terça-feira, 16 de junho de 2026

Laghonia - Glue (1968)

 

Precisamos vasculhar o baú de tesouros da memória para desenterrar "Glue", da banda peruana Laghonia, para nossa seção sobre o melhor do rock peruano. Estamos falando de 1968, o auge da explosão psicodélica, e esses jovens em Lima estavam totalmente em outro planeta, sintonizando as mesmas estações de rádio que os Beatles ou os Byrds, mas com aquele toque especial de pisco. É por isso que acho que esta é a banda mais autêntica surgida no Peru  nos anos  60  e  início dos 70.  Enquanto aqui na Argentina os caras de Los Gatos usavam ternos e cantavam "La Balsa", no Peru esses caras estavam completamente imersos em uma nuvem de psicodelia, distorção e órgão Hammond que arrebata a mente. É incrível pensar que uma joia psicodélica de garagem como essa tenha surgido de lá naquela época. O álbum é uma bela mistura de estilos; Dá para perceber que os músicos estavam constantemente atentos a tudo que surgia e misturando tudo, mas o resultado é incrível, e se você não acredita em mim, ouça!
 
Artista: Laghonia
Álbum: Glue
Ano: 1968
Gênero: Rock Psicodélico / Beat
Duração: 34:47
Nacionalidade: Peru



Lima, uma cidade onde quase nunca chove. Mas existe uma música que podemos ouvir sobre o que aconteceria se chovesse.

Coloque seus fones de ouvido e prepare-se, porque este álbum é cola (com o perdão do trocadilho) que vai te manter grudado no sofá. A banda Laghonia (antigamente The New Juke Box Band, um nome com menos estilo do que uma linha de texto) lançou esta obra-prima, que é basicamente um manual de como soar como Londres, apesar de ter nascido na costa do Pacífico.  
Se não me engano, seus dois álbuns foram gravados em estúdios acessíveis apenas por  estrada , já que os grandes estúdios  de gravação  eram caros demais  para esses hippies sem um tostão.

A versão oficial absurda de que o rock latino se desenvolveu exclusivamente no México, Argentina e Espanha precisa ser desmascarada, visto que estilos musicais superiores surgiram em diversos países de língua espanhola. Esse fenômeno começou nas décadas de 1960 e 70 com bandas que hoje são cultuadas mundialmente, e informações sobre elas são mais comuns em sites estrangeiros e em inglês. 
Desta vez, viajamos ao Peru, o verdadeiro berço do punk e também o berço, em 1965, do New Juggler Sound, grupo fundado pelos irmãos Saúl e Manuel Cornejo. Mais tarde, eles mudaram o nome para Laghonia após a entrada do organista Carlos Salom. A formação completa era composta por Saúl Cornejo (guitarra e vocal) e Manuel Cornejo (bateria), acompanhados por David Levane (guitarra e vocal), Carlos Salom (órgão Hammond), Eddy Zaraus (baixo) e Alex Abad (percussão). 
E foi essa formação que, em 1968, lançou o álbum de estreia da banda, intitulado Glue, pioneiro no rock latino pelo uso do órgão Hammond. As qualidades sonoras desse instrumento complementavam as influências da banda, que iam de artistas como The Jimi Hendrix Experience, Cream e Santana, à música beat. Diz-se que o álbum foi gravado na estrada em estúdios portáteis, embora não saibamos o quão verdadeira ou plausível essa história é, já que gravar na estrada, considerando o tamanho de um órgão Hammond, parece improvável. Mas, de qualquer forma, mitos à parte, vamos ao que interessa: a música. 
Na primeira faixa, "Neighbor", o órgão Hammond demonstra sua maestria. Acordes distorcidos também aparecem, enquanto a seção rítmica é reforçada pela percussão. A linha de baixo em "The Sand Man" é excelente, e o trabalho de guitarra também é notável. Os arranjos psicodélicos de órgão são a cereja do bolo.
'Billy Morsa' se destaca em seus refrões, exibindo um som psicodélico repleto de acordes marcantes. A percussão funciona perfeitamente, adicionando um toque latino. O órgão é quase imperceptível. A excelente 'Trouble Child' começa com arranjos de guitarra elétrica, dando lugar a uma seção rítmica concisa e precisa que não oferece descanso. Os riffs e solos presentes nesta faixa são soberbos. 
'My Love' é outra joia, com um som que contrasta fortemente com a faixa anterior, embarcando em uma balada psicodélica com vocais soberbamente executados. O órgão cria uma base requintada de sons ácidos, enquanto a bateria é tocada sutilmente. Em 'And I Saw Her Walking', as vozes se misturam para se complementarem e criarem harmonias, muito no estilo das bandas americanas da época. A direção da seção rítmica e o excelente trabalho de guitarra, que entrega alguns solos muito eficazes, também são dignos de nota. 
'Glue' é uma faixa estruturada em torno do som da guitarra, uma fusão de acordes nítidos e distorcidos. O órgão faz aparições esporádicas, mas sempre acerta a nota perfeita. Após esse grande momento, vem a maravilhosa faixa final, 'Bahia', com certas influências latinas, especialmente na percussão que acompanha a bateria. Apesar desse som latino, uma certa qualidade influenciada pela batida também é perceptível. E, obviamente, seria imperdoável não enfatizar o maravilhoso trabalho de guitarra, que se torna o destaque da música. 
Assim termina uma verdadeira joia do rock latino, que foi relançada em diversos países, notadamente pelas gravadoras World In Sound (Alemanha) e Lazarus Audio Products (Estados Unidos), entre outras. Vários relançamentos também foram realizados em países de língua espanhola, refletindo o valor dessa obra fundamental para a compreensão do desenvolvimento do rock na América do Sul.



