segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Do Pior ao Melhor: Rush

 

Do Pior ao Melhor: Rush

Conforme prometido em enquete realizada em nossa página no Facebook, esta edição aborda a mais famosa de todas as bandas canadenses, o Rush. O trio formado por Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart em quase toda a sua carreira é dono de uma discografia desafiadora, e foi um prazer desbravá-la a fim de elencar todos os seus álbuns conforme minhas preferências. Em alguns casos, foi relativamente fácil elaborar o ranking, mas em outros a tarefa mostrou-se bem mais difícil que o imaginado, fomentando algumas mudanças em relação à projeção inicial. O mais importante de tudo é lembrar que, por mais que alguns de seus lançamentos não sejam exatamente um primor, não há sequer um disco do grupo que mereça ser chamado de “ruim”. Em cada um deles há faixas dignas do grande catálogo que esse grupo construiu em mais de quatro décadas de atividade, que foram encerradas no início deste ano. Também vale frisar que elogios a Neil Peart serão raridade durante a leitura. Atestar a qualidade absurda de suas performances é tão óbvio que me dei a liberdade de poupá-los disso.


19. Roll the Bones [1991]

Muitos nutrem um certo desprezo, mais ou menos intenso, pela fase em que o Rush focou-se nos sintetizadores, pilotados por Geddy Lee. Ao menos para mim, os dois álbuns de transição após essa época (Roll the Bones e Presto) estão em um nível abaixo. Por bem pouco, o mais fraco deles é Roll the Bones. Como afirmei na introdução, nenhum disco do Rush é verdadeiramente ruim, mas Roll the Bones é o mais inofensivo. Talvez tenha sido necessário gravar um álbum assim entre os extremos de Hold Your Fire e Counterparts, algo mais sossegado mesmo, mas a verdade é que o disco soa como uma versão pop rock, diria domesticada, de uma banda que sempre costumou ser mais desafiadora. Em qualquer álbum do trio, apesar de possíveis críticas, algumas canções se destacam bastante. Em alguns casos, porém, elas são em menor número ou em menor nível de qualidade. “Bravado”, “Ghost of a Chance”, a faixa-título e especialmente a instrumental “Where’s My Thing” são as músicas que mais chamam atenção, mas nenhuma delas chega a ser uma adição de tão grande vulto ao catálogo do grupo. De positivo, destaco o jeito mais funkeado de tocar guitarra empregado por Alex Lifeson.


18. Presto [1989]

Comparando com Hold Your Fire, seu frio antecessor, Presto representa uma forte ruptura, mas isso não o torna necessariamente melhor. Algumas músicas são bem interessantes, mas outras são simples cumpridoras de tabela sem maiores atrativos, como “Scars” e “Anagram (For Mongo)”. Não fossem outras canções mais estimulantes, Presto ocuparia o lugar que, nesta publicação, é tomado por Roll the Bones. Refiro-me a “Chain Lightning”, “The Pass” e “Superconductor”, além da melhor de todas, “Show Don’t Tell”, que coloca o trabalho de Alex Lifeson em evidência após dois discos em que suas guitarras ficaram eclipsadas pelos sintetizadores de Geddy Lee. Outra característica que me faz posicionar Presto acima de Roll the Bones é o fato de a identidade do grupo estar mais bem preservada ao longo de seu tracklist. Admito, porém, que essa escolha pode variar conforme as audições. No momento da publicação, é assim que me sinto.


