terça-feira, 25 de agosto de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: Neuschwanstein - "Battlement" (1979)

 


Como em tantas vezes, as origens desta banda estão em uma amizade de escola. Thomas Neuroth e Klaus Mayer eram alunos do antigo Realgymmnasium (tipo de escola secundária que focava numa formação pré-universitária alternativa com línguas estrangeiras, matemática e ciências naturais - se opunha ao Gymnasium humanista antigo e ao Oberrealschule), na cidade de Völklingen, na Alemanha Ocidental. Lá, eles se conheceram no início dos anos 70 e rapidamente perceberam que ambos tinham interesse pela música de Rick Wakeman, King Crimson e também pelo Rock Progressivo sinfônico. Devido à formação musical dos dois (Neuroth havia aprendido piano e Mayer, flauta), eles apreciavam as estruturas de música erudita e letras literárias combinadas com elementos do Rock. Decidiram formar uma banda juntos e deram-na o nome de "Neuschwanstein" (nome de um castelo construído pelo rei Ludwig II, da Baviera, que representava a era romântica em sua forma mais impressionante). Neuroth contou: "O nome precisava ser bem alemão e soar romântico. Também precisava incluir 'novo' (neu) no nome". Os outros membros da banda (em parte, da mesma escola) foram arrumados rapidamente: Werner Knäbel para o baixo, Peter Fischer para a bateria, Udo Redlich para a guitarra e Theo Busch para o violino. No início, eles se contentavam com versões cover do Prog-Rock inglês, especialmente canções de Rick Wakeman. Neste momento inicial, encontrar o baterista certo foi bastante difícil. Peter Fischer foi logo substituído por Volker Klein, que por sua vez foi substituído por Thorsten Lafleur em 73. Uli Limpert assumiu a posição de Werner Knäbel. Thorsten Lafleur deixou a banda neste mesmo ano e foi substituído por Hans Peter Schwarz. O Neuschwanstein decidiu então compor uma longa peça musical instrumental à semelhança do álbum "Journey To The Center Of The Earth", de Rick Wakeman (lançado em mai/74) e trabalhou na adaptação musical do famoso romance de Lewis Carroll, "Alice In Wonderland" (escolhido por sua atmosfera de fantasia e apto a receber uma música sofisticada e sugestiva). A estreia desta peça musical de 40 minutos ocorreu ainda em 74 no Marie-Luise-Kaschnitz-Gymnasium, em Völklingen. Em 75, a banda ganhou um concurso no Saarland State Theatre, em Saarbrücken. Encantaram o público com a riqueza orquestral e melódica de seus arranjos. Este sucesso os encorajou a ampliar horizontes musicais, o que foi facilitado pela chegada de um novo guitarrista, Roger Weiler (que entrou no lugar de Udo Redlich), muito influenciado pelo Genesis, dono de uma guitarra de dois braços e muitos pedais de efeitos. Ao mesmo tempo, surgiu Ulli Reichert, um empresário da região com grandes conhecimentos do negócio "Rock". Ele apoiou financeiramente o grupo e focou em conseguir uma chance deles gravarem comercialmente. 
Nesta nova fase, o Neuschwanstein não apenas aperfeiçoou sua música, como também elaborou cenários de palco e efeitos visuais complexos com máscaras e figurinos (pense no Genesis de Peter Gabriel). Slides eram projetados no fundo do palco, Limpert e Weiler recitavam textos pontuando partes da história. Um cenário de floresta foi montado e cores fosforescentes foram adicionadas às folhas para que as árvores brilhassem no escuro. Apesar do orçamento curto, este show foi incrível e muito profissional. Em abr/76, o Neuschwanstein fez reserva num pequeno estúdio de gravação em
Saarbrücken-Güdingen para gravar "Alice In Wonderland" em fita. Uli Limpert havia deixado a banda algum tempo antes e foi substituído pelo baixista de renome local Rainer Zimmer, que também assumiu as partes vocais de Limpert. Esta gravação foi concebida como uma demo tape para lhes conseguir mais shows (somente 32 anos depois, em 2008, a gravadora francesa Musea lançaria tais gravações em CD). O show "Alice In Wonderland" foi inovador para a Alemanha: era a primeira vez que uma banda alemã de Rock apresentava música tão longa, com cenário, figurinos, máscaras e efeitos especiais.
