
Resenha
Heritage
Álbum de Opeth
2011
CD/LP
Aquele fã mais hardcore da banda, com certeza ainda hoje deve ter dificuldades em ouvir Heritage, ou mesmo sequer o tenta ouvir mais, o classificando como um verdadeiro erro na discografia da banda. Abandonar completamente os vocais de death metal foi uma decisão surpreendente e que pegou muitas pessoas de surpresa, inclusive eu, mas no meu caso, consegui ver um disco que apesar de inferior a qualquer outro lançado anteriormente pela banda – apenas inicialmente, hoje ele está nas minhas graças como qualquer outro -, ainda possuía muita coisa interessante para ser aproveitada. Embora o Opeth seja mais conhecido por épicos de death metal progressivo com fortes elementos acústicos e atmosfera melancólica, já houve momentos em que eles desviaram disso, porém, apenas de vez em quando, por isso, creio eu, ao fazer algo como Heritage, acabaram surpreendendo negativamente tantas pessoas. Porém, querendo ou não, não há como negar que o Opeth foi capaz de criar um novo estilo, conseguindo manter muitos de seus sons característicos. Mesmo sem qualquer traço de death metal, ainda ouvimos a interação entre partes acústicas e momentos mais pesados – ainda que quase sempre não tão agressivos como antes. Na época, o próprio Mikael já havia falado sobre o fato de ser um disco que poderia surpreender muitas pessoas, seja para o bem ou para o mal, “será o nosso décimo disco. Na verdade, parece que estou me preparando para escrever e gravar um álbum como esse desde os 19 anos. É bastante intenso em partes de um jeito 'antigo' sombrio, e em partes bastante bonito e forte, se assim posso dizer em si. Obviamente, direi coisas boas sobre isso, já que praticamente escrevi o álbum inteiro, mas acho que alguns vão levantar as sobrancelhas, é preciso aprender a gostar desse tipo de música. Acho que você precisará ter uma compreensão um pouco mais profunda de nossa música como um todo para poder apreciar este disco. Percebi que minha inspiração para este disco é tão variada que não consigo dizer como soa. Se eu fosse comparar com qualquer outra banda, teria que ser o Opeth, mas é diferente do que fizemos antes. Eu tenho ouvido muito Alice Cooper desde o ano passado, mas não posso dizer que soa como 'No More Mr. Nice Guy'. Espero apenas que você goste quando ouvir.” “Heritage”, a faixa título é quem abre o disco. Um número introdutório de pouco mais de dois minutos. Um piano solo belíssimo tocado por Joakim Svalberg - então convidado, mas se tornaria tecladista da banda a partir do próximo álbum com a saída de Per Wiberg. Uma improvisação jazzística que funciona muito bem. “The Devil's Orchard”, possui ótimo trabalho de órgão, vários riffs e seções muito boas, entregando em seu som uma sensação um pouco de Rush, além de alguns ganchos jazzísticos. Por volta dos 4:50 a banda parece se influenciar na cena de Canterbury, sendo Caravan a primeira banda que me vem em mente. Uma das melhores músicas do disco. “I Feel The Dark” começa por meio dos vocais suaves de Mikael e um violão melódico muito bonito. Em seus primeiros minutos, a música constrói uma atmosfera incrível, até chegar em um momento em que é brutalmente agredida por um riff de guitarra mais pesado e uso de mellotron de sonoridade bastante obscura e de um peso quase doom, chegando a se desenvolver mais a frente em uma jam até mesmo meio caótica, mas suavizando antes de seguir para o final. “Slither” é uma homenagem a Ronnie James Dio que havia falecido pouco tempo antes do lançamento do disco. Assim, é um hard rock direto e reto sem muitos rodeios, ou seja, não tem nada de progressivo, um tipo de som que o próprio homenageado faria, mas apesar de não a achar ruim, costumo achá-la meio perdida no meio das demais peças do disco. “Nepenthe” é mais um dos melhores momentos do disco. Possui em seus primeiros minutos uma sonoridade bastante sutil e de influência jazzística. Os vocais de Mikael leva o ouvinte para algo da cena de Catrebury. Quando a música se torna mais enérgica, é possível perceber alguns acenos ao King Crimson, o dueto da seção rítmica nessa parte é maravilhoso, mas destaco um pouco mais o baixo. O solo de guitarra também é bem adequado. “Häxprocess” começa por meio de um violão melódico e muito bonito junto de uma seção rítmica bastante interessante, então que Mikael canta os primeiros versos em tons bem agradáveis. Quando a peça é “agredida” por uma parte instrumental mais intrincada fica melhor ainda, com a seção rítmica se destacando mais uma vez em linhas de baixo excelentes e uma bateria em ritmos quebrados. Vale destacar também o mellotron que cria algumas excelentes atmosferas. “Famine” começa por meio de uma percussão tribal tocada pelo músico convidado, Alex Acuña . Até perto dos 3:00 a banda entrega uma sonoridade experimental diferente de tudo o que você possa esperar que seja feito pelo Opeth. Perto dos 5:00 a peça fica pesada com um riff metálico fazendo lembrar o Black Sabbath em algo que poderia fazer parte do Master of Reality, porém, com um belo trabalho de flauta ao fundo, cortesia de Björn Lindh. A peça chega ao fim com uma nota pesada seguida de sons experimentais. “The Lines In My Hand” possui a melhor seção rítmica do disco, porém, todo o seu coletivo é excelente. Tirando a faixa título que soa basicamente como um prelúdio, junto com, “Slither”, essa é a outra música do disco com menos de 4 minutos, mas ao contrário da anterior, aqui a banda entrega algo realmente interessante. “Folklore” é a peça mais longa do disco. Antes de ouvi-la pela primeira vez, achei que seria o grande destaque do álbum, porém, acabam sendo pouco mais de 8 minutos de uma música que funcionaria melhor se fosse menor. De qualquer forma, ainda é um rock progressivo sólido, ótimos violões e vocais bonitos. É possível ouvir um aceno a bandas como Porcupine Tree e Riverside quando a música se torna um pouco mais intensa por volta dos 6:00. Apesar de suas partes boas, talvez tenha faltado aqui um desenvolvimento mais adequado. “Marrow Of The Earth” é uma bonita música instrumental e que encerra o disco. Bastante simples e linear, tem uma melodia acústica e elétrica entrelaçadas que soa quase como uma canção de ninar. Quantas vezes uma banda pode se reinventar? Heritage possui no geral uma musicalidade rica e intrincada que requer bastante atenção. As linhas de baixo e a bateria produzem uma seção rítmica que é impressionante durante todo o álbum, enquanto as teclas entregam uma grande variedade de sons bastante orgânicos, sendo com certeza esses dois os maiores destaques do disco. Se por um lado, decepcionou muitas pessoas, por outro, deu ao Opeth mais uma chance para que aqueles que nunca apreciaram muito a sua música, agora por meio de algumas virtudes progressivas tradicionais combinadas com uma abordagem experimental em uma entrega atonal e acessível, pudessem dessa vez abraçar a banda pela primeira vez.
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