quinta-feira, 6 de agosto de 2026

TV On The Radio – Seeds (2014)


Ao quinto disco os TV On The Radio souberam encontrar perfeitamente o seu espaço no meio de tantas bandas que se vão perdendo no tom ao longo do caminho. Seeds não fica atrás dos melhores momentos da banda, como Dear Science (2008) ou Return to Cookie Mountain (2006). E se o disco de 2011, Nine Types of Light, passou razoavelmente despercebido este Seeds é representativo daquilo que os TV On The Radio são capazes de fazer.

O disco, note-se, foi gravado pouco depois da morte prematura do baixista Geral Smith, o que confere ao álbum um registo de catarse, onde a energia transborda em cada faixa.

Logo a abrir temos «Quartz», uma profusão de palmas e coros com influência africana e a voz sempre característica de Tunde Adebimpe loops a marcar o ritmo e uns toques de electrónica. «Careful You» segue no mesmo registo, com partes cantadas em francês e um tom quase futurista. As guitarras só aparecem verdadeiramente à terceira faixa, «Could You». E o single, «Happy Idiot», já é despudoradamente rock.

As mudanças de registo entre os loops e o electrónico para um registo mais rock introduzem alguma inconsistência mas não retiram valor ao disco. Segue-se «Test Pilot», lento e onde se destaca a voz, com uma guitarrada a surgir volta e meia. Já «Love Stained» é provavelmente das faixas mais marcantes do disco.

Oscilando entre o rock e o electrónico repleto de loops os TV On The Radio vão-nos presenteando com canções como «Winter» ou «Lazerray», mais densas, com mais guitarras. Mas a maior surpresa vem, talvez, no piano seguido de crescendo em «Ride», um momento totalmente inesperado que vai crescendo ao longo da música. Já «Trouble» parece quase uma continuação de «Happy Idiot» mas passamos de «ignorance is bliss» para «don’t worry be happy oh you keep telling yourself», num tom introspectivo marcado, novamente, por loops.

Não é de estranhar, devido à recente morte de Smith, que o álbum acabe por ser um tributo, mais expresso nestas duas faixas, sobretudo em «Trouble». A fechar, «Seeds» dá um tom mais alegre, quase de renovação, deixando no ar uma sensação boa, de um disco completo e positivo – se não soubéssemos as circunstâncias não o adivinharíamos.



Have A Nice Life – The Unnatural World (2014)

 


Primeiro, os factos: The Unnatural World é o segundo longa-duração deste duo de Conneticut, um esforço longo que mantém a identidade criada com Deathconsciousness (2008), consolidada nesta mão cheia de anos que durou a gestação do sucessor que este ano nos chegou.

Compreendo a necessidade da criação de géneros e sub-géneros, e aceito a sua mais-valia na organização de todas as mediatecas. Mas não consigo evitar não chocar com o vasto espólio disponível quando oiço bandas como os Have A Nice Life. Eu queria dizer-vos, para simplificar, que os Have A Nice Life são shoegaze, mas é mentira, ou melhor, não chega. Se não, reparem se «Defenestration Song» não está carregada de pós-punk, com a bateria seca mas a encher todo o tema, e a guitarra a marcar presença com discrição mas cheia de personalidade e a apoderar-se dos nossos ouvidos.

A dificuldade em enquadrar a música dos Have A Nice Life não podia ser mais elogiosa, porque em última análise será um reflexo do processo de composição e criação a que a banda se propõe. Temos que assinalar esta confiança criativa, esta vontade de se movimentarem entre géneros e acima disso o modo como ligam todas as peças harmoniosamente – o par «Music Will Untune the Sky» e «Cropsey» é o mais bem sucedido de todo o álbum, um prelúdio drone que precede uma rajada de música suja, ruidosa e que acaba por se desfazer em murmúrios menos perceptíveis e perturbadores.

