E ao sexto álbum Laura Marling reinventa-se outra vez. Semper Femina esteve tatuado na pele da artista nos últimos anos – roubado da Eneida, de Virgílio – e agora Marling dá-lhe corpo, nome, um disco inteiro, cheio de nove soberbas canções.
Entre a sensualidade (logo a abrir, com “Soothing”, quatro minutos de sedução lenta e de composição densa), a paixão mas também a vulnerabilidade em “The Valley” ou o tom confessional de “Always This Way”.
Marling reinventou-se, no tom, nas letras, e até na produção, numa colaboração com Blake Mills (Alabama Shakes), que torna este disco mais denso, completo e adulto, como se a menina-mulher de 21 anos do primeiro disco (Alas, I Cannot Swim) tivesse desaparecido de vez para dar lugar a uma Marling mas adulta, mais completa, mas também mais perturbada.
É mesmo uma nova fase, de composição e produção, ajudada, claro, pela maior densidade conferida pela parceria com Mills, mas mantendo a característica indie-folk e a simplicidade. Aqui a simplicidade é mais cuidada, apurada ao pormenor, a produção densifica até ao ponto máximo em que continua a ser Marling.
Um disco absolutamente feminino mas sem fragilidade. Forte sem ser feminista, quase fatalista nas letras, de amor e de amizade, podemos escolher por onde queremos interpretar.
Há uma tristeza maior neste disco, mais profunda do que em Once I Was an Eagle, e também mais abertura e exposição, como ouvimos em “Don’t Pass Me By”. E a acompanhar as letras mais densas há uma composição mais cuidada e uma guitarra soberba “Next Time” é o melhor exemplo. A fechar o disco, Marling brinda-nos com “Nothing, Not Nearly”, com uma guitarra deliciosa e um tom de conclusão. Para ouvir e saborear, da guitarra às letras.
Jarvis Cocker e Chilly Gonzales levam-nos numa viagem ao passado de excesso e glamour do hotel Chateau Marmont, convidando os fantasmas da era dourada de Hollywood para um disco de um extremo bom gosto.
O Chateau Marmont, em Los Angeles, foi construído nos anos 20, bem por cima da icónica Sunset Boulevard. Em 1931, o edifício foi convertido em hotel, e foi aí, no quarto 29, que Jarvis Cocker reencontrou a inspiração musical para voltar a criar.
Jarvis, o histórico e carismático líder dos Pulp, nunca se foi efectivamente embora. A viver em Paris há vários anos, o seu último disco de originais, a solo, data já de 2009. Entretanto, tem organizado colecções de literatura, levou os Pulp a um documentário e a uma despedida na sua cidade natal, colaborou com os Air e com Charlotte Gainsbourg e tem conduzido o muito recomendável programa de rádio Sunday Service, para a BBC. Mas era hora de voltar aos discos.
No quarto 29, há um piano com o qual Jarvis começou a brincar. E, no meio da atmosfera antiga do Chateau Marmont, a inspiração veio. O hotel albergou e influenciou inúmeras figuras do entretenimento norte-americano: Sharon Tate, F. Scott Fitzgerald, Jim Morrison, Hunter S. Thompson, Jean Harlow, Billy Wilder e John Belushi (que morreu de overdose num dos bungalows do hotel), entre muitos outros.
Daí veio o conceito deste Room 29. Jarvis deixando as paredes falar, rodeado dos fantasmas de outras épocas, da folia, da frustração, da pressão e da luxúria do sucesso. Mas o cantor não é um pianista, e lançou a ideia ao seu amigo e vizinho de Paris, Chilly Gonzales. Este é um músico com formação clássica, embora já tenha colaborado com meio mundo da pop alternativa e lançado discos bem diferentes.
A parceria funciona em cheio, e é da exclusiva intimidade destes dois solitários homens que se constroem as forças deste disco. São 16 temas lentos, esparsos, na sua maior parte apenas o piano subtil e bonito de Gonzales e a voz omnipresente, entre o falado e o cantado, de Cocker.
