quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

10 discos essenciais: Clara Nunes

 



Clara Francisca Gonçalves Pinheiro nasceu em 12 de agosto de 1942 nasceu no povoado de Cedro, na época distrito do município de Paraopeba, no estado de Minas Gerais. O povoado se emancipou em 1954, e foi rebatizado para Caetanópolis. A futura cantora era filha caçula de um total de sete filhos. Sua mãe era dona de casa e seu pai era marceneiro, mas que nas horas vagas, era violeiro. Aos dois anos de idade, Clara ficou órfã de pai, que morreu num atropelamento. Quatro anos depois, a mãe de Clara morreu vítima de câncer. Passou a ser criada pela sua irmã mais velha, Maria Gonçalves, a “Dindinha”. Em 1956, aos 14 anos, Clara começou a trabalhar como tecelã na fábrica de tecidos Cedro & Cachoeira, na sua cidade natal para ajudar nas despesas da casa.

Sua vida sofreu a primeira mudança aos 16 anos, quando mudou-se às pressas para a casa de uma tia em Belo Horizonte, após seu irmão, José Gonçalves, conhecido como Zé Chilau, matar um ex-namorado de Clara, que difamou a moça pela pequena cidade por não aceitar o fim do namoro. Chilau passou vários anos foragido. Em Belo Horizonte, conseguiu um emprego numa fábrica de tecidos, e à noite estudava num curso para ser professora. Além disso, participava de um coral de uma igreja católica e cantava em festas e quermesses. Nessa época conheceu o músico e maestro Jadir Ambrósio (1922-2014), que a levou para se apresentar em programas de rádio de Belo Horizonte.

Em 1960, venceu a etapa mineira do concurso A Voz de Ouro ABC, e na etapa nacional, em São Paulo, ficou em terceiro lugar. O concurso abriu portas para a jovem Clara, cuja carreira artística estava começando. Entre 1963 e 1965, passou a se apresentar em clubes e boates de Belo Horizonte. Nessa época, assumiu o nome artístico Clara Nunes, usando o sobrenome de sua mãe já falecida. Com a acarreia artística em ascensão e os diversos compromissos, Clara deixou o emprego na fábrica de tecidos e os estudos. Uma apresentação no programa de Hebe Camargo, em 1963, rendeu a Clara o convite para apresentar o seu próprio programa de TV, o Clara Nunes Apresenta, na TV Itacolomi, de Belo Horizonte.

Clara Nunes deixou a capital mineira em 1965, e parte para o Rio de Janeiro com o intuito de alavancar a sua carreira e ganhar projeção nacional. No Rio, fez apresentações em programas de rádio e TV, em clubes e casas noturna do subúrbio carioca. No ano seguinte, em 1966, foi contratada pela gravadora Odeon que queria fazer de Clara Nunes, uma cantora romântica, uma versão feminina de Altemar Dutra, gravando um repertório essencialmente romântico e melodramático, e é claro, lucrativo para gravadora. O primeiro álbum de Clara foi lançado ainda em 1966, A Voz Adorável de Clara Nunes, com um repertório composto por boleros e sambas-canções imposto pela gravadora. O disco foi um grande fracasso comercial. Àquelas alturas, Clara Nunes já frequentava as quadras de escolas de samba através de amigos sambistas cariocas que conheceu. Em 1968, veio o segundo álbum, Você Passa E Eu Acho Graça, cuja  faixa-título, um samba de Ataulfo Alves e Carlos Imperial, fez um sucesso razoável, mas insuficiente para que o disco tivesse boas vendas. Igualmente ao disco anterior, persistiu neste álbum a insistência da Odeon em Clara gravar boleros e canções românticas. O terceiro disco, A Beleza Que Canta, chegou às lojas em 1969, e seu desempenho comercial foi ainda pior que o de Você Passa E Eu Acho Graça. A situação de Clara ficou complicada dentro da companhia. Clara Nunes sentia-se insatisfeita com o que gravava, e ela mesma percebia a necessidade de dar um novo rumo à sua carreira. Chegou participar de festivais de MPB, flertou com a musicalidade ao estilo Jovem Guarda (que já estava em decadência), mas essas tentativas fracassaram.

A mudança na carreira de Clara ocorre a partir de 1970, através da ajuda do produtor e radialista Adelzon Alves. Ele percebeu a vocação natural de Clara para o samba, e via nela, um perfil de cantora para ocupar um espaço vago deixado de Carmen Miranda (1909-1955). Segundo Adelzon, depois de Carmen, não havia surgido até então nenhuma cantora na música brasileira que representasse o Brasil de forma autêntica, seja visual e musicalmente. Foi então que Adelzon ajudou Clara a criar um projeto de carreira, envolvendo tanto o aspecto mercadológico como artístico-cultural. Mercadológico por atender ajudar a criar um perfil de cantora de samba que ainda havia no mercado musical brasileiro, e artístico-cultural por partir de um ponto onde Carmen Miranda parou. Cabia a Clara fazer o resgate do samba e das tradições afro-brasileiras.