Porque é que, mesmo com as presenças do pós-punk ou do drone, vos digo que os Have A Nice Life são shoegaze? Dêem ouvidos à produção deste The Unnatural World e deixem-se levar por esta sujidade subjacente a todos os temas. É para este lugar onde acabamos embrulhados nesta mistura coloidal de vozes e instrumentos e ruídos que os Have A Nice Life nos levam desde 2008 e shoegaze é isto mesmo. E mesmo que a música de Dan Barrett e Tim Macuga possa lembrar-vos outros géneros, o shoegaze está em cada tema deste disco, sem cair nunca no exagero de ser indistinto e imperceptível. É isto que torna este shoegaze único e é por isso que neste género, os Have A Nice Life fizeram o álbum do ano.



Pallbearer – Foundations of Burden (2014)


Em 2012, quando os Pallbearer editaram o seu disco de estreia, Sorrow and Extinction, os especialistas consideraram-no um dos melhores trabalhos do ano dentro do seu género: doom metal à antiga, daquele para rijos. Dois anos depois, a banda de Little Rock traz-nos o segundo disco.

O segundo disco, esse pau de dois bicos.

O segundo trabalho é como o segundo teste daquelas cadeiras tramadas na faculdade. Até nos podemos ter safado bem à primeira, mas, se o segundo nos corre mal, sabemos que vamos facilmente ficar muito mais marcados com esse do que com o anterior. Nesta questão dos primeiros e segundos testes, os Pallbearer podem considerar-se dentro da média, daqueles que se safam de forma equilibrada nas duas provas, que até progridem na segunda, mas, para serem brilhantes, não se podem limitar aos apontamentos das aulas.

De Sorrow and Extinction para este Foundations of Burden, o salto maior foi dado no estúdio. A boa recepção do disco de estreia deu os seus frutos, e a cadeira de produtor acabou a ser ocupada por Billy Anderson, conhecido pelo seu trabalho com Sleep, Neurosis ou Swans, entre outras dezenas de bandas. É evidente logo na primeira audição que um produtor experiente pode fazer toda a diferença. O som dos Pallbearer é agora mais cheio, mais coeso. As guitarras, por exemplo, ganharam uma dimensão que não atingiam até aqui, com «Foundations» a ser um bom exemplo disso mesmo logo nos primeiros minutos, quando as guitarras não precisam de ser tão sujas para se evidenciarem e soarem muito maiores.

Mas se na produção e consequente qualidade técnica do som a progressão é evidente, ficam dúvidas sobre se os objectivos terão sido atingidos a nível criativo. Na verdade, não fossem as produções distintas, teríamos alguma dificuldade em distinguir um disco do outro. No entanto, o detalhe que me pareceu mais gritante durante as audições foi não pensar nunca em Foundations of Burden como um álbum de 2014. Se por um lado existem aqueles trabalhos feitos antes de nascermos de que não nos cansamos de ouvir e que fazem décadas sem um ruga, por outro lado há discos (como este) que parecem mal desenterrados de outro ano, com uma sonoridade limitada a uma linha cronológica que não é a de agora: não consegui não ficar desiludida com isso.

Num mercado volátil e feito de ondas e modas como é o da música, parece-me que existem dois grandes grupos de melómanos: nichos apaixonados por géneros muito específicos com carência de novas produções que podem e devem ser abordados; depois, uma massa heterogénea de ouvintes com a vontade de ouvir música de géneros distintos, à condição de se mostrarem relevantes, de trazerem novidades para cima da mesa. Foundations of Burden não deixa de ser um bom álbum de doom metal, mas o apego ao cânone do género é tão forte que, entre nichos homogéneos e massas heterogéneas, os Pallbearer só conseguirão agarrar os primeiros.


St. Vincent – St. Vincent (2014)

 