Este sempre foi um observador, alguém que está de fora a olhar, mesmo nos tempos mais bem sucedidos dos Pulp. E sempre foi, indiscutivelmente, um dos maiores letristas das últimas décadas, conseguindo com poucas frases pintar uma imagem mental e vívida para o ouvinte. Lembremo-nos de “Duckdiving”, um tema que os Pulp gravaram para uma sessão de John Peel, com Jarvis em registo ‘spoken word’ sobre uma cama musical subtil. E aqui Cocker, o ‘voyeur’, está em território familiar. Só que não está a falar de noitadas deprimentes em Sheffield, mas sim do glamour decadente da era dourada de Los Angeles.
Se Jarvis está de volta à sua boa forma, Chilly brilha de forma subtil e elegante. Os temas são de matriz clássica mas não demasiado óbvia, com o pianista a fazer o marfim brilhar ao serviço da narrativa. Algumas cordas, aqui e ali, fazem o resto.
Room 29 é, assim, um disco de um extraordinário bom gosto. Um álbum intemporal e perdido no tempo, que nos leva numa suave aura de sonho por tempos passados. Uma parceria que está destinada a ficar como um marco na carreira de ambos os músicos.
Depois de 19 anos de espera, os The Jesus and Mary Chain regressam com Damage and Joy que, não sendo um álbum inovador, dá para saltar e matar saudades da mítica banda.
E, de repente, passaram 19 anos desde Munki. Pelo meio ainda houve 8 anos de hiato, mas 2017 foi mesmo a data escolhida pelos irmãos William e Jim Reid para voltarem a oferecer ao mundo a sua música – Damage and Joy é o sétimo álbum de estúdio dos The Jesus and Mary Chain (JAMC). Para este regresso muito aguardado, que marca o reconciliar dos irmãos, os escoceses recrutaram o ex-baixista dos Lush, Phil King, e o baixista dos Killing Joke, Youth (neste caso, como produtor).
Em Damage and Joy encontramos, mais uma vez, aquela característica que os JAMC sempre tiveram: fazer um álbum diferente dos anteriores, mas que tem a marca indelével da banda. Tudo aquilo que fazem soa a eles e a mais ninguém – e este álbum não é exceção. No sétimo capítulo da história discográfica dos escoceses, continuam cá as guitarras afiadas, o feedback de arame farpado e as doces canções pop; em proporções diferentes, é certo (talvez seja esse o seu segredo), mas está aqui tudo isso.
Apesar disto, tendo em conta a progressão sónica ao longo dos registos, Damage and Joy é ligeiramente previsível, na medida em que pega muito nas sonoridades de Stoned & Dethroned e Munki, dando-lhes retoques e atualizando-as para 2017. Aliás, a distância entre sexto e sétimo registos, ao nível do som, nunca poderia ser proporcional aos anos que os separam – afinal, a maioria das canções já tinha sido lançada de alguma forma. O álbum não é, claro está, nenhum Psychocandy revolucionário, não tem o romanticismo soberbo de Darklands nem o shoegaze hipnótico de Automatic e Honey’s Dead. Ainda assim, não deixa de ser um bom álbum de rock, competente e maduro, com alguns momentos brilhantes.
Damage and Joy atira-nos logo contra a parede, com uma forte malha a abrir o registo – “Amputation”, composta por uma progressão de acordes simples, vai-se cobrindo de texturas, que oscilam entre feedbacks que aparecem aqui e ali e um pedal de tremolo que surge para dar ritmo à guitarra. Neste início, a voz de Jim Reid – que, como sempre, soa ao gajo mais cool do mundo – surge acompanhada de segundas vozes que complementam muito bem a do cantor. Tudo isto é tão familiar, tão JAMC, que, embora as palavras entoadas sejam outras, aquilo que se ouve é “We’re back in town”.