17. Vapor Trails [2002]

Comecei a ouvir Rush bem na época em que Vapor Trails chegou ao mercado. Para muitos, a expectativa era grande, pois a banda estava sem lançar material havia muito tempo. Como ouvinte inexperiente, isso foi indiferente para mim. Na época, o álbum nem me conquistou, nem me decepcionou. O tempo passou e, com ouvidos mais apurados, comecei a nutrir uma certa rejeição pelo disco, mais por sua produção e mixagem ruins do que pelas composições. Algumas, inclusive, são muito boas, mostrando um Rush mais pesado e raçudo, caso da vigorosa “One Little Victory”, de “Ceiling Unlimited”, (com destaque para as linhas de baixo), “Ghost Rider”, “Secret Touch” e “Nocturne”. O restante não chama tanta atenção, mas também não chega a ser fraco. O que incomoda mesmo são os quesitos técnicos, ao ponto de não ser possível ouvir o disco em um volume um pouco mais elevado, pois a experiência torna-se desagradável, tamanha é a compressão, fazendo de Vapor Trails uma das mais evidentes vítimas da loudness war, que tanto tem prejudicado os ouvintes nas duas últimas décadas. Não à toa, uma versão remixada do álbum foi lançada em 2013. A avaliação, contudo, refere-se à sua versão original.


16. Hold Your Fire [1987]

Fosse avaliado apenas por sua sonoridade, Hold Your Fire ocuparia um lugar menos privilegiado nesta lista. Confesso que não morro de amores por sua produção e menos ainda pelo fato de as guitarras estarem tão escondidas na mixagem e/ou com uma timbragem muito “pacífica”. O disco ganha bastante gás em razão de algumas composições realmente boas, especialmente “Time Stand Still”, ápice do Rush mais explicitamente pop. Em meio a uma sonoridade mais sintética, a faixa transmite sinceridade, tem um ótimo refrão e bons vocais de apoio da cantora norte-americana Aimee Mann. “Mission” é outro destaque positivo, assim como “Open Secrets”, “Turn the Page” e “Force Ten”, que provavelmente se beneficiariam de um tratamento mais orgânico na produção. Por outro lado, algumas das músicas mais esquecíveis de todo o longo catálogo do Rush encontram-se em Hold Your Fire, como “Tai Shan” e “High Water”, que encerram o disco e toda uma fase de maneira um tanto melancólica.


15. Test for Echo [1996]

Muitos fãs não se importam que seus artistas favoritos lancem sequências de discos parecidos entre si. Para eles, isso representa não apenas a manutenção de uma sonoridade que lhes agrada, mas a segurança de que determinado padrão de qualidade também possa ser repetido. Quando se trata do Rush, que sempre primou pela busca de desafios, de ampliar seus horizontes, é o conforto que causa estranhamento. Por que digo isso? Porque Test for Echo foi o primeiro álbum no qual o Rush pareceu dar um passo para o lado, não para a frente. Não há nada de muito errado no disco, a não ser o fato de que ele soa como uma versão atenuada de Counterparts, ainda focado nas guitarras (ouçam a ganchuda “Virtuality”), mas sem a mesma pegada nem a urgência de seu antecessor. É representativo de sua época e soa bem encaixado na década de 1990 sem abrir mão da personalidade tipicamente Rush, apresentando boas canções muito bem tocadas, apenas sem o mesmo nível de qualidade com o qual a banda nos acostumou em lançamentos assim. É um álbum que se deixa ouvir tranquilamente, com ênfase para a citada “Virtuality” e a trinca inicial: “Test for Echo”, “Driven” e “Half the World” (a “Nobody’s Hero” da vez). Além disso, representa a última vez em que o Rush apresentou um disco verdadeiramente bem produzido.


14. Power Windows [1985]

Se nos álbuns imediatamente anteriores o uso de sintetizadores ainda não havia sido tão dominante, em Power Windows eles tomaram conta. Apesar das composições serem dividas com Alex, é Geddy quem dá as cartas, jogando a tecladeira para o alto na mixagem. Mesmo em se tratando de cantar, Geddy mostrou crescimento. Em nenhum outro momento o Rush fez uma intersecção tão forte com a New Wave; felizmente, isso funcionou em muitos momentos. Os melhores exemplos disso são “The Big Money” e “Marathon” (especialmente), que se encaixam em um contexto popular sem soarem popularescas. “Grand Designs” (belas linhas de teclado) e “Manhattan Project” também são bons exemplos de que o trio conseguia experimentar mantendo sua identidade e apresentando material de qualidade. O restante do tracklist, honestamente, não chama muito minha atenção, mas não chega ao nível das piores músicas de Hold Your Fire, esse sim o álbum mais fraco dessa fase.