A partir de então Clara adotou um figurino afro-brasileiro: mudou o penteado, passou a usar vestidos longos e rendados, colares, guias de santo, turbantes. Musicalmente, seu repertório se voltou para algo mais brasileiro, ligado às nossas raízes culturais. Samba, jongo, choro, ritmos afro-brasileiros e até mesmo música nordestina passaram a fazer parte do repertório da cantora mineira.

Em 1971, a Odeon lançou o álbum Clara Nunes, o primeiro dentro da nova orientação artística de Clara, e o primeiro da cantora produzido por Adelzon Alves. A faixa “Ê Baiana” foi um grande sucesso nas rádios. Começava com este discos a ascensão de Clara Nunes. Em 1973, Clara Nunes, Toquinho e Vinícius de Moares (1913-1980) fazem a turnê O Poeta, A Moça e O Violão, que percorre o Brasil e depois parte para a Europa.

Clara Nunes quebra um tabu na indústria fonográfica com o álbum Alvorecer, em 1974, que vende mais de 400 mil cópias, e acaba com um mito machista de que cantoras no Brasil vendem poucos discos. Ela se tornou a primeira da música brasileira a vender mais de 100 mil cópias de um mesmo disco. No mesmo ano, Clara estreia com Paulo Gracindo (1911-1995) o espetáculo Brasileiro, Profissão Esperança, sobre a vida da cantora Dolores Duran (1930-1959), um sucesso de público e de crítica.

Durante toda a década de 1970, Clara Nunes lançou um álbum a cada ano, sempre com altos índices de vendas e emplacando canções nas listas das paradas de rádio de todo o Brasil. Clara figura entre as cantoras mais populares do Brasil e abre um espaço importantíssimo no mercado fonográfico para cantoras de samba. Gravadoras concorrentes passaram a investir nesse filão, como a Philips, que contrata Alcione (uma novidade na época), e RCA Victor com Beth Carvalho, que começara a a carreira nos anos 1960, mas por anos foi uma contratada da pequena gravadora Tapecar.

Em 1975, Clara Nunes casou-se com o poeta, compositor e produtor musical Paulo César Pinheiro. Antes de Paulo, Clara Nunes havia vivenciado um romance com o produtor Adelzon Alves.

Com a fama e o sucesso conquistados, Clara Nunes nutria o sonho de ser mãe. Mas esse o sonho de gerar um filho chegou ao fim em 1979, após Clara Nunes sofrer um terceiro aborto espontâneo por causa de miomas, o que fez a cantora passar por uma histerectomia, cirurgia para remoção de útero.

A convite de Chico Buarque, Clara Nunes integrou em 1980 um grupo de artistas brasileiros numa viagem a Angola, na África, onde fizeram algumas apresentações. Naquele mesmo ano, Clara lança o álbum Brasil Mestiço, que traz a música “Morena de Angola”, composta por Chico Buarque a pedido da cantora e inspirada na viagem a Angola.

Clara Nunes inicia a nova década com o prestígio em alta e com muitos trabalhos. Em 1981, estreia o espetáculo Clara Mestiça, dirigido pela atriz, cantora e diretora teatral Bibi Ferreira (1922-2019), e lança no mesmo ano o álbum Clara. O ano de 1982 é marcado para Clara por apresentações na Alemanha e no Japão, onde grava um programa especial para a TV japonesa, a NHK. Em setembro de 1982, Clara lança aquele que é o seu último álbum, Nação.

Meses depois, em março de 1983, Clara Nunes sofreu uma reação alérgica com um componente anestésico durante uma cirurgia de varizes. A cantora entrou em estado de coma e permaneceu internada por 28 dias na UTI da Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro. Nesse período, Clara foi alvo de espetacularização midiática e de uma sucessão de boatos a seu respeito. Infelizmente, em 2 de abril de 1983, Clara Nunes foi declarada morta em razão do choque anafilático. Seu corpo foi velado por mais de 50 mil pessoas na quadra da escola de samba Portela. Clara Nunes foi sepultada no Cemitério São João Baptista, no Rio de Janeiro.

Embora tenha morrido tão jovem, próximo de fazer 40 anos, Clara Nunes deixou um legado importante para a música brasileira. Seus recordes em vendas de discos quebraram o tabu de que cantoras no Brasil vendem poucos discos. Isso fez com que as gravadoras investissem mais e melhor nas cantoras.

Clara Nunes foi uma artista fundamental na defesa das religiões de matriz africana e da cultura afro-brasileira. Antes de Clara, outros artistas já haviam gravado canções com temas sobre a cultura e religiosidade afro-brasileiras. Porém, Clara Nunes foi quem melhor incorporou a temática afro-brasileira, tanto por meio visaual como por meio das canções que gravou. Ela não apenas cantou esses temas, ela vivenciava o que cantava, era envolvida com a umbanda e candomblé. Clara Nunes quebrou barreiras, combateu preconceitos e pavimentou caminho para que outros artistas também trilhassem e abordassem tais temas com mais plena liberdade.

Abaixo, confira dez álbuns essenciais para entender a obra de Clara Nunes.


