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| Lattunen, Lehtinen, Pystynen, Heikkerö e Vuorinen |
A cena de Rock Progressivo na Finlândia no início dos anos 70 foi pequena em quantidade de nomes (eu poderia citar o Wigwam que começou tudo em 1968, a produção solo do multi-instrumentista Pekka Pohjola, egresso do próprio Wigwam, a produção do guitarrista Jukka Tolonen e de sua banda de origem, o Tasavallan Presidentti), mas robusta o suficiente para criar um mercado viável, pelo menos, dentro do território finlandês. A Haikara (tradução: cegonha) não chegou a ser tão popular quanto os citados, mas sua produção resistiu bem ao tempo e hoje é reconhecido como um dos projetos artisticamente mais criativos a emergir naquela cena. De fato, o autointitulado álbum de estreia lançado em 1972 experimentou apenas um pequeno sucesso doméstico (e, na época, quase nenhum reconhecimento fora da Finlândia), ainda que ali estivesse um som único e personalíssimo, diferente de qualquer outro dentro do Prog-Rock. Consistindo de apenas cinco faixas, havia ali uma mistura curiosa de vocais cantados em finlandês com guitarras pesadas, andamentos complexos, partes Folk pastorais e a inclusão de uma seção de metais (dois trompetes e dois trombones, mas também um violoncelo) - músicos convidados pela banda - criando um som grandioso (por vezes, até folclórico) e de impacto.
A faixa de abertura, "Köyhän Pojan Kerjäys" (tradução: Os pedidos do pobre menino), de quase 6 minutos, bem ritmada, agregando folclore finlandês, Jazz-Rock, Brass-Rock e os sopros impulsionando uma miscelânia sonora interessantíssima (a letra fala de um pobre comum, cujas visões assustadoras do mundo são as quatro composições seguintes). E o álbum seguia se tornando mais complexo. "Luoja Kutsuu" (tradução: Deus te chama), de quase 8 minutos, trazia um toque mais sofisticado oscilando entre climas (ora reflexivos, ora expansivos), um solo de órgão circundado por metais cadenciados e a marcação do baixo. Passagens Folk se alternavam com jams psicodélicas, guitarras difusas, contrastes sonoros, num ecletismo inspirado. Realmente um álbum que criou um mundo próprio. Flauta e violoncelo guiando a canção numa espécie de marcha fúnebre usando elementos de música erudita (na letra, o cantor anunciava seu ódio amargo ao Cristianismo organizado e aos líderes do mundo num visão distópica). O lado 1 fechava com "Yksi Maa & Yksi Kansa" (tradução: um país e uma nação), de quase 10 minutos. As paisagens sonoras sombrias, com o violoncelo criando climas soturnos e o sax puxando a levando a canção, guitarra distorcida e baixo trotante, entre letras sonhadoras. O lado 2 trazia apenas duas faixas. "Jälleen On Meidän" (tradução: é nosso novamente), de quase 11 minutos, era liderada por um sax bem jazzístico, melodia cadenciada, baixo fazendo bela base, vocais de grande entrega, até um ponto em que somente permanece um baixo dedilhado e, aos poucos, retomam guitarra (solando ao fundo) e o onipresente sax numa atmosfera onírica. O álbum fechava com "Manala" (tradução: mundo inferior), outra de quase 11 minutos, talvez o grande destaque. Abrindo com uma melodia totalmente suave na flauta, vocais suaves, violão e baixo calmos, logo o clima transforma-se em algo distorcido, sombrio e assustador capitaneado por um sax, piano e outros elementos que criam uma atmosfera demente. De repente, outra mudança, uma clima marcial, vocalizações e um sax jazzístico. Música abstrata, poderosa e com um final retumbante e muito bonito. A capa (feita pelo baterista) unia personagens do folclore finlandês, a vida selvagem e um lado mais sombrio da vida (como o dragão vindo no céu) criando uma sensação similar a da audição do álbum, de admiração, porém sujeita à surpresas repentinas.
Em 74, a banda lançou outro álbum, "Geafar", também muito bom, ainda que um degrau abaixo da estreia. O cantor Lehtinen saiu e a irmão de Lattunen, Auli, entrou nos vocais. Entretanto, as vendas fracas levaram a gravadora a cobrar uma linha mais comercial. A banda não concordou e o contrato foi encerrado. Ainda em 74, o líder Vesa Lattunen passou a colaborar com Jukka Kuoppamäki em seu álbum "Väinämöinen". Isto gerou oportunidade que a Haikara gravasse um novo álbum para o selo Satsanga Records, de Kuoppamäki.
O resultado foi "Iso Lintu" (tradução: pássaro grande), lançado em 76, um trabalho diferente, com um Rock mais direto, inferior ao Prog anterior. A recepção foi mista e não vendeu melhor do que seus antecessores. A banda, então, se envolveu em divergências artísticas e se separou. Lattunen e Pystynen tentaram continuar a Haikara com uma nova formação, gravaram um novo single (que foi incluído numa coletânea da gravadora Hi-Hat), mas novamente o sucesso comercial foi modesto. Ao mesmo tempo, as atividades da banda diminuíram e seus integrantes seguiram para outros projetos. No final dos anos 90, a Haikara voltou (Lattunen era o único membro da formação original), lançou dois álbuns ("Haikara IV - Domino", em 98, e "Tuhkamaa", em 2001), um outro foi planejado, mas Lattunen faleceu em mar/2005.







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