O álbum segue, levando-nos para duas músicas que se contam entre as melhores do disco: “War on Peace” e “All Things Pass”. A primeira é um retrato autodepreciativo de uma vida vivida ao máximo e que agora encontra o cansaço provocado por esse ritmo estonteante, mas para o qual a solução é continuar a andar em frente – algo assinalado na interrogação “So what if I run? Where would I run to?”. Nesta canção, a melodia é vagamente reminiscente dos Spacemen 3 de Peter Kember e Jason Pierce. O que acontece perto do fim, contudo, é pura magia Reid: ergue-se uma parede de feedback e, do nada, surge uma motorika incessante, que nos vai acompanhar até ao término da faixa.
Por sua vez, “All Things Pass” é um hino ao hedonismo que os JAMC sempre preconizaram. Desde a referência ao xamã dos 1960s Timothy Leary tanto no título da faixa como no refrão, às alusões a uma vida de sexo e alimentada a drogas, tudo nesta música é rock ‘n’ roll. O riff só podia ser condizente – simples e potente. “Get On Home” é outra faixa que remete para este tema, tão presente na discografia dos irmãos Reid. Sustentada por uma motorika maquinal, enquanto o baixo segura a melodia e uma guitarra surge de vez em quando para nos atirar até à estratosfera, nela ouvimos, entre outros, o relato que Jim Reid faz de uma noite passada com bonecas insufláveis e LSD.
As participações das convidadas Sky Ferreira e Isobel Campbell (ex-Belle and Sebastian) enriquecem bastante o sétimo registo dos JAMC, contribuindo com as suas belas vozes em algumas das grandes canções de Damage and Joy. A escolha das convidadas neste álbum é, de resto, muito certeira – as vozes femininas (que incluem a terceira Reid, de nome Linda) encaixam sempre muito com as de Jim e William, estabelecendo um diálogo entre intérpretes que não soa desconexo, como por vezes acontece nestes casos.
Em “Black and Blues”, a luso-descendente Sky Ferreira acompanha Jim Reid numa música que, de forma catártica, funciona como um manguito a desgostos amorosos. Por cima de uma americana gloriosa, quase a soar a gospel, o convite a fica feito: “We could leave this world behind and die in the morning”. Já Isobel Campbell empresta a sua voz angelical a duas bonitas canções de amor: “Song for a Secret”, que coloca a personagem feminina no papel de salvadora de alguém autodestrutivo (“Too old to crucify/But too young for suicide”), e “The Two of Us”, uma simples declaração de um amor tão forte que leva Jim a cantar “We don’t need drugs ‘cause we know how to fly”.
A relação entre os dois irmãos, como se sabe, sempre variou entre um pouco e muito conturbada. Todavia, esta também ofereceu algo à música dos JAMC que, não estando lá necessariamente através das letras, conseguimos sentir e faz os pelos nos braços ficarem eriçados: uma tensão constante, de onde parte alguma da violência sonora tão característica da banda. Recentemente, Jim disse à Rolling Stone que ele e William têm estado a aprender a ouvir-se, acrescentando: “In the last couple of years, we’ve buried the hatchet (…) and thankfully not into each other”. Contudo, os atritos fraternais ouvem-se bem, talvez melhor que nunca, na grande música que é “Facing Up to the Facts”, quando Jim, acidamente, diz “I hate my brother and he hates me/That’s the way it’s supposed to be”. Apesar disto, o sétimo registo dos JAMC termina numa nota positiva: em “Can’t Stop the Rock”, juntamente com Linda Reid (que parece ter o papel de mediadora das vozes dos irmãos), William e Jim cantam felizes e a uma só voz “I’m falling, and I’m happy”. Reunião consolidada, portanto.
Aquilo que se pode apontar como a falha deste álbum é o facto de, por vezes, soar algo contido. Para uma banda que sempre se entregou totalmente ao arrojo, parece que desta vez se deixaram ficar um pouco na sua zona de conforto. Ainda assim, Damage and Joy não deixa de ser um bom álbum, com meia dúzia de fantásticas canções. Além disto tem um efeito fantástico: faz querer ir à prateleira buscar os discos de JAMC, pôr o volume no máximo e sentir a sua música como é suposto ser – alto. Na última faixa de Damage and Joy, os irmãos cantam “You can live, love, hate stuff and die, but you can’t stop the rock”. O rock não para, especialmente o dos JAMC. Esperamos que o próximo disco não saia daqui a 19 anos, mas, até lá, cá estaremos à espera de ver a promessa cumprida. Entretanto, vamos afogar os ouvidos em mares de feedback e bom barulho, sim?