"Glue" é um álbum que envelheceu melhor do que muitos clássicos da época. Não é apenas uma curiosidade histórica do Peru; é um fantástico álbum de rock psicodélico que supera várias bandas inglesas que se achavam as melhores na época. Se você gosta do início do rock progressivo, da psicodelia e daquele som do final dos anos 60 que te faz sentir que o mundo ainda pode ser consertado, dê uma ouvida. É curto, eficaz e te deixa querendo mais. Uma verdadeira joia (e não daquelas que você encontraria num colar).

Por favor, ouça... 


E agora, o comentário do nosso querido Jimi, que nos diz o seguinte:

Em 1968, o Peru deixou sua marca com essa contribuição para o desenvolvimento do rock e da psicodelia latino-americana. O lançamento de "Glue", em 1968, pela banda peruana Laghonia, data de um período inicial em que grande parte do rock latino-americano ainda estava em seus primórdios. A banda surgiu por volta de 1965 sob o nome de New Juggler Sound, um grupo fundado pelos irmãos Saúl e Manuel Cornejo, mas que logo mudou seu nome para Laghonia, incorporando um órgão Hammond à sua formação. 
Depois de lançar alguns singles enquanto ainda atuavam como New Juggler Sound, eles lançaram seu álbum de estreia oficial em 1968 como Laghonia, pelo selo MAG. Este álbum é uma joia do rock peruano, uma empreitada psicodélica com toques hippies, apresentando temas típicos do rock, ritmos cativantes e elementos instrumentais fundamentais para o seu som. Esses elementos derivam, em primeiro lugar, de guitarras distorcidas com fuzz que dominam com força bruta e implacável e, em segundo lugar, da inclusão de um órgão Hammond que revitaliza o som, imbuindo as performances com maior potência. Poucas bandas na América Latina da época utilizavam um Hammond B2.
Elementos como a adição de percussão típica podem ser ouvidos no álbum, como na faixa "Billy Morsa", uma ótima canção com um riff e ritmos que carregam uma atmosfera rústica e sombria. A guitarra elétrica e seus riffs distorcidos são outro elemento que confere à faixa, assim como a muitos outros momentos do álbum, aquele som originário dos recônditos obscuros do underground peruano. No geral, parece um álbum sombrio e bem elaborado, mas com elementos que o imergem em cavernas melancólicas do rock, e com muito a dizer através da instrumentação; esse caráter sombrio parece ser um de seus maiores trunfos.
Apesar de ainda apresentar letras em inglês e alguns clássicos do rock da época, o álbum possui uma personalidade forte e é, de modo geral, muito agradável. Diz-se que o segundo álbum do grupo, "Etcetera", de 1971, possui um conceito mais maduro e elaborado, mas, focando na estreia, o som é excelente para o ano de lançamento e conta com faixas memoráveis, como "Neighbor", "Billy Morsa" e a cativante "My Love", com sua melancolia e o proeminente órgão Hammond que encerra a composição.