Em cima: Rainer Zimmer, Frédéric Joos, Roger Weiler e Klaus Mayer;
Em baixo: Thomas Neuroth e Hans Peter Schwarz
Em 1976, Frédéric Joos, que havia acabado de completar seu serviço no exército francês e ex-colega de banda de Roger Weiler, foi convidado por Thomas Neuroth para participar de uma pequena turnê com eles. O Neuschwanstein estava buscando um estilo mais "lírico" e "vocal", e Joos pareceu o cantor perfeito para isso. Seus vocais lembravam o de Peter Gabriel ou os do vocalista do The Strawbs, Dave Cousins. Novo repertório foi trabalhado com os temas sendo feitos por cada um individualmente antes das canções serem arranjadas e desenvolvidas por todo o grupo durante ensaios. Nos shows, o grupo foi aumentando a popularidade. Joos usava uma roupa toda branca, o que lhe dava uma aura angelical (embora evitasse encenações teatrais concentrando-se totalmente aos vocais/violão). Um elaborado show de luzes e muito gelo seco foram adicionados. Através da amizade entre Ulli Reichert (o empresário) e Herman Rarebell (baterista dos Scorpions), a banda conseguiu reservar horas num estúdio em Colônia, sob a direção de Dieter Dierks. As gravações ocorreram em out/78. Afiado pelos anos de estrada, o Neuschwanstein se adaptou facilmente ao estúdio. Joos fez todos os vocais, exceto na faixa-título (escrita e cantada por Rainer Zimmer). Herman Rarebell tocou bateria na faixa "Loafer Jack". "Battlement", o álbum resultante, foi lançado em 79 e vendeu 6 mil cópias, algo notável para uma banda auto produzida e sem contrato com gravadora. Deve-se considerar também que o interesse pelo Rock Progressivo havia diminuído acentuadamente nessa fase, já que o Pós-Punk e a New Wave estavam em ascensão. O disco tomava as influências do Genesis (pense fase "Trespass"), porém sem ser uma cópia xérox (um clone) sem qualquer extensão de imaginação. Sonoridade profunda, rica em texturas, excelentes musicalidade e composições. Além disso, Joos cantava (em inglês) como um Peter Gabriel do início. Então, as semelhanças com a famosa banda inglesa realmente impressionavam e as canções eram bastante boas. Havia algo também de influência do Camel (pense fase "Moonmadness") e dos primeiros trabalhos solo de Rick Wakeman. Porém, surpreendia a maturidade, o acabamento, a qualidade geral (raros para qualquer álbum de estreia). Tudo muito melódico, caloroso, lírico, agradável, um arsenal de teclados exuberantes, bela flauta, violão delicado, guitarras vibrantes, seção rítmica competente e os "vocais tipo Peter Gabriel".
Apesar da considerável popularidade do Neuschwanstein, o lançamento foi totalmente independente e o acordo de distribuição por uma pequena gravadora local (Racket Records) não ajudou. A banda ainda planejou lançar material mais acessível comercialmente, mas restrições financeiras falaram mais alto. O disco caiu no esquecimento ou nem foi notado até 1992, quando surgiu um relançamento em CD. Após "Battlement", nada mais foi lançado. Frédéric Joos deixou a banda antes mesmo do lançamento do álbum, pois ansiava por um futuro diferente e que não fosse como cantor (ele retornou à França e se tornou ilustrador de sucesso de livros infantis). Rainer Zimmer também saiu. Eles foram substituídos por Michael Kiessling e Wolfgang Bode, respectivamente. Kiessling tentou tornar os shows do grupo mais teatrais, reintroduzindo figurinos. Além disso, a orientação musical como um todo tornou-se mais intimista. No outono de 1980, no entanto, o grupo se separou com alguns membros se sentindo compelidos a cuidar de suas vidas profissionais fora da música. Havia um sentimento geral de desânimo. Thomas Neuroth e Michael Kiessling seguiram carreira musical, mas Hans Peter Schwarz e Klaus Mayer terminaram estudos universitários e desenvolveram carreiras profissionais não musicais. Roger Weiler voltou para sua banda anterior (The Nightbirds), Wolfgang Bode virou músico de Jazz. Kiessling morreu em 2019. Em 2016, após um hiato de 37 anos, o Neuschwanstein lançou um novo álbum, "Fine Art", essencialmente projeto de um homem só, do único membro original que restou, Thomas Neuroth. 