A banda ficou conhecida pela apresentação visual e inovadora de seus discos. Os shows, altamente performáticos, incluía combinações inusitadas de luzes, poesias e pinturas ao vivo. O álbum de estréia foi editado com vinil e capa transparentes, incluindo a radiografia de um punho impressa com a técnica do silk screen na parte frontal da capa. Em "So Far", além do farto uso do preto, no encarte há imagens que remetem, cada uma, às faixas do vinil. "Faust IV", por sua vez, traz em sua capa uma pauta musical totalmente em branco e esta talvez seja a imagem que melhor traduz o som livre do grupo. Infelizmente, o impacto visual foi minimizado com a transposição dos projetos gráficos originais para o formato CD.
Atualmente, o Faust é considerado os precursores de estilos como a música industrial, noise rock e o ambient, fato que os torna uma das bandas alemãs de maior influência sobre a música pop contemporânea, ao lado de conterrâneos como Kraftwerk e Can.
História
O grupo foi formado em 1971 na zona rural de Wümme, Alemanha. A banda assinou um lucrativo contrato com a Polydor e em seguida gravou seu álbum de estréia, "Faust", que vendeu modestamente, mas recebeu elogios da crítica por sua proposta inovadora, além de atrair fãs devotados. Faust se tornou uma das primeiras bandas internacionalmente apreciadas do gênero que ficou conhecido como krautrock.
Faust foi um dos primeiros artistas a assinar com o selo Virgin Records, de Richard Branson, que com uma campanha de marketing um tanto audaciosa para a época pretendia introduzir o grupo no mercado britânico. "The Faust Tapes" foi um álbum de colagens sonoras feitas a partir de um extenso acervo de gravações pessoais originalmente não destinadas para lançamento comercial, mas hoje é considerado um dos seus melhores trabalhos e, talvez, seja o primeiro disco de um grupo pop a ser totalmente elaborado como o que hoje é conhecido como sampling (uma forma muito comum de composição, bastante apreciada por DJ's e rappers). A Virgin Records o lançou pelo preço de um single e o álbum acabou vendendo 100.000 cópias, mas por ser muito barato foi considerado inelegível para as paradas de discos.
O Faust se desfez em 1975 após a Virgin rejeitar seu quinto álbum (algumas faixas desse trabalho apareceram mais tarde em "Munich and Elsewhere"), mas relançamentos de suas gravações anteriores e material inédito foram editados pela Recommended Records, de Chris Cutler, o que ajudou a manter o interesse do público e da crítica pelo grupo ao longo dos anos.
Continuamos com algumas das melhores músicas do Brasil e também da discografia de Gismonti. Como sempre, neste álbum, sua música é uma mistura de elementos clássicos, jazzísticos e brasileiros, com composições sofisticadas que talvez pendam mais para a música clássica neste álbum do que em seus álbuns anteriores, mas que fluem em meio a melodias folclóricas memoráveis, e onde ele parece revisitar sua própria infância ou celebrar a de uma criança, evocando a paisagem emocional daquela época. Um álbum fantástico, brilhantemente executado; com composições verdadeiramente boas, brilhantes e com melodias cativantes, harmonia sofisticada e estruturas complexas, com mudanças graduais de intenção e reviravoltas inesperadas, gerando música cheia de tensão e intensidade e com uma exuberância que lembra Chick Corea, ou sua demonstração de violão muito no estilo de Ralph Towner, tanto na execução quanto na composição. Mais um álbum inclassificável, repleto das melhores músicas.
Artista: Grupo Egberto Gismonti
Álbum: Infância Ano: 1991 Gênero: Jazz / Fusion / MPB Duração: 62:49 Nacionalidade: Brasil
"Childhood" é um álbum conceitual em que o autor nos leva musicalmente a uma jornada por uma das fases mais belas da vida. Tão diverso quanto seus gostos e influências musicais, o álbum tem momentos muito básicos, marcadamente influenciados pela música popular de seu país, mas, por vezes, apresenta instrumentação bastante complexa, aparentemente derivada da música de câmara europeia.
