escreveu, e “Nothing for Nothing” no final, em um registro de Southernrock violento e desenfreado.

Este disco homônimo é uma boa continuação de Hot Wire mas menos complexo, mais direto com músicas, 10 no total, oscilando entre 2 e 4 minutos. Começa com “Star Breaker”, um hard rock feito de riffs afiados e boogie, cruzados com metais. Mais adiante, no mesmo registo, surge “The Raid” que com os seus ritmos disco e a sua ponte ao estilo Santana sente urgência. “Gimmie Good Love” retorna ao registro Southernrock assim como “Monkey”, “I Need You” mais blues e “Soul Stealer” com mudanças de andamento e climas.

De resto deparamo-nos com "It's Alright", uma balada country rock que cheira a espaços abertos, rica em melodias onde o sintetizador com as suas camadas geladas traz profundidade. Com seu piano saloon, “On the Sunny Side of the Street” é um cover popularizado por Louis Armstrong, não admira que encontremos alguns efeitos jazzísticos ali.

Este disco homônimo parece menos inspirado em comparação com Hot Wire , mas é uma boa audição.

Títulos:
1. Star Breaker
2. It’s Alright
3. Chances
4. The Raid
5. Sunny Side Of The Street
6. Gimme Good Love
7. Monkey
8. I Need You
9. Soul Stealer
10. Nothin’ For Nothing

Músicos:
Mel Galley: guitarra, canto
Rob Kendrick: guitarra
Pete Wright: baixo
Dave Holland: Batterie
+
Glenn Hughes: canto

Produção: Steve Smith



Nirvana - MTV Unplugged in New York (1994)

 

Recentemente fiz uma resenha de "In Utero", tendo-o declarado meu álbum favorito naquela crítica. Bem, estou surpreso e encantado em dizer que este título foi recentemente conquistado por esta obra-prima - "MTV Unplugged in New York", o set mais famoso do Nirvana e sem dúvida uma das maiores performances ao vivo na história de toda a música. Ao contrário da maioria dos álbuns ao vivo, este opta por reinventar completamente o som da banda, transformando-o numa misteriosa viagem folk rock melancólica, realçada pelas sensibilidades do grunge.

Nenhuma música aqui deixou de me afetar emocionalmente. Isso se deve principalmente aos vocais poderosos e imperfeitos de Cobain. Sua voz pode ir de suave a um sussurro, a um estalo, a um falsete frito, a um grito angustiante. Tudo de uma maneira que não interrompa a progressão da música. Na verdade, ser capaz de transformar gritos nesse tipo de som suave demonstra onde estava sua verdadeira genialidade. Não havia limites para a natureza do seu som, desde que a sua expressão fosse verdadeira. “Where Did You Sleep Last Night” merece seu lugar como uma das melhores performances de uma única música. Sempre fico ansioso ao ouvir essa faixa, como se simplesmente não estivesse pronto para seu poder emocional bruto. Quando o show terminou, eu simplesmente fiquei parado, incapaz de focar minha mente em qualquer outra coisa.

O que é particularmente fascinante é que, assim como o close acima mencionado, quase metade do set é composto por covers. E a banda consegue trazer sinceridade a cada um deles. Há uma razão pela qual tantos deles são praticamente atribuídos ao Nirvana. “The Man Who Sold the World” é a minha favorita do álbum e, embora possa ser irritante vê-la falsamente considerada uma original de Cobain, até Bowie foi capaz de ver quem se apoderou da música. É extremamente raro que as capas sejam tão cheias de personalidade e muito apreciadas quando alguém consegue fazê-las.

Os originais do Nirvana também não são motivo de zombaria. "About a Girl" retira o original e abre o concerto da maneira apropriada e serena. “Come as You Are” oferece uma interpretação diferente do hit aguado, que acredito ter sido o único single tocado. Pessoalmente, gosto mais desta versão. A banda recorreu às versões do álbum em busca de mais inspiração. “Pennyroyal Tea” é minha interpretação favorita da música, onde um Kurt solitário arranca sua alma sem ninguém o acompanhar.

Embora Cobain seja a estrela do show, o crédito deve ser dado a todos os outros que contribuem. Krist tocando acordeão em “Jesus Doesn't Want Me for a Sunbeam” é uma grande parte do charme da faixa. As harmonias de Dave realçam a beleza das músicas. Pat traz mais plenitude ao som, assim como Lori Goldston no violoncelo. E, claro, os irmãos Kirkwood do The Meat Puppets são uma surpresa bem-vinda e mais do que adequada aqui. Além disso, gostaria de acrescentar que os pequenos detalhes entre as músicas fazem o álbum para mim, pois permite que um pouco do peso emocional se acalme com as brincadeiras do grupo.