Rainbow: projeto de Ritchie Blackmore que produziu clássicos do Hard Rock

 


Joe Lynn Turner, Roger Glover, Chuck Burgi, David Rosenthal e Ritchie Blackmore
Para o álbum seguinte, "Bent Out Of Shape" (lançado em ago/83), o baterista Bobby Rondinelli (que havia substituído Cozy Powell) foi trocado por Chuck Burgi. Foi o terceiro com o vocalista norte-americano Joe Lynn Turner. O Rainbow manteve-se "ampliando horizontes" com um som crossover pronto para as rádios (pense AOR bem americanizado), entretanto buscando não perder a força e garantindo a essência Hard Rock. O resultado foi um álbum que, na superfície, tinha impacto instrumental, mas abaixo dessa superfície as canções não tinham ganchos fortes e nem eram memoráveis em si mesmas. Como de costume, havia algumas performances sensacionais de Ritchie Blackmore, mas também havia uma forte sensação de "fórmula". Os singles da vez foram "Street Of Dreams" e "Can't Let You Go". A turnê de divulgação do álbum trouxe a banda de volta à Inglaterra e também ao Japão, em mar/84, quando tocou com uma orquestra completa num concerto filmado. Então, em abr/84, foi anunciada a tão sonhada volta da formação MK II do Deep Purple (Blackmore e Glover vindo do Rainbow, Gillan vindo do Black Sabbath, Lord vindo do Whitesnake e Paice vindo da Gary Moore Band), que gravou um novo álbum em ago/84, "Perfect Strangers" (lançado em out/84). Isto levou à dissolução temporária do Rainbow. Em mar/86, no entanto, surgiu o álbum "Finyl Vinyl", montado a partir de faixas ao vivo e lados B de singles (principalmente da era Joe Lynn Turner, mas também das era Dio e Bonnet). O álbum acabava oferecendo uma "história" alternativa e casual da banda projetada para fãs hardcore (em 86, vamos ser realistas, era quase só eles que o Rainbow tinha). Para eles, aliás, o álbum era realmente um deleite. O Rainbow sempre soou melhor nos palcos do que em estúdio. Neles, o som era mais cru, mais Hard, mais vivo. As canções que soavam mal acabadas em estúdio, ao vivo ganhavam vida nova. Bem, isso não quer dizer que "Finyl Vinyl" fosse um disco perfeito. Os lados B eram interessantes, mas não exatamente essenciais. A sequência das faixas não fazia sentido e havia as pretensões eruditas de Blackmore (como a instrumental "Difficult To Cure", que incluía a 5ª sinfonia de Beethoven, gravada no último show deles no Budokan com acompanhamento de uma orquestra completa). Entretanto, era uma adição bem-vinda à discografia da banda e uma boa maneira de fechar um ciclo. Uma curiosidade: a foto icônica da capa com Ritchie Blackmore foi tirada por Ross Halfin após um concerto no Deutschlandhalle, em Berlim, em nov/82. 
Doogie White, Paul Morris, Ritchie Blackmore, John O'Reilly, Greg Smith
Em 93, Blackmore saiu novamente do Deep Purple (desta vez, definitivamente) devido à "diferenças criativas" com outros membros. Ele decidiu reformar o Rainbow com um novo quinteto (repleto de músicos semi-desconhecidos), incluindo Doogie White (cantor escocês), Greg Smith (baixo), Paul Morris (teclados) e John O'Reilly (bateria), mais Candice Night (nos vocais de apoio) e Mitch Weiss (na harmônica) como convidados. Originalmente, a ideia de Blackmore era gravar um álbum solo, mas por pressões da gravadora o trabalho recebeu o nome "Ritchie Blackmore's Rainbow" tornando-se "Stranger In Us All" (lançado em ago/95), o oitavo álbum de estúdio do Rainbow e o primeiro em doze anos. Esta nova versão da banda não era inovadora (quanto a versão original com Ronnie Dio), nem a versão AOR voltada às rádios (com Joe Lynn