
Mais um disco imundo feito por um bando de maoístas desleixados, gravado em uma ocupação suja de Greenwich Village. Embora a banda não tivesse mudado muito desde o experimental The Fugs lançado no ano anterior, Virgin Fugs (1967) representava algo mais cru, mais selvagem: uma compilação de recortes de estúdio e experimentos sonoros selvagens, lançada às pressas pelo selo ESP-Disk. Uma bomba caseira feita às pressas, com a mesma febre revolucionária que animava os primeiros Fugs. Uma espécie de diário sonoro do caos, lançado sem filtros, sem mixagem, sem permissão clara. E tanto melhor.
Ainda encontramos o núcleo duro dos revolucionários vagabundos do acid: Peter Stampfel (violino, gaita, banjo), Steve Weber (guitarra, vocais), Vinny Leary (guitarra, vocais), Lee Crabtree (piano, percussão), John Anderson (baixo, vocais), Ken Weaver (bateria, vocais), mas acima de tudo, os dois mestres do caos poético: Ed Sanders e Tuli Kupferberg, ainda em missão para chutar a América racista e repressiva. Este disco não é apenas um álbum; é uma declaração de guerra.
Na época, os Estados Unidos afundavam no atoleiro do Vietnã, na paranoia da Guerra Fria e nas entranhas de uma juventude radicalizada pelo LSD em pleno Verão do Amor. Os Fugs, por outro lado, não se importavam com nada disso e demonstravam isso sem pudor. Em menos de 28 minutos, provocaram tudo o que se movia: a religião ("Os Dez Mandamentos"), os serviços secretos ("O Homem da CIA"), a sociedade de consumo ("Coca Cola Douche", "Caca Rocka") e também a si mesmos, com "We're the Fugs". Esta última faixa, engraçada e autodepreciativa, nos lembra que, além da revolta, é a própria existência deles como artistas fracassados e orgulhosos que também é o seu melhor alvo de zombaria.
E, claro, psicodelia e viagens com anfetaminas fazem parte da mistura. "New Amphetamine Shriek" e "Hallucination Horrors" são explosões sonoras onde a lógica do caos reina. Uma libertação psicodélica, uma experiência fragmentada onde tudo soa falso, mas como uma verdade crua, nua e essencial.
Musicalmente, o Virgin Fugs permanece fiel ao que os Fugs sabem fazer: tocar tudo desafinado, desafinado, e gritar com pura convicção. Os instrumentos estão intencionalmente desafinados, como se quisessem enfatizar melhor a desorientação da época. Os Fugs revisitam o folk delirante e desviante. "Saran Wrap" nos leva a um país bagunçado. "My Bed Is Getting Crowded" oferece um blues sujo. "I Saw the Best Minds of My Generation Rot" atinge como um rockabilly alucinante e "I Command the House of the Devil" é um encantamento em plena devassidão.
Este LP, em sua aparente ingenuidade sonora, é um pilar do rock underground de esquerda dos anos 60. É uma bagunça controlada, o grito de uma juventude rugindo contra a ordem estabelecida com toda a fúria de quem sabe que não tem nada a perder. O tipo de vinil que o FBI odeia, por motivos subversivos. Mas em 1967, os Fugs já eram uma lenda underground, e os Virgin Fugs apenas reforçaram seu status como uma banda cult.
Uma granada improvisada jogada bem na cara da América puritana.
Títulos:
1. We’re The Fugs
2. New Amphetamine Shriek
3. Saran Wrap
4. The Ten Commandments
5. Hallucination Horrors
6. I Command The House Of The Devil
8. C.I.A. Man
9. Coca Cola Douche
10. My Bed Is Getting Crowded
11. Caca Rocka
12. I Saw The Best Minds Of My Generation Rot
Músicos:
John Anderson: Baixo, Vocal
Lee Crabtree: Piano
Pete Kearney: Guitarra
Betsy Klein: Vocal
Tuli Kupferberg: Vocal, Percussão
Vinny Leary: Baixo, Guitarra
Ed Sanders: Vocal
Ken Weaver: Percussão, Vocal
Produzido por: Ed Sanders, Harry Smith
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