quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Aires de la alameda - Alameda

 

Alameda transmite, Alameda

     O álbum homônimo Alameda , lançado em 1979 pela CBS Records , marcou a estreia em estúdio de um dos grupos mais representativos do chamado movimento do rock andaluz. Embora a banda, sediada em Sevilha, tivesse se formado anos antes, foi após a morte de Franco que o contexto político permitiu maior liberdade criativa, e o Alameda aproveitou esse momento para moldar um som que fundia flamenco com rock progressivo, jazz e música sinfônica.  O grupo era formado pelos irmãos Rafael e Manuel Marinelli (teclados), Pepe Roca (vocal e guitarra), Luis Moreno (bateria) e Manuel Rosa (baixo). O som do grupo se distinguia pela instrumentação refinada, com arranjos de piano elétrico e sintetizador interagindo com guitarras de timbre limpo e ritmos influenciados pelo flamenco. Embora o Alameda fosse frequentemente comparado ao Triana   (devido a influências e estéticas compartilhadas), seu estilo mais conservador pendia para um flamenco mais melódico e menos psicodélico.  O álbum de estreia da banda,  Alameda , com sua  produção meticulosa,  consistia em dez faixas que exploravam diferentes facetas do sentimento andaluz, da nostalgia à celebração. Embora o álbum contenha muitas faixas excelentes, é Aires de la Alameda que se tornou uma das canções mais emblemáticas do grupo.

Aires de la Alameda pode ser definida como uma melancolia noturna em tom flamenco. O piano elétrico dos irmãos Marinelli desdobra uma névoa sonora que se entrelaça com a guitarra de Pepe Roca como um suspiro ao amanhecer, enquanto a seção rítmica emerge com a cadência serena de um passeio noturno pela Alameda.  A letra é uma ode à noite sevilhana, aos passeios pela Alameda de Hércules , o jardim mais antigo da Espanha, um lugar repleto de história e simbolismo.  Os acordes acompanham suavemente a atmosfera melancólica que envolve tudo, enquanto a voz de Pepe Roca consegue nos envolver e transmitir a profunda emoção que sente, como se estivesse compartilhando algo muito pessoal. A música fala por si só.  Em entrevistas posteriores, os membros da Alameda indicaram que esta canção foi concebida como uma declaração de intenções. Eles queriam mostrar que o flamenco poderia coexistir com o rock sem perder sua essência, e Aires de la Alameda  consegue isso com elegância.  Embora Aires de la Alameda não tenha alcançado a popularidade de Triana ou Medina Azahara , tornou-se um marco do gênero, e seu impacto perdura ao longo dos anos. Hoje, é considerada uma peça fundamental para a compreensão do espírito do rock andaluz, que na época buscava preservar e reinterpretar a identidade cultural da Andaluzia.


Fool in the Rain - Led Zeppelin


"Fool in the Rain" foi lançada como single em dezembro de 1979, em resposta à recepção entusiástica do álbum *Through the Out Door*, lançado um mês antes. Foi apenas o décimo e último single lançado pelo grupo, de seus oito álbuns de estúdio, antes da morte de John Bonham e subsequente separação em 1980. Em *Through the Out Door*, Plant e o baixista John Paul Jones assumiram um papel mais proeminente na composição do que nos álbuns anteriores do Led Zeppelin, com Jones particularmente entusiasmado com seus experimentos com um novo tipo de instrumento musical. Isso se deveu à contribuição limitada de Jones para a composição de *Presence* (1976), o que gerou algumas tensões. Um grande evento esportivo ajudou a inspirar uma das faixas de destaque do álbum, a balada romântica "Fool in the Rain", conduzida pelo piano, que inclui um extenso interlúdio de samba com tímpanos e apitos de rua.

"Fool in the Rain" é uma música muito incomum para o perfil da banda. "Acho que não a teríamos tocado se as circunstâncias fossem diferentes", disse Plant a JJ Jackson em uma entrevista de 1979. Mas com a Copa do Mundo na Argentina em 78 e o fato de a América do Sul estar presente sempre que se assistia futebol na televisão, havia sempre um ritmo sul-americano ao fundo. Não é uma tentativa de imitar Carlos Santana nem nada do tipo. É um pouco mais variado e direto, sabe?" A música foi um enorme sucesso nas paradas, alcançando o número 21 em fevereiro de 1980. A banda ainda não se importava com esse tipo de coisa: "Só queríamos compor boa música que se sustentasse por si só", comentou Page modestamente. "A música comercial tende a ser um pouco efêmera." No verso inicial de "Fool in the Rain", Plant expressa seus sentimentos por uma mulher. Mas a ansiedade pesa muito sobre suas emoções. Como em muitas músicas do Led Zeppelin, o título é um tanto enganoso, já que a frase "Fool in the Rain" nunca aparece na música. Você pode até pensar que o título é "Light of the Love", já que é o mais próximo de um refrão. Mas o título é apropriado, pois a música conta a história de um homem apaixonado que, de fato, acaba na chuva, tanto literal quanto figurativamente, enquanto espera por sua amada. Plant parece se deleitar em interpretar o romântico incurável, mesmo quando elogia o brilho em seus olhos. O elogio é ambíguo: "Eu "Odeio pensar que fui enganado, querida." Ele lamenta: "Você jurou que nunca me deixaria, querida / O que aconteceu com você?" Soa como uma falsa ameaça quando ele diz que não vai mais esperá-la: "Mais dez minutos, não mais / E então eu me viro." No verso final, ele praticamente sofre um colapso físico, refletindo a natureza de sua paixão frustrada. Ele então percebe que merece tanta culpa por sua ingenuidade e imprudência quanto ela por sua indiferença: "Os pensamentos de um tolo são imprudência / Eu sou apenas um tolo esperando no lugar errado." Essa pequena reviravolta cômica combina com o tom descontraído de "Fool in the Rain". A música pode não ter soado como um Led Zeppelin típico, mas certamente soou como um sucesso.

