domingo, 7 de junho de 2026

Santana: aclamados pioneiros da combinação Blues, Rock e música latina

 

Em 98, a banda Santana entrou para o R'n'R Hall of Fame. No ano seguinte, saiu "Supernatural" (de jun/99), décimo oitavo álbum de estúdio, o primeiro pelo selo Arista Records. O álbum seria um gigantesco sucesso ao passar 18 semanas em 1º lugar das paradas. Também alcançaria o 1º lugar com dois singles, "Smooth" e "Maria Maria". O álbum seria certificado 15x como "disco de platina" (imagine isto!) tendo vendido 30 milhões de cópias em todo o mundo. O álbum nº. 1 anterior da banda havia sido "Santana III", em 1971. Incrível, não? Em 99, Carlos já era um respeitado veterano do Rock e fazia anos que ele estava à margem do sucesso. Clive Davis, o cara que o contratara para a Columbia Records em 1968, ofereceu-lhe oportunidade em sua então nova gravadora, a Arista Records. E seguindo uma tradição de retornos de artistas veteranos em voga naqueles anos 90, "Supernatural", foi concebido como um evento repleto de estrelas convidadas (Lauryn Hill, Eagle-Eye Cherry, Eric Clapton, Dave Matthews, Rob Thomas,  Maná etc.). Isto levava a uma espécie de incômodo geral: apesar dos diversos momentos excelentes, o álbum nunca fixava-se numa voz/direção por conta de tantos convidados especiais. Bem, esta sensação nem era culpa dos próprios convidados e nem mesmo de Carlos (que continuava com suas excelentes performances). Algumas faixas soavam desculpa para jams (cá entre nós, algo nada tão estranho nos álbuns da banda). Grandes grooves, truques acessíveis às rádios, canções ultra cativantes... realmente, "Supernatural" não tinha essa tal direção definida oscilando entre números tradicionais da banda e colaborações contemporâneas refinadas, acertando em cheio em vários momentos. Aliás, os momentos de pico do álbum eram em algumas entre as melhores canções da banda em décadas. Um retorno matador. "Supernatural" conquistou 9 prêmios Grammy, incluindo álbum do ano e também ganhou 3 Grammys latino. O sucessor de "Supernatural" apareceria três anos depois e foi muito aguardado. "Shaman" (de out/2002) estreou no nº. 1 das paradas vendendo rapidamente, porém o apelo desapareceu logo. Ainda assim, conquistou 2x "disco de platina". "Shaman" era uma sequência, uma repetição de fórmula. Novamente, Rob Thomas (um dos motivos do sucesso de "Smooth") estava de volta, sem cantar, é verdade, mas escrevendo duas faixas e fornecendo um modelo para todos os demais novos convidados (Michelle Branch, Seal, Macy Gray, Dido, Alejandro Lerner, Ozomatli, Plácido Domingo etc.). Aliás, todos ali se mostravam ansiosos por conquistar uma nova etapa em suas respectivas carreiras. O resultado desta salada era misto. Havia momentos embaraçosos, mas também havia surpresas muito positivas (como "Why Don't You & I", com Chad Kroeger superando em muito tudo o que ele fizera no Nickelback). E esse era um dos problemas: cada faixa era adaptada para os pontos fortes do vocalista e não para os pontos fortes de Carlos, relegado a ficar com interlúdios instrumentais insignificantes e esquecíveis ou tocando linhas sob as melodias vocais. "Shaman" era, por isso, essencialmente muito parecido com "Supernatural" e ambos muito diferentes de Santana
Com o esgotamento do apelo renovado, o álbum seguinte levou outros três anos. "All That I Am" (de 2005) estreou no nº. 2 das paradas, mas teve desempenho pior internacionalmente e rapidamente perdeu apelo. Basicamente, era uma continuação do Pop Rock latino dos dois álbuns anteriores com a mesma fórmula repleta de estrelas convidadas e com Carlos funcionando como um músico coadjuvante naquele desfile de gente cantando canções Pop em seu próprio álbum. Em "Supernatural" havia funcionado porque era um conceito relativamente novo, as estrelas eram bem escolhidas e o material era afiado. "Shaman" era mais irregular (tinha apenas o ótimo single "The Game Of Love"), não era ruim, mas soava como fotocópia. "All That I Am" piorava esta sensação de cópia. Tudo soava familiar, as estrelas não brilhavam mais (Mary J. Blige, Big Boi, Steven Tyler, Will.i.am etc.), produção limpa e segura, canções feitas por profissionais, previsíveis e comuns. Veja: nenhuma era ruim, então não era algo ofensivo, mas também não divertia. Pop deliberado, com Carlos em segundo plano em seu próprio disco, num repertório brando e amigável que desaparecia no ar quando o álbum terminava. Nova pausa de cinco anos para surgir o trabalho seguinte, "Guitar Heaven" (de set/2010), o vigésimo primeiro álbum da banda, agora com Carlos interpretando standards do Classic Rock. Novas estrelas convidadas (Rob Thomas, Chris Cornell, Scott Weiland, Jacoby Shaddix, Gavin Rossdale, Pat Monahan, Chester Bennington etc.) para atuarem como frontman e Carlos apenas fazendo preenchimentos cheios de babados. Produção Pop, vocais empurrados para a frente, pouco espaço para solos estendidos, tudo lembrando o caminho fácil escolhido. Troço horroroso. Marcou outro declínio comercial da banda. 
