domingo, 30 de agosto de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: Epidaurus - "Earthly Paradise" (1977)

 


Todos os envolvidos no Epidaurus eram nascidos no chamado "Vale do Ruhr" (região metropolitana mais populosa da Alemanha ocidental, englobando Dortmund, Bochum, Essen e Gelsenkirchen). Eram eles Christiane Wand (vocais), Günter Henne e Gerd Linke (teclados), Heinz Kunert (baixo), Manfred Struck e Volker Oehmig (bateria), sem guitarras. O grupo foi montado em Bochum, em 1975, com foco em tocarem Rock Progressivo orquestral e instrumental. No centro do projeto e funcionando como líderes estava o tecladista Günter Henne e o baterista Manfred Struck, mas Kunert era o mais experiente (tendo tocado em diversas bandas locais, desde os anos 60). Struck e Henne, ambos com formação erudita, já haviam tocado numa banda juntos ("Teraohm", entre 70-72). Linke também já tocara no final dos anos 60 e início dos 70 em diversas bandas de Beat Music. Ele tinha um emprego na indústria automobilística e ficou sabendo que um novo grupo em formação estava procurando por um segundo tecladista. Foi assim que ele conheceu Henne, Struck e Kunert. Isto era set/75 e o quarteto se autodenominou "Epidaurus" (cidade da Grécia antiga).
Heinz Kunert, Günter Henne, Volker Oehming e Gerd Linke
(Christiane Wand sentada)
As ideias logo evoluíram para o plano de gravarem um LP e, tendo conseguido agendamento para frequentes shows, passaram a querer completar a formação com uma cantora. Encontraram Christiane Wand, uma soprano com treinamento erudito. Em jun/77, chegou a hora da produção do álbum. Como o estúdio próprio de gravação em Langerndreer (área entre Dortmund e Bochum) não estava completo ainda, a banda rumou para o Hermes Sound Studio, em Kamen (perto de Dortmund). Lá, gravaram e mixaram tudo (em apenas 3 dias). Todos ali, banda e técnicos, eram bem exigentes e buscaram o tempo todo um resultado de excelência musical (até hoje, surpreende o nível da qualidade sonora alcançado). Klaus Brühs cuidou dos equipamentos; Manfred Struck, embora um excelente baterista, junto com Hans Schade (engenheiro de som do estúdio), foram responsáveis pelas gravações e mixagens. Por causa desse interesse maior de Struck no trabalho de engenharia, Volker Oehmig ingressou na banda como segundo baterista (por isso, foram gravadas faixas com cada um dos bateristas). Peter Mayer (flauta transversa) também tocou em duas faixas ("Andas" e "Silas Marner") como convidado (aliás, "Silas Marner" tinha esse nome por causa do livro de George Eliot, "Silas Marner: o tecelão de Raveloe", de 1861). Três faixas instrumentais tiradas do início da banda foram encaixadas no lado 2 (Manfred Struck tocando nelas). As duas faixas do lado 1 contavam com os vocais de Christiane Wand (cantando letras em inglês) haviam sido compostas especialmente para a nova formação com vocais e nelas o baterista já foi Volker Oehmig. Com as gravações completadas, a banda tentou contato com gravadoras para lançamento do disco. Eles foram até a Metronome/Polygram, em Hamburgo, duas vezes tentando que o álbum fosse lançado pelo selo deles, Brain Records (então proeminente na Alemanha). As negociações aconteceram com Hartwig Biereichel, o diretor de A&R da gravadora (na época, também baterista da banda Novalis, de som similar ao Epidaurus). Acabou que toda a negociação não deu em nada, assim com com outras gravadoras (outras grandes nem abriram conversas). Claro que foi um erro das gravadoras, pois o Epidaurus estava lhes oferecendo um álbum que seria reconhecido como um dos grandes do Rock Progressivo e certamente poderia ter-lhes produzido outros naquele estilo. Por isso, o álbum teve lançamento da própria banda (sem qualquer selo/gravadora apoiando - em relançamentos futuros, a Garden of Delights, selo de Bochum especializado em coisas perdidas, comprou os direitos). Somente 500 cópias foram feitas do lançamento original. A capa foi criada pelo baterista Volker Oehmig. O álbum intitulado "Earthly Paradise" foi vendido em um única loja, a Elpi, em Bochum. Sob a liderança dos tecladistas Günter Henne/Gerd Linke e do baterista Manfred Struck, toda a banda ensaiou e desenvolveu as ideias daquelas canções. Os ensaios aconteciam duas ou três vezes por semana e duravam por cinco ou seis horas. Eles eram gravados e, depois, a banda ouvia tudo, analisava e melhorava as canções. Evidentemente que o Epidaurus foi influenciado pelos grandes grupos da época (Genesis, Yes, Gentle Giant), mas houve influências vindas também do Manfred Mann, do Supertramp etc. (Günter Henne era um entusiasta de artistas de música eletrônica pioneira como o japonês Isao Tomita - uma canção dele sempre era a primeira dos shows).
"Earthly Paradise" representou a continuidade dada pelo Rock alemão à perda de fôlego do Prog inglês em 1977. Dinâmicas progressões musicais, arranjos refinados, duas faixas no lado 1 + três faixas no lado 2 totalizando apenas 32 minutos de um álbum curto. O destaque realmente era o uso dos múltiplos teclados (órgão Hammond, mellotron, mini Moog, clavinete, piano Fender Rhoads e clássico Steinway) em longos solo de grande virtuosismo. Mini suítes, paisagens sonoras idílicas e bucólicas, vocais bonitos (ainda que na linha operística), Prog sinfônico em seu melhor formato (sem excesso de pompa). Apesar do lado 1 ser excelente, o lado 2 - totalmente instrumental - era ainda melhor: perfomances mais sólidas, coesas, fortes e versáteis, acrescidas por uma eletrônica Space cheia de efeitos, bem ao gosto alemão. Neste verdadeiro "paraíso de teclados" Prog, principalmente nas faixas "Andas" e "Mitternachtstraum" (trad.: sonho da meia-noite), o deleito sonoro ficava garantido pelo desbunde técnico, pelas atmosferas eletrônicas algo experimentais (pense Tangerine Dream), bem Ambient, sob a base baixo/bateria. Uma pérola obscura e pedida do Prog-Rock



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