Mesmo que não haja caos no show, o Nirvana se sente mais liberado aqui. Kurt parece ter gostado de simplificar seu som, concentrando-se apenas na qualidade de suas composições e performance. Esta é a coisa mais próxima que temos de um quarto disco do Nirvana, e mostra onde a banda teria ido em seguida. Minha coisa favorita sobre a banda é quantas vezes eu fiquei com sentimentos muito complexos depois de algumas de suas músicas. Todo esse álbum exemplifica esse lado da banda. É melancólico, honesto, triste, desesperado. O que seria um momento normal de angústia agora se tornou uma derrota. Encontrar tanta beleza na simplicidade é um momento raro na arte, e Kurt foi capaz de fazer isso repetidas vezes.



Katie Dey - Never Falter Hero Girl (2023)

 

uma mistura realmente linda de produção hiper-pop problemática e coisas de cantor e compositor, mas sem a enorme onda de açúcar que vem com o hiper-pop. Eu acho que é chamado de pop hipnagógico ou talvez fosse apenas indietrônico, mas há algo especial aqui que desafia a simples categorização, porque também se apoia fortemente no pop de cantor e compositor ou até mesmo no pop de piano emocional em algo como a abertura do álbum mais próximo " metáfora." a densidade das camadas nessas músicas traz à mente aquele som de orquestra indie dos tempos antigos, mas obviamente isso é muito mais focado e parece mais pessoal do que aquelas grandes bandas cheias de 20 membros soariam.

quase uma hora de duração, mas fiquei emocionalmente envolvido o tempo todo. Eu amo a textura desse disco e imagino que isso só vai continuar a crescer em mim. é realmente lindo.



Agnaldo Timóteo ‎– Sempre Sucesso (1971)

 





Agnaldo Timóteo ‎– Sempre Sucesso (1971)
(Originalmente gravado em LP Odeon ‎– MOFB 3678, 1971).
Produção de Milton Miranda.
Género: MPB

Agnaldo Timóteo ‎– Sempre Sucesso” é o terceiro álbum (de 1971), do primeiro volume (num total de 6), de uma box deste famoso cantor brasileiro.
“Sempre Sucesso”, ao contrário do esperado, este disco não teve nenhuma música ou êxito com grande execução nas rádios. Agora, sob a direcção do não menos famoso maestro Gaya e arranjos de Peruzzi e Orlando Silveira, este LP apresenta somente duas versões: Último Romântico (L'ultimo Romantico) e História de Amor (Theme From "Love Story"). O restante, com excepção da bela regravação de “All The Way” (sucesso do repertório de Frank Sinatra), é todo composto por canções de autores brasileiros populares, alguns amigos próximos de Agnaldo, como Luiz fabiano (“O Nosso Amor Teve Fim”), seu irmão Majó (“Canção para Vera”, em parceria com Toni Tornado) e Elizabeth (“Identificação”). Regravou também “Vestido de Lágrimas”, sucesso de Silvio Caldas.

Fonte: Parcialmente retirado e adaptado de um texto de Thiago Marques Luiz.

Faixas/Tracklist:

A1 Último Romântico (L'ultimo Romantico) 
A2 Primeiro Degrau 
A3 Nosso Amor Teve Fim 
A4 Minhas Trovas De Amor 
A5 A Verdade É Diferente 
A6 All The Way 
B1 História De Amor (Theme From "Love Story") 
B2 Vestido De Lagrimas 
B3 Identificação 
B4 Uma Canção Pra Vera 
B5 Não Fale Agora 
B6 Cancion Para Una Mentira 
Bonus:
C1 – Antes do Adeus
C2 – Bendito Amor

Direcção Musical por Lindolfo Gaya.




O Terço - Cabala - Live in Rio 2005


 O Terço - Cabala - Live in Rio 2005 (Remastered)

Song originally from the album "Casa Encantada" (1976)
Vocals, Keyboards – Flávio Venturini
Vocals, Guitars – Sérgio Hinds
Vocals, Bass – Sérgio Magrão
Drums, Percussion – Sergio Melo
Additional Keyboards – Ruriá Duprat
Cabala (Flávio Venturini / J. Geraldo / Murilo Antunes)

Destaque

Álbum da Semana: Ultraviolence de Lana Del Rey (2014)

  Em junho de 2014, eu tinha 19 anos e estava de volta da faculdade, após o meu primeiro ano. Estava desempregado e passava muitas noites ac...