Nick Cave, Shane MacGowan (do The Pogues) e Mark E. Smith (do The Fall) já debateram num pub em 1988 (um encontro organizado pelo semanário NME). Se você curtir Mark E. Smith em sua forma mais truculenta, irá adorar. Como você pode esperar, Cave ficou lacônico (afinal, sempre odiou jornalistas), MacGowan mostrou-se afável (afinal, rolava uma birita) e Smith ficou volúvel e controverso, como sempre (por exemplo, ele afirmou que o único bom álbum de Bob Dylan foi "The Traveling Wilburys, vol. 1" e que Morrissey era irlandês, é mole?).
Smith: "Não há nada de novo no Acid House para mim, amigo. Eu uso esse processo há anos. Anos duros. Pode ser novo para você, mas não presuma que seja novo para mais ninguém, porque você está errado, cara". "Tínhamos arranjos de Jazz em 82, quando o resto daqueles idiotas tocava música lounge e pseudo New Wave, então não fale comigo sobre isso, porque eu sei do que estou falando, cara". "Não me fale sobre a opressão, meus pais e avós foram explorados ao máximo. Enviados para guerras, eles tiveram gangrena nos dentes".
Só um aperitivo. Este é Mark E. Smith gingando como um lutador profissional. Espere até ler abaixo o trecho em que MacGowan (a quem Smith chamou o tempo todo de "Sean") chamou Nietzsche de "um maníaco fascista que se fazia passar por filósofo". Pelas barbas do profeta, que encontro foi este? Vou transcrever este trecho impagável:
Smith: Se vamos falar de filosofia, isso é um monte de besteira! Os nazistas adotaram seu credo e o distorceram, citando-o erroneamente o tempo todo.MacGowan: É a sede de poder. Tente reinterpretar essa frase. Você não pode, isso é o que é.Smith: Ele não era nazista – você só está dizendo isso, porque algum maldito professor politécnico disse que ele era.MacGowan: Estou dizendo isso porque li dois de seus livros onde ele rejeitava os fracos, os feios, os radicalmente [racialmente?] impuros, o Cristianismo, Sócrates, Platão. Ele era contra qualquer um que não tivesse um corpo forte, traços perfeitos...Smith: Essa é a "análise de mesa de centro". Ele era a pessoa mais anti-alemã e pró-semita…MacGowan: Seus livros estavam cheios de ódio.Smith: Você acabou de dizer que fica cheio de ódio quando sobe no palco.MacGowan: Eu não saio por aí dizendo que Sócrates era um idiota, Jesus Cristo era um idiota, não é?Smith: Jesus Cristo foi a maior praga para a raça humana. E todos eles, socialistas e comunistas – cristianismo de segunda categoria. Está tudo bem para vocês, católicos. Fui criado com católicos irlandeses. Alguns dos meus melhores amigos são católicos irlandeses.MacGowan: Ouça-o.Smith: Hitler era um católico vegetariano, não fumante e não bebedor. A maneira como você está falando sobre Nietzsche é que qualquer pessoa que não fuma e não bebe é nazista. Esse é o nível do seu debate, amigo. Você não sabe porra nenhuma sobre Nietzsche, cara!
Todo este papo, lembra-me algumas discussões que presenciei na juventude em bares/clubes nas quais amigos/conhecidos debatiam com fervor usando argumentos de principiantes que me assustavam pelo nível de fragilidade. Na biografia de Nick Cave, "Bad Seed", um cara que esteve neste debate relata que enquanto Cave (que acabara de passar sete semanas numa reabilitação) estava limpo e sóbrio, MacGowan tinha "tomado Ecstasy e bebido uma garrafa de uísque na vinda para o pub". MacGowan contou depois:
"Eu estava fora de mim, Cave estava completamente sóbrio, bebendo chá, e Mark E. Smith estava chateado e muito beligerante. Deve ter sido muito difícil para Nick, mas eu não estava naquela situação, você entende o que quero dizer. Estávamos reclamando e delirando e Nick ficou muito quieto. Fiquei surpreso com o quão frio ele estava, considerando-o. Na época, eu estava muito chateado com a turnê e falei sobre isso na entrevista, e ele disse: 'Bem, por que você simplesmente não para?' e não consegui pensar em um bom motivo, porque estava na engrenagem e você não consegue sair dela. Nick revelou ter uma inteligência selvagem. Ele é uma pessoa intensa. Foi uma ótima entrevista, dois irmãos de alma e Mark E. Smith. Cave estava acabando com nós dois, ele basicamente instigou a briga entre eu e Mark Smith. Ele ficou agitando e vendo até onde aquilo iria chegar. Mark E. Smith ficou me dizendo coisas que eu não poderia deixá-lo sem resposta, coisas sobre a Irlanda e o Exército Britânico. O repórter Sean O’Hagan também ficou maluco, ele é de Armagh [cidade na Irlanda do Norte], católico. Nick ficou só curtindo à medida que a coisa ficava cada vez mais intensa e os repórteres se juntaram e eu comecei a ficar maluco".
Kkkkkk. Vou fechar com Nick Cave, Shane MacGowan e Kylie Minogue (!) cantando "Death Is Not The End", de Bob Dylan (do jeitinho igual ao que está no álbum "Murder Ballads", de Nick Cave & The Bad Seeds):


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