A sonoridade do álbum apresenta uma clara influência estrangeira; muitas vezes, as jams lembram bandas de rock inglesas, como The Yardbirds, e a inclusão de solos de guitarra evoca a experiência de Hendrix, Cream, ou até mesmo há quem diga que há algo de Santana presente.
Ainda assim, o grupo transita com perfeição entre o rock, o pop e a psicodelia, com uma variedade de ritmos e intensidades instrumentais. O órgão Hammond se destaca sempre que aparece no som, embora não em todas as músicas, oferecendo ao grupo uma boa oportunidade para exibir outras facetas instrumentais e percussivas. Embora não seja um álbum predominantemente baseado em riffs, a guitarra elétrica ainda desempenha um papel importante, contribuindo com alguns solos excelentes.
Para esta gravação, a banda era composta por Saul Cornejo na guitarra e vocais, Manuel Cornejo na bateria, Eddy Zaraus no baixo, David Levane na guitarra e vocais, Carlos Salom no órgão e Alex Abad na percussão. O lançamento seguinte do grupo foi o autointitulado "Laghonia", em 1971. Este álbum, juntamente com seu álbum de estreia, "Glue", de 1968, forma uma parte importante da história do rock peruano e é um marco no rock latino-americano.
Durante a gravação de seu último álbum, "Etcetera", Eddy e Alex deixaram a banda para embarcar em uma jornada espiritual. Manuel, Saúl, Carlos e David terminaram o álbum, mas a banda logo se desfez. Após o fim do grupo, os irmãos Cornejo e Carlos Salom formaram o We All Together. 
Laghonia é uma das bandas de rock peruanas mais emblemáticas da época, fazendo parte dos primórdios do rock no país, ao lado de outros grupos peruanos como Traffic Sound, Pax, Telegraph Avenue, El Alamo e We All Together. A história da banda seguiria outros rumos, mas este álbum de estreia é uma obra pesada, cavernosa e psicodélica que conquistou seu lugar na história e não deve ser ignorada.

Jimi Hendrix


"Glue" é um álbum distorcido, porém irresistível. Ele transita da inocência pop pura à viagem ácida mais densa sem pedir permissão ou se desculpar. Se você curte rock dos anos 60 com cheiro de porões úmidos, Hammonds valvulados e guitarras no volume máximo com pedais de distorção, isso é pura felicidade. Uma joia escondida que merece ser iluminada!


 
Lista de faixas:
1. Baby, Baby (1:50)
2. I Must Go (2:58)
3. Neighbor (3:23)
4. The Sand Man (3:27)
5. Billy Morsa (4:19)
6. Trouble Child (2:51)
7. My Love (4:52)
8. And I Saw Her Walking (3:22)
9. Glue (3:17)
10. Bahia (4:24)

Formação:
- Saul Cornejo / guitarra, voz
- Manuel Cornejo / bateria
- Eddy Zaraus / baixo 
- David Levane / guitarra, voz
- Carlos Salom / teclados 
- Alex Abad / percussão


  


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