Clara Nunes (Odeon, 1971). Após o bom êxito comercial do compacto com dois sambas-enredo, “Misticismo da África ao Brasil”, da escola de samba Império da Tijuca, e “Festa Para Um Rei Negro”, da escola de samba Salgueiro, a gravadora Odeon resolveu apostar no novo direcionamento de Clara Nunes voltado para o samba e a cultura afro-brasileira planejado pelo produtor e radialista Adelzon Alves. Este autointitulado álbum foi o primeiro dessa nova fase da cantora mineira. O repertório do disco é composto por canções de uma nova geração de compositores de samba que estava despontando como João Nogueira, Baianinho, Gisa Nogueira e Geovana. Mas o trabalho trouxe Clara Nunes fazendo releitura de canções dos veteranos, como “Sabiá”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, e “Feitiço de Orações” de Noel Rosa e Vadico. Graças ao sucesso da faixa “Ê Baiana”, o álbum vendeu mais que os três anteriores juntos, e tornou Clara Nunes conhecida em todo o Brasil. Começava aqui o reinado de Clara Nunes.

Alvorecer (Odeon, 1974). O ano de 1974 foi bastante movimentado para Clara Nunes. Estreou o espetáculo Brasileiro, Profissão Esperança, com o ator Paulo Gracindo, dedicado à vida de Dolores Duran, e que deu origem à gravação de um disco com o mesmo nome do espetáculo. No mesmo ano, Clara lançou um novo álbum, Alvorecer, que contém sucessos como “Conto de Areia”, “Meu Sapato Já Furou”, “Menino Deus” e a faixa título. O álbum chegou à marca de 400 mil cópias vendidas, um fenômeno comercial para o samba e representou a quebra do mito de que cantoras no Brasil vendem pouco discos.


Claridade (Odeon, 1975). Quem achou que o sucesso do álbum Alvorecer foi um “caso isolado”, enganou-se redondamente. Claridade superou as vendas do seu antecessor ao vender 600 mil cópias, uma marca que só Roberto Carlos conseguia alcançar. Claridade contém sambas antológicos falando de lendas afro-brasileiras (“O Mar Serenou”) e da crença da cantora nos orixás (“A Deusa dos Orixás”). Mas há também sambas falando de amor como “O Sofrimento de Quem Ama” e “Tudo É Ilusão”. Claridade traz ainda o samba “apocalíptico” de Nelson Cavaquinho, “Juízo Final”, gravado brilhantemente por Clara Nunes. 


Canto das Três Raças (Odeon, 1976). Primeiro álbum produzido por Paulo César Pinheiro, também compositor e marido Clara Nunes; os dois haviam se casado em 1975. A faixa-título traz Clara Nunes numa interpretação imponente, cantando versos sobre as três raças (o índio, o negro e o branco) que formaram o povo brasileiro. Outras faixas famosas do disco são “Lama”, “Alvoroço no Sertão” e “Fuzuê”. Com mais de 500 mil cópias vendidas, Canto das Três Raças manteve Clara Nunes na lista dos grandes vendedores de discos no Brasil.



As Forças da Natureza (Odeon, 1977). A popularidade alcançada por Clara Nunes era tão grande que neste álbum, nem foi preciso colocar a imagem dela na capa. Mesmo assim, o álbum foi um grande sucesso comercial. “As Forças da Natureza”, faixa que dá nome ao álbum, expressa a revolta da natureza contra aqueles que a maltratam. No samba animado “PCJ (Partido Clementina de Jesus)”, Clara Nunes conta com a participação especial da homenageada Clementina de Jesus. O disco marca a estreia de Clara Nunes como compositora, dividindo a autoria de “À Flor da Pele” com Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós. Destaque também para a bela releitura de Clara para “Coração Leviano”, de Paulinho da Viola.

Guerreira 
(Odeon, 1978). Outro grande álbum na discografia cujo título acabou virando um codinome para a própria Clara Nunes. A música que intitula o álbum é de autoria de Paulo César Pinheiro e João Nogueira em homenagem a Clara Nunes, em que os versos são uma demonstração de amor e devoção da homenageada à umbanda, religião praticada pela cantora. De tão representativa, o título da música acabou virando o apelido de Clara Nunes. Outras faixas de destaque do disco são Candongueiro” e “Outro recado”.



Esperança (Odeon, 1979). O título faz uma alusão ao sonho de Clara Nunes em ser mãe. A capa mostra Clara toda feliz e sorridente com duas crianças. Infelizmente, esse sonho ela não conseguiu realizar. O começa o alto astral de “Banho de Manjericão” (de João Nogueira e Paulo César Pinheiro) um samba festivo que fala de rezas e simpatias populares para afastar o azar e o mal olhado. Em outro samba, “Na Linha do Mar” (d Paulinho da Viola), Clara canta que o seu amor tão sereno a protege de qualquer ingratidão neste mundo de ilusão. Em “Feira de Mangaio” (Sivuca e Glorinha Gadelha), Clara mostrou que não era apenas uma cantora de samba, mas que também tinha talento para cantar outros estilos, como o forró.


