domingo, 16 de agosto de 2026

Grandes álbuns do Prog-Rock: Trace - "Birds" (1976)


O Trace foi um grupo holandês de Rock Progressivo da década de 1970 em torno do tecladista/compositor Rick van der Linden. Ele participou de outra banda, o Ekseption (banda de grande sucesso, conhecida pela Europa e Reino Unido, que atuou principalmente nas décadas de 60-70, inicialmente fazendo um R'n'B misturado com Jazz e depois mudando para um som com Rock e elementos eruditos na linha do The Nice). Ele estudou música em conservatório (seu pai tocava piano e isto claro o influenciou desde criança), em Haarlem (perto de Amsterdam), já tinha experiência de tocar em outros grupos e, quando entrou no Ekseption com seus arranjos de peças eruditas, foi o grande responsável pelo som completamente novo, único e energético da banda.
O Ekseption tocando em 71 com Van der Linden nos teclados
O Ekseption teve seu auge entre 1967-73, quando muitas rixas internas provocaram a saída de Rick van der Linden. Como a banda era famosa, Van der Linden teve oportunidade junto à gravadora Philips de formar um novo grupo. Ele era claramente influenciado pelos tecladistas ingleses Brian Auger e Keith Emerson e ansiava por uma banda que fosse base para suas pirotecnias nos múltiplos teclados. Ele começou, então, a ensaiar em jan/74 com o baterista Peter de Leeuwe (que já havia tocado no Ekseption). Entretanto, concluiu que De Leeuwe não era bom o suficiente e o substituiu em fevereiro por seu primo de segundo grau, Pierre van der Linden, que em out/73 havia deixado o grande Focus (com quem gravara os álbuns "Focus II/Moving Waves", "Focus III" e "At The Rainbow" formando a cozinha rítmica com o baixista Bert Ruiter). Finalmente, o tecladista recrutou o baixista Jaap van Eik (já com larga experiência - The Moans, Blues Dimension, Cuby + Blizzards etc. - e considerado um dos melhores baixistas da Holanda) formando assim um super grupo holandês. Originalmente, adotaram o nome de "Ace" (com ideia de destacar o status de supergrupo na linha do mesmo conceito do "Cream"), mas tiveram que trocar quando descobriram uma banda inglesa que já havia registrado o nome.
Jaap van Eik, Pierre e Rick van der Linden em 74
Em mai/74, o trio já intitulado "Trace" gravou o primeiro single contendo uma versão Prog-Rock para a canção "Tabu" (de Dizzy Gillespie) e uma canção original deles, "Progress". Este single foi lançado em jul/74. O álbum de estreia foi lançado em set/74 sob o título de "Trace". Agora que Rick van der Linden conseguiu a oportunidade de desenvolver suas próprias ideias musicais num formato Prog-Rock dominado por teclados você pode imaginar que este primeiro álbum era como ouvir a trilha sonora de uma guerra. Notas se espalhando disparadas como balas por uma metralhadora fumegante exatamente como no Emerson Lake & Palmer, com interação baixo/bateria estupenda. Por um lado soava como exercícios nos instrumentos com alunos buscando a perfeição na execução (e claro que isto agregava um grau de desafio na audição). Rick van der Linden desfilava uma enorme quantidade de teclados (órgão Hammond B3, clavinete, pianet Hohner, sintetizadores ARP e EMI, cravo, mellotron, órgão de igreja e o escambau). Por outro lado, era um deleite (para fãs de The Nice, ELP, Triumvirat e Le Orme) todo aquele Prog sinfônico, suntuoso, virtuosístico, majestoso, liderado por zilhões de teclados e apoiado por uma seção rítmica poderosa e propulsiva. Sim, o resultado era uma extensão da antiga banda de Rick van der Linden (o Ekseption). As semelhanças eram muitas, porém agora no formato supergrupo com cada membro sendo um virtuoso em seu instrumento. Como tanto o Ekseption, quanto o Focus haviam conquistado anteriormente grande sucesso comercial, o Trace ganhou bastante visibilidade na mídia. Claro, havia o formato de retrabalho de peças eruditas famosas ("música clássica tocada com instrumentação de Rock"), mas isto não era exatamente plágio dos compositores clássicos. Havia ali ideias suficientes para transformar/retrabalhar obras famosas para ganharem vida própria. As versões eram pessoais em interpretação, mas também havia material autoral. Havia também uma dimensão jazzística. Dá para entender porque Rick van der Linden procurou por músicos de alta formação técnica: os arranjos neste álbum eram muito complexos e de forte orientação erudita. Verdadeiras acrobacias, interações altamente complicadas, passagens desafiadoras. Realmente, o Trace reuniu uma seleção artística difícil de ser batida. Tudo isso acompanhado de passagens sonhadoras e melódicas, adaptações das partituras eruditas com improvisações, Prog sinfônico majestoso e impressionante, virtuosismo de cair o queixo.  
Gravado em mai/75 e lançado em jan/76, o segundo álbum foi "Birds". Com Pierre van der Linden tendo retornado ao Focus (para uma breve passagem), ele foi substituído pelo baterista britânico Ian Mosley (que mais tarde se tornaria baterista do Marillion, em 84, escolhido por Fish para substituir Mick Pointer, membro fundador que havia então saído). Este segundo esforço foi um álbum excepcional, muito barroco e delicado (imperdível para os fãs da mistura erudito + Rock). A habilidade de Rick van der Linden (um mago dos teclados) era realmente impressionante (no nível de Keith Emerson e Rick Wakeman). Havia a participação especial de Darryl Way (do Curved Air) num violino na faixa "Opus 1065", a épica faixa "King Bird" (que ocupava todo o lado 2 do álbum) e todo o desbunde instrumental virtuosístico que gerava música suntuosa, porém excitante. "Birds" permanece sendo o melhor momento do Trace, um grande álbum de Prog-Rock




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