Turner). Era basicamente um esforço semi inspirado de reconexão à sua base de fãs de Hard Rock. É preciso reconhecer: todas as encarnações do Rainbow são reverenciadas nos círculos do bom e velho Hard Rock. Há os roqueiros (como eu) que preferem infinitamente a fase Dio, mas há fãs apaixonados pelas fases Graham Bonnet e Joe Lynn Turner. De alguma maneira, a música criada pelo Rainbow se tornou muito influente, quase tanto quanto à do Deep Purple em seus anos com Blackmore. Aliás, é preciso contextualizar: Blackmore havia conhecido Candice Night, em 1989. Ela era fã do Rainbow e lhe pediu um autógrafo. Nesta época, Candice trabalhava numa rádio em NYC. Os dois começaram a viver juntos em 1991 e descobriram uma paixão mútua pela música renascentista (música europeia dos séculos XV e XVI, uma coda para a música medieval). Na época da remontagem do Rainbow, o duo já planejava um projeto próprio com sabor renascentista, o Blackmore's Night. Por isso, a presença de Candice em algumas letras e nos backing vocals. O álbum "Stranger In Us All" tinha algumas canções bem decentes e os destaques claramente eram "Hunting Humans (Insatiable)" e "Black Masquerade", as que melhor recapturavam a energia, o drama e a dinâmica do Rainbow clássico. Havia ainda a gravação de estúdio para "Still I'm Sad", cover dos Yardbirds que o Rainbow de Dio sempre executava em shows. Doogie White era um vocalista capaz, mas sem a personalidade própria e cativante de seus antecessores. Outra questão relevante foi que o disco foi lançado no pós-Grunge e isto dificultou resenhas favoráveis. Alcançou um modesto sucesso, particularmente na Europa e Japão. Houve uma longa turnê mundial em 95 (o show em Düsseldorf, Alemanha, foi filmado para o programa de TV Rockpalast - DVD "Black Masquerade", lançado em 2013). Este álbum foi o último do Rainbow e rapidamente caiu no esquecimento na medida em que Blackmore decolou seu projeto com Candice. O último show do Rainbow foi em Esbjerg, Dinamarca, em mai/97. Em jun/97, surgiu "Shadow Of The Moon", a estreia do Blackmore's Night.
Então, novamente o Rainbow acabou em 1997. Mas várias das canções da banda seguiram sendo tocadas ao vivo por novos projetos de seus ex-membros e até pelo Blackmore's Night. Em 2009, Joe Lynn Turner, Bobby Rondinelli, Greg Smith e Tony Carey criaram a banda tributo "Over The Rainbow" com Jürgen Blackmore, filho de Ritchie, como guitarrista. O projeto tocava canções de todas eras da banda. Surpreendentemente, em 2015, Blackmore anunciou que iria retornar ao Rock e fazer um concerto no verão de 2016 sob o nome de "Ritchie Blackmore's Rainbow" (seu primeiro show do gênero desde 97). Uma nova formação do Rainbow foi anunciada: Ronnie Romero (vocais), Jens Johansson (tecladista), David Keith (bateria) e Bob Nouveau (baixo). Esta "volta" foi apresentada como headliner na edição alemã do Monsters of Rock Festival. Eles estrearam em 17/jun/2016 em Loreley Freilichbühne, num show ao ar livre. Em 18/jun, tocaram em outro show ao ar livre, em Bietigheim-Bissingen e o terceiro e último show aconteceu no Birmingham Genting Arena, na Inglaterra. Em jun/2017, houve uma pequena turnê de quatro datas no Reino Unido (um deles, em Manchester, não aconteceu). Em 2018, surgiu "Memories In Rock II (Live)", com um show na Alemanha. Em abr/2018, a banda tocou em Moscou, San Petersburgo, Helsinque, Berlim e Praga. O futuro do Rainbow se tornou incerto, desde então. Ritchie Blackmore voltou seu foco para o Blackmore's Night, mas novos shows nunca estão realmente descartados. 