Em mai/2012, surgiu "Shape Shifter" (estreia pelo selo Starfaith Records, do próprio Carlos), uma volta ao som convencional do Latin Rock. Um álbum quase completamente instrumental, com Carlos produzindo ou coproduzindo tudo, tentando a reinvenção daquilo que sempre acreditou ser: um guitarrista inovador e explorador. Embora não haja como negar a personalidade intacta de sua guitarra, muitas daquelas canções eram meros veículos para improvisações. Um trabalho longe de ser perfeito no qual a falta de ideias composicionais mais convincentes e os problemas de produção eram contrabalançados pela vontade de Carlos voltar a oferecer sua guitarra em destaque total novamente. Em fev/2013, Carlos confirmou planos de reunião da formação clássica do Santana para gravar material novo (pelo menos os sobreviventes Neal Schon, Gregg Rolie, Mike Shrieve e Mike Carabello - o baixista David Brown havia morrido em set/2000). Entretanto, em mai/2014, lançou "Corazón" e, em set/2014, "Corazón – Live from Mexico: Live It to Believe It", um álbum ao vivo. "Corazón" marcou a estreia do Santana pela RCA Records. Desta vez, Carlos cercou-se de uma banda de feras e manteve a série de superestrelas da música latina, porém demonstrando apetite renovado. Uma espécie de reembalar Santana para as novas gerações. Um álbum satisfatório (apesar de algumas faixas esquecíveis) com Carlos mostrando disposição.
Em abr/2016, surgiu finalmente "Santana IV", o tão aguardado álbum de estúdio que reuniu a formação clássica do início dos anos 70. Foi a primeira vez em 45 anos que o quinteto que gravara "Santana III" em 1971 se juntava. As origens deste reencontro remontavam a um convite de Schon para que eles gravassem juntos de novo. Carlos gostou e propôs que a dupla recrutasse Rolie, Shrieve e Carabello. Entre 2014-16, o grupo acumulou 16 novas canções resgatando todos os elementos mais característicos do grande Santana: os ritmos afro-latinos, os vocais elevados, os eletrizantes solos de guitarra Psych-Blues e o trabalho de percussão irreprimível e jubiloso. Troço mágico, sem forçar nada, de valor musical imediato. A interação entre os guitarristas Carlos e Schon era ardente, Rolie e Shrieve inspiradores (inclusive com Rolie cantando ainda melhor do que na juventude), resgate do som central da banda, os grooves, as combinações estilísticas de Hard Rock, Funk e cumbia, o Blues-Rock psicodélico, jams instrumentais, Schon desafiando Carlos a trabalhar mais em anos, Jazz-Fusion, Salsa, múltiplos voos, um álbum lindo e emocionante. Apesar de longo (75 minutos - certamente, teria se beneficiado de uma edição mais criteriosa), o resultado era de encher os olhos (e ouvidos). Em out/16, surgiu o ao vivo "Santana IV: Live At The House Of Blues Las Vegas" (DVD, Blu-ray e 2CDs) contendo um concerto deles em mar/16.
Em jan/19, a banda assinou com a Concord Records. Logo, surgiu o EP "In Search Of Mona Lisa" (5 faixas) com uma nova formação. "Africa Speaks", de jun/2019, foi o 25º da banda, sob produção de Rick Rubin. Sob inspiração de melodias e ritmos africanos, a banda se apresentava deslumbrante em termos de energia e visão. Um grupo intenso, inquieto e musicalmente faminto. Um octeto em chamas liderado pela força da natureza da espanhola Concha Buika (cantora, compositora, poeta e produtora) e pela guitarras pungentes de Carlos. Ritmos fortes, riffs de guitarras cortantes, baixo poderoso e uma das melhores linhas de percussionistas já formadas. Um álbum escaldante e altamente recompensador. 
"Blessings and Miracles", de out/2021, é o trabalho mais recente e pertence à mesma linhagem de "Supernatural", um disco em que Carlos muitas vezes cede os holofotes a um conjunto diversificado de estrelas convidadas. O que parecia novo em 1999, agora soa estereotipado. Fusões esquisitas fazem o álbum soar criado numa sala de reuniões corporativas. Bênçãos e milagres não funcionam sempre.


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