
A primeira vista, um fã qualquer de música provavelmente achará estranho saber que algumas bandas já usaram um par de baterias em trabalhos de estúdio ou ao vivo. A pergunta que vem a mente é “por que”? Afinal, supõe-se que a abordagem com várias baterias pode facilmente se tornar redundante: se um dos dois está mantendo o ritmo, o que o outro irá fazer? Tocar a mesma coisa nos dois instrumentos, e apenas ter uma batida mais intensa? Se a intenção é variar os timbres, não seria mais eficaz incluir um percussionista em vez de outro batera?

Não é tão comum, mas diversos nomes da música já usaram duas baterias em seus trabalhos. Na década de 30, era comum ver acontecer alguns duelos entre bateristas, e dois grandes nomes que já participaram dessas disputas são Buddy Rich e Gene Krupa. No jazz, Ornette Coleman, John Coltrane e Miles Davis chegaram a duplicar o par de baquetas em algumas formações de seus grupos.

Na faixa “Toads of the Short Forest” (do disco ‘Weasels Ripped My Flesh’, de 1970), Frank Zappa tinha um baterista tocando no compasso 7/8 e outro em 3/4. Outra banda que duplicou seus tambores foi o Steely Dan, ao homenagear Charlie Parker em 1974, no disco ‘Pretzel Logic’ (na faixa “Parker’s Band”). Além desses, os Allman Brothers tiveram duas baterias em seus 45 anos de carreira (a partir de 1991, foram três), Grateful Dead em alguns momentos também, e os Doobie Brothers tem duas até hoje.

Importante também lembrar de diversos artistas nacionais que já contaram com duas baterias. Os Novos Baianos tiveram dois bateristas em alguns momentos (João Martins Macedo e Jorginho Gomes). E o Casa das Máquinas recentemente tocaram ao vivo com o apoio do baterista Paulo Zinner.

Sem contar possíveis ocasiões especiais de alguns artistas – como quando o Kiss gravou seu ‘Unplugged MTV’ e incluiu os bateristas Eric Singer e Peter Criss em diversas músicas. Nesse último caso, a chance das baterias se tornarem redundantes foi grande, uma vez que o grupo não pensou realmente em adaptar o par de instrumentos para seu estilo – são apenas algumas mãos a mais repetindo o que foi originalmente pensado para uma única bateria (no caso do Kiss, a iniciativa valeu pela nostalgia de ver Peter Criss novamente no palco com os amigos).
Double-drumming no Prog
Já dentro do estilo progressivo, pelo menos duas bandas sempre são lembradas: Genesis (na fase com Phil Collins nos vocais) e King Crimson. Dessas, o Crimson foi a primeira a duplicar as baterias – em 1972, no disco ‘Larks’ Tongues In Aspic’. Foi quando Bill Bruford abandonou o Yes (um dos maiores nomes do progressivo, em seu auge) e não apenas migrou para uma banda instável e menos famosa, mas passou a dividir a bateria com Jamie Muir, um artista plástico com ótima presença de palco, mas que acabou abandonando a banda por não se adaptar às exigências das turnês (Brufford assumiria sozinho até a dissolução da banda em 1975).

O próprio Brufford teve uma chance mais pretenciosa de experimentar realmente o poder das baterias dobradas ao “substituir” Phil Collins no Genesis, em 1976. As aspas em “substituir” se devem ao fato de que Collins ainda estava na banda, mas quase o tempo todo ocupando a função de cantor (apenas em estúdio é que ele cantava e também gravava as baterias). Ao vivo, Phil só assumia a bateria nos trechos instrumentais, e aí o “double-drumming” comia solto. No vídeo ‘Genesis: In Concert’, da turnê do disco ‘A Trick Of The Tail’, é possível acompanhar a intensidade dos dois em alguns trechos de The Cinema Show, Supper’s Ready (part two) e Los Endos. Brufford também conseguiu ótimos resultados como segundo baterista na turnê Union, de 1991, que uniu quase todos os músicos que passaram pelo Yes. Mas suspeito que foi a partir da experiência com o Genesis que Brufford se inspirou para, quase vinte anos depois, realizar um de seus grandes trabalhos.
Thratatatak: a percussão em “polvorosa” Crimsoniana

Em 1994, o King Crimson retorna reformado: sua formação dos anos 80 (com Robert Fripp, Adrian Belew, Tony Levin e Bill Brufford) recebe o acréscimo dos músicos Trey Gunn (no baixo e chapman stick) e Pat Mastelotto (na bateria e percussão). Assim, eles assumem o formato de “duplo trio”, com duas guitarras, dois baixos e duas baterias.
Em entrevistas, Brufford conta como Fripp idealizou esse mote:
Apesar de complexa, tanto na administração quanto na música em si, essa formação do Crimson tornou-se marcante, e até hoje representa um ponto alto na carreira do grupo. Talvez por isso, ao reformar a banda em 2007, Fripp novamente fez uso de duas baterias, com o constante Mastelotto e o novo membro Gavin Harrison (Brufford encontra-se aposentado desde essa época).

Em 2013, outra reformulação traz o Crimson com três baterias – Bill Rieflin se une a Mastelotto e Harrison. Essa formação realiza excursões muito bem sucedidas, até que Rieflin abandona a banda. Fripp não abre mão da terceira bateria, e chama Jeremy Stacey para ocupar esse posto. Contudo, Rieflin manifesta o desejo de voltar, depois de um ano sabático, e para surpresa de todos, Fripp mantém os outros três bateristas efetivos. Assim, o Crimson atual agrega quatro bateristas em sua formação.
O atual vocalista, Jakko Jakszyk, já havia dito em entrevistas recentes que, quando Fripp chegou com a ideia de usar três baterias, ele achou que o eterno líder do Crimson havia “ficado louco”. Bem, em abril, o Crimson promete lançar um novo single, que será uma oportunidade para que todos possam conferir o quão sensacional será a nova loucura multipercussiva do Rei Escarlate.
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