domingo, 7 de junho de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: Yezda Urfa - "Boris" (1975)

Brad Christoff, Phil Kimbrough e Marc Miller formaram uma banda quando eram ainda calouros no ensino médio, na cidadezinha de Portage, Indiana (bem pertinho de Chicago, Illinois). Eles seguiram caminhos separados depois de um curto período de tempo, mas Phil e Brad eventualmente se uniram a Mark Tippins para formar outra banda, de sonoridade Folk acústica (isto ainda durante o ensino médio). Após todos terminarem o segundo grau (na mesma escola, no mesmo ano), eles passaram a procurar por um baixista e lembraram que Marc Miller tocava o instrumento. Num teste, Miller curtiu aquela música e sentiu algo significativo ali (embora o som fosse fortemente influenciado pelo Folk/Rock/Jazz e estive mantida a instrumentação de violão/bandolim/flauta), mas a influência do Rock Progressivo já estava começando a pairar sobre eles e logo adotaram guitarra elétrica, teclados, sintetizadores e a música se tornou cada vez mais Prog. Deram ao projeto o nome "Yezda Urfa" (uma brincadeira com Yazd, cidade do Irã, e Urfa, cidade da Turquia, nomes encontrados num dicionário/atlas de lugares interessantes). Logo, conheceram Rick Rodenbaugh (de Park Forest, Illinois) através de um anúncio do tipo "procuramos um cantor". Era o outono de 1973 e eles começaram a tocar e fazer música influenciada pelo lado mais complexo do Prog inglês (pense Yes e Gentle Giant), além de compositores russos como Stravinsky e Mússorgsky. Christoff era o baterista, Miller era o baixista, Tippins tocava violão, guitarra e banjo, Kimbrough tocava teclados, bandolim e instrumentos de sopro. Além disto, todos faziam backing vocals para Rodenbaugh. O Yezda Urfa fez alguns shows junto com outros grupos locais (entre eles, um no Augustana College, em Rock Island, Illinois), mas lá pelas tantas resolveu devotar a maior parte da atenção/energia para ensaios e gravações. Compraram um gravador de rolo, criaram um console para mixagens, adquiriram microfones etc.
Tippins, Rodenbaugh, Miller, Christoff e Kimbrough (por volta de 1975)
Em 1975, eles conseguiram produzir a gravação "demonstração" completa de um álbum chamado "Boris" (gravado em três noites) totalmente auto financiada (o LP demo foi prensado em algum lugar de Chicago e foram feitas apenas 300 cópias). Eles queriam fazer uma dessas cópias chegar a alguma gravadora que se interessasse em lançá-lo. Entretanto, não conseguiram encontrar uma gravadora interessada no material (cópias originais deste álbum são hoje extremamente raras e caras). A capa foi feita artesanalmente por um cara, Don Tarr, que atuava como "empresário" da banda. O desenho em vermelho e branco ficou assim por economia de dinheiro. "Boris" era uma joia Prog sinfônica, muito na linha do Yes/Jethro Tull (sem ser um clone), porém em velocidades mais frenéticas. Cinco faixas (na edição em CD foi acrescentada mais uma), a maioria com duração perto de dez minutos, composições bem variadas, utilizando piano acústico, violão, órgão de igreja e guitarras - noutros momentos há banjo, flauta, piano eléctrico, xilofone e cravo ou teclados efervescentes com voos Moog e Mellotron. Há um cruzamento entre Prog sinfônico e a típica sonoridade Canterbury com vocais lembrando Jon Anderson. Velocidade vertiginosa com virtuosismo (jogando contrastes a todo instante), mais excelentes vocais. Um discaço (no nível da produção do melhor do Prog nos EUA dos anos 70), música complexa, intrincada e maravilhosa.
O tempo passou e, em 1976, a banda sentiu necessidade de fazer outro álbum que fosse mais polido e refletisse melhor onde estávamos musicalmente naquele momento. A ideia era vender o álbum onde quer que conseguissem e, com sorte, chamar a atenção de uma gravadora. Todo o novo processo de gravação aconteceu no mesmo e velho estúdio em Chicago, onde "Boris" havia sido gravado. Mas eles sentiram que não estavam recebendo o devido tratamento. Phil Kimbrough, então, encontrou um estúdio totalmente novo com uma mesa de 24 pistas. Já haviam gravado algumas canções no estúdio antigo (de 16 canais) e não queriam desperdiçá-las (e nem podiam, pela falta de dinheiro). Inventaram que Brad Christoff havia morrido (!) e pediram ao estúdio que lhes desse a fita com tais gravações (algo como uma lembrança de um ente querido). O pessoal do estúdio lhes entregou a fita junto com condolências e a banda a levou para o novo estúdio. Mas houve problemas. O engenheiro de som enfrentou desalinhamento das trilhas na nova mesa. Ainda assim, foi muito estimulante trabalhar podendo usar 24 pistas, o que permitia muitos overdubs. O segundo LP foi chamado "Sacred Baboon" e, de fato, adicionou todo tipo de overdubs estranhos às suas composições implacáveis ​​e envolventes (por exemplo, uma tosse sincronizada cobrindo um erro num solo de guitarra ou percussão feita batendo na mesa repleta de utensílios de madeira). Se em "Boris" havia um certo sentido de urgência/frescor/beleza esquisita (em parte devido à sua produção crua), aqui a produção melhor gerava um resultado mais bem acabado, mantidas as influências de Yes/Gentle Giant e toda a velocidade de ideias/virtuosismo instrumental. Sem grana para lançar qualquer dos dois álbuns (pelo menos, do jeito idealizado), a banda recebeu uma oferta do selo Dharma Records, de Libertyville, Illinois, mas acabou rejeitando e arquivando-os. Christoff e Miller saíram da banda na primavera de 1981 e mudaram-se para o sudoeste norte-americano. Tippins e Kimbrough ainda continuaram compondo até que Kimbrough resolver desistir (ficou difícil continuar como dupla, além do fato de que a cena musical havia mudado muito e para pior em relação ao Prog). Brad Christoff foi para Phoenix, Arizona. Phil Kimbrough foi para Los Angeles, CA. Marc Miller foi para Albuquerque, Novo México. Rick Rodenbaugh foi para a Flórida. Mark Tippins permaneceu no noroeste de Indiana. Eles mantiveram algum contato, mas não muito.