Sempre fui um pouco resistente ao som de St. Vincent, confesso. Explico melhor, para que não me interpretem erroneamente: nunca consegui perceber o fascínio imediato e sincero que tanta gente tem pela senhora em causa, nem nunca entendi tantos encómios atribuídos pela critica da especialidade. Esforcei-me ao ponto de ouvir com atenção os seus primeiros dois discos, e nada… Reconheci a qualidade dos álbuns em questão (isso, ou seja, o seu valor, parece-me inquestionável), mas havia sempre alguma aresta que ficava por assimilar. E, pior ainda, era essa parte menos positiva que acabava por preencher, na minha cabeça, a totalidade do seu inegável valor. Cheguei a ter muitas esperanças no disco que gravou com David Byrne, músico que desde muito cedo aprendi a gostar, e de quem só tenho boas memórias dos concertos que dele vi, e dos discos que dele tenho, tanto com os saudosos Talking Heads, como a solo. E tenho-os todos, note-se. Resultado: nova deceção parcial, digamos assim. Curiosamente, já muitos meses depois de ter saído (em março de 2014, ou em 2013 como consta na contracapa do cd?) dou comigo a fazer nova tentativa de aproximação: a rodela de policarbonato de St. Vincent intitulada St. Vincent entrou na gaveta mágica e começou a tocar. De início, tudo na mesma. O meu sangue continuava a correr como sempre correu quando a ouvia em trabalhos anteriores. Mas alguma coisa foi-me convidando a carregar no repeat, e esse fator indizível (é terrível quando não sabemos bem como chamar as coisas pelos nomes, não é?) entranhou-se como nunca havia acontecido em mim. Pareceu-me que o início do milagre que eu tanto desejara poderia andar por perto. O que terá, então, acontecido? Não sei, nem me interessa, e por isso os próximos parágrafos serão redigidos mais no sentido das impressões, do que das certezas. Essas, se algum dia as tiver, talvez possam vir a fazer de mim aquilo que ainda não sou atualmente: fã.

«Digital Witness» e «Birth In Reverse» são, indiscutivelmente, boas canções. E como são boas, acabam por fermentar, tornando-se, aos poucos, melhores ainda. Isso foi importante para o meu ouvido desconfiado. Animou-me, deu-me confiança. Fui também encontrando, ao longo do disco, aquilo que me parecem ser ecos (distantes, eu admito sem qualquer dificuldade) de Kate Bush, por exemplo. A descoberta fez-me sorrir de agrado. Outra coisa que me pareceu óbvia é que este disco soa a um produto mais acabado, mais polido, o que sempre ajuda a cimentar a qualidade do material, sem que no entanto se descambe num cenário mais popular, o que a acontecer seria trágico. Por outras palavras, parece-me que St. Vincent deixou de lado uma ideia que pode ser irritante (e no caso vertente era, seguramente), que é a de fazer música espertinha, para entendidos, para os intelectualmente pós modernos, se é que me faço entender. (Eu avisei que avançaria mais com impressões do que com certezas, não avisei?). Ou seja, fui constatando ter em mãos um conjunto de coisas boas, de qualidade inquestionável, canções prontas a uma degustação auditiva mais demorada, mas também potencialmente mais prazerosa. Passei a saber, inclusivamente, que a senhora se chama Annie Clark, o que mostra bem o meu crescente interesse pela artista, e simultaneamente o meu quase total desinteresse anterior por ela. Investiguei, quis conhecer um pouco do seu passado, documentei-me. Tê-la visto num programa do Jools Holland também acabou por somar pontos a esta equação que estava difícil de resolver.

No fundo, e para terminar o que venho escrevendo, quero apenas dizer que a música, assim como outras manifestações artísticas, tem este condão especial, que é o da surpresa. Isso pode ser uma coisa estimável, como bem sabemos. Prevejo, no entanto, que num futuro próximo, eu e Annie Clark (prefiro tratá-la assim, agora que começa a haver entre nós alguma intimidade) voltemos a estar perante mais uma prova de fogo, embora me pareça também certo que eu já não estarei à partida tão renitente, e por isso mesmo St. Vincent me parecerá mais capaz de mexer com a minha tensão arterial. Veremos o que esta relação vai dar… Para já, posso dizer-vos que estou a gostar do namoro.



quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Orpharion – A Faraway World (remastered deluxe edition) (2026)



Country: Türkiye
Genre: Symphonic Metal, Female Vocal, remaster
Year : 2026

Tracklist:
Disc 1 of 2
1. My Heart Draws A Dream (05:10)
2. Lurking Truth (05:19)
3. Fire Mountain (04:42)
4. Sleep Well (05:34)
5. Majestic Lights (04:17)
6. Song Of The Exiled Ones (05:10)
7. The Storyteller (04:39)
8. Dead Marshes (10:13)
9. The Broken Seal (04:00)
Disc 2 of 2
1. My Heart Draws A Dream (instrumental) (05:10)
2. Lurking Truth (instrumental) (05:20)
3. Fire Mountain (instrumental) (04:42)
4. Sleep Well (instrumental) (05:34)
5. Majestic Lights (instrumental) (04:15)
6. Song Of The Exiled Ones (instrumental) (05:11)
7. The Storyteller (instrumental) (04:39)
8. Dead Marshes (instrumental) (10:11)
9. The Broken Seal (instrumental) (04:00)