Algumas faixas deste álbum, lançado sob o nome "Grupo Egberto Gismonti", já haviam sido incluídas em álbuns anteriores, como "7 Anéis" e "A fala da paixão", que apareceu em Alma (1987). A formação deste álbum conta com a lenda do violoncelo brasileiro Jacques Morelembaum, conhecido na MPB por suas colaborações com a família Jobim, Caetano Veloso e outros artistas, e um grande inovador, como o próprio Gismonti, no alcance de seu instrumento. A gravação foi feita na Noruega em 1990 sob a produção de Manfred Eicher, o arquiteto de uma nova maneira de entender o jazz e a música contemporânea, borrando as linhas que separavam o popular do acadêmico no lendário selo ECM. Mais uma joia do gênio brasileiro.
Rua Netuno
O multi-instrumentista brasileiro sempre encanta com sua mistura nostálgica de elementos folclóricos e melódicos, tão pessoal e única. Este álbum é mais uma joia brilhante, teatral e cheio de contrastes. Ele também demonstra a maturidade da composição de Gismonti e sua evolução como melodista e músico.
Neste álbum, ele exibe uma combinação requintada e inclassificável de estilos musicais, desta vez com algumas abordagens momentâneas ao que conhecemos como música progressiva. Às vezes, é muito semelhante a algumas obras de Lito Vitale ... de qualquer forma, é uma maravilha imperdível. Sempre fiel ao seu estilo, que alterna frases entre diversas influências: música erudita, música contemporânea, música popular, música folclórica brasileira e de seus povos nativos, especialmente da Amazônia. No entanto, além de seus estudos acadêmicos em música, Gismonti sempre se interessou por outras formas de conceber música.
Mas é melhor se você ouvir...
Ele cresceu ouvindo músicas tão diversas quanto as de Django Reinhardt e Jimi Hendrix. Para ele, as conquistas de Hendrix na guitarra eram a prova de que as linguagens da música popular e clássica não precisam ser polos opostos. E isso é algo com que concordo 100%.
Vamos passar para alguns outros comentários de terceiros...
Neste blog, estou resenhando alguns álbuns que encontrei ao longo do caminho e outros que descobri por acaso no início do meu despertar musical. Este pertence àquele grupo daqueles primeiros álbuns, de quase 20 anos atrás. Tive um grande mentor para ouvir música, Alberto Lizarralde, que também foi meu professor de violão na Jazzle, uma academia de música moderna em San Sebastián. Admito que o incomodei bastante com o violão; eu não estava totalmente convencido de que algum dia tocaria como Bill Frisell ou Pat Metherny; era bastante frustrante, claro, quem mais estava lá para me inspirar. No entanto, acho que a experiência daqueles cafés depois das aulas, aqueles 10 ou 20 minutos de conversa no saguão da sala de aula, com catálogos de discos e revistas especializadas em jazz, e aqueles dinheirinhos roubados da minha mãe por discos todo mês, representaram o início da minha coleção de música até eu conseguir meus primeiros empregos como professor. Aquele café e o que aprendi fora da sala de aula valeram o preço daquelas malditas aulas, pelo menos para mim (não sei quanto à minha mãe, ela ainda se arrepende). Estudar jazz em San Sebastián naquela época era realmente único, para dizer o mínimo, e certamente, alguns anos atrás, era ainda mais único, se possível. O fato é que Alberto, um dos amantes da música mais impressionantes que já conheci, devido à sua natureza requintada, sibarita e conhecedora, me incentivou a mergulhar no mundo da ECM (e em outros universos), e este é um dos álbuns que comprei sob sua influência. Ouvindo-o hoje em dia, com o ouvido e o sentido que vêm de 20 anos de experiências vividas e ouvindo álbuns, ainda tenho a mesma sensação que tive na primeira vez que o ouvi. Estávamos comentando naquela época sobre a dupla personalidade de