Brasil Mestiço (Odeon, 1980). Desde meados da década de 1970, Clara já vinha aos poucos diversificando musicalmente o seu trabalho, experimentando outras referências musicais, mas sem sair da órbita do samba, o foco central do seu trabalho. Brasil Mestiço é um álbum que já pelo título, reflete uma diversidade musical, onde Clara Nunes transita pelo samba, partido-alto, marcha-rancho e ritmos nordestinos como baião e coco. “Morena de Angola” foi composta por Chico Buarque a pedido de Clara, e foi um grande sucesso. “Viola de Penedo” é mais uma feliz experiência de Clara Nunes com forró, em que ela canta com grande desenvoltura. “Brasil Mestiço, Santuário da Fé” ressalta a importância das músicas e das danças afro-brasileiras como elementos de resistência do povo negro frente à opressão e o racismo num país tão desigual socialmente como o Brasil.

Clara 
(Odeon, 1981). Uma curiosidade neste disco é que a partir dele, Clara havia decidido com o compositor Paulo César Pinheiro (que era também marido de Clara), que iria a cada disco homenagear uma escola de samba do Rio de Janeiro com uma música. A primeira não poderia ser outra que não a Portela, a escola de samba preferida de Clara Nunes, com a música “Portela Na Avenida”. Em “Minha Canção” é um samba em que para Clara, cantar não era apenas o seu ofício profissional, mas também uma arma de luta contra o açoite e a tirania. A cantora mineira consagrada no samba, provou o forró e adorou: em mais um disco repete a experiência, e em dose dupla com “Magoado” e a ecológica “Como É Grande E Bonita A Natureza”.

Nação (Odeon, 1982). Último disco de Clara, Nação prossegue com a intenção de Clara Nunes em ir além das fronteiras do samba, sem, no entanto, abrir mão do estilo que a fez famosa. A faixa-título exalta a ancestralidade do povo afro-brasileiro. “Ijexá” (de Edil Pacheco), aproxima Clara à musicalidade afro-baiana, e dá pistas do caminho que ela teria trilhado caso não tivesse morrido tão cedo. Neste disco, a escola de samba homenageada é a Império Serrano com “Serrinha”. “Novo Amor” (de Chico Buarque), uma bossa-nova cheia d romantismo, mostra a grande intérprete versátil que Clara Nunes era. “Cinto Cruzado” é um baião que trata das mazelas da seca no nordeste brasileiro e da exploração desumana da mão de obra sertaneja. A faixa “Mãe África” é uma interessante fusão de baião com musicalidade africana.



"O Mar Serenou"
 (videolipe do "Fantástico,
TV Globo, 1975)


"A Deus dos Orixás"
 (videolipe do "Fantástico,
TV Globo, 1975)



"Canto das Três Raças" 
(videoclipe original, "Fantástico", 
TV Globo, 1976)


"Guerreira"
(videoclipe original, "Fantástico",
TV Globo, 1977)


"Na Linha do Mar"
(videoclipe original, "Fantástico",
TV Globo, 1979)


"Feira de Mangaio"
(videoclipe original, "Fantástico",
TV Globo, 1979)



"Morena de Angola"
(videoclipe original, "Fantástico", 
TV Globo, 1980)


"Viola de Penedo"
(videoclipe original, "Fantástico", 
TV Globo, 1980)


"Ijexá" (videoclipe original, "Fantástico"
TV Globo, 1982)


"Nação" (videoclipe original, "Fantástico"
TV Globo, 1982)

“Ney Matogrosso” (Ariola, 1981), Ney Matogrosso



Embora já estivesse em carreira solo e com seis álbuns solos no currículo, alguns deles bem avaliados pela crítica, Ney Matogrosso iniciava os anos 1980 sem conseguir se desvencilhar da aura dos Secos & Molhados, conjunto musical que foi um fenômeno pop na música brasileira no começo dos anos 1970 e que revelou o cantor mato-grossense. Nem mesmo o fato da sua versão para “Não Existe Pecado Ao Sul do Equador”, de Chico Buarque, ter sido tema de abertura da novela Pecado Rasgado, da TV Globo, em 1978, e ter feito sucesso no rádio, não foi suficiente para o artista se livrar das amarras do seu antigo conjunto.

Se por um lado a carreira solo de Ney havia conquistado o respeito da crítica, isso não se traduzia comercialmente. Os discos de Ney vendiam pouco. As vendas “astronômicas” do primeiro disco dos Secos & Molhados, em 1973, ainda estavam frescas na memória de todos, e talvez esperassem que isso se repetisse com Ney já que era ele a grande estrela daquele grupo.

Em 1980, após o lançamento do álbum Sujeito Estranho, Ney deixou a gravadora WEA, através da qual lançou três álbuns em dois anos. No ano seguinte, através do apoio do produtor Marco Mazzola, Ney assinou contrato com a Ariola Discos, gravadora alemã que estava se instalando no Brasil na época. Responsável pela produção do novo e primeiro álbum de Ney pela Ariola, Mazzola havia conversado com o cantor que era preciso encontrar uma música com potencial de hit, capaz de impulsionar as vendas do novo trabalho.