13. Snakes & Arrows [2007]

Após um álbum questionável, o Rush soltou um trabalho mais certeiro, mesmo que produção e mixagem ainda não sejam comparáveis aos seus melhores momentos. “Far Cry” é um cartão de visitas dos mais surpreendentes, chacoalhando as estruturas e cravando um clássico instantâneo no panteão do grupo. “Armor and Sword” e “Spindrift” são hard progs atualizados e “Workin’ Them Angels” traz aquela sensibilidade pop bem vinda. “The Main Monkey Business” e “The Way the Wind Blows” colocam Alex bem à frente. A segunda, inclusive, tem uma pegada blues como pouquíssimas vezes registrada pelo grupo. O disco dá uma esfriada na segunda metade, fato que poderia ser amenizado se o tracklist fosse mais enxuto, mas essa parece não ter sido a ideia do Rush em seus últimos lançamentos, todos longos. “We Hold On”, contudo, é um bom encerramento para um álbum que recolocou o trio nos eixos.


12. Clockwork Angels [2012]

Se tem uma coisa que o Rush não fez em suas duas últimas décadas nos estúdios, essa coisa foi aliviar o pé do acelerador. Último álbum lançado pelo grupo, Clockwork Angels também é um dos mais pesados, além de ser o melhor desde Counterparts. Soa um pouco estridente demais, mas nada que se aproxime ao absurdo de Vapor Trails. O início do tracklist é especialmente avassalador, pois “Caravan”, “Bu2b” e faixa-título transmitem uma garra tão grande que não dá indícios de uma banda que estava em vias de encerrar sua carreira poucos anos depois. Atrás da densa parede formada por guitarra, baixo e bateria, “The Anarchist” esconde melodias que poderiam estar em Signals e Grace Under Pressure. Isso é muito interessante, pois, não importando o contexto, o Rush soa como o Rush. “Seven Cities of Gold” aposta no peso e em guitarras ganchudas, enquanto “Headlong Flight” é uma patada direta – para seus padrões – e sem dó. Comparando com os últimos discos lançados pelo trio, não há uma faixa tão forte quanto “Far Cry”, mas o equilíbrio compensa e faz de Clockwork Angels um dos três melhores discos da banda em suas três últimas décadas de existência.


11. Caress of Steel [1975]

Caress of Steel celebrizou-se por quase acabar com a carreira do Rush, o que é um grande exagero. O fato de distribuir mais de 70% do disco em longas suítes talvez tenha sido precipitado, mas trata-se de um bom álbum, balanceando seu lado hard rock – “Bastille Day” é um petardo de respeito, enquanto “I Think I’m Going Bald” lembra o som mais direto do primeiro álbum – com as novas aspirações progressivas. “The Necromancer” não empolga tanto, mas seu segmento porradeiro não fica devendo muito para os momentos mais pesados de “2112”. Já “The Fountain of Lamneth” é um belo aquecimento para a suíte que dá título ao disco seguinte. Falta um pouco de coesão entre seus segmentos, problema que seria corrigido em “2112”, mas o resultado é suficiente para redimir Caress of Steel entre aqueles que se deixaram levar pelas críticas a ele direcionadas.