Egberto Gismonti: Jekyll no piano e Mr. Hyde no violão. Em toda a sua música, emerge uma força que emana diretamente de suas raízes, do folclore daquele imenso Brasil. No entanto, quando está ao piano, seu conhecimento e influência de compositores europeus, de Satie a Debussy e Ravel — este músico singular teve a oportunidade de se formar em Paris com professores de vanguarda, herdeiros de Schoenberg e Webern — e sua música frequentemente atinge patamares melódicos e harmônicos de luz e beleza espetaculares, enquanto no violão, escurece e desenvolve música de maior intensidade rítmica, e harmonicamente mais abstrata e ousada. Isso não significa que ele não seja uma fera no piano, às vezes desenvolvendo jogos rítmicos quase impossíveis. Ele é capaz de gerar uma atmosfera delicada e frágil, onde tudo parece prestes a se romper, e então se transforma em um ser selvagem montado nas costas de um puro-sangue indomável, e então sua música é violentamente impulsionada. Ele pode ser pensativo, gentil, obsessivo... e cada mudança de estado entre as peças ou dentro de uma única peça acontece naturalmente, numa espécie de anel sonoro e emocional de Möbius. Ao contrário de outros álbuns adorados, que parecem se transformar a cada vez que os ouvimos, a força das composições e a energia interpretativa fazem deste álbum ser sempre aquele álbum, a música aquela música, e cada momento aquele momento. Acho que estamos lidando com uma obra completa, uma obra maravilhosa, um álbum lindo. Aproveitem com os meus melhores votos.
Santi Noriega
Em suma, "Infância" é um álbum nostálgico e evocativo que combina elementos de folk, jazz e música clássica, com instrumentação única e composições complexas. Como disse um crítico que li, um álbum que te envolve, te absorve e não te deixa escapar. Ele te comove como o mar. Às vezes te acalma, outras vezes te envolve e te arrebata como aquela onda que esperamos quando crianças na praia. Ele sempre te comove. Cada música é uma história, e dentro de cada história, mil outras, todas separadas e todas juntas.
Chegará o dia em que as sensações receberão nomes técnicos, mas, enquanto isso, ficarei contente em me deixar levar, em admitir minha ignorância e em aproveitar, aprendendo a cada dia.
Lista de Tópicos: 1. Ensaio de escola de samba (Dança dos Escravos) 2. 7 Anés 3. Meninas 4. Infância 5. A fala da paixão 6. Recife & O amor que move o sol e outras estrelas 7. Dança No.
Formação: - Egberto Gismonti / Piano e guitarras - Nando Carneiro / Sintetizadores e guitarra - Zeca Assumpção / Baixo - Jacques Morelembaum / Violoncelo
Relembramos o primeiro ápice do pós-rock: a efêmera banda Bark Psychosis e sua obra-prima, "Hex", com muitos dos mesmos ingredientes que mais tarde se tornariam parte de bandas como Radiohead, Tortoise, The Mercury Program, Stereolab, Mogwai e similares. Inspirando-se na música ambiente, em projetos como Talk Talk, David Sylvian e, em menor grau, AR Kane, Tangerine Dream e The Blue Nile, eles desenvolveram com sucesso as ideias de todos esses artistas e as enriqueceram com grande beleza, criando um álbum evocativo e cativante, não excessivamente complexo, mas elaborado com evidente paixão e cuidado, com composições que buscam emoção e aplicam com elegância o refinamento tecnológico. E mais um álbum que poderíamos definir como "ame-o ou odeie-o", mas desta vez um pouco diferente dos álbuns desse tipo que costumamos publicar aqui.
Artista: Bark Psychosis Álbum: Hex Ano: 1994 Gênero: Post Rock, Experimental Duração: 51:11 Referência: Discogs Nacionalidade: Inglaterra
"Hex", do Bark Psychosis , foi lançado em 1994 , e foi com base neste álbum que o crítico musical Simon Reynolds cunhou o termo "pós-rock".
Mas não vou me alongar nos comentários, pois muitos já escreveram sobre isso...