Mazzola parecia ter encontrado a música ideal para impulsionar comercialmente o novo disco de Ney. Era a música “Homem com H”, de Antônio Barros, compositor muito famoso no meio do forró e que teve canções suas gravadas por grandes estrelas do gênero como Luiz Gonzaga (1912-1989), Jackson do Pandeiro (1919-1982), Marinês (1935-2007) e Trio Nordestino. O produtor conheceu essa música através da cantora Elba Ramalho, com quem ele havia trabalhado. “Homem com H” já havia sido gravada antes nos anos 1970 pelo trio de forró Os 3 do Nordeste e pela banda de rock Hydra. Só que as duas versões não tiveram grande repercussão.

Antes de Ney Matogrosso, "Homem Com H" foi gravada nos anos 1970 por artistas
como o trio de forró Os 3 do Nordeste (foto) e a banda de rock Hydra.

Ney havia topado gravar a música, mas por ser um forró, o cantor se mostrava um tanto quanto inseguro em gravar uma música de um estilo que não fazia parte do seu universo musical até então. Os deboches sexistas e as piadas que poderiam surgir por causa da letra da música em contraste com o seu jeito delicado e afeminado não o assustavam.

Quem incentivou Ney a gravar “Homem com H” foi ninguém menos que o cantor Gonzaguinha (1945-1991), astro da MPB e filho do ícone maior do forró Luíz Gonzaga. Para Gonzaguinha, aquela música era perfeita para Ney e que se tonaria um grande sucesso na sua voz. O incentivo de Gonzaguinha deixou Ney mais seguro, e este encarou o desafio de gravar o forró “Homem com H”.

Lançado em maio de 1981, o sétimo álbum de Ney Matogrosso leva o nome próprio do cantor. A capa do álbum traz uma imagem exótica em que aparece a cabeça do artista com uma ave sobre ela, e abaixo uma paisagem que parece ser de alguma cidade. O repertório do álbum é bem diversificado musicalmente, trazendo ritmos que vão do choro à disco music, passando por baião, baladas e até marcha carnavalesca. O disco conta convidados especiais como Gal Costa, Orquestra Tabajara, Sérgio Dias Baptista e dos tecladistas Lincoln Olivetti (1954-2015) e César Camargo Mariano, os dois últimos, responsáveis pelos arranjos de teclados de algumas faixas.

Ney Matogrosso, o álbum, começa com “Deixa A Menina”, de Chico Buarque, que já havia sido gravada pelo autor em 1980 como um samba. Com Ney, a música ganhou uma versão que é um misto de samba com funk bem estilizado.

Na sequência, Ney revisita um antigo choro de 1937, “Espinha de Bacalhau”, composto pelo clarinetista Severino Araújo (1917-2012), que originalmente era instrumental e que veio ganhar letra em 1981 com o compositor Fausto Nilo. Ney faz um dueto com Gal Costa, acompanhados pela Orquestra Tabajara, comandada pelo próprio Severino Araújo que toca clarinete. Chama a atenção o tom agudo que Gal canta, um pouco acima do habitual, atingindo regiões vocais que certamente causou algum desconforto para a cantora. Por outro lado Ney, com sua voz aguda, teve que cantar alguns trechos num tom mais grave. Embora tenham conseguido encarar o desafio de cantar essa música num tom vocal tão ingrato, é bem provável que tal desafio deve causar ao ouvinte algum tipo aflição.   

“Viajante”, canção de Teresa Tinoco, é uma das canções mais bonitas gravadas por Ney Matogrosso em toda a sua carreira. A letra é de uma profundidade impressionante, densa, e Ney emprega uma interpretação à altura dos versos tão sensíveis desta canção que trata da relação de um casal que vive numa mesma casa. Embora exista amor entre os dois, por algum motivo, ambos têm dificuldades de expressar esse sentimento e parecem se defender das emoções que um sente pelo outro.

Em seguida vem a bucólica “Mata Virgem”, canção de Raul Seixas (1945-1989) e Tânia Menna Barreto, gravada originalmente pelo próprio Raul em 1978, cujos versos comparam a mulher amada e inspiradora a uma mata virgem.

O lado A da versão LP do álbum encerra com a principal faixa do disco, “Homem com H”. A música foi um grande desafio para Ney por se tratar de um forró, ritmo que o cantor nunca havia se aventurado a gravar. A letra trata sobre um sujeito que se diz muito másculo, corajoso, viril. Os versos sexistas contrastavam com o perfil delicado de Ney Matogrosso, homossexual assumido, e que certamente esse contraste foi o segredo para a música fazer tanto sucesso.

Uma sequência de duas canções com apelo pop abre o lado B do disco. “Amor Objeto”, de Rita Lee e Roberto Carvalho, é uma canção pop com uma inclinação para a disco music. “Vida, Vida” também tem um apelo pop e flerta sutilmente com o R&B. Foi um dos grandes hits do disco, impulsionada por ter sido tema de abertura da novela Jogo da Vida, da TV Globo, exibida em 1981. A escolha da emissora de TV pela versão de Ney para tema de abertura da novela criou um certo “ciúme” em Moraes Moreira (1947-2020), co-autor da “Vida, Vida” e que havia gravado no mesmo ano a música.

Depois do agito das duas faixas anteriores, o clima do disco fica mais relaxante e introspectivo com “De Marte”, uma balada com ares psicodélicos que leva o ouvinte a viajar através da voz calma de Ney e do instrumental etéreo da canção para um planeta Marte idealizado pelas compositoras Luli e Lucina. O guitarrista dos Mutantes, Sérgio Dias Baptista, faz participação especial nesta faixa tocando cítara elétrica.

