sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O Hard Rock escocês dos Nazareth

 

"Snakes 'N' Ladders", de jun/89, foi o álbum mais infeliz já feito pelo Nazareth"Acabamos tendo que completá-lo com covers porque não tínhamos repertório novo suficiente", contou o baixista Pete Agnew. Contra todas as probabilidades, o  jovem guitarrista de Glasgow Billy Rankin foi persuadido a retornar. "No Jive", de nov/91, foi o 18º álbum do Nazareth, mas o primeiro em sete anos a ser lançado no Reino Unido. Eles até fizeram alguns shows na Grã-Bretanha. Ajudou o fato de a banda ter ganhado elogios e publicidade consideráveis ​​com o patrocínio do Guns N’ Roses, cujo vocalista Axl Rose pediu a Dan McCafferty que cantasse "Love Hurts" em seu casamento com Erin Everly (filha de Don Everly, dos The Everly Brothers, e musa da canção "Sweet Child O'Mine" - o casamento aconteceu em abr/90, mas os dois já se relacionavam desde 86). Antes disso, o Guns implorou a Manny Charlton que produzisse um álbum para eles. O guitarrista realmente tentou fazer isso, mas jogou a toalha quando no máximo dois membros da banda apareceram para tocar num determinado momento. Em 1993, o GN’R demonstrou o quão era fã do Nazareth gravando uma versão de "Hair Of The Dog" para seu álbum de covers "The Spaghetti Incident?" (de nov/93). "Pouco antes de eles se tornarem realmente famosos, fizemos seis shows na Califórnia e eles compareceram a todos eles", lembrou Agnew com carinho. "Mais tarde, em Winnipeg, estávamos tocando num local para 5.000 lugares, eles estavam na estrada, mas vieram e ficaram bem na frente do palco para o nosso show. Nosso público ficou dizendo: ‘Jesus, são os caras do Guns N’ Roses!’ e fazendo sinais do Diabo para nós". McCafferty: "Nós ficamos pensando, vocês não poderiam ir para a lateral do palco? Aquelas pessoas deveriam estar olhando para nós! Eu ri quando Axl me pediu para cantar 'Love Hurts' no casamento dele, porque a canção pareceu durar mais que o casamento! Cerca de umas 18 pessoas – 18 pessoas! – do empresariamento deles ficaram me ligando. Acabei dizendo a eles que estava ocupado, o que era verdade, mas aceitei ao final". E "No Jive", como era? Ah, após desaparecer do mundo do Rock por alguns anos, o Nazareth até se manteve firme e festejou toda a revolução Grunge como se ainda estivesse em 79. Olha, "No Jive" foi fácil o melhor álbum da banda desde "Malice In Wonderland", de 80. Um trabalho forte, focado, espécie de volta aos trilhos (com destaque para as faixas "Hire and Fire", "Right Between The Eyes" e "Thinkin' Man's Nightmare"). 
As coisas estavam melhorando até que Billy Rankin mais uma vez optou por uma carreira solo e saiu após o lançamento do álbum "Move Me", de 1994. Rankin havia trazido a eles um toque mais Pop do que estavam acostumados. Algumas biografias afirmam que ele saiu, outros que ele foi demitido. Numa entrevista, Agnew foi tímido: "Não vou mexer na nossa roupa suja. Percebemos que não funcionaria mais se ele ficasse, porque não estávamos pensando da mesma forma". Então foi um acordo mútuo? "Estávamos com picuínhas, então foi mais para a demissão", disse Agnew. "Mas como todos os outros que estiveram na banda, ainda somos amigos de Billy". Quanto à "Move Me", foi outro álbum bastante forte, com algumas ótimas faixas ("Steamroller", "Move Me", "Rip It Up" e "Demon Alcohol"). Talvez, numa parte faltasse criatividade, mas a banda compensava isto no ataque. Passou-se bastante tempo e, em ago/98, a banda lançou "Boogaloo", seu vigésimo álbum. Estimulados pela chegada do novo guitarrista Jimmy Murrison e do tecladista Ronnie Leahy, e assinados com uma gravadora (a alemã SPV) que parecia se importar, eles estavam prontos para recuperar o tempo perdido. Claro, o Nazareth estava bem longe do auge de meados dos anos 70. Porém, aqui até que funcionava bem. O som da banda nem tinha mudado tanto, mas suas canções eram pouco inspiradas para gerar maior impacto, exceto para fãs obstinados. Em meio a piadas autodepreciativas sobre a idade da banda e sobre estarem fora de moda, eles se apresentaram otimistas. "Só a morte nos deterá", prometeu Dan McCafferty, na época do lançamento, e ainda teve o bom humor de acrescentar: "Mas isso pode acontecer este ano". É, mas infelizmente o cantor estava certo, e em 30/abr/1999, no início da segunda etapa da turnê do disco, Darrell Sweet sentiu-se mal no momento em que o ônibus da turnê se aproximava de Indiana. A família do baterista tinha histórico de ataques cardíacos, mas ninguém esperava que Sweet sucumbisse a um com apenas 51 anos.
Pete Agnew, Darrell Sweet, Dan McCafferty, Leahy e Murrison