Mais uma vez, uma daquelas bandas cujas origens não me lembro, mas este álbum vale muito a pena compartilhar. E não vou mentir para vocês, mas NÃO SEI ABSOLUTAMENTE NADA sobre a banda. Nem os integrantes, nem os anos de atividade, nem o local, etc. Mas não importa... O álbum que estou trazendo para vocês é excelente, então tentarei escrever algo compreensível. Curto, mas, ei, vocês sabem que não é o estilo deste blog postar apenas o link. Acontece que o Bark Psychosis é uma banda de Londres, formada em 1986. Eles são considerados um grupo pioneiro dentro do que veio a ser chamado de "pós-rock". Desde sua estreia com o primeiro EP, "Clawhammer", em 1988, eles lançaram mais de oito singles e EPs até seu primeiro álbum completo, "Hex". As gravações de "Hex" começaram no final de 1992 e, devido à experiência com EPs anteriores, grande parte do material foi gravado na Igreja de St. John, em Londres, devido à acústica do local. O som do Hex nos lembra bandas como Talk Talk (o belo som de "Spirit of Eden" e "Laughing Stock"), e em muitas ocasiões me lembrou do No-Man. "Hex" tem um som bastante variado, ora acústico, ora agressivo, mas sempre com texturas eletrônicas, vocais suaves e letras um tanto peculiares. E, segundo o líder da banda, Graham Sutton, "o conceito de música ambiente é o que melhor lhe convém". Em uma resenha do álbum em 1994, um jornalista fez alusão ao termo "pós-rock" e, de certa forma, o popularizou. E Bark Psychosis foi reconhecido desde o início como um dos pilares. E "Hex" mantém seu status cult desde então, com boas vendas e aclamação da crítica. Infelizmente, "Hex" é praticamente o único álbum da banda, sem contar os EPs. Apenas um outro álbum foi lançado em 2004, mas o som não mudou. Desde "Hex", Graham Sutton se inclinou mais para o lado dance-electro, afastando-se da instrumentação ambiente e acústica. Isso torna "Hex" um lançamento único, comparável a grandes clássicos, e sem dúvida soando como uma influência para bandas como Mogwai.
Depois de tudo o que essas pessoas que escrevem tantas coisas sobre os álbuns que ouvem dizem, tudo o que você precisa fazer é prestar atenção (imagino que a maioria dos que estão lendo isso não conhecia essa banda e esse álbum) e ver de que lado você está: ou você gosta ou odeia.
E agora vamos com o último comentário de terceiros...
Bark Psychosis e Hex: A Semente e a Inspiração do Pós-Rock. Apesar de ser uma banda de vida relativamente curta e com pouco material lançado, o Bark Psychosis foi instrumental no desenvolvimento e na expansão da linguagem do rock durante a década de 1990, uma influência que impactou bandas como Piano Magic, Hood, Rothko, Labradford, Matmos, Tortoise e muitas outras. Três décadas após seu único LP, Hex, sua relevância permanece inalterada. Foi com o lançamento desse álbum de estreia que o jornalista britânico Simon Reynolds começou a usar o rótulo "pós-rock" — primeiro para uma resenha na revista Mojo e depois em um longo artigo para a The Wire — para se referir a uma nova geração de artistas cujo desejo determinado por risco lhes permitiu expandir os limites do rock, remodelando-o por meio de processos criativos livres de preconceitos e desprovidos das restrições típicas que tradicionalmente aprisionaram muitos músicos de rock. O trabalho do Bark Psychosis foi inovador e revolucionário desde o início, tornando-o muito difícil de definir. Uma mistura requintada e esbelta de atmosferas eletrônicas e ritmos pop mutantes, passagens experimentais, vocais lânguidos, guitarras translúcidas e bases rítmicas multitimbrais fizeram do Bark Psychosis uma banda única em seu estilo, com dívidas inegáveis ao som do Talk Talk dos álbuns Spirit of Eden e Laughing Stock. A origem do Bark Psychosis e o caminho para o Hex Sem dúvida, a cunhagem do termo vago e abstrato