Então, cerca de sete anos depois, o vendedor Peter Stoller se deparou com uma cópia do álbum "demo" "Boris". O LP havia sido vendido (trocado?) na loja de discos onde trabalhava. Ele o ouviu, adorou e o comprou. Ato contínuo, contactou Greg Walker do selo Syn-Phonic Music, de American Fork, Utah, que então tentou entrar em contato com Phil Kimbrought, já que seu nome e número de telefone estavam rabiscados na capa do disco (é mole?). Depois de algum esforço (Phil já havia se mudado de endereço e número de telefone), Greg conseguiu encontrar Phil e "Sacred Baboon" acabou vindo à luz do dia em 1989. "Boris" só foi lançado em 2004. Outras reedições se seguiram e, em 2004, três deles se juntaram para um concerto de reunião que aconteceu no North East Art Rock Festival (conhecido como apenas NEARfest, que entre 99-2011 foi o mais prestigiado festival anual do Rock Progressivo no mundo, sediado em Bethlehem, Pennsylvania - em 2012 ele foi descontinuado). A gravação ao vivo deste show foi lançada depois em 2010. Embora Rodenbaugh tenha morrido em 2008, os demais ainda mantém atividades musicais em paralelo às suas profissões reais. 



Sem comentários:

Enviar um comentário

Destaque

ARCHIVE Crossover Prog • United Kingdom

  ARCHIVE Crossover Prog • United Kingdom Biografia do Archive: O ARCHIVE começou como um grupo de trip-hop em 1994, quando Darius Keeler e ...