MUSICA&SOM ☝


Jimmy Martin – Past to Present – 2026

 


Genre: AOR, Melodic Rock, Pop Rock
Country: Luxembourg
Year of Publication: 2026
Publisher: Sonic Revolution
Catalog Number: SR26C3726

Tracklist:
04:17 | 01. Jimmy Martin – Mystery Girl
03:15 | 02. Jimmy Martin – Love Never Dies
03:16 | 03. Jimmy Martin – Keep on Dreaming
04:51 | 04. Jimmy Martin – I Can’t Fight Love
04:42 | 05. Jimmy Martin – Hearts in Trouble
03:38 | 06. Jimmy Martin & Simone Weis – Donne-moi une chance (Eurovision 1993)
05:43 | 07. Jimmy Martin – Driving Through the Pourin’ Rain
04:10 | 08. Jimmy Martin – When Your Smile Fades Away
03:56 | 09. Jimmy Martin – Flames
03:14 | 10. Jimmy Martin & Rick Springfield – Love Somebody (Single Edit)
03:33 | 11. Jimmy Martin – Love Don’t Live Here Anymore
04:18 | 12. Jimmy Martin & Robin Beck – I Wish You Here Tonight
03:05 | 13. Jimmy Martin – Break Free
03:21 | 14. Jimmy Martin – Born to Run
03:47 | 15. Jimmy Martin – Superhero (Single Edit)
02:43 | 16. Jimmy Martin & Tony Corleone – My Sharona (Single Edit)
03:48 | 17. Jimmy Martin – Live Your Dream
04:26 | 18. Jimmy Martin – Waiting for You (2026 Edit)
03:44 | 19. Jimmy Martin – A Woman Like You
03:21 | 20. Jimmy Martin & Maria Kissimov – Supernova

MUSICA&SOM ☝


ARIA PALEA Prog Folk • Italy

 

ARIA PALEA

Prog Folk • Italy

Biografia de Aria Palea:
Banda interessante com ótimos solos de flauta. Eles combinam muita dinâmica e mudanças de humor para criar momentos delicados e seções poderosas. Fazem uso extensivo de flauta e violão clássico. O clarinete e o saxofone também são utilizados. A influência do AREA é evidente.

Em "Zoicekardia", soam como a continuação moderna de bandas como JETHRO TULL ou DALTON, com ênfase na interação entre guitarra e flauta. "Danze d'Ansie" é uma nova joia desta banda do sul da Itália, com sua música original entre prog-folk-teatro, sob uma perspectiva vanguardista, através de um caleidoscópio criativo e alucinante. Seu som me lembra JETHRO TULL, DALTON, FINISTERRE, MARY NEWSLETTER e talvez um pouco de DELIRIUM também, devido à atmosfera folk em algumas faixas.



Zoicekardiá
Aria Palea Prog Folk

 ARIA PALEA foi uma banda que surfou na onda do revival do prog rock dos anos 90, que gerou todo tipo de banda nova e interessante que pavimentou o caminho para as décadas seguintes. Com o advento da internet, bandas de lugares distantes puderam participar do ressurgimento do interesse que atingiu o auge nos anos 70 e depois teve uma breve pausa. Este quinteto, formado por Gianluca Milanese (flauta, saxofone, clarinete), Egidio Marullo (bateria, percussão), Apollonio Tommasi (baixo), Gigi De Giorgi (vocal), Emanuele Licci (guitarra) e Fiorino Calogiuri (vocal), era originário de Leccia, cidade no extremo sudeste da Itália, situada no calcanhar da bota italiana, com vista para a Albânia a oeste.