A lendária colaboração entre Eddie Van Halen e o Black Sabbath

 

 

Tony Martin, Bobby Rondinelli, Tony Iommi e Geezer Butler
"Sem Tony, o Heavy Metal não existiria. Ele é o criador do Heavy! Tony é uma lenda. Ele pegou o Rock'n'Roll e o transformou em Heavy Metal" (Eddie Van Halen dizendo ao mundo como ele se sente sobre Tony Iommi).
Não muito depois da segunda saída de Ronnie James Dio (assim como do baterista Vinnie Appice) em 1992, Tony Iommi começou a formular seu plano para remontar o Black Sabbath. Em seu livro "Iron Man: My Journey Through Heaven and Hell with Black Sabbath" (uma das melhores biografias de Rock), Iommi contou em detalhes sua experiência de reconstruir o Black Sabbath, mais uma vez. No processo de audição de novos bateristas, Iommi recebeu uma ligação de Bobby Rondinelli, que estava muito interessado. De acordo com Iommi, Rondinelli voou para tocar para o guitarrista e Iommi o contratou na hora. Com Tony Martin de volta aos vocais (pela primeira vez, desde 1990), o tecladista de longa data do Sabbath, Geoffrey Nicholls, e Geezer Butler firme no baixo, esta versão do Black Sabbath iniciou o processo de composição e gravação de seu 17º álbum, "Cross Purposes", no Monnow Valley Studios, no País de Gales. Enquanto o Sabbath estava ocupado trabalhando, o Van Halen (ou Van Hagar, como em 1993) estava perto de encerrar a parte europeia de sua turnê "Right Here, Right Now", parando no National Exhibition Center (em Birmingham), em 25/abr/93. Quando o telefone de Iommi tocou, era Eddie Van Halen do outro lado, perguntando a Tony se ele tinha tempo para sair, enquanto estava na cidade. E foi aí que um dos maiores rumores do Rock surgiu.

Como Tony Iommi é um cara de classe, ele dirigiu pessoalmente até o hotel de Eddie para pegar o guitarrista e levá-lo ao local de ensaio do Sabbath nos arredores de Birmingham. No caminho, eles pararam em uma loja de música local para pegar uma guitarra para Eddie tocar, preparando o terreno para a possibilidade de que Eddie Van Halen pudesse, de alguma forma, se tornar parte do "Cross Purposes". Desde esse encontro destes dois titãs da guitarra, tem havido especulações persistentes de fãs e sites de que a guitarra de Eddie aparece na música "Evil Eye". Será? E porque não? Se Eddie Van Halen te perguntasse se ele poderia vir e "brincar' contigo, você não apenas diria 'sim', mas também como qualquer pessoa com bom senso procuraria capturar o momento de alguma forma, certo? Ou apenas diria 'isso nunca aconteceu'? Bem, aqui está esta história contada direto por Iommi na jam session do Sabbath com Eddie Van Halen numa noite de domingo em 1993:
A caminho do local de ensaio, Eddie perguntou se Iommi gostaria de comprar umas cervejas. Como Iommi estava dirigindo, ele se recusou a beber, mas Ed, aparentemente "com muita sede", pegou uma caixa de cerveja e a trouxe com ele. Antes de Eddie ficar, nas palavras de Iommi, 'sem pernas' (por causa da bebida), Eddie tocou um solo sobre o riff original de Iommi para "Evil Eye". O que aconteceu depois meio que ecoou os dias problemáticos de "vamos detonar toda a cocaína" do Sabbath nos anos 70, quando eles ficavam completamente zoados o tempo todo, inclusive enquanto estavam no estúdio gravando músicas para um álbum. Em entrevista à revista High Times em 1994 com Iommi e Ozzy Osbourne, Ozzy lembrou, de forma bastante surpreendente, que a banda constantemente 'esquecia' o que estava fazendo, inclusive não lembrando de apertar o botão 'play/record' no estúdio. por horas a fio! Desta vez, entretanto, conforme está no seu livro, Iommi assumiu a culpa diretamente por estar totalmente consciente e sóbrio e, mesmo assim, não ter gravado esta colaboração épica dele e Eddie:
"Nós (Eddie, eu e o Sabbath) fizemos uma jam e ele tocou em 'Evil Eye'. Eu fiz o riff e Eddie tocou um ótimo solo sobre ele. Infelizmente, não gravamos corretamente em nosso pequeno toca-fitas, então nunca tive a chance de ouvi-lo de novo! Foi um dia divertido".
Putz, aqui está um caso envolvendo os grandes Black Sabbath e Van Halen que não podemos culpar ninguém pela cocaína, principalmente porque os 'cheiradores competitivos' Ozzy Osbourne e David Lee Roth não estavam envolvidos neste encontro. É mole? No final, o solo inspirado de Eddie não entrou no álbum, embora muitas pessoas ainda acreditem piamente que o solo em questão tocado por Iommi seja na verdade tocado por Eddie Van Halen. Eddie também não foi creditado no álbum, mas como Iommi confirma em seu livro, Eddie veio, tocou, mas o solo que se ouve em "Evil Eye" não é Eddie. A parte em questão deste solo acontece em torno da marca de três minutos e soa muito com o que muito bem poderia ser sim EVH detonando sua guitarra na velocidade da luz. Será que Tony Iommi conseguiria replicar o estilo único de tocar de EVH? Será? Uau.