10. Rush [1974]

O único álbum com John Rutsey não é o mais direto do trio apenas em razão da falta do estupendo Neil Peart e de suas mil viradas e levadas criativas. Pesado, Rush aposta em composições bem puxadas para o hard, flertando com o rock ‘n’ roll em estado puro ao invés do prog, vide as divertidas “In the Mood” e “Need Some Love”. “Here Again” é uma balada tipicamente setentista e isso conta pontos positivos para mim, pois, mesmo que não seja assim tão bela, representa uma faceta do grupo que muito me agrada. Melhor que ela é “Before and After”, que começa como balada e depois revela sua força. “What You’re Doing” é um soco no estômago, muito mais na cola do Blue Cheer do que do Led Zeppelin, com o qual a banda foi tão comparada nos primórdios. O melhor mesmo, porém, está no início e no fim do tracklist: “Finding My Way” e “Working Man”. A primeira é um chute na porta perfeito para apresentar o trio ao mundo, incluindo os esganiçados vocais de Geddy, criando um caso de ame ou odeie. A última é apenas aquela que, mesmo com o passar das décadas, seguiu fechando enorme quantidade de shows e embasbacando plateias, especialmente graças ao solo de Alex, um de meus preferidos em todos os tempos.


9. Grace Under Pressure [1984]

Grace Under Pressure deu sequência ao mergulho no mundo dos sintetizadores, mas ainda apresenta bom equilíbrio entre todos os instrumentos, mesmo que em determinados momentos a guitarra de Alex Lifeson não tenha o mesmo destaque. Em termos de arranjos, porém, o que não falta é capricho e criatividade. Algumas das melhores canções que o Rush criou na década de 1980 estão no álbum, como “Distant Early Warning”, que tem um dos refrãos mais inteligentes que o grupo já concebeu, e “The Enemy Within”, que mostra o trio em sua melhor versão The Police, abusando das influências ska em uma peça totalmente contagiante. A guitarra domina em “Kid Gloves”, excelente performance de Alex. Na verdade, com a possível exceção de “Red Lenses”, que não me cai bem, todo o restante do tracklist é muito satisfatório, ainda com destaque para “Red Sector A” e “The Body Electric”. Atrás daquele monte de teclas ainda pulsava um coração.


8. Counterparts [1993]

Os fãs do Rush mais pesado, calcado nas guitarras de Alex Lifeson, certamente celebraram o lançamento de Counterparts. Após uma fase fortemente focada nos teclados e dois álbuns de transição, Presto e Roll the Bones, Counterparts finalmente trouxe de volta à superfície o forte ronco das cordas comandadas por Alex, além de uma pegada mais direta, como não se ouvia desde, sei lá, Fly By Night (!). Algumas das faixas mais pesadas que o grupo já gravou encontram-se no tracklist, caso da celebrada “Stick It Out” (uma das melhores músicas da banda nos últimos 30 anos) e “Double Agent”. O álbum pode não ter a criatividade e a ousadia dos seus melhores trabalhos, mas entrega uma coleção de canções muito satisfatória, sem evidentes pontos fracos, do tipo que se ouve na íntegra sem querer pular faixa. Destaco ainda como favoritas “Animate”, “Cut to the Chase” (imagino a felicidade de Alex em poder gravar algo assim novamente), “Cold Fire” e mais uma excelente instrumental, “Leave that Thing Alone”. Mérito especial também vai para a envolvente balada “Nobody’s Hero”.


7. Signals [1982]

Primeiro passo realmente largo rumo ao mundo dos sintetizadores, Signals mostra uma banda não contente em repetir fórmulas, criando seus próprios desafios e saindo-se maravilhosamente bem. “Subdivisions” não é apenas uma música sensacional, mas uma das melhores mostras de como a introdução desses novos elementos funcionou a contento na maior parte do tempo. Recebesse uma produção à moda setentista, “The Analog Kid” seria uma belíssima faixa hard rock, mas a inserção de sintetizadores e a timbragem dos instrumentos a transformou em algo diferente e único, para o bem. “Digital Man” e “New World Man” vêm na cola do melhor do The Police (mas com o inconfundível estilo Rush), “The Weapon” parece adiantar o Yes de 90125 (1983), “Losing It” é tranquila sem ser enfadonha e “Countdown” recompensa os ouvintes mais atentos. Não é tão bom quanto seu antecessor, mas tem qualidade de cabo a rabo, é coerente e ampliou ainda mais a paleta sonora do trio.