Embora, ao pensar em prog italiano, seja natural presumir que se trata de uma exibição sinfônica e teatral, com vocais operísticos e interações dinâmicas impressionantes entre teclados, guitarras e outros instrumentos, como a flauta, sempre houve um grupo menor de bandas italianas de prog que se inclinaram para o lado mais folk, com artistas clássicos como Canzoniere del Lazio, Aktuala, Delirium, Carnascialia e Stormy Six, para citar apenas alguns. Seguindo os passos desses pioneiros, surgiram diversas bandas italianas mais influenciadas pelos sons pastorais do Genesis dos anos 70 ou pelo som clássico do Jethro Tull do que pelos sons operísticos e autênticos de bandas como PFM ou Banco.

A ARIA PALEA foi formada em 1993 e lançou dois álbuns na década de 90, sendo este álbum de estreia, ZOICEKARDI'A, lançado em 1996. O título supostamente significa "vida e coração" em grego (ζωή και καρδιά). Este álbum é basicamente uma mistura de diversas influências, sem muita originalidade à mostra. A faixa de abertura, que dá título ao álbum, imediatamente remete a um álbum da Area, particularmente "Maledetti (Maudits)", onde Demetrio Stratos se entrega a uma ginástica vocal peculiar, mas assim que essa faixa termina, a banda mergulha em um folk rock progressivo que incorpora elementos do rock com flauta do Jethro Tull e os mistura com seções acústicas pastorais do Genesis dos anos 70. Como muitas bandas italianas, a ARIA PALEA opta por cantar em sua língua nativa, o que, por sua própria natureza, confere ao álbum uma distinção em relação às suas influências inglesas.

As comparações com bandas como Dalton e Finistrerre são pertinentes, mas ARIA PALEA soa um pouco desleixado, como se fossem uma banda de garagem dando os primeiros passos, longe do nível dos grandes nomes que criam composições prog complexas e memoráveis, guiadas por melodias envolventes e que tocam o coração, enquanto deslumbram com virtuosismo instrumental. Com um total de oito faixas, metade delas com mais de sete minutos, a banda tende a se apoiar em uma linha de baixo simples sobre a qual os membros improvisam. Os vocais de Gigi De Giorgi são fracos, mas ele cumpre sua função, embora haja alguns momentos constrangedores em que sua voz falha. A segunda faixa, que encerra o álbum, ultrapassa os 11 minutos, mas é pouco dinâmica e a mais fraca do disco.

Pelo lado positivo, ARIA PALEA não soa como nenhuma outra banda que eu já tenha ouvido, apesar das semelhanças e influências óbvias. Mas, pelo lado negativo, a banda não estava pronta para o sucesso e parece estar lutando para manter sua qualidade, criando músicas decentes, porém medianas, que ocasionalmente soam estranhas. A banda certamente está no caminho certo para construir sua própria identidade, mas ainda não dominou a composição e as performances musicais para concretizá-la. Um álbum interessante que mistura folk e rock com outros elementos, como leves toques de jazz, blues e até música clássica, mas infelizmente, às vezes parece um pouco sem rumo, vagando de faixa em faixa tentando se agarrar a algo que se destaque.