pós-rock foi apropriada. O Bark Psychosis foi formado em 1986 por quatro adolescentes, Mark Simnott (bateria), Graham Sutton (vocalista principal, guitarra), John Ling (baixo) e Daniel Gish (teclados), cujas preocupações iniciais estavam focadas no som do Sonic Youth, Swans e Joy Division, influências que eles refinariam anos depois. Seu primeiro single, Clawhammer (1988), foi seguido pelo magnífico All Different Things (1989) e o surpreendente Nothing Feels (1990), que foi o preâmbulo de suas maravilhas subsequentes. Poucos meses depois, eles lançaram o EP Manman (1991), continuando seu crescimento imparável, adicionando à sua paleta o interesse incipiente de Sutton em techno e as técnicas de amostragem e programação de teclado (o que levou ao seu projeto Boymerang). A evolução de sua abordagem os levou a lançar o single monumental Scum (1992), uma peça contemplativa composta de improvisações ambientais que foi gravada ao vivo em uma igreja em Strafford, Inglaterra. Hex, o primeiro ápice do post rock No auge de sua criatividade, e após essa sequência espaçada de singles, Bark Psychosis começou a gravar seu aguardado primeiro álbum completo, um processo que duraria um ano e os deixaria financeiramente e emocionalmente devastados. O resultado foi Hex (1994), um álbum massivo e amplamente aclamado pela crítica e pelo público. A faixa de abertura outonal, "The Loom", define o tom desde o início. O piano de Gish, o contrabaixo de Ling, a voz de Sutton e as cordas do The Duke Quartet formam um ponto de entrada fenomenal. Uma das faixas-chave, "A Street Scene", surge imediatamente, com uma bateria abafada explodindo em um ritmo jazzístico, um baixo que carrega o fio condutor, uma voz calma e o grande trompete de Del Crabtree. O final, quase em câmera lenta, com arpejos cuidadosos, nos hipnotiza gradualmente. O som da fase final de Talk Talk gira em torno de "Absent Friend", com Matt Simmott muito em linha com o estilo multitimbral de Lee Harris, Sutton quase sussurrando e criando atmosferas com a guitarra. O vibrafone de Pete Beresford na seção final embeleza ainda mais a faixa. "Big Shot" é uma faixa inspirada em paisagens e, se não fosse pelo fato de ser tocada em paralelo, poderíamos dizer que é influenciada por Tortoise. É a ponte perfeita para o trio de peças finais monumentais, todas com mais de oito minutos de duração. "Fingerspit" se move furtivamente ao longo de seu desenvolvimento, com alguns breves vislumbres; "Eyes and Smiles" retorna ao espírito de Laughing Stock com um desenvolvimento lento que ganha densidade, tanto ritmicamente quanto pela presença do trompete, tudo envolto em uma guitarra cíclica; e o grand finale com o deslizar de dez minutos de "Pendulum Man" é simplesmente extraordinário. No entanto, apesar da excelente aclamação da crítica, eles logo se separaram, deixando tempo suficiente para o lançamento de dois singles naquele mesmo ano, Blue e A Street Scene. Duas retrospectivas póstumas, Independency (1994) e Game Over (1997) contêm boa parte de seus singles e colaborações, tornando esses dois álbuns obras essenciais dentro de sua discografia, complementares a Hex. (...)
Lista de faixas: 1. The Loom (5:15) 2. A Street Scene (5:35) 3. Absent Friend (8:20) 4. Big Shot (5:20) 5. Fingerspit (8:21) 6. Eyes & Smiles (8:30) 7. Pendulum Man (9:53)
Formação: - Graham Sutton / vocais, guitarra, piano, órgão Hammond, escaleta, sampler, programação - Daniel Gish / piano, teclados, órgão Hammond - John Ling / baixo, sampler, programação, percussão - Mark Simnett / percussão, bateria
Com: Dave Ross / djembe Neil Aldridge / triângulo, programação Peter Beresford / vibrafone Phil Brown / flauta Del Crabtree / trompete
The Duke Quartet: Louise Fuller / violino Rick Coster / violino John Metcalfe / viola Ivan McCready / violoncelo