Por fim, em 2018, Tony Martin postou em sua página do Facebook que havia "encontrado" a gravação original em fita cassete do solo de Eddie e afirmou que Ed ajudou a escrever "Evil Eye". No post, Martin disse que não poderia compartilhar a "gravação de baixa qualidade" devido ao fato de não possuir os direitos, embora esperasse encontrar uma maneira de lançá-la junto com um livro/DVD algum dia, de maneira que a história "verdadeira" poderia ser revelada. Aff..., se Tony Martin for digno de crédito (e não vejo razão para duvidar dele, afinal ele estava lá), então uma gravação do solo de Ed de fato existe! Pelas barbas do profeta! A descrição de Martin sobre a má qualidade da fita também reforça a ideia de que ela não poderia ter sido usada no álbum. Acredito que depois desta, você esteja salivando para reouvir o áudio de "Evil Eye" (do álbum "Cross Purposes", de 94, do Black Sabbath) com Iommi mimetizando EVH. Vou postá-lo logo abaixo.


Vou fechar com um áudio do Van Halen mergulhando fundo no repertório do Sabbath com um cover de "Tomorrow's Dream" (do álbum "Vol. 4", de 72) em 1976 no lendário clube Gazzarri's, na Sunset Strip. Repita alto: putz, esse Mural Cultural é duca mesmo!




Grandes canções: Bruce Springsteen - "Adam Raised a Cain" (1978)

 


"Adam Raised a Cain" está no quarto álbum de estúdio de Bruce Springsteen, "Darkness On The Edge Of Town" (é a segunda faixa do disco), lançado em jun/78. A canção é uma esporro Hard Rock furiosíssimo e tem letras com imagens bíblicas para explicar a relação entre pai e filho (Adão e seu filho, Caim). Springsteen já declarou que considera essa canção como "emocionalmente autobiográfica". O relacionamento amargo, porém amoroso, entre pai e filho da canção foi espelhado no que o próprio artista teve com seu pai verdadeiro, Douglas. Ele contou: "Nosso relacionamento real provavelmente foi mais complicado do que como eu o apresentei. Essas canções eram as maneiras como eu falava com meu pai, na época, porque ele não falava e nós não conversávamos muito". No documentário de 2010, "The Promise: The Making of Darkness on the Edge of Town", o mixador de som Chuck Plotkin descreveu as instruções de Springsteen sobre como o ataque sonoro chocante dessa canção deveria soar comparado às canções mais melódicas de 'Darkness'. Springsteen disse a Plotkin para pensar em um filme mostrando dois amantes fazendo um piquenique, quando a cena de repente corta para um cadáver. Essa canção, explicou a artista, era aquele corpo. Bruce Springsteen e sua E Street Band lançaram uma versão mais longa e virulenta desta canção no histórico álbum ao vivo "Live/1975-85", lançado em 1986. Na gravação de estúdio, atuaram: Bruce Springsteen (vocais e guitarra), Roy Bittan (piano), Clarence Clemons (percussão e vocais de apoio), Danny Federici (órgão), Garry Tallent (baixo), Steven Van Zandt (guitarras e vocais de apoio) e Max Weinberg (bateria). Ela foi gravada entre 9/nov/1977 e 17/fev/1978 no Record Plant Studios, em NYC. A versão ao vivo do box "Live/1975-85" foi capturada em 7/jul/1978 no Roxy Theatre, em West Hollywood/CA. Ouça no volume máximo!
Adam Raised A Cain / Adão Criou um Caim
In the summer that I was baptized / No verão em que fui batizado
My father held me to his side / O meu pai segurou-me a seu lado
As they put me to the water / Enquanto eles me punham na água
He said how on that day I cried / Ele disse-me como eu chorei nesse dia
We were prisoners of love, a love in chains / Nós éramos prisioneiros do amor, um amor acorrentado
He was standin' in the door, I was standin' in the rain / Ele estava parado à porta, eu estava parado à chuva
With the same hot blood burning in our veins / Com o mesmo sangue quente a queimar em nossas veias
Adam raised a Cain / Adão criou um Caim