6. Permanent Waves [1980]

Permanent Waves pode não ser o melhor disco do Rush, mas, dependendo da ótica sob a qual o avaliamos, é o mais importante. Foi com ele que o trio mostrou ao mundo que não estava preso a amarras criativas nem condicionado a formatos. Hemispheres havia sido o auge de sua fase mais progressiva. De comum acordo, a banda resolveu fazer algo diferente, ampliando seus horizontes musicais e usando sua criatividade a favor de estruturas mais palatáveis, mas não necessariamente convencionais. A magnífica “The Spirit of Radio”, com seu segmento reggae e pegada contagiante, é símbolo dessa transição. “Freewill”, com suas belas melodias e refrão deliciosamente pop, é outra que ficou para a posteridade. “Entre Nous” é mais uma das ótimas canções deixadas meio de lado pela banda. Quem se deslumbrou com o aprofundamento prog de Hemispheres e A Farewell to Kings tem em “Natural Science” um prato cheio e também ficará bastante satisfeito com “Jacob’s Ladder”. O Rush nunca foi uma banda de estagnar, sempre se renovando. Nenhuma mudança, porém, foi tão importante quanto a concretizada em Permanent Waves.


5. Fly By Night [1975]

Rush apresentou a banda com qualidade, mas o trio que aprendemos a amar nasceu em Fly By Night. Mesmo nas canções mais diretas, caso da trinca inicial (a pesada “Anthem”, “Best I Can” e “Beneath, Between & Behind”), já transparece uma nova identidade. Especialmente na terceira, o estilo lírico de Neil Peart mostra encaixe perfeito com a sonoridade excitante que se desenvolvia. Quando chegamos à quarta faixa, já estamos de joelhos, pois “By-Tor and the Snow Dog” não apenas é o primeiro grande flerte com o prog, mas uma das melhores músicas criadas pelo grupo. O lado B do vinil é muito mais calmo, mostrando um trio que tinha sensibilidade pop sem abrir mão de sua personalidade. “Rivendell” é excessivamente morosa (talvez seja a pior canção do grupo na década de 1970), mas “Making Memories” é uma bela canção acústica, “In the End” é uma espécie de versão 2.0 de “Before and After” e a faixa-título cativa logo na primeira vez para nunca mais ser esquecida.


4. 2112 [1976]

O disco que salvou a carreira do Rush é muito mais que a suíte que lhe dá nome e ocupa todo o lado A do vinil, porém é impossível negar a majestosidade de seus mais de 20 minutos, em especial de suas duas primeiras partes, “Overture” – com uma abertura dessas, fica na cara que algo grandioso está por vir – e “The Temples of Syrinx”, com Geddy se esganiçando ao limite, para deleite daqueles que amam seu estilo. O lado B, recheado de faixas mais curtas, é um agradável passeio do Ocidente ao Oriente (“A Passage to Bangkok”, com um ótimo riff), envolto em uma aura de mistério (“The Twilight Zone”), mesclando acústico e elétrico com naturalidade (“Lessons”) e mostrando uma pitada de melancolia (“Tears”), além de finalizar com uma das minhas preferidas em toda a carreira do trio, a magnífica “Something for Nothing”, um hard rock criativo de refrão forte e vocais que são puro sangue no olho. Agradeçamos sempre pela existência de 2112, pois sem ele talvez não conhecêssemos o Rush de que tanto gostamos!