Em *In Through the Out Door*, o Led Zeppelin experimentou diversos estilos. "Fool in the Rain" foi composta em estilo samba, e seu ritmo latino confere à canção uma leveza especial. O ouvinte se identifica com as ações desajeitadas de Plant, e se fosse uma comédia romântica, seu encontro poderia aparecer no último minuto, justamente quando ele está prestes a ir embora. Mas não aqui. E Plant, ainda distante, encerra a música repetindo: "Light of love I found" (Luz do amor que encontrei). Page era conhecido por sua aversão a lançar singles, preferindo que os ouvintes se concentrassem no álbum completo. No entanto, "Fool in the Rain" mostra o lado mais otimista de uma banda que luta contra as adversidades.


ROCK ART


 

Fleshgod Apocalypse: crítica de Labyrinth (2013)

 




Formado em Roma no ano de 2007, o Fleshgod Apocalypse rapidamente encontrou o seu devido espaço entre as toneladas de bandas de metal extremo que surgem a cada dia, boa parte graças à inteligente fórmula que tem como proposta unir o mais extremo death metal com um cuidadoso trabalho de arranjos orquestrais. Com turnês ao lado de nomes como Behemoth, Origin, Whitechapel e Decapitated, os italianos vem desenvolvendo a sua música singular a passos largos, como pode ser visto em Oracles, de 2009, e Agony, de 2011.
 Colunas portáteis


O novo trabalho, intitulado Labyrinth, produzido mais uma vez por Stefano Morabito e lançado pela Nuclear Blast, é uma obra conceitual que não se limita a contar o conhecido mito do minotauro no labirinto, mas utiliza-o como base para uma temática contemporânea e introspectiva, tanto lírica quanto musicalmente.


Seguindo a mesma linha de contrastantes elementos, “Kingborn” introduz ao  álbum com uma violência não apenas construída graças ao absurdo trabalho da bateria e das guitarras, mas em como os arranjos orquestrais e operísticos estão bem mais a frente, agregando importantes detalhes a cada segundo. Um pouco diferenciada, “Minotaur (Wrath of Poseidon)” vem em seguida em ritmos menos acelerados, aonde os papeis se alternam, com a orquestra ditando o andamento da faixa, enquanto “Elegy” é o mais absoluto caos, como um campo de batalha aonde todos os instrumentos parecem estar travando uma guerra cacofonia de diversos momentos um tanto quanto desagradáveis, mas de excelentes resultados, em que cada pausa de tranquilidade é apenas um suspense antes de mais uma sucessão apocalíptica.


“Towards the Sun”, por outro lado, insere pequenos experimentos no que diz respeito à progressão e desenvolvimento da música, por caminhos tortuosos de um elevado sentimento épico que se mantém em “Warpledge”, com seus ritmos catastróficos que parecem um híbrido entre o Therion e a escola polonesa de death metal. E por falar no dinâmico leque de influências do Fleshgod Apocalypse, o lado mais melódico e ligeiramente próximo da sonoridade típica do power metal se revelam bem evidentes em “Pathfinder”, principalmente com as vozes limpas de apoio.


Descontroladamente, “The Fall of Asterion” amontoa passagens que se intercalam entre riffs do mais puro death metal com obscuras atmosferas daquele symphonic black metal tipicamente do final da década de noventa e arranjos neoclássicos. Como um momento de calmaria, os dedilhados acústicos de “Prologue” antecipam a miscelânea de passagens cadenciadas em “Epilogue”, faixa ascendente aonde a orquestra cria uma camada sonora extremamente representativa e coerente com o sentimento de superação da letra.


A mais longa faixa em um disco dos italianos, a epopeia “Under Black Sails” resgata ao longo de mais de sete minutos a raiz mais ligada ao technical death metal, as características mais presentes no seu primeiro álbum mescladas a insanidade sinfônica que eles atingiram aqui, elevando a complexidade de compreensão em mais alguns degraus. Como o soturno desfecho de uma tragédia grega, a peça instrumental que dá nome ao trabalho é como o despertar de um pesadelo que invariavelmente deixa marcas profundas na mente.


