quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Grandes álbuns do Prog-Rock: Trees - "The Garden of Jane Delawney" (1970)

 


Trees
 foi uma banda ativa apenas entre 1969-72 (porém nos dois últimos anos com uma formação diferente e sem gravações), após o boom do Folk-Rock britânico, musicalmente parecida com o Pentangle, porém ainda mais progressivos. Embora o grupo tenha alcançado pequeno sucesso comercial na época, sua reputação cresceu ao longo das décadas. Vamos hoje repassar essa história. A banda original era composta por cinco membros: Bias Boshell (baixo e teclados), Barry Clarke (guitarrista principal), David Costa (violão), Unwin Brown (bateria) e Celia Humphris (vocais). David Costa, filho do cantor/apresentador inglês Sam Costa, conheceu Barry Clarke através de uma amiga mútua, que sugeriu o contato, já que ambos tocavam violão/guitarra. David estava cursando Artes na University of East Anglia, em Norwich, e Barry trabalhava numa agência de publicidade em Londres. Nas palavras de David, após o primeiro encontro deles, "eu nunca mais voltei à Universidade e Barry nunca mais voltou ao seu emprego". Barry vivia, na época, numa casa em Barnes (região sudoeste de Londres) que dividia com Bias Boshell. Bias Boshell e Unwin Brown frequentavam a Bedales School, em Petersfield, Hampshire, e, por um curto tempo, o quarteto compartilhou suas diferentes visões musicais, explorando seus gostos diferentes e criando juntos um som que todos curtiam em comum. Sem alguém para cantar, David Costa sugeriu o teste da irmã de um conhecido seu e assim introduziu aos demais Celia Humphris, que havia acabado de deixar um curso de artes (onde estudara dança, drama e canto). O pai de Humphris era pintor e ilustrador.
Bias Boshell, Celia Humphris e Unwin Brown (à frente);Barry Clarke e David Costa (atrás no alto)
No início da primavera de 1969, o agora quinteto começou a ensaiar. O primeiro show e as primeiras demo tapes surgiram entre jun-jul/69. Contratados pela CBS Records em ago/69, o Trees produziu dois álbuns de estúdio de uma maneira relativamente rápida. "The Garden Of Jane Delawney" foi lançado em abr/70 e "On The Shore", em jan/71, ambos gravados no Sound Techniques Studios, em Chelsea, ambos sob produção de Tony Cox (produtor e arranjador inglês que se destacaria na seara do Folk Rock e do Prog-Folk Rock, tendo trabalhado com CaravanYesRenaissance etc.). A capa de "On The Shore" foi um trabalho de Storm Thorgerson, do estúdio Hipgnosis. Como outros artistas contemporâneos da British Folk Music, o Trees foi comparado ao Fairport Convention, mas isto nunca foi justo, considerando toda uma faceta bem mais psicodélica e progressiva. O repertório do Trees era dividido entre adaptações de canções tradicionais e material autoral, principalmente de Bias Boshell. Numa entrevista em 2020, David Costa comentou: "Fomos rotulados como uma banda de Folk-Rock, ponto final, mas nossas influências eram geralmente muito mais americanas do que britânicas". O Trees se apresentou ao vivo intensa e predominantemente no circuito universitário, mas também fez show duas vezes nos famosos Fairfield Halls e Queen Elizabeth Hall, com variado grau de sucesso e, às vezes, reconhecido com elogios críticos significativos. Durante toda a carreira, fez turnês abrindo para FotheringayFairport ConventionMetthew's Southern ComfortFleetwood MacFreeFacesGenesisFamily e Yes. A banda também tocou no Evolution Music Festival, em Le Bourget, Paris, em 1970, junto com Ginger Baker's Air ForcePink Floyd e Procol Harum. Um dos primeiros shows em Notting Hill, Londres, contou com a participação de um virtualmente desconhecido David Bowie no sax. A banda frequentemente era acompanhada na estrada pelo cantor/compositor Marc Ellington, um apoiador. O Trees conquistou apoio contínuo, desde o início de sua carreira, dos DJs de rádio John Peel e Bob Harris, para quem eles fariam apresentações na série de TV Sounds of the Seventies, e também com Pete Drummond (outro DJ da BBC), que mais tarde se casaria com a cantora Celia Humphris.
Bias Boshell, Celia Humphris, Barry Clarke, Unwin Brown e David Costa
E os dois álbuns, como são? "The Garden of Jane Delawney" é Folk-Rock com voz feminina soberba, excelente musicalidade, ambientes pastorais tranquilos, longas passagens instrumentais, tudo encantador e cativante. É o melhor dos dois e não tem aqueles ambientes de feira de aldeia celtas de outros grupos do sub-gênero. Aqui, eles são substituídos por influências psicodélicas (pense Acid Rock) e o resultado é incrível. O alcance vocal de Celia é impressionante e o aspecto Psych Folk é um diferencial.
Há quem prefira o segundo, "On The Shore", mais polido e confiante (e menos áspero e menos psicodélico). Fato é que trata-se de outro extraordinário álbum Psych Folk. Arranjos vocais para várias vozes, interlúdios de violões medievais, longas viagens psicodélicas, ótimas performances, canções cativantes conduzidas por violões, atmosferas góticas. Assim como na estreia, há covers de canções folclóricas tradicionais misturadas à material original. Folk Rock com mudanças de ritmos, interações instrumentais vigorosas, grooves robustos, solos de guitarra elétrica, enfim, energia do Rock adicionada às procissões melódicas do Folk. Claro, ótimos álbuns de uma banda que ficou na história numa prateleira inferior aos grandes do gênero (como Fairport Convention, SpyrogiraPentangle ou Steeleye Span), mas que merece destaque e resgate. A formação original debandou em 1971 após estes dois álbuns. Uma segunda encarnação do Trees surgiu em 72 e tocou até 73 (este grupo era formado por Celia Humphris, Barry Clarke, Barry Lyons, Alun Eden e Chuck Fleming). Após isto, Bias Boshell trabalhou como tecladista/compositor na "The Kiki Dee Band" antes de se juntar ao Barclay James Harvest e depois ao The Moody Blues. Barry Clarke tocou na banda "Vigrass and Osborne" e depois se juntou à banda "Casablanca" com David Costa participando do álbum homônimo. Aliás, David Costa se tornou diretor de arte/designer de muitos artistas notáveis (Elton John, George Harrison, Eric Clapton, Rolling Stones etc.). Barry Clarke parece entrou no ramo de joias morando na França. Unwin Brown tocou na banda "Capricorn" e depois teve longa carreira como professor até sua morte em 2008. Celia Humphris continuou com cantora, co-apresentou vários programas de música em rádios, forneceu seus vocais para vários álbuns de outros artistas, trabalhou com dublagens (sua voz foi muito usada em estações ferroviárias em toda a rede britânica) e, vivendo em Provença, na França, atuou prestando serviços de apoio em casamentos. Ela morreu em 2021 aos 70 anos. 



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