Danze d'Ansie
Aria Palea Prog Folk

É mais fácil falar quando ninguém ainda disse nada. Por isso, escolhi para esta primeira resenha o segundo álbum da banda Aria Palea, sobre o qual tentarei dizer algumas palavras no meu inglês precário. Estamos em 98, mas, ao ouvir as primeiras notas, você juraria que foi gravado nos anos setenta. Após alguns encantamentos vocais e percussões, a primeira faixa, Emba pu'c'éssu, evoca muitos nomes do passado, como Barabba, Delirium, Il biglietto del inferno ou Area. Uma flauta imediatamente define o tom, envolvendo-se em um ritmo de jazz rock, até que a voz do cantor surge e, juntos, imprimem a assinatura peculiar que você encontrará em todo o álbum. Mudança abrupta de atmosfera com a segunda faixa, Notturno, onde arpejos de guitarra e, novamente, essa flauta mágica nos conduzem ao coração de uma noite tranquila. Desta vez, alguns coros femininos se fundem com o lamento suave do cantor, até que a guitarra e a bateria quebram a monotonia nos momentos finais da canção. A quinta faixa do álbum, Stella, reintroduz a música folk, mas com qualidades mais melódicas, fazendo-me lembrar um pouco o primeiro álbum de Angelo Branduardi. Com a terceira música, Anze mu : e sentenza approdo, exploram-se as raízes folk do grupo. Esta serve de introdução à quarta canção e coração do álbum, L'idea del vuoto. Impossível não pensar aqui no cantor grego Demetrio Stratos, buscando um caminho no caos organizado de sua banda Area. Contudo, mesmo que a comparação seja inevitável, a música continua ótima, incluindo belos solos de flauta e saxofone. De volta às raízes folk, com as duas últimas canções, Ablura nove quarti e La casa del re, a primeira mais longa e interessante que a segunda, fazendo referência a uma dança popular onde o cantor, desta vez narrador, conta uma história ao som de um violão ruidoso. Enfim, um álbum muito bom, talvez um pouco relegado demais aos sons do passado, mas onde a excelência dos músicos, especialmente o baterista e o flautista, é suficiente para dar um toque original. Três estrelas para mim.



ARGUS Neo-Prog • Netherlands

 

ARGUS

Neo-Prog • Netherlands

Biografia do Argus:
A banda holandesa ARGUS foi fundada por Ton van EXTEL (guitarra rítmica) e Wim WASSENBERG (guitarra, vocais de apoio), que tocam juntos em um clube local desde a década de 1970.

Eles afirmam que a ideia do projeto foi incubada por um longo tempo. Ton e Wim convidaram Ed de GROOT (baixo) e Frans NOOIJEN (teclados, vocais), um antigo parceiro de Ed, e finalmente o projeto começou em 2008. Em 2010, Jos van der HEUVEL juntou-se à banda, mas infelizmente Jos saiu pouco tempo depois por recomendação médica, sendo substituído por Sven como baterista, que colaborou com a banda no álbum de estreia por um curto período.

Em meados de 2015, o ARGUS renasceu com a entrada de Marijn SCHELLEKENS como novo baterista. Seu álbum de estreia, "Tell Me!", foi lançado em janeiro de 2016.


 Essa banda holandesa começou como um cover do Wishbone Ash, mas depois da entrada do vocalista/tecladista Frans Nooijen, o grupo decidiu compor material próprio, inspirado no prog rock. Como uma homenagem ao Wishbone Ash, o nome da nova banda holandesa passou a ser Argus, derivado do lendário álbum do Wishbone Ash. Em 2016, o Argus lançou seu álbum de estreia, intitulado Tell Me, e levou quatro anos para produzir um novo trabalho chamado The Outsider (2020). Ouvir esse álbum me causa sentimentos contraditórios: por um lado, gosto muito do som neo-prog dos anos 80, mas por outro, percebo que a composição e os vocais mostram limitações, há espaço para melhorias. Então, agora é uma espécie de invenção musical.

As coisas boas. Estou encantado com o trabalho de guitarra: muitos solos comoventes, estridentes e incendiários, alguns riffs de guitarra encorpados ao estilo Black Sabbath (Lost Girl), e como fã de Wishbone Ash e Thin Lizzy dos anos 70, adoro o som de guitarra dupla (especialmente na faixa-título e em Visions). A longa primeira composição contém algumas ideias musicais interessantes: de uma atmosfera sinistra com um trabalho de piano hipnotizante a momentos bombásticos com voos lentos de sintetizador, para mim soa como 'Neo-Prog encontra Rush' (Jacob's Ladder me vem à mente). A faixa Lost Girls oferece um piano agradável, vibrante e brilhante. E a música final, Breaking Chains, apresenta o som característico da flauta Mellotron e um solo de Hammond envolvente, na linha do Heavy Prog dos anos 70, como Deep Purple e Uriah Heep.

Há espaço para melhorias. A maioria das seis composições tem pelo menos 10 minutos de duração, então é importante manter a atenção, o que infelizmente Argus não consegue. Em grande parte das faixas épicas, minha atenção se dispersa um pouco; com menos tempo, poderia ter durado mais, eu acho. E quanto aos vocais, o cantor carece de potência e expressão, é muito medíocre. E o prog exige vocais com alcance, devido à variedade, tensão e dinâmica inerentes ao gênero.