All of the old faces / Todos os velhos rostos
Ask you why you're back / Perguntam porque você voltou
They fit you with position / Eles te rotulam com uma posição
And the keys to your daddy's Cadillac / E com as chaves do Cadillac do teu papai
In the darkness of your room / Na escuridão do teu quarto
Your mother calls you by your true name / A tua mãe te chama pelo seu verdadeiro nome
You remember the faces, the places, the names / Você se lembra dos rostos, dos lugares, dos nomes
You know it's never over, it's relentless as the rain / Você sabe que nunca acabará, é implacável como a chuva
Adam raised a Cain / Adão criou um Caim

In the Bible Cain slew Abel / Na Bíblia, Caim matou Abel
And East of Eden he was cast / E à Leste do Paraíso, ele foi lançado
You're born into this life paying / Você nasceu nesta vida para pagar
For the sins of somebody else's past / Pelos pecados do passado de outra pessoa
Daddy worked his whole life, for nothing but the pain / Papai trabalhou toda a sua vida para nada além da dor
Now he walks these empty rooms, looking for something to blame / Agora, ele percorre estes quartos vazios, à procura de algo para culpar
You inherit the sins, you inherit the flames / Você herda os pecados, você herda as chamas

Adam raised a Cain / Adão criou um Caim
Lost but not forgotten, from the dark heart of a dream / Perdido mas não esquecido, vindo do coração sombrio de um sonho
Adam raised a Cain / Adão criou um Caim



Grandes álbuns do Prog-Rock: Paladin - "Charge!" (1972)