3. A Farewell to Kings [1977]

Se 2112 havia confirmado o Rush como uma banda de inegável criatividade e capacidade técnica, capaz de trabalhar com formatos diferentes e ser bem sucedido em todos, A Farewell to Kings acabou com quaisquer dúvidas que houvessem restado. Em quatro canções mais curtas e duas mais extensas, o trio mostrou domínio das linguagens pop e progressiva em diferentes momentos e em conjunto, caso da excelente faixa-título, infelizmente esquecida pelo grupo na década de 1970. “Closer to the Heart” é de tão singela beleza que nem parece parida das mesmas mãos que criaram pedradas como “Working Man” e “Anthem”. Além disso, tem um dos melhores solos de Alex. “Cinderella Man” é mais hardeira, na cola de Fly By Night, enquanto “Madrigal” beira o onírico. E ainda não falei das duas canções longas, “Xanadu” e “Cygnus X-1”! A primeira certamente está entre as cinco melhores do trio, que nela mostra tudo aquilo que havia aprendido até então, mas com um refinamento invejável, arranjos para progger nenhum botar defeito e performances irrepreensíveis, transportando o ouvinte para a terra descrita no poema que a inspirou. A segunda concorre com “Witch Hunt” pelo título de música mais sombria do grupo, provavelmente vencendo-a nesse quesito e mais ainda em termos de qualidade e intensidade, especialmente em seus minutos finais. Vale dizer ainda que A Farewell to Kings é forte concorrente a ser o disco mais bem produzido do Rush. O Rickenbacker 4001 de Geddy Lee nunca soou tão bem.


2. Moving Pictures [1981]

Fossse realizada uma enquete com todos os fãs do Rush, é quase certo que Moving Pictures seria eleito o preferido do eleitorado. Isso não ocorreria à toa. O álbum não tem pontos fracos; todas as faixas são boas. Do sucesso de “Tom Sawyer” – que elevou o grupo a um patamar ainda mais alto – às inspirações reggae de “Vital Signs” e suas melodias peculiares, o disco é um grande vencedor. A contagiante “YYZ” tornou-se um balizador pelo qual tantas outras músicas instrumentais seriam posteriormente julgadas – e com razão. “Limelight” mostra aquele Rush que sabe trabalhar com mais simplicidade, mesclado melodias palatáveis ao seu rock de caráter único. “Witch Hunt” é soturna como quase nada que o trio lançou ao longo de sua carreira, enquanto “The Camera Eye” encerra a ótima série de suítes do grupo em alto nível. Não fosse uma certa música, contudo, talvez minha segunda posição fosse ocupada por A Farewell to Kings. Refiro-me a “Red Barchetta”, uma das melhores canções de todos os tempos quando o assunto é fazer o ouvinte sentir-se dentro de um filme, tão magnífica é a condução que a banda constrói ao longo de seus seis minutos. Permanent Waves libertou o Rush de quaisquer amarras criativas, mas Moving Pictures deu o salvo conduto para que, a partir de então, o trio pudesse fazer o que bem entendesse.


1. Hemispheres [1978]

Um álbum tão intenso que motivou o trio a conscientemente mudar seus rumos, explorando outros aspectos de sua sonoridade. Tudo aquilo que o Rush havia construído até então teve suas características exacerbadas em Hemispheres. Nao à toa, é o disco que representa o ápice técnico de um grupo que se notabilizou pela habilidade em seus instrumentos. Para muitos, isso significaria justamente um aspecto negativo, mas não para mim. O álbum abre com a parte 2 de “Cygnus X-1” (A Farewell to Kings), que ocupa todo o lado A do vinil. Apesar de não ter a mesma intensidade da parte 1, é uma composição repleta de boas ideias e resultados ainda melhores. O que realmente torna Hemispheres meu favorito é seu lado B, formado por um trio de canções das mais envolventes. Abusando do clichê, “Circumstances” é a típica pérola escondida, uma faixa hard rock mais direta que passei a valorizar mais com o passar dos anos. “The Trees” é fortíssima candidata a ser minha faixa preferida da banda. Sua estrutura, dividida entre dois segmentos cantados e um majestoso interlúdio instrumental, ajuda a construir o perfeito cenário para aquilo que sua letra representa. E o que dizer de “La Villa Strangiato”? Como o subtítulo entrega, trata-se de um “exercício de autoindulgência” dos mais extremos. Bom para o ouvinte, pois se “YYZ” tornou-se a mais popular entre as faixas instrumentais do trio, “La Villa Strangiato” permaneceu sendo a melhor. Para o bem e para o mal, o Rush nunca mais faria um disco como Hemispheres.

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