Emocionalmente abalada, a banda parou a turnê por seis semanas ("Não podemos mais nos importar com a divulgação do álbum", falou McCafferty), depois reorganizou as datas com Lee Agnew, o filho mais velho de Pete, na bateria. A essa altura, porém, a SPV havia parado de promover o álbum "Boogaloo", deixando o Nazareth novamente sozinho. "Darrell era um touro", afirmou McCafferty. "Ele gostaria que Nazareth continuasse. E Lee era da família, então ele foi a escolha natural". A banda foi menos filosófica em relação à enxurrada de pedidos de emprego vindos de bateristas renomados, alguns quatro dias após a morte de Sweet. Um oportunista nos EUA até escreveu alegando que teve um sonho em que Darrell lhe entregou suas baquetas douradas. "Elas eram cor de prata", McCafferty contou com irritação. Em 2001, o Nazareth aceitou a oferta de alguns shows britânicos – os primeiros fora da Escócia em quase uma década – junto com o Uriah Heep. Os shows foram atormentados por doenças, mas a experiência aguçou o apetite de todos. "Em setembro faremos nossa primeira turnê de verdade em mais de 20 anos", prometeu Agnew. "Com isso, refiro-me a uma verdadeira série de shows. Até agora, não tinha sido realmente viável financeiramente, mas chegamos ao ponto em que estamos podendo fazer isso. Nós só queremos nos divertir. Ganharemos grana em quaisquer outros lugares. Faremos isso para compensar os custos. Deve haver pessoas por aí que ainda gostam do nosso tipo de música". Em 2004, o Nazareth renovou a fé nessa crença a partir do surpreendente sucesso alcançado pelo The Darkness. Na verdade, a banda citou o Nazareth como uma influência. "The Darkness é uma banda adorável, porque acho que eles estão irritando", contou McCafferty, bebendo uma golada de conhaque. "E se eles estão falando sério, bem… Isso é realmente muito triste". Talvez um dia o The Darkness também tenha oito milhões de álbuns falsificados em circulação na Rússia (uma estimativa conservadora do número de álbuns do Nazareth lá, aparentemente). "Você precisa entender o quão grande é Nazaré por lá", Agnew ressaltou com orgulho. "Em termos de bandas de Rock ao redor do mundo, teríamos sorte se estivéssemos no Top 20, mas na Rússia estaríamos no topo da lista e o Led Zeppelin estaria em algum lugar entre os dez primeiros. É assim que as coisas são lá".
Com mais de 20 milhões de álbuns oficiais vendidos em todo o mundo, o Nazareth está atualmente sem gravadora (embora a maior parte do seu catálogo permaneça com a Eagle Records). E eles não estão prendendo a respiração esperando respeito por suas mais de três décadas no mundo da música. "É engraçado. Éramos uma banda de Rock, éramos estrelas Pop e de repente nos tornamos dinossauros", concluiu Agnew com um sorriso malicioso. "Mas se você conseguir viver o período dos dinossauros, você se tornará uma lenda. Agora é tarde demais para se tornar encanador. E enquanto Dan e eu estivermos por perto, sempre haverá um Nazareth". Entre 2002-2013, a formação foi Dan McCafferty (vocais), Pete Agnew (baixo), Jimmy Murrison (guitarra) e Lee Agnew (bateria). Neste período, eles lançaram "Live from Classic T Stage", em 2005; "Live in Brazil", em  2007; "The Newz", em 2008; "Big Dogz", em  2011; e "Rock 'n' Roll Telephone", em 2014. "The Newz" foi o vigésimo primeiro álbum de estúdio da banda e o primeiro com o baterista Lee Agnew. Foi um inesperado retorno à boa forma (a propósito, um rejuvenescimento criativo milagroso similar ao que aconteceu com o Uriah Heep). Embora fosse nada novo em termos estilísticos, era possivelmente o melhor deles desde 81, uma recaptura do espírito e da força dos anos 70. "Big Dogz" seguiu pelo mesmo caminho, sem qualquer "reforma estilística" e entregando ao fã o que eles seguramente esperam: doses de Blues-Rock sem remorso e na cara, vocais encharcados de uísque, zero de cantigas delicadas. Bem, claro, nem todas as faixas eram vencedoras, mas nesta altura do campeonato o Nazareth ser ainda capaz de compor Rocks comparáveis a seus trabalhos anteriores era certamente uma conquista. Entretanto, em 2013, a banda anunciou a aposentadoria de Dan McCafferty devido a problemas de saúde. Isto fez de Pete Agnew o último membro original remanescente. Em 2014, o escocês Linton Osborne foi anunciado como substituto de McCafferty (com as bençãos do ex-cantor). Porém, naquele dez/2014, a banda teve que cancelar vários shows e adiar turnês devido a Osborne ter contraído um vírus.
Em jan/2015, ele anunciou sua saída da banda. No mês seguinte, Carl Sentance foi anunciado como novo vocalista. Com ele, o Nazareth já lançou "Tattooed on My Brain" (2018) e "Surviving the Law" (2022). O guitarrista original Manny Charlton morreu em 5/jul/2022, aos 80 anos. Em 8/nov/2022, Dan McCafferty morreu aos 76 anos. Estes dois álbuns são estranhos, não parecem realmente Nazareth. Som moderno, pesado, mas sem aquela sonoridade setentista e sem os vocais de McCafferty. 



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