Paladin foi uma banda de Rock Progressivo inglês e lançou dois álbuns pelo selo Bronze Records. Foi fundada em 1970 em Gloucestershire pelo multi-instrumentista de formação erudita Peter Solley e pelo baterista de Jazz Keith Webb, ambos ex-membros da Terry Reid Band (pela qual, em turnês norte-americanas, abriram para o Cream em 1968 e para os Rolling Stones em 1969 - Reid era empresariado por Mickie Most, sócio de Peter Grant, o que levou Jimmy Page a se interessar pelo trabalho de Reid. Quando os Yardbirds se separaram, Page procurou Reid para ser o novo cantor. Reid já estava comprometido nas turnês citadas acima, não pode e indicou um jovem cantor de Birmingham, Robert Plant, que ele havia conhecido quando a Band Of Joy abriu um de seus concertos).
Peter Solley, Derek Foley, Keith Webb, Lou Stonebridge e Peter Beckett
A ideia de Solley e Webb era se livrarem das restrições criativas impostas como músicos de apoio numa banda de outro e criar sua própria banda. A dupla levou meses procurando os músicos certos, compondo repertório e ensaiando. Os demais membros do Paladin eram Derek Foley (guitarras, ex-Grisby Dyke), Lou Stonebridge (teclados e vocais, ex-Glass Menagerie e também ex-Grisby Dyke) e Peter Beckett (baixo, ex-Winston G/The Whip e também ex-World of Oz). Durante os ensaios, ficou claro que o Paladin iria ser uma banda boa ao vivo. Ao invés de gravarem uma demo tape, eles convidaram pessoas da indústria fonográfica para assisti-los nos ensaios (que aconteciam numa sede de fazenda, a Slowwe House, em Arlingham, Gloucestershire - uma enorme construção antiga na qual eles estavam vivendo).
Eles faziam uma mistura rica de Rock, Blues, Soul, Jazz e música latina. O emprego de dois tecladistas (Solley e Stonebridge) produzia também sons únicos. No final de 1970, a banda caiu na estrada e passou a fazer shows ao vivo. O primeiro deles foi no importante The Revolution Club, em Londres. Essas apresentações foram notadas pelo então novo selo Bronze Records (que também gravou Uriah Heep e Manfred Mann). Após algumas negociações, o Paladin assinou contrato e começou a trabalhar mirando a produção de um álbum.
Em 8/jan/71, o Paladin entrou no Olympic Studios em Londres para gravar seu primeiro álbum homônimo, produzido por Philamore Lincoln (partes do disco também foram gravadas no Island Studios, também em Londres). Quase tudo foi gravado ao vivo no estúdio, com mínimos overdubs. Esta estreia da banda sempre permanecerá à sombra do seu magnífico sucessor. Certamente, nele havia indícios do que viria, mas no geral o resultado ficava a desejar. Havia o belo trabalho de teclados, porém prejudicados por alguns vocais medianos. Havia uma faixa instrumental apenas razoável (arruinada por um longo solo de bateria), a produção poderia ter sido mais imaginativa e havia até um rap (!) inacreditável numa faixa (isto anos antes da popularização desta praga). Havia uma falta de direção musical em meio a um monte de ideias atiradas (Art Rock, Country-Rock, Santana, trilha do filme Shaft, Caravan, Wishbone Ash). Não era uma porcaria, apenas uma estreia mediana (considerando a qualidade dos músicos envolvidos), que não levava a lugar algum, embora promissora. As resenhas até foram boas, mas as vendas foram desapontadoras. Eles excursionaram pela Inglaterra e Europa, tocando em todos os grandes clubes da época. O vocalista/tecladista Lou Stonebridge se acidentou quando uma mesa usada como extensão do piso do palco colapsou durante um show. Ele deslocou o ombro e isto trouxe problemas para a banda. Apesar deste fraco desempenho nas vendas, o Paladin foi autorizado a gravar um segundo álbum. Então, um ano depois, sob produção de Philamore Lincoln e Geoff Emerick (que foi engenheiro de som no álbum "Sgt. Pepper", dos Beatles), a banda entrou no famoso Apple Studios, em Londres.
Lançado em 1972, "Charge!" trouxe arte da capa feita por Roger Dean (instantaneamente reconhecível e alegada pelo artista como um de seus trabalhos mais difíceis) e representou um enorme salto à frente em relação à estreia sem brilho. Recorrentemente considerado pela imprensa especializada como uma obra-prima do Hard Prog dos anos 70, "Charge!" explorou interessantes áreas do gênero combinando influências Folk ("Watching The World Pass By") com R'n'R ("Well We Might") e Rock Psicodélico (a maravilhosa "Mix Your Mind With The Moonbeams", toda atmosférica, vocais viajantes). Melódico, soando algo como o Uriah Heep do início, elementos de Beatles e Procol Harum, órgão Hammond, mellotron, adicionando Hard Rock, guitarras vibrantes, camadas de teclados, interlúdios, violino, gaita, um álbum realmente soberbo, que mesmo sendo um retrato de seu tempo ainda permanece muito agradável. O instrumental era excelente (afinal, todos ali já eram "veteranos" de outras bandas) e o Prog se misturava à tantos elementos gerando um álbum sólido e bem eclético. Os vocais foram compartilhados pelos membros da banda. Infelizmente, foi outro trabalho sem sucesso comercial, o que levou à frustração e à decisão de Stonebridge e Foley de saírem da banda em abr/72. Eles seriam substituídos por Joe Jammer (vocais e guitarras) e como quarteto o Paladin excursionaria por toda a Europa e Inglaterra. Entretanto, essa formação não duraria muito e, no final de 72, a banda anunciaria o fim.
Peter Solley iria tocar em diversas outra bandas (inclusive com Eric Clapton, Whitesnake e Procol Harum) e atuar como produtor (para Peter Frampton, por exemplo). Keith Webb teve um clube em Stafford por onde passou muita gente famosa (incluindo o Dire Straits do início). Ele também tocou com diversos grandes nomes e depois migrou para a Espanha. Lou Stonebridge tocou com McGuinness Flint e depois com David Byron (ex-Uriah Heep). Peter Beckett mudou-se para os EUA, fundou a banda "Player", virou vocalista e teve um hit nº. 1 com "Baby Come Back". Derek Foley tocou com Graham Bond e formou a Snafu (com o guitarrista Micky Moody). O Paladin, durante sua vida, gravou também versões das canções presentes em seus dois único álbuns vertidas mais para um Jazz-Rock. Estas gravações ficaram esquecidas por quase 25 anos (!) até o lançamento da compilação "Jazzattack", em 2002. A banda também, durante sua existência, gravou ao vivo para a BBC, mas estas fitas devem estar guardadas nos arquivos da empresa e até hoje nunca vieram à luz.