O álbum chega ao fim em ritmo festivo com “Folia No Matagal”, uma marcha carnavalesca com letra alegre, debochada e cheia de malícia.

Um mês após o lançamento do álbum, Ney Matogrosso estreou no Canecão, no Rio de Janeiro, uma temporada de shows para promover o novo disco, que contou com uma produção muito bem elaborada. O cenário reproduziu a capa do álbum e incluiu a uma ave gigante parecida com a que aparece sobre a cabeça de Ney na capa do disco.

Ney Matogrosso em show no Canecão, no Rio de Janeiro, para promover
o álbum Ney Matogrosso
em junho de 1981.

A faixa de maior sucesso do álbum Ney Matogrosso foi sem sombra de dúvidas “Homem com H”, que estourou nas paradas de rádio em todo o Brasil. Outras faixas também fizeram sucesso como “Amor Objeto” e “Vida, Vida”, levando o álbum a alcançar a marca de 300 mil cópias. Foi o primeiro álbum de grande sucesso comercial da carreira de Ney, que lhe rendeu o seu primeiro disco de ouro na carreira solo por ultrapassar a marca de 100 mil cópias. As boas vendas do álbum e a presença de Ney nas paradas de rádio levaram a TV Globo a fazer um programa especial dedicado ao cantor dentro da série Grandes Nomes, atração que abordava a vida e a arte dos grandes artistas da música brasileira.

Com o estrondoso sucesso radiofônico de “Homem com H” e as mais de 300 mil cópias vendidas do álbum, Ney Matogrosso finalmente conseguiu se afastar do estigma dos Secos & Molhados e fazer com que o público e a mídia vissem a sua carreira solo com mais atenção. O álbum Ney Matogrosso não apenas representou um sucesso comercial para o artista como também o levou a investir com mais afinco em canções com apelo pop muito por conta da boa receptividade do público às canções “Amor Objeto” e “Vida,Vida”. Ney buscou gravar canções de uma nova geração de artistas do pop rock brasileiro que começava a despontar naquele momento como Marina Lima, Antônio Cícero (poeta, compositor e irmão de Marina), e dupla Cazuza e Frejat, vocalista e guitarrista do Barão Vermelho. Foi Ney quem chamou a atenção da mídia e do público para o então desconhecido Barão Vermelho quando gravou da banda carioca a música “Pro Dia Nascer Feliz”, em 1983. O resto, daí em diante, é história. 

Faixas

Lado A

  1. "Deixa a Menina" (Chico Buarque)  
  2. "Espinha de Bacalhau" (part. esp. Gal Costa, Severino Araújo e Orquestra Tabajara) (Fausto Nilo-Severino Araújo)          
  3. "Viajante" (Teresa Tinoco)   
  4. "Mata Virgem" (Raul Seixas-Tania Menna Barreto)
  5. "Homem com H" (Antônio Barros)  

Lado B

  1. "Amor Objeto" (Rita Lee - Roberto de Carvalho)    
  2. "Vida, Vida" (Guilherme Maia - Moraes Moreira - Zeca Barreto)   
  3. "De Marte" (Luli - Lucina)     
  4. "Folia no Matagal" (Eduardo Dusek - Luiz Carlos Góes)


"Deixa a Menina" 

"Espinha de Bacalhau"

   "Viajante" 

"Mata Virgem" 

"Homem com H" 

"Amor Objeto" 

"Vida, Vida" 

"De Marte"   
 
"Folia no Matagal" 

"Homem com H" (videoclipe exibido no 
programa "Fantástico", TV Globo, em 1981;
gravado no Canecão, Rio de Janeiro)

 

“Brasil” (Eldorado/Roadrunner, 1989), Ratos de Porão

 


O ano era 1989, o último ano de governo do presidente do Brasil à época, José Sarney, o primeiro presidente civil após vinte anos de ditadura militar (1964-1985). Na verdade, o presidente era para ter sido Tancredo Neves, eleito indiretamente no colégio eleitoral 1985, derrotando Paulo Maluf (o preferido dos militares). Em abril de 1985, Tancredo morreu após complicações de uma cirurgia. Sarney, que era o seu vice na chapa de candidatura, assumiu o cargo. O governo de Sarney foi marcado pelo caos econômico, em planos econômicos não conseguiram combater a hiperinflação galopante (uma herança dos governos militares), que só agravava o abismo social entre uma maioria pobre e um minoria de afortunados.

Naquele mesmo ano, aconteceu a primeira eleição direta para presidente da república após o fim da ditadura. Após quase trinta, o povo brasileiro voltou a escolher um presidente da república, alfo que não acontecia desde 1960. O candidato vencedor foi Fernando Collor de Mello, ex-governador de Alagoas, jovem, cara de galã de novela, e que prometia acabar com a corrupção, coisa que não só ele não conseguiu, como acabaria sendo deposto em 1992 por processo de impeachtment.