Até porque Labyrinth é definitivamente uma jornada, aonde o nível de imersão proporcionado por cada uma das faixas, bem como suas estruturas, torna a experiência exageradamente esquisita e excessivamente complexa, a princípio, tamanha a quantidade de elementos e pequenos detalhes (mas importantes) com os quais o Fleshgod Apocalypse golpeia incessantemente o ouvinte.


E exatamente como estar dentro de um labirinto, aonde o caminho escolhido toma rumos inesperados e você simplesmente não sabe (e teme) o que pode estar após cada mudança ou virada, o novo trabalho dos italianos extrapola o conceito metafórico sobre a exploração de si próprio para a forma como organiza as suas composições e como o caos é personificado em um álbum que se mostra extremamente interessante quando a sua proposta é entendida.


Grandes mudanças em relação ao disco anterior, Agony, que efetivamente colocou a banda entre os nomes singulares da geração mais recente da música extrema? De fato, não. Mas é perceptível como o Fleshgod Apocalypse amadureceu a sua fórmula de maneira notável, agregando de forma mais importante as influências já presentes em seus discos e enfatizando os seus elementos diferenciais, os personagens principais em Labyrinth.
 


Talvez sejam necessárias algumas tentativas de audição, mas eventualmente o caminho pode ser encontrado.


Faixas:
01. Kingborn
02. Minotaur (Wrath of Poseidon)
03. Elegy
04. Towards the Sun
05. Warpledge
06. Pathfinder
07. The Fall of Asterion
08. Prologue
09. Epilogue
10. Under Black Sails
11. Labyrinth




The Strypes: crítica de Snapshot (2013)

 



O primeiro disco do quarteto irlandês The Strypes está longe de ser uma obra-prima ou algo que irá mudar a história do rock. Porém, isso não o torna menos impressionante. Formado por quatro garotos com idades entre 16 e 17 anos, o grupo entrega em Snapshot um rock turbinado com doses generosas de blues, na linha do que era feito pelas bandas inglesas na primeira metade da década de 1960.

O The Strypes causou burburinho quando surgiu, em 2011, trazendo de volta uma sonoridade que parecia perdida. Mas não só isso: além de viajar no tempo, o quarteto apresentava inequívocos sinais de talento. E, após uma série de singles onde regravaram canções de outros artistas, a banda lançou no início de setembro o seu primeiro álbum autoral - nove das doze faixas são de autoria da banda, enquanto as outras três são versões para composições de Willie Dixon, Nick Lowe e Hambone Willie Newbern.

Ouvir Snapshot, guardadas as devidas proporções, é como ouvir o primeiro álbum dos Stones. Ou do The Who. Ou dos Kinks. Ou de qualquer outra banda britânica que tenha iniciado a sua carreira no início da década de 1960 e investia em um som mais sujo e malvado que os conterrâneos Beatles, jogando fartas doses de blues e rhythm & blues na jogada.

Produzido por Chris Thomas (não por acaso um cara com uma longa folha corrida, incluindo trabalhos para ícones como Beatles, Paul McCartney, Pete Townshend, Pink Floyd, Sex Pistols, Badfinger, Elton John e dezenas de outros), Snapshot conseguiu manter a característica esfumaçada dos primeiros singles dos Strypes. A sensação, ao ouvir o disco, é que estamos em um apertado clube londrino assistindo a banda.

Ross Farrely (vocais), Josh McClorey (guitarra), Pete O’Hanlon (baixo) e Evan Walsh (bateria) entregam uma performance convincente em sua estreia. Farrely não é Mick Jagger, mas nada impede que possa voar alto no futuro. McClorey tem muito bom gosto, tanto nos riffs quanto nos solos e texturas. O’Hanlon faz tudo pulsar de maneira constante e ininterrupta, enquanto Walsh soa como o filho perdido de Keith Moon. E, costurando tudo, há a gaita de boca marota de Ross dando o toque final.

Repetindo aqui uma frase dos já citados Rolling Stones: “it’s only rock and roll, but I like it”. Snapshot e o The Strypes são isso mesmo: apenas uma banda de rock and roll sem compromisso, formada por moleques que ainda ostentam espinhas na cara e estão começando a viver as suas vidas. Há ainda um longo caminho pela frente, mas, a julgar pelo primeiro passo, essa banda vai muito longe.

Faixas:
1 Mystery Man
2 Blue Collar Jane
3 What the People Don’t See
4 She’s So Fine
5 I Can Tell
6 Angel Eyes
7 Perfesct Storm
8 You Can’t Judge a Book by the Cover
9 What a Shame
10 Hometown Girls
11 Heart of the City
12 Rollin’ and Tumblin






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