Minha avaliação: 2,5 estrelas.




Melhores de 2022: King Gizzard & the Lizard Wizard – “Ice, Death, Planets, Lungs, Mushrooms and Lava”

 


Coletivo australiano voltado à intensa produção autoral de caráter amplamente experimental. Em sua ética musical, vale todo tipo de exploração, desde Psicodelia dos anos 60, experimentos tipo Frank Zappa e Flaming Lips, pirações totais, coisas que lembram grupos obscuros de Garage Rock viajandão, Sci-Fi Prog, Folk-Rock, Surf Music, Jazz-Rock, Death Metal ou qualquer outra ideia que lhes surja na cabeça. A natureza prolífica os levou a lançar álbuns num ritmo frenético movidos pela busca por sons e caminhos novos. Eles já lançaram alguns álbuns realmente sensacionais (“Nonagon Infinity”, de 2016, por exemplo, que nós já destacamos em nossa coluna “Grandes álbuns do século 21” – leia aqui; “Sketches of Brunswick East”, de 2017, ou “Infest The Rats' Nest”, que também destacamos como um dos melhores álbuns de 2019 - leia aqui). Em 2022, eles lançaram dois novos trabalhos, “Omnium Gatherum” e “Ice, Death, Planets, Lungs, Mushrooms and Lava”. O primeiro, eu achei mais fraco, mas o segundo é duca. Nascido de jam sessions e filtrado num trabalho de edição feito pelo líder Stu MacKenzie, mais série de overdubs, “IDPLM&L” traz canções longas, sem regras/amarras e isto os apresenta totalmente livres, mergulhando em ideias e interagindo. E a coisa toda funciona pacas. Jams mágicas em cima de grooves adjacentes ao Reggae, Jazz de trilhas sonoras com pedais wah-wah, Prog-Jazz, Rock funqueado, Santana, guitarras incendiárias, sem momento de tédio ou repetição. A banda consegue informalmente criar outro ponto alto de sua carreira (como no álbum “Butterfly 3000”, de 2021). Surpreendente a inquietude deles. Álbum brilhante e que nasce clássico.



Melhores de 2022: Marcus King – “Young Blood”

 

Guitar-hero
do Blues-Rock nascido na Carolina do Sul. Pegou numa guitarra com oito anos (!) e passou a acompanhar seu pai, um conhecido guitarrista de Blues no estado. Na adolescência, formou sua própria banda e passou a tocar em clubes, enquanto frequentava a escola. Em 2015, eles lançaram um álbum de Southern Rock psicodélico com influências da Soul Music. O grande Warren Haynes (do Gov’t Mule) gostou da banda e relançou o disco em seu selo. Isto os levou ao um contrato com a Fantasy Records. Com Haynes como produtor e mudanças na banda, Marcus King gravou um segundo álbum, em 2016. O terceiro trabalho surgiu em 2018 em meio a turnês. King, então, conheceu e ficou amigo de Dan Auerbach (do Black Keys), que o incentivou a gravar um álbum solo. “El Dorado”, de 2020, foi este álbum, gravado em Nashville/TN com produção de Auerbach e uma banda formada por veteranos da cidade. King passou a colocar toda a ênfase em seus vocais e em seu trabalho de guitarra. O disco foi indicado ao Grammy Awards e recebeu entusiasmadas resenhas. “Young Blood”, de 2022, traz Marcus King novamente sob produção de Auerbach e gravando para o selo de Rick Rubin. No formato trio (com o baixista Nick Movshon e o baterista Chris St. Hilaire), Marcus King cria uma homenagem aos clássicos Power Trios dos anos 70. Olha, o resultado é impressionante e imediatamente arrebatador. Blues-Rock poderoso, moldado em guitarras saturadas na distorção e vocais cheios de entusiasmo. Auerbach merece crédito por manter o set variado o suficiente para dar impulso ao álbum. Há alusões, por exemplo, ao Classic Rock (pense Creedence Clearwater Revival e Grand Funk Railroad). Mas o destaque claro é todo para as performances incendiárias de Marcus King que arrepia e arregaça num disco completamente fuderoso.