Foi num cenário caótico como esse que a banda Ratos de Porão lançou em 1989 o seu quarto álbum de estúdio, Brasil, um disco que por meio das suas dezoito faixas, fazia uma radiografia da triste realidade social e política do Brasil. O álbum foi um divisor de águas na carreira da banda paulista. O álbum retratava a realidade social brasileira de 1989, em que os versos fortes e diretas das canções foram embaladas por uma sonoridade pesada e agressiva, em que os Ratos de Porão se mostravam completamente comprometidos com o crossover thrash, uma tendência musical que estava em ascensão no final dos anos 1980 em que bandas punks e de hardcore flertavam com o thrash metal.

Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito pelo voto direto
após a ditadura militar.

Mas essa mudança sonora no trabalho dos Ratos de Porão não aconteceu de uma hora para outra ou de um disco para o outro. A banda já havia escrito o seu nome na história do punk rock brasileiro, tornou-se um dos nomes mais importantes do estilo no Brasil. No entanto, já no seu segundo álbum de estúdio, Descanse Em Paz (1986), os Ratos de Porão já davam sinais de uma aproximação com o crossover thrash. Os membros da banda já estavam ouvindo grupos de crossover thrash como S.O.D, Discharge e Broken Bones.

Em 1987, essa aproximação dos Ratos de Porão com o crossover thrash se torna mais intensa com o disco Cada Dia Mais Sujo e Agressivo, lançado pelo selo de Belo Horizonte, Cogumelo Records, o que na época, tinha a banda Sepultura no seu cast. Aliás, foi a partir daí que nasceu a amizade entre as duas bandas, e o que de uma certa forma, contribuiu no processo de transformação musical no som dos Ratos de Porão.

Em 1988, a banda Ratos de Porão assina contrato com a gravadora Eldorado, e compôs material novo para o próximo disco. Por indicação de Igor Cavalera, então baterista do Sepultura, os Ratos de Porão firmaram um acordo com gravadora independente holandesa Roadrunner para a distribuição dos discos da banda paulista no mercado europeu e americano. No Brasil, os discos dos Ratos continuariam sob a responsabilidade da gravadora Eldorado. Por volta de maio de 1989, os Ratos de Porão partiram para a Alemanha, onde iriam começar uma pequena série apresentações naquele país e na Holanda. Os Ratos de Porão aproveitaram a ocasião para gravar, em Berlim, o álbum Brasil, no estúdio Music Lab, sob a produção de John Harris, um dos mais conceituados produtores independentes de heavy metal. Até aquele momento, Harris já havia produzido discos de bandas como Voivod, Helloween, Sodom, Tankard entre outras.

Uma curiosidade, é que para cumprir o acordo firmado com a Roadrunner, os Ratos de Porão gravaram uma versão em inglês do disco Brasil. Ou seja, durante a estadia da banda em Berlim, a banda gravou duas versões de Brasil, uma em português para o mercado brasileiro e uma versão em inglês para o mercado europeu e americano. As gravações em inglês foram meio sacrificantes para João Gordo já que ele não tinha domínio do idioma.

Lançado no segundo semestre de 1989, Brasil traz o som dos Ratos de Porão mais pesado, brutal e agressivo e com uma produção melhor apurada que os álbuns anteriores. O papel de John Harris foi fundamental para que a banda alcançasse esse nível qualidade. Harris é conhecido pelo seu profissionalismo e por ser um produtor bastante exigente.

A capa do álbum foi ilustrada pelo cartunista brasileiro Francisco Marcatti, é bem condizente com o conteúdo das letras das músicas disco, a miséria, corrupção, exploração religiosa entre outros temas tão espinhosos.

Embora tenha dezoito faixas, audição do álbum transcorre em pouco mais de 28 minutos. Todas as canções têm curta duração, sendo a faixa “Beber Até Morrer” a mais “longa”: 2 minutos e 20 segundos.

Ratos de Porão em 1989, da esquerda para a direita: João Gordo, Jão, Spaghetti e Jabá

O álbum começa com “Amazônia Nunca Mais” que aborda o descaso do governo brasileiro com a floresta amazônica. Nesta faixa, a banda alterna em alguns trechos um ritmo mais veloz e mais lento, mas mantendo o peso. A curiosidade nesta faixa é uma citação que a banda faz à ópera “O Guarani”, do maestro e compositor brasileiro erudito Carlos Gomes (1836-1896).

A ditadura militar já tinha acabado, mas na faixa “Retrocesso”, os Ratos de Porão alertavam sobre um possível dela ao poder: “Cuidado com o poder / Do regime militar / O tempo vai retroceder / E o DOI-CODI vai voltar no... / Brasil! Brasil! Brasil!”.  O velho lema “sexo, drogas e rock’n’roll” ganhou uma atualização sombria com os Ratos de Porão virando “AIDS, Pop, Repressão”, em que a banda emprega uma sutil levada rítmica que acena para o rap, mas com uma base de thrash metal.

Em “Lei do Silêncio”, os Ratos de Porão tratam sobre a ausência do poder em comunidades pobres das grandes cidades brasileiras, tornando esses lugares reféns da criminalidade eu impõe a “lei do silêncio”. A desobediência pode custar a própria vida.

“S.O.S. País Falido” traça o retrato de um Brasil mergulhado numa hiperinflação econômica em que a população desesperançada, encontra apoio na fé em Deus e um pouco de alegria com a Seleção Brasileira de futebol. “Gil Goma” é uma sátira ao repórter policial Gil Gomes (1940-2018), que fez muito sucesso no rádio e depois na TV fazendo reportagens em programas policiais.

“Beber Até Morrer” faz referência a pessoas que fazem uso do álcool de drogas para poder encarar os problemas da vida ou fugir deles. “Plano Furado II” é uma crítica debochada ao Plano Cruzado II, lançado pelo governo de José Sarney no final de 1986, uma tentativa de salvar o Plano Cruzado, lançado no início daquele mesmo ano. A nova tentativa fracassou e agravou o cenário econômico brasileiro no ano seguinte.

O lado 1 termina com “Heroína Suicida” que descreve o poder destrutivo da heroína: “Sinta as garras do pico assassino / Rasgando suas entranhas, traçando seu destino / Sinta a apatia dessa multidão / Caminhando insanamente rumo à destruição”.

A faixa "Plano Furado" é uma crítica ao Plano Cruzado II, mais um plano econômico
lançado pelo governo do presidente José Sarney (foto) para conter a
alta da inflação que não deu certo.

“Crianças Sem Futuro” abre o lado 2, um thrash metal cujo tema trata sobre o descaso dos governantes brasileiros com as crianças pobres, que não têm acesso a saúde, escola e a alimentação. A curtíssima “Farsa Nacionalista” é sobre o sujeito que é pobre, trabalha muito, ganha mal, mas se manifesta a favor dos poderoso endinheirados, uma clara demonstração de submissão e baixa autoestima.

A inclinação dos Ratos de Porão para o thrash metal gerou críticas por parte dos punk mais radicais que tacharam os membros da banda de “traidores”. O quarteto respondeu com o punk rock “Traidor”, uma música que começa com um som dedilhado de guitarra, e que logo dá lugar a um som pesado, veloz e furioso. “Porcos Sanguinários” é um hardcore na fronteira com o heavy metal que traça uma crítica à truculência policial.

O hardcore “Vida Animal” trata sobre o lado animalesco que algumas pessoas podem ter, capaz de cometer as maiores atrocidades, desde satisfazer-se com o sofrimento dos outros até assassinatos em série. A faixa seguinte, “O Fim”, é instrumental que começa muito bem com um som pesado e agressivo, mas que mais adiante é interrompida bruscamente, quando ouve-se uma confusão, vozes reclamando, cachorros latindo, e logo em seguida, o som é retomado no finalzinho da música, e desta em ritmo thrash metal.

“Máquina Militar” versa sobre o soldado que é tratado como um produto descartável pelas forças armadas de seu país, após voltar de uma guerra abalado psicologicamente ou mesmo mutilado. “Terra do Carnaval” fala da dívida externa do Brasil, miséria e de políticos corruptos. Mas na reta final da música, numa gota de esperança, a banda avisa a quem for eleito presidente que se quiser tirar o país do buraco, tem que acabar com a inflação e seguir seu mandado honestamente.

O disco termina com “Herança”, cujo tema destoa das outras faixas do álbum. A faixa trata sobre uma história trágica, um crime cometido por um homem que mata seus pais, sua irmã caçula e o seu irmão mais velho para se apropriar dos bens da família.

Brasil teve uma boa recepção por parte da imprensa tanto no Brasil como no exterior, especialmente na Europa onde foi lançada a versão em inglês. A produção muito cuidada do disco e a força brutal do som dos Ratos de Porão, levaram o álbum Brasil a receber elogios da revista inglesa Kerrang!. A boa impressão causada pelo disco no mercado de rock alternativo no exterior, rendeu uma nova turnê europeia em 1990, que passou pela Itália e Holanda. No mesmo ano, assim como fez com o álbum Brasil, a banda foi à Alemanha, e gravou o próximo álbum, Anarkophobia, no estúdio Music Lab, em Berlim, e com Harri Johns no comando da produção, e com duas versões, uma em português e outra em inglês. Anarkophobia foi lançado em 1991 e consolidou de vez o processo de transição musical dos Ratos de Porão assim como a própria carreira internacional da banda paulista, que se tornou uma realidade.

Faixas - Todas as faixas são escritas por Ratos de Porão.

Lado A 

1 - "Amazônia Nunca Mais"

2 - "Retrocesso"

3 - "Aids, Pop, Repressão"

4 - "Lei Do Silêncio"

5 - "S.O.S. Pais Falido"

6 - "Gil Goma"

7 - "Beber Até Morrer"

8 - "Plano Furado 2"

9 - "Heroína Suicida"

 

Lado B 

1 - "Crianças Sem Futuro"

2 - "Farsa Nacionalista"

3 - "Traidor"

4 - "Porcos Sanguinários"

5 - "Vida Animal"

6 - "O Fim"

7 - "Maquina Militar"

8 - "Terra Do Carnaval"

9 - "Herança"

 

Ratos de Porão: João Gordo (vocal), Jão (guitarra), Jabá (baixo) e Spaghetti (bateria). 


Ouça na íntegra o álbum Brasil

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